Balacobaco
Planeta Terra
Rio de Janeiro

 
ENTREVISTA COM CLAUDIO WILLER
CLAUDIO  WILLER � poeta, ensa�sta e tradutor. Sua  forma��o
acad�mica   �  como  soci�logo  (Escola  de  Sociologia   e
Pol�tica, 1963) e psic�logo (Instituto de Psicologia,  USP,
1966,  onde lecionou at� 1973). Al�m da atividade liter�ria
e na administra��o cultural, trabalhou, tamb�m, em pesquisa
de mercado, consultoria e �reas afins.
 
Publicou:
 
Anota��es  para  um Apocalipse, Massao Ohno  Editor,  1964,
poesia e manifesto;
Dias  Circulares,  Massao  Ohno  Editor,  1976,  poesia   e
manifesto;
Os  Cantos  de Maldoror, de Lautr�amont, 1� edi��o  Editora
Vertente,  1970,  2� edi��o Max Limonad, 1986,  tradu��o  e
pref�cio;
Jardins da Provoca��o, Massao Ohno/Roswitha Kempf Editores,
1981, poesia e ensaio;
Escritos   de  Antonin  Artaud,  L&PM  Editores,   1983   e
sucessivas reedi��es, sele��o, tradu��o, pref�cio e notas;
Uivo,  Kaddish  e  outros poemas de  Allen  Ginsberg,  L&PM
Editores,  1984 e sucessivas reedi��es, sele��o,  tradu��o,
pref�cio e notas; nova edi��o, revista e ampliada, em 1999;
Cr�nicas  da  Comuna, colet�nea sobre a  Comuna  de  Paris,
textos  de  Victor Hugo, Flaubert, Jules Vall�s,  Verlaine,
Zola e outros, Editora Ensaio, 1992, tradu��o;
Volta, narrativa em prosa, Iluminuras, 1996.
Lautr�amont  -  Obra  Completa -  Os  Cantos  de  Maldoror,
Poesias   e   Cartas,   edi��o  prefaciada   e   comentada,
Iluminuras, 1997.
Prepara-se  para  publicar  seu pr�ximo  livro  de  poesia,
Estranhas  Experi�ncias,  e uma  colet�nea  de  ensaios,  O
escritor como personagem - textos sobre literatura e vida.
Em  antologias e publica��es coletivas, entre outras,  Alma
Beat,  L&PM Editores, 1985; Carne Viva, colet�nea de poemas
er�ticos,  org.  Olga  Savary, Achiam�,  1984;  Folhetim  -
Poemas Traduzidos, org. Nelson Ascher e Matinas Suzuki, ed.
Folha de S�o Paulo, 1987, com uma tradu��o de Octavio  Paz;
Artes e Of�cios da Poesia, org. Augusto Massi, ed. Artes  e
Of�cios  -  Secretaria Municipal de Cultura de  S�o  Paulo,
1991;  Sincretismo  - A Poesia da Gera��o  60,  org.  Pedro
Lyra, Topbooks, 1995.
Traduzido e publicado no exterior, entre outros lugares, em
Quinta  Intermundia,  Rassegna  di  Poesia  Internazionale,
1992,  colet�nea por M�rcia Te�filo; Modernismo  Brasileiro
und  die  Brasilianische Lyrik der Gegenwart, antologia  da
poesia  brasileira por Curt Meyer-Clason, Druckhaus Galrev,
Berlim,  1997; Narradores y Poetas de Brasil, colet�nea  de
Floriano Martins, revista Blanco M�vil, primavera de  1998,
M�xico, DF.
Poemas  e  depoimentos,  tamb�m,  em  revistas  liter�rias:
Poesia  Sempre,  Azougue, Alguma Poesia,  Anto  (Portugal),
Continente Sul-Sur, etc.
Bibliografia   cr�tica  formada  por   ensaios,   resenhas,
reportagens  e  cita��o  em  obras  de  consulta   (Afr�nio
Coutinho, Alfredo Bosi, Jos� Paulo Paes, entre outros).
