ENTREVISTA COM RICARDO CORONA
RICARDO CORONA nasceu em 1962 em Curitiba/PR, onde vive. Na
d�cada de 80 residiu em S�o Paulo/SP, onde cursou
comunica��o na Febasp (1987). � autor de �A�, plaqueta de
poemas e desenhos er�ticos, em parceria com Said Assal (SP,
ed. Arte Pau-Brasil, 1988), O sumi�o do sol, livro
infantil, em parceria com Eliana Borges (Curitiba, ed. Arco-
�ris, 1993) e Cinemagin�rio, poemas (SP, ed. Iluminuras,
1999). Em 1996/97, junto com o guitarrista Johnny Tequila
apresentou em bares e casas noturnas o show po�tico-musical
Poesia�n�roll. Em 1998, organizou a antologia bil�ng�e
Outras praias � 13 poetas brasileiros emergentes / Other
Shores � 13 Emerging Brazilian Poets (SP, ed. Iluminuras).
Traduziu poemas de Gary Snyder, Baraka, Ginbsberg e outros.
Atualmente prepara o CD de poesia Ladr�o de fogo e edita a
revista bimestral de poesia e arte Medusa.
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Pergunta: Por que demorou a lan�ar seu livro? Como � a sua
rela��o com o tempo e a matura��o do material po�tico?
Ricardo Corona: Hans Haacke diz que �os produtos art�sticos
n�o s�o unicamente um meio de se fazer um nome�. N�o tenho
simpatia pela id�ia de individualiza��o da poesia e acho
estranho a presen�a de um poeta de plant�o para cada regi�o
do pa�s ou para cada segundo caderno de um grande jornal.
Gosto de fazer parcerias e sentir-me atuando no �tecido� da
poesia, da cultura. Talvez por isso tenha lan�ado s�
recentemente meu primeiro livro individual de poemas
Cinemagin�rio.
Em 1988, saiu o livro de poemas e desenhos er�ticos �A�,
uma plaqueta impressa em serigrafia, quatro cores, que �
uma parceria com o artista pl�stico Said Assal. Em 1993, O
sumi�o do sol, livro infantil em parceria com a artista
pl�stica Eliana Borges. Em 1994, o livro-objeto Bem feito
pra voc�, uma colet�nea de fotos e poemas e tamb�m uma
parceria com o fot�grafo Chico Link e o poeta Flavio
Stankoski. Em 1997, Eliana e eu organizamos duas antologias
de poesia, desenho e prosa infantis chamadas �Tirando de
letra � poemas e desenhos infanto-juvenis� e �Sopa de
letras � poemas e desenhos infantis�.
Mas nunca me propus a colocar muitos poemas em livros de
parceria. Quis mostrar aos poucos. Em �A�, participei com
apenas com nove poemas, que se somaram aos tr�s desenhos do
Said. Nossa proposta n�o era encher um livro de poemas e
ilustr�-lo com alguns desenhos, mas colocar duas linguagens
num mesmo suporte e com a mesma import�ncia. Em �Bem
feito...�, pelos mesmos motivos, participei com apenas seis
poemas.
Em 1998, organizei a antologia bil�ng�e Outras Praias /
Other Shores, uma sele��o de 13 poetas representativos da
produ��o dos anos 90. Esta antologia teve colabora��es
expressivas de poetas e professores brasileiros e
americanos: Charles A. Perrone, David William Foster (EUA),
Ligia Vieira Cesar, Antonio Ris�rio, Jaques Mario Brand,
Maur�cio Arruda Mendon�a (Brasil). Em 1998/1999 (que se
estender� at� mar�o de 2000), a revista de poesia e arte
Medusa, de periodicidade bimensal, que est� em seu s�timo
n�mero e ir� at� o d�cimo. Medusa � um projeto elaborado em
parceria com os artistas pl�sticos Eliana Borges e Key
Imaguirre Jr., e os poetas Ademir Assun��o e Rodrigo Garcia
Lopes.
