ENTREVISTA COM RICARDO CORONA

 
RICARDO CORONA nasceu em 1962 em Curitiba/PR, onde vive. Na
d�cada   de  80  residiu  em  S�o  Paulo/SP,  onde   cursou
comunica��o  na Febasp (1987). � autor de �A�, plaqueta  de
poemas e desenhos er�ticos, em parceria com Said Assal (SP,
ed.   Arte  Pau-Brasil,  1988),  O  sumi�o  do  sol,  livro
infantil, em parceria com Eliana Borges (Curitiba, ed. Arco-
�ris,  1993)  e Cinemagin�rio, poemas (SP, ed.  Iluminuras,
1999).  Em 1996/97, junto com o guitarrista Johnny  Tequila
apresentou em bares e casas noturnas o show po�tico-musical
Poesia�n�roll.  Em  1998, organizou  a  antologia  bil�ng�e
Outras  praias � 13 poetas brasileiros emergentes  /  Other
Shores  � 13 Emerging Brazilian Poets (SP, ed. Iluminuras).
Traduziu poemas de Gary Snyder, Baraka, Ginbsberg e outros.
Atualmente prepara o CD de poesia Ladr�o de fogo e edita  a
revista bimestral de poesia e arte Medusa.
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Pergunta: Por que demorou a lan�ar seu livro? Como � a  sua
rela��o com o tempo e a matura��o do material po�tico?
Ricardo Corona: Hans Haacke diz que �os produtos art�sticos
n�o  s�o unicamente um meio de se fazer um nome�. N�o tenho
simpatia  pela id�ia de individualiza��o da poesia  e  acho
estranho a presen�a de um poeta de plant�o para cada regi�o
do  pa�s  ou para cada segundo caderno de um grande jornal.
Gosto de fazer parcerias e sentir-me atuando no �tecido� da
poesia,  da  cultura.  Talvez por  isso  tenha  lan�ado  s�
recentemente  meu  primeiro  livro  individual  de   poemas
Cinemagin�rio.
Em  1988,  saiu o livro de poemas e desenhos er�ticos  �A�,
uma  plaqueta impressa em serigrafia, quatro cores,  que  �
uma parceria com o artista pl�stico Said Assal. Em 1993,  O
sumi�o  do  sol, livro infantil em parceria com  a  artista
pl�stica  Eliana Borges. Em 1994, o livro-objeto Bem  feito
pra  voc�,  uma colet�nea de fotos e poemas  e  tamb�m  uma
parceria  com  o  fot�grafo Chico Link  e  o  poeta  Flavio
Stankoski. Em 1997, Eliana e eu organizamos duas antologias
de  poesia,  desenho e prosa infantis chamadas �Tirando  de
letra  �  poemas  e desenhos infanto-juvenis�  e  �Sopa  de
letras � poemas e desenhos infantis�.
Mas  nunca  me propus a colocar muitos poemas em livros  de
parceria.  Quis mostrar aos poucos. Em �A�, participei  com
apenas com nove poemas, que se somaram aos tr�s desenhos do
Said.  Nossa proposta n�o era encher um livro de  poemas  e
ilustr�-lo com alguns desenhos, mas colocar duas linguagens
num  mesmo  suporte  e  com a mesma  import�ncia.  Em  �Bem
feito...�, pelos mesmos motivos, participei com apenas seis
poemas.
Em  1998,  organizei a antologia bil�ng�e Outras  Praias  /
Other  Shores, uma sele��o de 13 poetas representativos  da
produ��o  dos  anos  90. Esta antologia  teve  colabora��es
expressivas   de   poetas  e  professores   brasileiros   e
americanos: Charles A. Perrone, David William Foster (EUA),
Ligia  Vieira  Cesar, Antonio Ris�rio, Jaques Mario  Brand,
Maur�cio  Arruda  Mendon�a (Brasil). Em 1998/1999  (que  se
estender�  at� mar�o de 2000), a revista de poesia  e  arte
Medusa,  de periodicidade bimensal, que est� em seu  s�timo
n�mero e ir� at� o d�cimo. Medusa � um projeto elaborado em
parceria  com  os artistas pl�sticos Eliana  Borges  e  Key
Imaguirre Jr., e os poetas Ademir Assun��o e Rodrigo Garcia
Lopes.