Como  cr�tico  e  ensa�sta,  colaborou  em  suplementos   e
publica��es culturais: Jornal da Tarde, Jornal  do  Brasil,
revista  Isto  �, jornal Leia, Folha de S�o Paulo,  revista
Cult,  Correio  Braziliense,  Xilo,  etc,  e  projetos   da
imprensa  alternativa: Versus, revista Singular e Plural  e
outros.
Textos,   resumo   biogr�fico,   bibliografia   e    outras
informa��es em bancos de dados e �sites�: M�dulo Literatura
Brasileira,  Setor  Poesia,  do  Centro  de  Inform�tica  e
Cultura, Banco de Dados Informatizado do Instituto Cultural
Itau;    e    em(http://www)   dialdata.com.br/casadasrosas
(�Literatura main menu�), harpya.com.br (revista eletr�nica
Harpya),   livcultura.com.br   (Livraria   Cultura,   se��o
Biblioteca Ideal), users.sti.com.br/efres (�site� Pop Box),
secrel.com.br/jpoesia     (Jornal     de     Poesia)      e
zaz.com.br/blocos (Revista Blocos).
Depois  de  ocupar outros cargos e fun��es em administra��o
cultural, desde 1994 � assessor na Secretaria Municipal  de
Cultura  de  S�o  Paulo, respons�vel por  cursos,  oficinas
liter�rias,  ciclos  de palestras e  debates,  leituras  de
poesia.
Dezenas de participa��es em congressos, semin�rios,  ciclos
de  palestras, apresenta��es p�blicas de autores,  etc,  no
Brasil e no exterior.
Presidente  da  Uni�o  Brasileira  de  Escritores  em  dois
mandatos (1988-92), secret�rio geral em outros dois  (1982-
86), e, ultimamente, presidente do Conselho da entidade.
                    -<><><><><><>-
B  -  Ocorre  com o surrealismo algo que � mais �extremado�
com  o  romantismo. Este �ltimo ganhou a alcunha de  l�rica
amorosa.  Assim  qualquer  m�sica  que  fala  de   amor   �
rom�ntica.  S�o rom�nticos os namorados. Com o  surrealismo
sucedeu  coisa  parecida. As pessoas utilizam  o  �surreal�
para qualquer aus�ncia de sentido em texto e atos. De certa
forma esta discuss�o daria um livro. Voc� poderia fazer uma
mini  genealogia, � moda de Nietzsche, e mostrar o por  qu�
ocorreu a mudan�a.
Cl�udio Willer - Na pr�pria pergunta voc� indica muito  bem
como  se  processa  a dilui��o, a cria��o  do  estere�tipo,
associando  surrealismo  a coisa  sem  p�  nem  cabe�a,  ao
arbitr�rio, confundindo-o com nonsense. � igual  a  acharem
que todo poeta � um cabe�a de vento. Surrealismo sempre  se
apresentou  como  continuador da rebeli�o  rom�ntica,  que,
obviamente, � bem mais do que alguns suspiros profundos  ao
luar  de  m�os dadas. Na revis�o da hist�ria da  literatura
proposta no Segundo Manifesto do Surrealismo, Andr�  Breton
diz  que  o  centen�rio do Romantismo � sua juventude,  que
isso,  que  se chama erradamente de sua �poca  her�ica  n�o
pode mais, honestamente, passar sen�o pelo vagido de um ser
que mal come�a a dar conhecimento de seu desejo atrav�s  de
n�s,  e que, admitindo-se que aquilo que foi pensado  antes
dele    -    �classicamente�   -   era   o    bem,    quer,
incontestavelmente, todo o mal. A mesma revis�o, entendendo
Romantismo, n�o como per�odo marcado por algumas  datas  do
final  do  s�culo XVIII e meados do XIX, mas como processo,
vertente da rebeli�o e ruptura, � feita por Octavio Paz  em
Los  Hijos  del  Limo,  ao  falar em  revolu��o  rom�ntica,
manifesta��o da tradi��o da ruptura, oposta ao classicismo,
distinguindo-a  do  romantismo  oficial  dos   manuais   de
literatura.
B  -  �  poss�vel dizer que qualquer poema tem  um  que  de
surrealista quando utiliza a linguagem po�tica?