Com a revista e a antologia, aquele princ�pio coletivo em
plano po�tico, ficou ainda mais forte, mais atuante. Por
mais que exista um grupo aqui, outro acol�, a cena �
dispersa e o que se v� s�o �nomes� que puxaram para si o
saldo de movimentos liter�rios de d�cadas anteriores, de
per�odos de extensa e intensa produ��o coletiva. Acho que �
o tempo certo para projetos como antologias e revistas. A
areia da ampulheta deste s�culo/mil�nio est� se esgotando e
publica��es assim t�m um papel hist�rico importante. Ainda
mais num tempo confuso como o nosso, de privatiza��o
po�tica, promovida, em parte, pela grande imprensa e pelas
grandes editoras, mas, principalmente, por poetas que se
auto-elegem cronistas de �poca, disseminando seus conselhos
e passando a falsa id�ia de que a poesia pertence a uns
poucos privilegiados. Esquecem que � uma das linguagens
mais antigas do ser humano, que p�de se manifestar, por
exemplo, num �ndio da tribo Y�noman de cinco mil anos atr�s
e que sequer conhecemos. A poesia, a arte em geral, � maior
do que essa pol�tica de personalidades. Sou contra essa
id�ia de funilamento, me irrita esse filtro... Quero pensar
tamb�m o tropicalismo de Tom Z�, o concretismo de Pedro
Xisto, etc. Cad� a obra de Pedro Xisto? No meu entender,
Pedro Xisto fez o caminho inverso e sua pesquisa �
fundamental para se compreender melhor aquele movimento. O
material que ele utilizou, partia da concep��o do artista
pl�stico em dire��o � poesia e isso faz com que seus poemas
visuais contenham outros desdobramentos, outros resultados
gr�ficos no seu designer da linguagem, etc. Nele, havia a
simbiose de artista pl�stico e poeta que lhe conferiu uma
poesia concreta singular. E quase ningu�m conhece ou lembra
de Pedro Xisto...
� atrav�s de revistas e antologias que se pode haver com
essas diferen�as que a hist�ria ou as pol�ticas culturais
acabam soterrando. Esse � um dos pap�is hist�ricos que uma
revista pode e tem que fazer. Com elas, se pode interferir
no leque de refer�ncias e com a autonomia cr�tica que boa
parte da grande imprensa j� perdeu. Uma revista serve para
isso. Al�m de poder atuar de maneira sistem�tica na
inclus�o de novos autores. Al�m de estar em permanente
di�logo com outras linguagens, como a fotografia, as artes
pl�sticas, a m�sica, o teatro, etc.
S�o esses os motivos mais fortes que me fizeram optar pelas
publica��es coletivas antes mesmo de sair com um livro
individual. Depois vieram outros, que s�o aqueles que
qualquer poeta enfrenta: a falta de interesse das editoras
e o processo de matura��o, de �pensar� um livro de poemas.
Dito isto, posso crer que o tempo n�o me vem de forma
abstrata. Ao contr�rio, sempre me pareceu uma m�quina que
imprime a ruga.
Pergunta: Voc� classifica Cinemagin�rio como o "cinema
dentro do poema" mas n�o utiliza outros elementos
(cinematogr�ficos) fora da linguagem po�tica. Como definiu
este tipo de est�tica?
Corona: O �cinema mental� que me atribu� � o livre fluxo da
minha imagina��o. Utilizei-me, sim, de t�cnicas de colagem,
montagem, grande angular, zoom, cortes, closes, etc. Mas �
bom acrescentar que esses procedimentos est�o a servi�o do
que os poemas t�m a dizer. alternar climas e alterar o
tempo no/do poema. Sei que esses procedimentos est�o
presentes no cinema, num filme de Tarkovski, por exemplo,
mas tamb�m sei que eles n�o s�o propriedades exclusivas do
cineasta. S�o, antes, de nossa tela interna, � maneira de
�talo Calvino, quando diz que a imagina��o � cinema antes
mesmo de o cinema ser inventado. Enfim, dei-me liberdade,
escolhi as regras, meus interlocutores e fui ao cinema
�Imagina��o�.
Pergunta: Leminski � uma angustiada influ�ncia � moda
Harold Bloom? Como dialoga com a obra do poeta mais
cultuado do Paran�?