Com  a revista e a antologia, aquele princ�pio coletivo  em
plano  po�tico, ficou ainda mais forte, mais  atuante.  Por
mais  que  exista  um grupo aqui, outro  acol�,  a  cena  �
dispersa  e o que se v� s�o �nomes� que puxaram para  si  o
saldo  de  movimentos liter�rios de d�cadas anteriores,  de
per�odos de extensa e intensa produ��o coletiva. Acho que �
o  tempo certo para projetos como antologias e revistas.  A
areia da ampulheta deste s�culo/mil�nio est� se esgotando e
publica��es assim t�m um papel hist�rico importante.  Ainda
mais  num  tempo  confuso  como o  nosso,  de  privatiza��o
po�tica, promovida, em parte, pela grande imprensa e  pelas
grandes  editoras, mas, principalmente, por poetas  que  se
auto-elegem cronistas de �poca, disseminando seus conselhos
e  passando  a falsa id�ia de que a poesia pertence  a  uns
poucos  privilegiados. Esquecem que �  uma  das  linguagens
mais  antigas  do  ser humano, que p�de se manifestar,  por
exemplo, num �ndio da tribo Y�noman de cinco mil anos atr�s
e que sequer conhecemos. A poesia, a arte em geral, � maior
do  que  essa  pol�tica de personalidades. Sou contra  essa
id�ia de funilamento, me irrita esse filtro... Quero pensar
tamb�m  o  tropicalismo de Tom Z�, o concretismo  de  Pedro
Xisto,  etc.  Cad� a obra de Pedro Xisto? No meu  entender,
Pedro  Xisto  fez  o  caminho  inverso  e  sua  pesquisa  �
fundamental para se compreender melhor aquele movimento.  O
material  que ele utilizou, partia da concep��o do  artista
pl�stico em dire��o � poesia e isso faz com que seus poemas
visuais  contenham outros desdobramentos, outros resultados
gr�ficos no seu designer da linguagem, etc. Nele,  havia  a
simbiose  de artista pl�stico e poeta que lhe conferiu  uma
poesia concreta singular. E quase ningu�m conhece ou lembra
de Pedro Xisto...
�  atrav�s  de revistas e antologias que se pode haver  com
essas  diferen�as que a hist�ria ou as pol�ticas  culturais
acabam soterrando. Esse � um dos pap�is hist�ricos que  uma
revista  pode e tem que fazer. Com elas, se pode interferir
no  leque de refer�ncias e com a autonomia cr�tica que  boa
parte da grande imprensa j� perdeu. Uma revista serve  para
isso.  Al�m  de  poder  atuar  de  maneira  sistem�tica  na
inclus�o  de  novos  autores. Al�m de estar  em  permanente
di�logo com outras linguagens, como a fotografia, as  artes
pl�sticas, a m�sica, o teatro, etc.
S�o esses os motivos mais fortes que me fizeram optar pelas
publica��es  coletivas antes mesmo de  sair  com  um  livro
individual.  Depois  vieram outros,  que  s�o  aqueles  que
qualquer  poeta enfrenta: a falta de interesse das editoras
e o processo de matura��o, de �pensar� um livro de poemas.
Dito  isto,  posso crer que o tempo n�o  me  vem  de  forma
abstrata.  Ao contr�rio, sempre me pareceu uma m�quina  que
imprime a ruga.
Pergunta:  Voc�  classifica Cinemagin�rio  como  o  "cinema
dentro   do   poema"  mas  n�o  utiliza  outros   elementos
(cinematogr�ficos) fora da linguagem po�tica. Como  definiu
este tipo de est�tica?
Corona: O �cinema mental� que me atribu� � o livre fluxo da
minha imagina��o. Utilizei-me, sim, de t�cnicas de colagem,
montagem, grande angular, zoom, cortes, closes, etc. Mas  �
bom acrescentar que esses procedimentos est�o a servi�o  do
que  os  poemas t�m a dizer. alternar climas  e  alterar  o
tempo  no/do  poema.  Sei  que  esses  procedimentos  est�o
presentes  no cinema, num filme de Tarkovski, por  exemplo,
mas tamb�m sei que eles n�o s�o propriedades exclusivas  do
cineasta.  S�o, antes, de nossa tela interna, � maneira  de
�talo  Calvino, quando diz que a imagina��o � cinema  antes
mesmo  de  o cinema ser inventado. Enfim, dei-me liberdade,
escolhi  as  regras, meus interlocutores e  fui  ao  cinema
�Imagina��o�.
Pergunta:  Leminski  �  uma angustiada  influ�ncia  �  moda
Harold  Bloom?  Como  dialoga com  a  obra  do  poeta  mais
cultuado do Paran�?