CW  -  Temos  que pensar no surrealismo como  movimento  de
id�ias,  voltado para a rela��o entre poesia e  vida.  Como
afirma��o de valores, principalmente a liberdade de cria��o
e  o  poder  criador  e  subversivo  da  imagina��o,  assim
expressando a contradi��o entre poesia e sociedade. E  como
um  modo de politiza��o dessa contradi��o, ou uma tentativa
de  projet�-la na Hist�ria. Ent�o, interessa n�o s� a obra,
o  texto  em si, mas um determinado tipo de integridade  ou
articula��o  entre  arte  e vida.  Da�  o  surrealismo  ter
execrado  figuras  do mundanismo cultural,  da  facilita��o
burguesa, mesmo com produ��o art�stica expressiva, bem como
os  sect�rios,  os  poetas oficiais do  Partid�o  e  afins.
Designo  como  surrealistas autores que participaram  desse
movimento, ou que mostraram ter afinidade com as id�ias,  e
n�o  s�  com  uma  hipot�tica forma  surrealista.  Em  caso
contr�rio,    acabar�amos   enxergando    surrealismo    em
videoclipes, an�ncios criativos e outros exemplos  de  arte
instrumentalizada.
B  -  H�  um  mito  de que o surrealismo n�o  teve  grandes
poetas. Verdade?
CW - Intelectuais de prest�gio andaram dizendo isso, por
aqui.  Entre  outros, D�cio Pignatari. J� tratei  disso  em
minha entrevista para Azougue. � um completo absurdo. Andr�
Breton. Paul Eluard. Robert Desnos. Benjamin Peret. Aragon.
Jacques  Prevert participou. Poetas como Ponge  ou  Queneau
tomaram  outra  dire��o,  mas  fizeram  parte.  Ren�   Char
participou  tr�s  anos, nos quais n�o  escreveu  nada,  mas
disse que foram os tr�s anos mais importantes da vida dele.
Portanto, o melhor da poesia francesa da primeira metade do
s�culo.  Na  segunda  metade  do  s�culo,  uma  esp�cie  de
expans�o, com mais autores em outras l�nguas. Octavio  Paz.
V�rios  outros  ibero-americanos importantes,  que  ningu�m
conhece aqui, como o argentino Aldo Pellegrini. O antilhano
Aim� C�saire. M�rio Cesariny, Antonio Maria Lisboa e outros
grandes   poetas  portugueses.  O  norte-americano   Philip
Lamantia.  Brasileiros  que  o  Brasil  n�o  l�,  ou   cujo
interesse por surrealismo finge desconhecer.
B - Na Azougue voc� disse �Jo�o Cabral na fase final torna-
se o corifeu da escrita a frio, da suspens�o da emo��o�.  E
ainda afirma que a met�fora e a analogia foram substitu�das
pela par�frase. Ainda h� a linguagem conotativa. Ser� que o
futuro  colocar�  a  gera��o atual como sendo  parnasianos,
poemas sem poesia?
CW  -  H�  tanta gente escrevendo poesia, e  de  modos  t�o
diferentes,  que algum historiador futuro  talvez  venha  a
enxergar  coisas  complemente  diferentes  daquelas  que  a
cr�tica  consegue vislumbrar hoje. Mas � bem  poss�vel  que
nossa �poca seja vista como dominada por um formalismo, por
sua  vez  equivalente a um parnasianismo  clean,  sem  todo
aquele  preciosismo  vocabular, mas norteado  pelos  mesmos
princ�pios. A id�ia de composi��o elaborada, da  escrita  a
frio,  descartando  a  emo��o, a inspira��o,  a  possess�o,
justificada,   n�o  mais  pelo  parnasianismo,   mas   pelo
formalismo  e construtivismo, ou por generalidades,  id�ias
mais   vagas,  declara��es  gen�ricas  em  favor   do   bom
comportamento liter�rio, da burocratiza��o da escrita,  das
quais as mais expressivas s�o aquelas de Jo�o Cabral.
B  -  O  que  a falta de um movimento liter�rio provoca  na
poesia atual?