Corona: Leminski � uma refer�ncia n�o s� para os poetas do
Paran�, mas de todo o Brasil. No meu caso, o di�logo �
pensado a priori, para que minha poesia n�o caia na mera
repeti��o de sua dic��o, que � uma das mais fortes que
conhe�o. Quem quiser se propor ao di�logo com a poesia
deste poeta, tem que evitar o efeito �zelig�, a
contamina��o excessiva e imediata ao ponto de sua poesia
ficar parecida com a dele. A poesia de Leminski, em certo
sentido, � um v�rus. Penso ter escapado disso ao perceber
que quase toda sua poesia cont�m o exerc�cio da logop�ia
(�a dan�a do intelecto entre as palavras�) e escolhi
�exagerar� no exerc�cio da fanop�ia (�um lance de imagens
sobre a imagina��o visual�). S� isso, que � um pequeno
desvio de rota, faz com que n�o me sinta encalacrado, nem
apenas repetindo a dic��o leminskiana, mas, sobretudo, se
deixando influenciar na mesma medida em que se vai
conquistando diferen�as. A imagem, que � a prote�na do meu
�cinema mental�, em Leminski, aparece minimizada pela
qualidade superior de sua ret�rica. Mesmo num haicai, onde
a imagem � tudo, h� uma identifica��o imediata desta
ret�rica. Bem, considerando que foi um dos poetas mais
preparados de sua gera��o, j� � muito n�o repeti-lo e ser �
ao mesmo tempo � influenciado. Adquiri o v�rus, mas tamb�m
o anticorpo.
Pergunta: Como a poesia paranaense est� enquadrada no
contexto brasileiro?
Corona: J� foi dito que o Paran� est� ainda construindo sua
hist�ria cultural. Entenda-se �construindo� como um legado
� disposi��o, que possa ser uma afirma��o positiva,
permanente. Tradi��es assim n�o nascem da noite para o dia.
Isso demanda muito tempo e o Paran� � um estado
extremamente novo, recente. Seria injusto compar�-lo a Rio
Grande do Sul ou a Minas, por exemplo. Guardadas as
propor��es, acho que estamos bem representados, com
po�ticas como as de Dario Veloso, Emilio de Menezes, Paulo
Leminski, Alice Ruiz, Helena Kolody, Rodrigo Garcia Lopes,
Josely Vianna Baptista, Maur�cio Arruda Mendon�a, Marcos
Prado, Jaques Mario Brand, etc. Isso sem citar artistas que
est�o produzindo nas �reas de artes pl�sticas, cinema,
teatro, etc. Na prosa, em especial, vejo um fen�meno
interessante, que � a velocidade com que se est� acumulando
narrativas que trabalham bem a linguagem. Se voc� analisar,
num espa�o de tempo de tr�s d�cadas, apareceram autores que
fizeram �prosa de arte�, na express�o de Augusto de Campos.
Refiro-me a Paulo Leminski, Val�ncio Xavier e Wilson Bueno.
S�o apenas tr�s autores, mas, como disse, apareceram em
espa�o de tempo curto � e esse dado � importante quando se
trata de literatura de inven��o. O Catatau, de Leminski, �
1975, e � uma prosa experimental, um �romance-id�ia� que
est� em igual import�ncia com outros romances de inven��o
brasileiros, como Grande Sert�o: Veredas, de Guimar�es
Rosa, por exemplo. O Mez da Grippe, de Val�ncio, � de 1981,
e � uma �novella visual� que, na minha opini�o, � uma
conflu�ncia de c�digos que est� ainda por merecer
classifica��o apropriada. E o Mar Paraguayo, de Wilson
Bueno, � de 1992, e � uma prosa neobarroca abismal,
constru�da no entre l�nguas, um disparate de ousadia...
S� posso concluir que nossa contribui��o vai bem, obrigado.
E nem mencionei Dalton Trevisan...
Pergunta: Em Cinemagin�rio a Lua est� em diversos poemas,
inclusive uma parte com a denomina��o LUNARES. Qual a
representa��o, o sentido e o por qu� deste lugar de
destaque em sua poesia?