Corona: Leminski � uma refer�ncia n�o s� para os poetas  do
Paran�,  mas  de todo o Brasil. No meu caso,  o  di�logo  �
pensado  a priori, para que minha poesia n�o caia  na  mera
repeti��o  de  sua dic��o, que � uma das  mais  fortes  que
conhe�o.  Quem  quiser se propor ao di�logo  com  a  poesia
deste   poeta,   tem  que  evitar  o  efeito   �zelig�,   a
contamina��o  excessiva e imediata ao ponto de  sua  poesia
ficar  parecida com a dele. A poesia de Leminski, em  certo
sentido,  � um v�rus. Penso ter escapado disso ao  perceber
que  quase  toda sua poesia cont�m o exerc�cio da  logop�ia
(�a  dan�a  do  intelecto  entre as  palavras�)  e  escolhi
�exagerar�  no exerc�cio da fanop�ia (�um lance de  imagens
sobre  a  imagina��o visual�). S� isso, que  �  um  pequeno
desvio  de rota, faz com que n�o me sinta encalacrado,  nem
apenas  repetindo a dic��o leminskiana, mas, sobretudo,  se
deixando  influenciar  na  mesma  medida  em  que  se   vai
conquistando diferen�as. A imagem, que � a prote�na do  meu
�cinema  mental�,  em  Leminski,  aparece  minimizada  pela
qualidade superior de sua ret�rica. Mesmo num haicai,  onde
a  imagem  �  tudo,  h�  uma identifica��o  imediata  desta
ret�rica.  Bem,  considerando que foi um  dos  poetas  mais
preparados de sua gera��o, j� � muito n�o repeti-lo e ser �
ao  mesmo tempo � influenciado. Adquiri o v�rus, mas tamb�m
o anticorpo.
Pergunta:  Como  a  poesia paranaense  est�  enquadrada  no
contexto brasileiro?
Corona: J� foi dito que o Paran� est� ainda construindo sua
hist�ria cultural. Entenda-se �construindo� como um  legado
�   disposi��o,  que  possa  ser  uma  afirma��o  positiva,
permanente. Tradi��es assim n�o nascem da noite para o dia.
Isso   demanda  muito  tempo  e  o  Paran�  �   um   estado
extremamente novo, recente. Seria injusto compar�-lo a  Rio
Grande  do  Sul  ou  a  Minas, por  exemplo.  Guardadas  as
propor��es,   acho  que  estamos  bem  representados,   com
po�ticas como as de Dario Veloso, Emilio de Menezes,  Paulo
Leminski, Alice Ruiz, Helena Kolody, Rodrigo Garcia  Lopes,
Josely  Vianna  Baptista, Maur�cio Arruda Mendon�a,  Marcos
Prado, Jaques Mario Brand, etc. Isso sem citar artistas que
est�o  produzindo  nas  �reas de artes  pl�sticas,  cinema,
teatro,  etc.  Na  prosa,  em especial,  vejo  um  fen�meno
interessante, que � a velocidade com que se est� acumulando
narrativas que trabalham bem a linguagem. Se voc� analisar,
num espa�o de tempo de tr�s d�cadas, apareceram autores que
fizeram �prosa de arte�, na express�o de Augusto de Campos.
Refiro-me a Paulo Leminski, Val�ncio Xavier e Wilson Bueno.
S�o  apenas  tr�s autores, mas, como disse,  apareceram  em
espa�o de tempo curto � e esse dado � importante quando  se
trata de literatura de inven��o. O Catatau, de Leminski,  �
1975,  e  � uma prosa experimental, um �romance-id�ia�  que
est�  em  igual import�ncia com outros romances de inven��o
brasileiros,  como  Grande Sert�o:  Veredas,  de  Guimar�es
Rosa, por exemplo. O Mez da Grippe, de Val�ncio, � de 1981,
e  �  uma  �novella visual� que, na minha  opini�o,  �  uma
conflu�ncia   de  c�digos  que  est�  ainda   por   merecer
classifica��o  apropriada. E o  Mar  Paraguayo,  de  Wilson
Bueno,  �  de  1992,  e  �  uma prosa  neobarroca  abismal,
constru�da no entre l�nguas, um disparate de ousadia...
S� posso concluir que nossa contribui��o vai bem, obrigado.
E nem mencionei Dalton Trevisan...
Pergunta:  Em Cinemagin�rio a Lua est� em diversos  poemas,
inclusive  uma  parte  com a denomina��o  LUNARES.  Qual  a
representa��o,  o  sentido  e o  por  qu�  deste  lugar  de
destaque em sua poesia?