CW  -  Talvez  n�o seja mais tempo de movimentos  fechados,
buscando a consist�ncia, como aqueles da primeira metade do
s�culo,  e  dos  quais  a  poesia  concreta,  tal  como  se
apresentava na d�cada de 50, mais algumas outras tend�ncias
formalistas, foram a vers�o final. Acho que h�  confrarias,
grupos  de  poetas  que se aproximam  por  afinidades,  por
opini�es,  perspectivas,  uma  po�tica  em  comum.   Aquela
mat�ria  meio desastrada da Veja, retratando alguns  desses
grupos  de modo caricato, relaciona-se, contudo,  com  algo
real.  Junto  com  uma  melhor veicula��o  de  poetas,  por
revistas  como  Cult,  Azougue,  Medusa,  Monturo,  Inimigo
Rumor, etc, est� recome�ando a haver debates, afirma��es de
diferen�as  liter�rias. Isso � bom anima o ambiente,  desde
que  associado � veicula��o de informa��o,  e  n�o  �  mera
manifesta��o de antipatias e simpatias.
B  - Voc� soube da mat�ria que saiu na Veja ridicularizando
poetas. Como encara a quest�o. O poeta virou palha�o?
CW - Nossas revistas semanais optaram por dar um tratamento
mais  leve,  superficial, � literatura,  retratando-a  como
banalidade.  Por  qu�,  n�o sei.  A  Veja  eq�ivale  a  um,
digamos,  Times  Magazine, Newsweek, L�Express,  em  outras
editorias,  mas,  em  cultura em  geral,  e  literatura  em
particular, � mais fraca. Na �poca, julho, em que saiu essa
mat�ria  da Veja, coloquei em circula��o um e-mail, dizendo
que, comparando-a com a Cult daquele m�s, que tinha um  bom
dossi� sobre poesia, mostrando v�rios poetas jovens, ficava
parecendo   que   as  duas  revistas  falavam   de   pa�ses
diferentes,  sendo que o pa�s de Cult era bem melhor,  mais
pr�ximo,  felizmente,  da  realidade.  H�  bastante   coisa
acontecendo  em  poesia,  uma certa  efervesc�ncia  que  se
traduz  em lan�amentos de livros, leituras, as revistas,  e
n�o  s�  uma revista liter�ria de maior porte como a  Cult,
mas  tamb�m Medusa, Monturo, Azougue, Inimigo Rumor,  agora
Xilo,  somando-se  �s  que  j� existiam,  como  Dimens�o  e
Cigarra, entre outras. Mas a grande imprensa ainda  n�o  se
deu  conta, n�o percebeu isso. Agora, quanto � Veja, o  que
mais  criticaria  �  terem fugido  �  discuss�o.  Receberam
cartas  reclamando  dessa mat�ria, mas n�o  as  deram,  n�o
tomaram  conhecimento.  Tinham que  ter  um  ombudsman,  um
departamento  de  reclama��es como  o  da  Folha  e  outros
jornais, para dar as devidas explica��es sobre essa fuga da
reta.
B  -  Qual  a  diferen�a entre o surrealismo e  o  realismo
m�gico?
CW  - Quem apresentou e prop�s isso, �realismo m�gico�, foi
o  prosador  cubano Alexo Carpentier, depois de desligar-se
do  surrealismo. Em seu pref�cio a El reyno de  este  mundo
(se  n�o me engano - ou foi em El Siglo de las Luces?), ele
afirma (estou simplificando e resumindo) que surrealismo  �
coisa  de  intelectuais  de gabinete,  algo  dissociado  da
realidade,    enquanto   ele,   Carpentier,   ao    relatar
acontecimentos, estava trabalhando, digamos, com  the  real
thing.  Um  monte  de gente, e n�o s� Carpentier,  inventou
falsas   separa��es,   tentativas  de  estabelecer   marcos
divis�rios,   para   demonstrar  que  n�o   estava   apenas
reproduzindo o que o surrealismo havia proposto,  mas  sim,
seguindo  trilhos  pr�prios, pessoais.  A  bibliografia  de
afirma��es   do  tipo  �isto  que  estou  fazendo   n�o   �
surrealismo�, dos anos 20 at� hoje, � extensa. A atitude de
Carpentier,  embora  levada  a  s�rio  por  estudiosos   de
literatura  e  outros  escritores, pertence  ao  �mbito  da
pol�tica  liter�ria, precedendo seu crescente  oficialismo,
que  o  levou � condi��o de escritor do Estado no final  da
carreira.  N�o  eleva em um mil�metro a qualidade  de  suas
narrativas. Desde o Primeiro Manifesto, Breton j�  afirmava
que  surreal mesmo, verdadeiramente, � a pr�pria realidade,
desde que saibamos enxerg�-la, e que poesia � algo para ser
vivido. Portanto, at� a�, Carpentier e outros �fant�sticos�
n�o diziam nada de novo.