Corona: Depois que o homem foi � lua, tenho a sensa��o que
ela virou um bairro do nosso planeta, uma esp�cie de
periferia estelar. Ainda me interessa, em poesia, destruir
a decanta��o rom�ntica da lua, atrav�s de uma id�ia de
contamina��o, utilizando-me de descobertas e referenciais
cient�ficos, que a materializaram, que a transformaram em
algo mais real. Quis conversar com a lua simbolista e
zombeteira de Jules Laforgue, a lua muda de Leopardi. Da
minha parte, entrei nessa conversa com minha lua-ch�o,
palp�vel, como tamb�m foi a de Armstrong � sua experi�ncia
ainda me soa fant�stica � que reaparece no poema �via-
l�ctea via l�ngua�, numa invers�o no modo de olhar
(rom�ntico) para a lua (inating�vel). No poema, tem-se a
sensa��o de estar �pisando� no universo e, de l�,
observando a terra:
via-l�ctea via l�ngua
eis minha viagem
o quasar mais al�m
vai estar quase ali
o planeta terra
pingo no meu i
ponto na frase que se encerra
Em outro poema, �Ondas na Lua Cheia�, valorizo os efeitos
lunares verdadeiros e os utilizo como met�foras para o
intertexto, etc.:
ONDAS NA LUA CHEIA
(poema sob influ�ncia)
A lua que tudo assiste
agora incide
O mar
- sob efeito �
ergue-se
crispado de ondas espumantes
Sua l�ngua de sal
lambe e provoca
as escrituras da areia firme (...)
�Lunares� tamb�m se manifesta na contrapartida de poemas
�solares� de dois poetas que sempre me interessaram: Paulo
Leminski e mais recentemente, Rodrigo Garcia Lopes. Em
Leminski, apenas um verso: �nada que o sol n�o explique� e
em Rodrigo, nos poemas de seu livro Solarium. Fechei o
conjunto de �Lunares� pensando exatamente nesses dois
poetas. N�o que meus poemas tenham sido feitos a partir
daqueles, pois j� estavam escritos antes de eu perceber
essa rela��o. Agrada-me a id�ia poundiana de poder escolher
meus interlocutores. Pound dizia ser prefer�vel eleger
contempor�neos para uma �conversa po�tica� do que autores
j� canonizados. Veja no que deu:
E N�O EXPLICA
Praias �
eu as invento
� luz da lua alta
luz borrando z�nites
A paisagem, menos
narc�sica
O vento
as nuvens
- leveza -
abrindo sentidos vitais
Voc� nem percebe
r�mulos aqu�ticos nascem corais
� noite,
a lua chama para si
toda possibilidade de luz
- depois, deita-se
E n�o explica
Pergunta: A segunda parte do livro � pontilhada de haicos.
H� algo que s� pode ser dito num haicai?
Corona: O haicai, na tradi��o japonesa, como se sabe, era
(e ainda �) escrito num contexto de di�rio, de viagem, de
experi�ncia, de busca do satori. N�o sou um haica�sta, mas
sempre gostei de pratic�-lo involuntariamente. Os haicais
que aparecem em Cinemagin�rio est�o ocasionalmente
�incorporados� a outros poemas. Tem um ou outro isolado,
mesmo assim, n�o seguem nenhuma m�trica. Quis assim porque
os aproximo da id�ia central de Cinemagin�rio, pelo que tem
de montagem, do olho editando imagens, etc. e podem ser
apreendidos como qualquer outra imagem solta. Eles est�o
servindo aos poemas como um fotograma serve ao cinema. Acho
que consegui me livrar da rigidez da m�trica japonesa e dar
continuidade a uma outra tradi��o brasileira de haicais
�infi�is�.
Pergunta: �Para que as musas se movam/ e tudo o mais tamb�m
ganhe movimento/a paisagem passa pela paisagem.� Onde
estava quando escreveu �Passagem�?