Corona: Depois que o homem foi � lua, tenho a sensa��o  que
ela  virou  um  bairro  do nosso planeta,  uma  esp�cie  de
periferia estelar. Ainda me interessa, em poesia,  destruir
a  decanta��o  rom�ntica da lua, atrav�s de  uma  id�ia  de
contamina��o,  utilizando-me de descobertas e  referenciais
cient�ficos,  que a materializaram, que a transformaram  em
algo  mais  real.  Quis conversar com a  lua  simbolista  e
zombeteira  de Jules Laforgue, a lua muda de  Leopardi.  Da
minha  parte,  entrei  nessa conversa com  minha  lua-ch�o,
palp�vel,  como tamb�m foi a de Armstrong � sua experi�ncia
ainda  me  soa  fant�stica � que reaparece no  poema  �via-
l�ctea  via  l�ngua�,  numa  invers�o  no  modo  de   olhar
(rom�ntico)  para a lua (inating�vel). No poema,  tem-se  a
sensa��o  de  estar  �pisando�  no  universo  e,   de   l�,
observando a terra:
                   via-l�ctea via l�ngua
                     eis minha viagem
                    o quasar mais al�m
                    vai estar quase ali
                      o planeta terra
                      pingo no meu i
               ponto na frase que se encerra
Em  outro poema, �Ondas na Lua Cheia�, valorizo os  efeitos
lunares  verdadeiros  e os utilizo como  met�foras  para  o
intertexto, etc.:
                    ONDAS NA LUA CHEIA
                  (poema sob influ�ncia)
                             
                  A lua que tudo assiste
                       agora incide
                             
                           O mar
                     -   sob efeito �
                         ergue-se
               crispado de ondas espumantes
                             
                     Sua l�ngua de sal
                      lambe e provoca
            as escrituras da areia firme (...)
�Lunares�  tamb�m se manifesta na contrapartida  de  poemas
�solares� de dois poetas que sempre me interessaram:  Paulo
Leminski  e  mais  recentemente, Rodrigo Garcia  Lopes.  Em
Leminski, apenas um verso: �nada que o sol n�o explique�  e
em  Rodrigo,  nos  poemas de seu livro Solarium.  Fechei  o
conjunto  de  �Lunares�  pensando  exatamente  nesses  dois
poetas.  N�o  que meus poemas tenham sido feitos  a  partir
daqueles,  pois  j� estavam escritos antes de  eu  perceber
essa rela��o. Agrada-me a id�ia poundiana de poder escolher
meus  interlocutores.  Pound dizia  ser  prefer�vel  eleger
contempor�neos para uma �conversa po�tica� do  que  autores
j� canonizados. Veja no que deu:
    
    
    E N�O EXPLICA
    
    
    Praias �
    eu as invento
    � luz da lua alta
    luz borrando z�nites
    
    A paisagem, menos
    narc�sica
    
    O vento
    as nuvens
    - leveza -
    abrindo sentidos vitais
    
    Voc� nem percebe
    r�mulos aqu�ticos nascem corais
    
    � noite,
    a lua chama para si
    toda possibilidade de luz
    
    - depois, deita-se
    E n�o explica
Pergunta: A segunda parte do livro � pontilhada de  haicos.
H� algo que s� pode ser dito num haicai?
Corona:  O haicai, na tradi��o japonesa, como se sabe,  era
(e  ainda �) escrito num contexto de di�rio, de viagem,  de
experi�ncia, de busca do satori. N�o sou um haica�sta,  mas
sempre  gostei de pratic�-lo involuntariamente. Os  haicais
que   aparecem   em   Cinemagin�rio  est�o   ocasionalmente
�incorporados�  a outros poemas. Tem um ou  outro  isolado,
mesmo  assim, n�o seguem nenhuma m�trica. Quis assim porque
os aproximo da id�ia central de Cinemagin�rio, pelo que tem
de  montagem, do olho editando imagens, etc.  e  podem  ser
apreendidos  como qualquer outra imagem solta.  Eles  est�o
servindo aos poemas como um fotograma serve ao cinema. Acho
que consegui me livrar da rigidez da m�trica japonesa e dar
continuidade  a  uma outra tradi��o brasileira  de  haicais
�infi�is�.
Pergunta: �Para que as musas se movam/ e tudo o mais tamb�m
ganhe  movimento/a  paisagem  passa  pela  paisagem.�  Onde
estava quando escreveu �Passagem�?