B  - H� alguma oposi��o entre a concis�o po�tica atual e  a
abund�ncia transbordada da imag�tica do surrealismo?
CW  -  Abund�ncia  transbordada,  escrita  exuberante  e
torrencial,  escrita barroca, esses qualificativos,  quando
aplicados ao surrealismo, s�o generaliza��es, estere�tipos.
Se olharmos bem, condensa��o, exatid�o, precis�o, tais como
defendidas, p. ex., por Ezra Pound, est�o presentes na  boa
poesia  surrealista,  tanto quanto na  poesia  de  extra��o
formalista.  D�cada de 20, Paul Eluard j� fazia  poemas  de
uma frase s�, epigramas de imagens, como aqueles publicados
em Capitale de la douleur. Na mesa �poca, Marcel Duchamp  e
Robert Desnos produziam, em parceria, a s�rie Rrose S�lavy,
frases   hom�fonas,  trabalhando  s�  com  o  significante;
portanto,  nem  isso  � exclusividade dos  formalistas.  Um
autor capital no surrealismo � Malcolm de Chazal, com Sens-
plastique,  de 1948 - � o mestre dos epigramas,  poemas  de
uma  frase  s�.  Outro que � magistral  em  poemas  curtos,
tamb�m,  e  em ironias, � M�rio Cesariny. H� muitos  outros
exemplos. E, insisto, nos poemas longos tamb�m h�, em  cada
trecho,  cada  frase,  a  s�ntese,  condensa��o,  precis�o,
exatid�o.
B - Voc� traduziu um livro com poemas de Ginsberg. Quais as
raz�es  da  resist�ncia � poesia Beat nos  Estados  Unidos?
Quais os ecos, no Brasil, decorrentes desta resist�ncia?
CW  - A resist�ncia � poesia Beat, aqui e l�, tem a ver com
antagonismos  mais gerais, entre o velho e o novo,  cultura
acad�mica e cultura rebelde, literatura de gabinete e vida.
A  cis�o entre uma cultura mais universit�ria, de scholars,
e outra anti-acad�mica persiste nos Estados Unidos. E aqui,
inclusive  com  bastante bobagem publicada sobre  Ginsberg,
Kerouac,  Burroughs, literatura Beat em geral,  confundindo
espontaneidade com falta de cultura. Escrevi bastante sobre
isso, em meu pref�cio � nova edi��o L&PM de Ginsberg
B  -  Hoje  os  universit�rios estudam  atrav�s  de  textos
xerocopiados. Qual a conseq��ncia de s� estudarmos  trechos
e n�o toda a obra de um escritor?
CW  - Utiliza��o de xeroc�pias no lugar de obras originais,
do  pr�prio livro, � crime, no sentido exato dado � palavra
pelo C�digo Penal. Professores e institui��es de ensino que
promovem   isso   s�o,   portanto,  criminosos,   al�m   de
irrespons�veis.  O efeito que a dissemina��o  da  xeroc�pia
provoca  no  mercado editorial � devastador, ao enfraquecer
editoras  e  livrarias.  Ensino de literatura  na  base  de
xeroc�pia  como sin�nimo de �pesquisa�, e mais as  tais  de
fichas  de  leitura, isso s�o coisas que est�o atrasando  o
pa�s,  ao  ajudarem a diplomar incultos. � dissemina��o  da
ignor�ncia.
B  -  A cr�tica � exercida nas faculdades. Ser� que n�o  h�
vida inteligente fora dos campos universit�rios? Como  �  a
rela��o jornalistas e universidade?