Corona: Estava em Curitiba, num dia em que uma tempestade
de quinze minutos invadiu o atelier de minha mulher,
Eliana. O poema �Passagem� fala disso, ou seja, de uma
tempestade que se arma no Sul, passa por Curitiba e vai
desaguar no Rio de Janeiro. Na �poca, estava totalmente
envolvido com um texto chamado �A est�tica do frio�, um
poderoso imagin�rio desenvolvido pelo m�sico e escritor
ga�cho Vitor Ramil. Escrevi os poemas �Passagem� e �Miss
Tempestade� depois de tomar contato com esse texto, depois
de reler com aten��o a fic��o Fragmentos from Cold, de Paul
Auster e tamb�m depois da enchente ter inundado o atelier.
Uma tempestade n�o contemporiza, n�o faz acordos e
concess�es e isso que me fascina.
O mais curioso � que isso j� estava se manifestando na
minha poesia, pois �Paisagem Narcisista�, outro poema que
desconstr�i a �est�tica do calor�, porque exp�e a paisagem
tropical ao exagero, foi escrito antes que tivesse contato
com esses dois autores que j� estavam �tramando� um
imagin�rio que faz sentido aqui no Sul do pa�s. Gosto dessa
id�ia de afirma��o da diversidade, pelas vias da
contradi��o, da oposi��o. O estranhamento disso tudo � que
� comum ouvir do curitibano que um pinheiro do Paran� n�o
se pode transplantar. Se isso for verdadeiro, que eu acho
que �, ent�o h� uma contrapartida atrav�s do nosso clima.
Basta que Curitiba encontre sua por��o Sul e tamb�m
influencie culturalmente Sampa e Rio como uma frente fria
influencia. Quero falar disso tamb�m, at� que soe com
naturalidade, como � normal ouvir nordestinos e baianos
falando de suas caracter�sticas. O genial � saber que somos
todos brasileiros, pertencentes de uma cultura polimorfa,
multiforme, heterog�nea e antrop�faga.
Pergunta: No poema �e o amor/n�o � maior/nem menor/que o
mar� Qual o lugar que a l�rica amorosa ocupa em sua poesia?
Corona: �Na margem de todas as coisas: uma can��o� veio a
partir de uma experi�ncia numa praia de Santa Catarina.
Est�vamos, Eliana e eu, prontos para voltar para S�o Paulo
� na �poca mor�vamos em Sampa �, n�o t�nhamos dinheiro, nem
trabalho, nem nada e com filho pequeno... Est�vamos na
condi��o de esquecidos, de humilhados e fal�vamos da
import�ncia do amor, enquanto a barra pesava, no sentido
que ter�amos que voltar e encontrar a geladeira vazia.
Est�vamos nos sentindo � margem do sistema e nas del�cias
de uma praia � que � uma margem f�sica � e falando de
amor... Ent�o o que eu posso lhe responder? O verso que
voc� cita na sua pergunta: �e o amor/ n�o � maior / nem
menor / que o mar�, vem da�. Quis pegar esse sentimento e
dar-lhe uma medida: o mar. Por isso a cita��o de �When I
heard at the close of the day�, de Walt Whitman.
Algum tempo depois, quando retomei o poema, percebi que ali
estavam os quatro elementos: �gua, terra, fogo e ar. Com o
uso do olho em movimento, que vai editando imagens, que �
pr�ximo do m�todo cut-up, de burroughs, fiz o poema. Numa
leitura atenta, as duas colunas (�margens�?) que dividem o
poema, abrigam os quatro elementos: ar/terra, de um lado, e
�gua/fogo, do outro, atrav�s de palavras correlatas:
�vento�, �pedras�, �ondas�, �atrito�, etc.
Pergunta: �como as pedras duras/um dia nascem dunas�. O
tempo em sua poesia provoca rugas e modifica esteticamente
os elementos de seus poemas. Haveria civiliza��o sem o
conceito de tempo? O tempo � sempre perda?
Corona: Como disse, meu conceito de tempo n�o � abstrato.
Nem linear. O tempo imprime, marca, transforma e eu o vejo
nas coisas. �O tempo n�o p�ra�.
Pergunta: �OS HOMENS S�O TODOS IGUAIS� � um poema piada?
Fale sobre.
Corona: Pode ser, mas n�o foi o que mais me motivou a
escrev�-lo. Claro, tem o humor dos poemas-piada de Oswald.