Corona:  Estava em Curitiba, num dia em que uma  tempestade
de  quinze  minutos  invadiu o  atelier  de  minha  mulher,
Eliana.  O  poema �Passagem� fala disso, ou  seja,  de  uma
tempestade  que  se arma no Sul, passa por Curitiba  e  vai
desaguar  no  Rio  de Janeiro. Na �poca, estava  totalmente
envolvido  com um texto chamado �A est�tica  do  frio�,  um
poderoso  imagin�rio desenvolvido pelo  m�sico  e  escritor
ga�cho  Vitor Ramil. Escrevi os poemas �Passagem�  e  �Miss
Tempestade� depois de tomar contato com esse texto,  depois
de reler com aten��o a fic��o Fragmentos from Cold, de Paul
Auster  e tamb�m depois da enchente ter inundado o atelier.
Uma   tempestade  n�o  contemporiza,  n�o  faz  acordos   e
concess�es e isso que me fascina.
O  mais  curioso  � que isso j� estava se  manifestando  na
minha  poesia, pois �Paisagem Narcisista�, outro poema  que
desconstr�i a �est�tica do calor�, porque exp�e a  paisagem
tropical ao exagero, foi escrito antes que tivesse  contato
com  esses  dois  autores  que  j�  estavam  �tramando�  um
imagin�rio que faz sentido aqui no Sul do pa�s. Gosto dessa
id�ia   de   afirma��o  da  diversidade,  pelas   vias   da
contradi��o, da oposi��o. O estranhamento disso tudo �  que
�  comum ouvir do curitibano que um pinheiro do Paran�  n�o
se  pode transplantar. Se isso for verdadeiro, que eu  acho
que  �,  ent�o h� uma contrapartida atrav�s do nosso clima.
Basta  que  Curitiba  encontre  sua  por��o  Sul  e  tamb�m
influencie  culturalmente Sampa e Rio como uma frente  fria
influencia.  Quero  falar disso tamb�m,  at�  que  soe  com
naturalidade,  como  � normal ouvir nordestinos  e  baianos
falando de suas caracter�sticas. O genial � saber que somos
todos  brasileiros, pertencentes de uma cultura  polimorfa,
multiforme, heterog�nea e antrop�faga.
Pergunta:  No poema �e o amor/n�o � maior/nem  menor/que  o
mar� Qual o lugar que a l�rica amorosa ocupa em sua poesia?
Corona: �Na margem de todas as coisas: uma can��o�  veio  a
partir  de  uma  experi�ncia numa praia de Santa  Catarina.
Est�vamos, Eliana e eu, prontos para voltar para S�o  Paulo
� na �poca mor�vamos em Sampa �, n�o t�nhamos dinheiro, nem
trabalho,  nem  nada  e com filho pequeno...  Est�vamos  na
condi��o  de  esquecidos,  de  humilhados  e  fal�vamos  da
import�ncia  do amor, enquanto a barra pesava,  no  sentido
que  ter�amos  que  voltar e encontrar a  geladeira  vazia.
Est�vamos  nos sentindo � margem do sistema e nas  del�cias
de  uma  praia  � que � uma margem f�sica �  e  falando  de
amor...  Ent�o o que eu posso lhe responder?  O  verso  que
voc�  cita  na sua pergunta: �e o amor/ n�o � maior  /  nem
menor  / que o mar�, vem da�. Quis pegar esse sentimento  e
dar-lhe  uma medida: o mar. Por isso a cita��o de  �When  I
heard at the close of the day�, de Walt Whitman.
Algum tempo depois, quando retomei o poema, percebi que ali
estavam os quatro elementos: �gua, terra, fogo e ar. Com  o
uso  do olho em movimento, que vai editando imagens, que  �
pr�ximo  do m�todo cut-up, de burroughs, fiz o poema.  Numa
leitura atenta, as duas colunas (�margens�?) que dividem  o
poema, abrigam os quatro elementos: ar/terra, de um lado, e
�gua/fogo,   do  outro,  atrav�s  de  palavras  correlatas:
�vento�, �pedras�, �ondas�, �atrito�, etc.
Pergunta:  �como  as pedras duras/um dia nascem  dunas�.  O
tempo  em sua poesia provoca rugas e modifica esteticamente
os  elementos  de  seus poemas. Haveria civiliza��o  sem  o
conceito de tempo? O tempo � sempre perda?
Corona:  Como disse, meu conceito de tempo n�o �  abstrato.
Nem  linear. O tempo imprime, marca, transforma e eu o vejo
nas coisas. �O tempo n�o p�ra�.
Pergunta:  �OS HOMENS S�O TODOS IGUAIS� � um  poema  piada?
Fale sobre.
Corona:  Pode  ser,  mas n�o foi o que mais  me  motivou  a
escrev�-lo. Claro, tem o humor dos poemas-piada de  Oswald.