CW - A cr�tica � exercida nas faculdades??? Ser�? Para mim,
est�o  preocupados  em montar diagramas, aplicar  f�rmulas,
ensinar  a  preparar  fichas  de  leitura,  uma  s�rie   de
atividades  burocr�ticas  pouco  t�m  a  ver  com  cr�tica,
entendida   como  reflex�o  criativa.  H�   bastante   vida
inteligente dentro dos campi universit�rios, e  fora  deles
tamb�m.  Mas isso n�o chegou, ou tem dificuldade em  chegar
aos  curr�culos  e conte�dos das aulas, de  um  lado,  e  �
grande imprensa, de outro.
B  -  Num  est�  muito  cedo para uma  biografia?  Falo  da
anarconstru��o  de  nome �VOLTA�, sua recente  incurs�o  na
prosa?
CW  -  Gostei dessa express�o, anarconstru��o. Volta n�o  �
biografia.  � relato sobre a rela��o entre poesia  e  vida,
com bastante casos, momentos, ocasi�es, pessoais inclusive,
e  n�o  s�  da  hist�ria da literatura,  em  que  ambos  se
confundem, em que o texto liter�rio tem uma fun��o  m�gica,
produz realidade, inesperadamente faz acontecer.
B  -  Como  foi o trabalho na tradu��o da obra completa  de
Lautr�amont?  Como  mensurar sua import�ncia  relativizando
com as po�ticas em voga?
CW  - Em 1970, para o centen�rio de Lautr�amont, traduzi Os
Cantos de Maldoror. Em 1986, foi publicada uma nova edi��o.
E,  em 1997, uma obra completa de Lautr�amont (Iluminuras),
com  um pref�cio extenso. Acho que fui cada vez mais fundo.
Desta  �ltima  vez,  forcei mais no sentido  de  reproduzir
anacronismos, a imita��o par�dica, feita por Lautr�amont do
estilo  rebuscado  dos discursos acad�micos,  prega��es  de
oradores  religiosos, etc. N�o h� d�vidas,  hoje,  sobre  a
import�ncia  de Lautr�amont. Tanto � que a aceita��o  dessa
�ltima  edi��o, pela cr�tica, foi muito boa.  �  claro  que
traduzir Lautr�amont � uma experi�ncia enlouquecedora.
B - Qual a import�ncia do misticismo, da cabala etc. para a
sua obra? Periga voc� virar um mago exot�rico?
CW  -  Misticismo,  cabala, etc, bem  como  ocultismo,  t�m
afinidade  com  a poesia, pois pertencem �  ordem  do  n�o-
discursivo, do pensamento m�gico, anal�gico, m�tico.  Nunca
fui   praticante  regular,  e  meu  interesse   por   essas
disciplinas  e  campos  do  conhecimento  �  a  partir   da
literatura,  por suas conex�es, muito pouco estudadas  (por
causa,  principalmente, do vi�s cientificista  predominante
na  �rea  acad�mica), com movimentos  e  modos  de  cria��o
liter�ria.  Em Volta, eu deixo bem claro que  a  verdadeira
magia  est�  na  poesia. No final, h�  aquela  cena  (real,
aconteceu  mesmo)  de eu ir a uma esp�cie  de  encontro  de
ocultistas,  para  dar  uma  palestra  sobre  literatura  e
ocultismo, recebida com um completo sil�ncio. Sinal, a  meu
ver,  da ruptura de um di�logo que existia no come�o  deste
s�culo,  e  no  s�culo passado (Baudelaire foi,  inclusive,
parceiro de Elifas Levi, os simbolistas frequentavam Papus,
P�ladan  e  Guaita, quanto a Yeats, ent�o, nem falar,  idem
Pessoa), e que foi muito produtivo, enriquecedor para ambas
as partes, a liter�ria e a oculta.
B   -   �Poema   diagonal�   onde   conclui   �traduzir   o
indiz�vel/ontem horizonte/perplexo�. O que n�o pode faltar,
do ponto de vista te�rico, para que um poema lhe agrade?
CW  - Do ponto de vista te�rico? Um poema me agrada, e  at�
mais, me entusiasma, se tiver originalidade, ritmo, imagens
po�ticas,  for�a,  se me disser algo.  Teoria  vem  depois,
nenhuma cria��o liter�ria se justifica pela metalinguagem.