Mas n�o pensei nisso. Sou mais devedor � charge, ao cartum
e ao quadrinho. �Os homens s�o todos iguais� tem marca��o
r�tmica da fala dos roteiros de hist�rias em quadrinhos,
que � feita de uma mistura de respira��o nervosa com humor.
Na grava��o deste poema para meu CD de poesia Ladr�o de
fogo, inclu� risadas e cochichos. Acho que ficar� mais
evidente esse modernismo que voc� v� e que sequer pensei ao
escrev�-lo. Se for um poema-piada, na grava��o, virou um
poema-risada.
Pergunta: Qual a sua rela��o com a mitologia grega e
eg�pcia? Que elementos destas culturas s�o mat�rias de seu
trabalho?
Corona: Leio sobre as mitologias (grega, iorub�, eg�pcia,
etc.) como vou ao cinema. Muta��o. Alucigenia. Obra aberta.
Movimento. Imagina��o. Etc. Se s�o conte�dos para minha
poesia? Qualquer assunto � um �timo assunto, desde que a
poesia esteja presente.
Pergunta: Voc� colocou notas no final do livro. Ainda n�o
se arrependeu?
Corona: N�o. Notas atrapalham quando �explicam� o poema ou
quando o autor se vale delas para tornar p�blico alguma
correspond�ncia particular que pouco interessa ao leitor.
No meu caso, est�o funcionando como cr�ditos que at� seria
desonesto n�o serem atribu�dos. Refiro-me a di�logos com
filmes ou quando aconteceu alguma parceria de trabalho.
Tamb�m usei notas para dar significado a algumas palavras
Sestranhas�, como por exemplo, �Tunguso-manchuriana�.
Ningu�m � obrigado a saber o que isso significa. Mas note
que os poemas sobrevivem bem sem as notas. E isso � uma
nota � sua pergunta...
Pergunta: Segundo o poeta Italo Moriconi h� uma vertente
�esteticista, representada por poetas como Carlito Azevedo,
Claudia Roquette Pinto, Nelson Ascher, Josely Vianna
Baptista, o Jorge L�cio. De maneiras muito pr�prias, podem
ser inclu�dos nessa vertente poetas como Paulo Henriques
Britto e Lu Menezes. A outra vertente seria uma vertente
neoconservadora, metaf�sica, representada por Alexei Bueno,
Bruno Tolentino, Marco Lucchesi. Talvez Ivan Junqueira se
encaixe desse lado. Paralelamente a isso, existe um
aprofundamento e diversifica��o da vertente
feminista/feminina, com a pr�pria Claudia Roquette Pinto,
Clara G�es e muitas outras. E como emerg�ncia tem�tica
marcante nesses anos 90, aparece a poesia gay, que � um
belo r�tulo, mas que eu prefiro chamar de homoer�tica
masculina. Nessa nova voz, incluo-me eu mesmo (Italo), e
poetas como Antonio Cicero e Valdo Mota, mas n�s 3 temos
abordagens bem diferentes, que qualquer leitor poder�
verificar por conta pr�pria. � (A gente pode diminuir mas
tive que citar para voc� ler, certo). Em qual destas
vertentes se enquadra. Qual escolheria?
Corona: Aqui perto da minha casa tem um boteco que serve
v�rios tipos de cacha�a. N�o vejo problema algum nessa
diversidade de destilados. O problema come�a quando algum
freq�entador, que ainda n�o descobriu a arte de beber, fica
insistindo que algu�m beba do seu copo porque acha que a
sua bebida � melhor... Esse sujeito normalmente � o chato
do peda�o.
Pergunta: Voc� n�o parou no livro e vai lan�ar um CD de
poemas. Fale sobre este novo projeto?
Corona: Ladr�o de fogo � um CD em que ser�o gravados
trinta poemas meus com acompanhamento musical de quatro
instrumentistas. Os poemas n�o ser�o cantados, ou seja, n�o
ser�o transformados em letras de m�sica ou can��es. Ao
contr�rio, ser�o gravados com entona��o de r�citas para
ficar mantidas as sonoridades e ritmos internos pr�prios da
poesia e que muitas vezes s�o intransfer�veis.