Mas  n�o pensei nisso. Sou mais devedor � charge, ao cartum
e  ao  quadrinho. �Os homens s�o todos iguais� tem marca��o
r�tmica  da  fala dos roteiros de hist�rias em  quadrinhos,
que � feita de uma mistura de respira��o nervosa com humor.
Na  grava��o  deste poema para meu CD de poesia  Ladr�o  de
fogo,  inclu�  risadas e cochichos. Acho  que  ficar�  mais
evidente esse modernismo que voc� v� e que sequer pensei ao
escrev�-lo.  Se for um poema-piada, na grava��o,  virou  um
poema-risada.
Pergunta:  Qual  a  sua rela��o com  a  mitologia  grega  e
eg�pcia? Que elementos destas culturas s�o mat�rias de  seu
trabalho?
Corona:  Leio sobre as mitologias (grega, iorub�,  eg�pcia,
etc.) como vou ao cinema. Muta��o. Alucigenia. Obra aberta.
Movimento.  Imagina��o. Etc. Se s�o  conte�dos  para  minha
poesia?  Qualquer assunto � um �timo assunto, desde  que  a
poesia esteja presente.
Pergunta:  Voc� colocou notas no final do livro. Ainda  n�o
se arrependeu?
Corona: N�o. Notas atrapalham quando �explicam� o poema  ou
quando  o  autor  se vale delas para tornar p�blico  alguma
correspond�ncia particular que pouco interessa  ao  leitor.
No  meu caso, est�o funcionando como cr�ditos que at� seria
desonesto  n�o serem atribu�dos. Refiro-me a  di�logos  com
filmes  ou  quando aconteceu alguma parceria  de  trabalho.
Tamb�m  usei notas para dar significado a algumas  palavras
Sestranhas�,   como   por  exemplo,  �Tunguso-manchuriana�.
Ningu�m  � obrigado a saber o que isso significa. Mas  note
que  os  poemas sobrevivem bem sem as notas. E isso  �  uma
nota � sua pergunta...
Pergunta:  Segundo o poeta Italo Moriconi h�  uma  vertente
�esteticista, representada por poetas como Carlito Azevedo,
Claudia  Roquette  Pinto,  Nelson  Ascher,  Josely   Vianna
Baptista, o Jorge L�cio. De maneiras muito  pr�prias, podem
ser  inclu�dos  nessa vertente poetas como Paulo  Henriques
Britto  e  Lu Menezes. A outra vertente seria uma  vertente
neoconservadora, metaf�sica, representada por Alexei Bueno,
Bruno  Tolentino, Marco Lucchesi. Talvez Ivan Junqueira  se
encaixe  desse  lado.  Paralelamente  a  isso,  existe   um
aprofundamento     e     diversifica��o     da     vertente
feminista/feminina, com a pr�pria Claudia  Roquette  Pinto,
Clara  G�es  e  muitas  outras. E como emerg�ncia  tem�tica
marcante  nesses anos 90, aparece a poesia gay,  que  �  um
belo  r�tulo,  mas  que  eu prefiro chamar  de  homoer�tica
masculina.  Nessa nova voz, incluo-me eu mesmo  (Italo),  e
poetas  como Antonio Cicero e Valdo Mota, mas n�s  3  temos
abordagens  bem  diferentes,  que  qualquer  leitor  poder�
verificar  por conta pr�pria. � (A gente pode diminuir  mas
tive  que  citar  para voc� ler, certo).   Em  qual  destas
vertentes se enquadra. Qual escolheria?
Corona: Aqui perto da minha casa tem um boteco que  serve
v�rios  tipos  de  cacha�a. N�o vejo problema  algum  nessa
diversidade  de destilados. O problema come�a quando  algum
freq�entador, que ainda n�o descobriu a arte de beber, fica
insistindo  que algu�m beba do seu copo porque acha  que  a
sua  bebida � melhor... Esse sujeito normalmente � o  chato
do peda�o.
Pergunta:  Voc� n�o parou no livro e vai lan�ar  um  CD  de
poemas. Fale sobre este novo projeto?
Corona:  Ladr�o  de  fogo  � um CD em  que  ser�o  gravados
trinta  poemas  meus com acompanhamento musical  de  quatro
instrumentistas. Os poemas n�o ser�o cantados, ou seja, n�o
ser�o  transformados  em letras de m�sica  ou  can��es.  Ao
contr�rio,  ser�o gravados com entona��o  de  r�citas  para
ficar mantidas as sonoridades e ritmos internos pr�prios da
poesia e que muitas vezes s�o intransfer�veis.