B  _  Um  poema pode alcan�ar a polifonia sem ser pela  via
�pica? Fale um pouco.
CW  -  No��es  como a de texto polif�nico, dial�gico,  tais
como  propostas  por Bakhtine, devem ser mais  aplicadas  �
narrativa  em  prosa. Tanto � que ele as apresentou  em  um
estudo  sobre Dostoievsky. Em poesia, s�o �bvias, tornam-se
chav�o:  n�o  existe poema se ele n�o for  poliss�mico,  de
muitas vozes, muitos sentidos.
B  -  �Neste  jardim de nega��es/onde a palavra  pede  mais
espa�o�  s�o dois versos do poema �VISITANTES 4�. A palavra
�  sempre  afirma��o? Como v� a metalinguagem, este  espa�o
para falar do poema dentro do poema?
CW  -  Quem  escreveu  muito bem  sobre  �poesia  cr�tica�,
refletindo  sobre a pr�pria poesia, sobre a  palavra,  como
caracter�stica da modernidade, foi Octavio Paz (no final de
El Arco y la Lira, de Signos em Rota��o, e em muitos outros
lugares). N�o h� mais literatura ing�nua, e o poeta pensa o
que   est�  fazendo,  e  traduz  poeticamente  o  que  est�
pensando. Isso n�o conflita com espontaneidade, automatismo
ps�quico, inspira��o. Enfim, a gente acaba mesmo escrevendo
sobre o que est� escrevendo - mas n�o exclusivamente.
B - Em �O V�RTICE DO P�NTANO� voc� escreveu que �Todo o rio
�  um  convite ao sobressalto, � morte atrav�s de chamas  e
venenos  terr�veis. Todo o rio � um convite ao  amor  entre
ra�zes  milenares  e  campos roxos sulcados  por  veios  de
cristal�. O poema l�rico deve ter ant�teses? �� o fogo  que
arde  sem se ver/� ferida que d�i e n�o se sente�. O que  �
moderno ou p�s?
CW  -  N�o  sei  se  �deve�. Sei que  ox�moros,  paradoxos,
ant�teses, nega��es do princ�pio da identidade, de que  uma
coisa  �  uma e outra � outra, podem pertencer �  ordem  do
po�tico. A cita��o que voc� fez mostra bem a universalidade
e a perman�ncia do po�tico, da grande cria��o, ao longo dos
s�culos.   Cam�es,   bem   lido,  �  nosso   contempor�neo.
Aprendemos a falar, portanto, a enxergar e a escrever,  com
ele.
B   -  Em  �A  PRINC�PIO�  voc�  enuncia  a  sua  lista  de
influ�ncias liter�rias. Quanto de voc� h� neste poema?
CW  - N�o � bem de influ�ncias liter�rias. Eram textos que,
de   certo   modo,  faziam  parte  da  minha  vida,   foram
constitutivos do que sou. Nem achava que ia publicar livros
de  poesia, na �poca em que me fascinei por Lorca,  Pessoa,
Breton,  Ginsberg, Jorge de Lima, etc. Repare como o  poema
faz  uma esp�cie de trajeto, desse bloco inicial com  nomes
de  autores,  encadeados, e, a seguir, refer�ncias  a  umas
tantas  coisas  que  aconteciam  em  apartamentos,  o   que
tom�vamos, e tal, mostrando o tr�nsito entre poesia e vida,
que viv�amos o que l�amos, e vice-versa.
B  -  �CHEGAR L�� tem um verso �Transformar o cotidiano  em
hip�rbole,  labirinto  onde  todos  se  perder�o  brincando
despreocupadamente�. O que o poema e o poeta devem  ter  de
l�dico?
CW - Tudo, se poss�vel. Pode, uma arte que n�o seja l�dica?
N�o-l�dico  �  ser caixa de banco 24 h por dia  em  vez  de
poeta.
B   -  Como  �  estar  presente  no  "Dicion�rio  Geral  do
Surrealismo"? Dizem que o Roberto Piva e voc� s�o os �nicos
brasileiros citados?