T�m v�rios anos que venho realizando r�citas em teatros,
bares, pra�as, livrarias, casas noturnas, etc. e com a
grava��o deste CD estou tendo um aprendizado e uma
motiva��o ainda maiores. � um aperfei�oamento de
experi�ncias e isso � �timo. No Brasil � bem pequena nossa
tradi��o de poesia gravada, se comparada � dos americanos,
por exemplo. Ent�o, h� uma inquieta��o da minha parte, por
perceber que este � um caminho que minha gera��o pode
seguir, interferir.
Inicialmente, com os poetas proven�ais, entre os s�culos
XII e XIII, no sul da Fran�a, se inventou um diversificado
repert�rio de formas e estilos, que, segundo Augusto de
Campos, v�o do trobar leu (a poesia leve) ao trobar clus (a
poesia herm�tica) e ao trobar ric (a poesia rica ou rara),
com equil�brio perfeito entre poesia e melodia. Mais
recente � para ficarmos com exemplos da antig�idade e de
agora �, a experi�ncia dos poetas Beats, nos EUA, que est�
na base do surgimento do rock�n�roll.
Os poetas brasileiros sempre foram t�midos nessa �rea, mas
com as novas m�dias, que facilitaram o registro oral da
poesia, eu acho que ser� um caminho inevit�vel. Hoje
podemos experimentar mais e, quem sabe, alimentar um gosto,
um costume de se �ouvir poesia�, que � uma coisa distinta
de se �ler poesia�. Para entender melhor o que estamos
perdendo, basta ouvir (ler tamb�m, claro) �The Ballad of
the Skeletons�, de Ginsberg.
Pergunta: A revista Medusa � outro projeto seu. Fale sobre?
Corona: A revista Medusa n�o � um projeto s� meu. Ela foi
criada em parceria com a artista pl�stica Eliana Borges e
os poetas Ademir Assun��o e Rodrigo Garcia Lopes. Lembro-me
de quando nos reunimos aqui na minha casa, em Curitiba,
onde discutimos o projeto po�tico e art�stico de Medusa.
Isso depois de centenas de e-mails e telefonemas. Um quebra-
pau danado. Lembro-me tamb�m que tinham tr�s nomes na mesa.
�Calib�n� (depois saiu uma revista carioca com esse nome)
sugerido por Rodrigo, �Canibal� por Ademir, e �Medusa�, por
mim. Quando o n�cleo editorial da revista estava formado,
fizemos uma vota��o e �Medusa� ganhou. Os tr�s nomes eram
fortes e bastou uma vota��o para resolvermos. A partir da�,
o mito/mote se desdobrou em v�rias id�ias-valise,
funcionando como impulso para nosso projeto de revista. A
id�ia de subconsciente popular, defendido para a mitologia,
prevaleceu. Todos tinham uma met�fora med�sica na cabe�a.
Fizemos/fazemos disso uma esp�cie de mitocr�tica. Como por
exemplo: as v�rias cobras da cabe�a de Medusa � e agora me
refiro ao mito � me parece ser a leitura, ou o �cone, mais
acertado para uma �poca que se afirma pela diversidade:
cada cabe�a uma senten�a, cada l�ngua um veneno, etc, e,
tratando-se de cobras, n�o h� d�vidas de que o que se
coloca � a diferen�a, a vitaliza��o do que � dessemelhante,
contradit�rio, etc. O fim do per�odo ut�pico das escolas
liter�rias de vanguarda colocou-nos algumas quest�es: Como
pensar uma revista, que �, necessariamente, um projeto
coletivo, em tempos de diversidade? Como n�o cair no mero
ecletismo? E como trazer o coletivo para uma revista sem
adotar a vis�o diminuidora de alguns cr�ticos sobre a
cultura feita nos anos 80/90? Conhe�o algumas revistas que
j� no t�tulo entregam sua baixa auto estima. Medusa n�o.