T�m  v�rios  anos que venho realizando r�citas em  teatros,
bares,  pra�as, livrarias, casas noturnas,  etc.  e  com  a
grava��o  deste  CD  estou  tendo  um  aprendizado  e   uma
motiva��o   ainda   maiores.  �   um   aperfei�oamento   de
experi�ncias e isso � �timo. No Brasil � bem pequena  nossa
tradi��o  de poesia gravada, se comparada � dos americanos,
por  exemplo. Ent�o, h� uma inquieta��o da minha parte, por
perceber  que  este  � um caminho que  minha  gera��o  pode
seguir, interferir.
Inicialmente,  com os poetas proven�ais, entre  os  s�culos
XII  e XIII, no sul da Fran�a, se inventou um diversificado
repert�rio  de  formas e estilos, que, segundo  Augusto  de
Campos, v�o do trobar leu (a poesia leve) ao trobar clus (a
poesia  herm�tica) e ao trobar ric (a poesia rica ou rara),
com  equil�brio  perfeito  entre  poesia  e  melodia.  Mais
recente  � para ficarmos com exemplos da antig�idade  e  de
agora �, a experi�ncia dos poetas Beats, nos EUA, que  est�
na base do surgimento do rock�n�roll.
Os  poetas brasileiros sempre foram t�midos nessa �rea, mas
com  as  novas m�dias, que facilitaram o registro  oral  da
poesia,  eu  acho  que  ser�  um caminho  inevit�vel.  Hoje
podemos experimentar mais e, quem sabe, alimentar um gosto,
um  costume de se �ouvir poesia�, que � uma coisa  distinta
de  se  �ler  poesia�. Para entender melhor o  que  estamos
perdendo,  basta ouvir (ler tamb�m, claro) �The  Ballad  of
the Skeletons�, de Ginsberg.
Pergunta: A revista Medusa � outro projeto seu. Fale sobre?
Corona:  A revista Medusa n�o � um projeto s� meu. Ela  foi
criada  em parceria com a artista pl�stica Eliana Borges  e
os poetas Ademir Assun��o e Rodrigo Garcia Lopes. Lembro-me
de  quando  nos reunimos aqui na minha casa,  em  Curitiba,
onde  discutimos o projeto po�tico e art�stico  de  Medusa.
Isso depois de centenas de e-mails e telefonemas. Um quebra-
pau danado. Lembro-me tamb�m que tinham tr�s nomes na mesa.
�Calib�n�  (depois saiu uma revista carioca com esse  nome)
sugerido por Rodrigo, �Canibal� por Ademir, e �Medusa�, por
mim.  Quando o n�cleo editorial da revista estava  formado,
fizemos  uma vota��o e �Medusa� ganhou. Os tr�s nomes  eram
fortes e bastou uma vota��o para resolvermos. A partir da�,
o   mito/mote   se   desdobrou  em  v�rias   id�ias-valise,
funcionando como impulso para nosso projeto de  revista.  A
id�ia de subconsciente popular, defendido para a mitologia,
prevaleceu. Todos tinham uma met�fora med�sica  na  cabe�a.
Fizemos/fazemos disso uma esp�cie de mitocr�tica. Como  por
exemplo: as v�rias cobras da cabe�a de Medusa � e agora  me
refiro ao mito � me parece ser a leitura, ou o �cone,  mais
acertado  para  uma  �poca que se afirma pela  diversidade:
cada  cabe�a uma senten�a, cada l�ngua um veneno,  etc,  e,
tratando-se  de  cobras, n�o h� d�vidas de  que  o  que  se
coloca � a diferen�a, a vitaliza��o do que � dessemelhante,
contradit�rio,  etc. O fim do per�odo ut�pico  das  escolas
liter�rias de vanguarda colocou-nos algumas quest�es:  Como
pensar  uma  revista,  que �, necessariamente,  um  projeto
coletivo, em tempos de diversidade? Como n�o cair  no  mero
ecletismo?  E como trazer o coletivo para uma  revista  sem
adotar  a  vis�o  diminuidora de alguns  cr�ticos  sobre  a
cultura feita nos anos 80/90? Conhe�o algumas revistas  que
j�  no  t�tulo entregam sua baixa auto estima. Medusa  n�o.
Medusa  �  uma mulher com cabe�a de serpentes!  �  um  mito
forte,   pol�mico,  feminino  e  que  teve  seu  nascimento
vaticinado pela coragem de blasfemar. Disse Medusa: �Eu sou
mais  bonita que as deusas do Olimpo!� e Zeus a transformou
em criatura horrenda. S�o muitos os motes que este mito nos
d�  para  meter  cobras e vis�es na babel contempor�nea.  O
olhar   petrificador  (paralisador)  do  mito  Medusa,   na
revista,  transmuta-se em vis�o aprofundada de  determinada
obra.  A cada edi��o, �petrificamos� um poeta recente,  com
miniantologia  de  sua  produ��o, o que  significa  mostrar
densidade  contra a id�ia de ecletismo que corriqueiramente
tem-se apresentado por a�, com mosaicos de poetas e poemas.