Medusa � uma mulher com cabe�a de serpentes! � um mito
forte, pol�mico, feminino e que teve seu nascimento
vaticinado pela coragem de blasfemar. Disse Medusa: �Eu sou
mais bonita que as deusas do Olimpo!� e Zeus a transformou
em criatura horrenda. S�o muitos os motes que este mito nos
d� para meter cobras e vis�es na babel contempor�nea. O
olhar petrificador (paralisador) do mito Medusa, na
revista, transmuta-se em vis�o aprofundada de determinada
obra. A cada edi��o, �petrificamos� um poeta recente, com
miniantologia de sua produ��o, o que significa mostrar
densidade contra a id�ia de ecletismo que corriqueiramente
tem-se apresentado por a�, com mosaicos de poetas e poemas.
N�o acreditamos nisso. A �poca pede densidade para a
diversidade. Na revista, esse conceito tamb�m se manifesta
nas grandes angulares (tamb�m chamados �dossi�s�) que
costumamos fazer com determinado artista que tenha uma obra
extensa e ainda pouco difundida. Neste caso, apresentamos
uma miniantologia de seu trabalho, ao lado de entrevista,
ensaio e fotos. Enfim, �petrificamos� criticamente o
trabalho/pensamento/processo de cria��o de determinado
artista. Com isso estamos interferindo diretamente no leque
de refer�ncias.
Pergunta: A revista Veja publicou uma mat�ria em que
ridiculariza os poetas cariocas e em mat�ria diz
ironicamente que os poetas �(...) quem diria! ainda
existem�. Como encara a �pol�mica�? Ser� que a mat�ria
acaba com o marasmo?
Corona: Engra�ado, mas achei que a mat�ria � que auto-
ridiculariza a revista, pois tratou o assunto poesia como
modismo, comportamento de �poca, etc. Isso acabou
ridicularizando tanto o jornalista que a escreveu como a
revista que o publicou.
Pergunta: Como encara a internet e os novos meios de
divulga��o. O livro acaba?
Corona: Na minha opini�o, essa discuss�o de o livro acabar
j� foi problematizada e tamb�m resolvida, exaurida. Mas
vamos l�: A inven��o do cinema n�o ia acabar com o teatro?,
a tv n�o ia acabar com o cinema?, e agora net vai acabar
com o livro?! N�o seria linear demais? Acho mais
interessante pensar que a internet � o meio de comunica��o
que mais materializa nosso subconsciente mundial. A partir
da�, abre-se uma discuss�o sobre liberdade de express�o,
�tica, censura, servi�o p�blico sem burocrocacia, etc.
Tenho certeza que o livro continuar� nosso parceiro, na
estante, ao lado do cd-room, pr�ximo dos cds, acima do
computador, ao lado do fax, do v�deo.
A internet � um meio privado em que se p�e rapidamente as
id�ias em p�blico. Com o tempo, quero crer que esse meio
poder� ser o princ�pio de um exerc�cio pleno da
comunica��o, onde a �censura� seja apenas �tica. Mesmo com
todo o lixo on line, a internet � o meio mais democr�tico
de todos, que deveria ser ainda mais, n�o fosse a ditadura
econ�mica que estamos vivendo, a qual impede que todos
possam comprar um computador.
Outro fato que me chama a aten��o, � o retorno da escrita.
Em certo sentido, atrav�s do e-mail, todos est�o escrevendo
mais. A carta voltou, de outra maneira, mais veloz e
telegr�fica, mas voltou. O e-mail, hoje, � a carta em alta
velocidade. A� fico pensando no que disse Almod�var: �o
homem � mais verdadeiro quando escreve, a humanidade
deveria calar a boca e escrever�. Ou, como canta Luis
Melodia: �Se a gente falasse menos / talvez compreendesse
mais (...)�. Tamb�m acho que esse meio, que se d� pela
escrita, pela carta, acaba equilibrando a ditadura da
imagem e podemos ser mais confessionais. Ana Cristina C�sar
iria adorar...
Pergunta: Qual o papel do escritor na sociedade?
Corona: Nesse sentido, ainda vivo de horizontes ut�picos.
Acredito que a poesia se soma �quelas pr�ticas que podem
mudar o homem. N�o que o poeta deva assumir esse
compromisso. Mas n�o h� como negar que inventar poemas �
bem diferente de inventar bombas ou rem�dios falsos.
Devolver o texto para a tribo, eis uma ep�grafe para livros
de poesia.
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