N�o  acreditamos  nisso.  A �poca  pede  densidade  para  a
diversidade. Na revista, esse conceito tamb�m se  manifesta
nas  grandes  angulares  (tamb�m  chamados  �dossi�s�)  que
costumamos fazer com determinado artista que tenha uma obra
extensa  e  ainda pouco difundida. Neste caso, apresentamos
uma  miniantologia de seu trabalho, ao lado de  entrevista,
ensaio  e  fotos.  Enfim,  �petrificamos�  criticamente   o
trabalho/pensamento/processo  de  cria��o  de   determinado
artista. Com isso estamos interferindo diretamente no leque
de refer�ncias.
Pergunta:  A  revista  Veja publicou  uma  mat�ria  em  que
ridiculariza   os  poetas  cariocas  e   em   mat�ria   diz
ironicamente  que  os  poetas  �(...)  quem  diria!   ainda
existem�.  Como encara a �pol�mica�?  Ser�  que  a  mat�ria
acaba com o marasmo?
Corona:  Engra�ado,  mas achei que a mat�ria  �  que  auto-
ridiculariza a revista, pois tratou o assunto  poesia  como
modismo,   comportamento  de  �poca,   etc.   Isso   acabou
ridicularizando  tanto o jornalista que a escreveu  como  a
revista que o publicou.
Pergunta:  Como  encara a internet  e  os  novos  meios  de
divulga��o. O livro acaba?
Corona: Na minha opini�o, essa discuss�o de o livro  acabar
j�  foi  problematizada e tamb�m resolvida,  exaurida.  Mas
vamos l�: A inven��o do cinema n�o ia acabar com o teatro?,
a  tv  n�o ia acabar com o cinema?, e agora net vai  acabar
com   o   livro?!  N�o  seria  linear  demais?  Acho   mais
interessante pensar que a internet � o meio de  comunica��o
que  mais materializa nosso subconsciente mundial. A partir
da�,  abre-se  uma discuss�o sobre liberdade de  express�o,
�tica,  censura,  servi�o p�blico  sem  burocrocacia,  etc.
Tenho  certeza  que o livro continuar� nosso  parceiro,  na
estante,  ao  lado do cd-room, pr�ximo dos  cds,  acima  do
computador, ao lado do fax, do v�deo.
A  internet � um meio privado em que se p�e rapidamente  as
id�ias  em  p�blico. Com o tempo, quero crer que esse  meio
poder�   ser   o  princ�pio  de  um  exerc�cio   pleno   da
comunica��o, onde a �censura� seja apenas �tica. Mesmo  com
todo  o  lixo on line, a internet � o meio mais democr�tico
de  todos, que deveria ser ainda mais, n�o fosse a ditadura
econ�mica  que  estamos vivendo, a qual  impede  que  todos
possam comprar um computador.
Outro  fato que me chama a aten��o, � o retorno da escrita.
Em certo sentido, atrav�s do e-mail, todos est�o escrevendo
mais.  A  carta  voltou,  de outra maneira,  mais  veloz  e
telegr�fica, mas voltou. O e-mail, hoje, � a carta em  alta
velocidade.  A�  fico pensando no que disse  Almod�var:  �o
homem  �  mais  verdadeiro  quando  escreve,  a  humanidade
deveria  calar  a  boca e escrever�. Ou,  como  canta  Luis
Melodia:  �Se  a gente falasse menos / talvez compreendesse
mais  (...)�.  Tamb�m acho que esse meio, que  se  d�  pela
escrita,  pela  carta,  acaba equilibrando  a  ditadura  da
imagem e podemos ser mais confessionais. Ana Cristina C�sar
iria adorar...
Pergunta: Qual o papel do escritor na sociedade?
Corona:  Nesse sentido, ainda vivo de horizontes  ut�picos.
Acredito  que a poesia se soma �quelas pr�ticas  que  podem
mudar   o  homem.  N�o  que  o  poeta  deva  assumir   esse
compromisso.  Mas n�o h� como negar que inventar  poemas  �
bem  diferente  de  inventar  bombas  ou  rem�dios  falsos.
Devolver o texto para a tribo, eis uma ep�grafe para livros
de poesia.

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