CW - O surrealista fichado, catalogado, de carteirinha �  o
S�rgio  Lima, que participou, se relacionava com Breton,  e
tem  trabalhado sistematicamente nesse campo, com uma  obra
monumental, em v�rios volumes, A aventura surrealista. Esse
Dictionnaire G�neral du Surrealisme et de ses environs,  de
Biro  e Passeron, com a colabora��o de outros intelectuais,
G�rard Legrand, Pierre Rivas, etc, informa que, ..em  1963,
jovens  artistas  e escritores, entre Paris  e  S�o  Paulo,
pr�ximos  aos  amigos  de  P�ret, tentam  formar  um  grupo
surrealista   (Lima,   Piva,  Willer)   ligado   ao   grupo
venezuelano  �Techo  de la Ballena�, mas  logo  dissolvido.
Fala  ainda  da  publica��o e exposi��o surrealista  depois
organizadas por S�rgio Lima. As reuni�es com cara de  grupo
surrealista aconteceram em 1963/64. Em 1965, a  revista  La
Br�che,  do  grupo  franc�s,  ent�o  dirigida  por  Breton,
resenhou  o  meu  Anota��es para um  apocalipse,  Amore  de
S�rgio Lima, e Paran�ia de Piva. H� mais autores, da d�cada
de   30   at�   hoje,  que  poderiam  ser  relacionados   a
surrealismo,  definindo com clareza quais as  rela��es,  os
v�nculos.  Mas quase ningu�m se preocupou com isso,  exceto
S�rgio   e,  no  contexto  da  literatura  ibero-americana,
Floriano Martins.
B  -  Voc�  �  respons�vel pela Coordenadoria  de  Forma��o
Cultural  da Secretaria de Cultura da cidade de S�o  Paulo.
Qual o trabalho realiza no momento de vagas t�o magras?
CW - Mesmo com as vacas perdendo peso, reduzindo a produ��o
de  leite  e  carne, respondo diretamente pelas  s�ries  de
cursos de inicia��o � cultura, Primeiros Passos, nove a dez
por  m�s,  alguns  com  mais  de  cem  inscritos;  oficinas
liter�rias  todo dia; ciclos como Rebeldes e Malditos,  com
palestras,  encena��es, dramatiza��es; Poesia e Prosa,  com
poetas  falando  sobre  prosa e  prosadores  sobre  poesia;
outros eventos e atividades, semin�rios, mesas e palestras.
Em  outubro,  teremos, se tudo der certo, um semin�rio  on-
line,  sobre  literatura e internet.  Ano  que  vem,  quero
voltar  a  promover apresenta��es p�blicas de poetas.  Tudo
isso,  com o apoio entusi�stico do secret�rio Konder. Verba
� pequena, mas, planejando com cuidado, d� para fazer muita
coisa.  Pior  do  que  falta de recursos  s�o  dificuldades
burocr�ticas,   o  engessamento,  excesso   de   formalismo
jur�dico  nos �rg�os culturais p�blicos. Isso  atrasa,  faz
perder  tempo  com  bobagens  e  inutilidades.  Todo  mundo
reclama,  mas ningu�m parece capaz de promover  reformas  e
mudan�as   administrativas  e  jur�dicas  que  efetivamente
melhorem   o   desempenho  do  Estado.  Falta  de   verbas,
normalmente,   �  justificativa  para  inefici�ncia,   para
burocrata  n�o fazer nada e ainda tentar impedir os  outros
de trabalhar.
B - Quais os endere�os, as URL mais freq�entadas, por voc�,
na internet?
CW  -  Abro,  com  regularidade, sites liter�rios  do  tipo
Jornal de Poesia, Blocos, e v�rios outros, para ver  o  que
h�  de novo. Fa�o buscas, localizo sites sobre autores  que
me  interessam.  A impress�o que tenho �  que  nem  comecei
verdadeiramente,   a   trafegar   pela    net.    �    algo
assustadoramente infinito, um Aleph ou biblioteca  borgeana
de tudo, um mundo paralelo.
B - Qual o papel do escritor na sociedade?
CW  -  Acho  que  muita coisa j� foi dita e  escrita  sobre
escritor  e sociedade, inclusive antenas da ra�a de  Pound,
tornar  mais  puras as palavras da tribo de Mallarm�,  etc,
para  que eu tenha algo a acrescentar, al�m do que j� disse
nas respostas anteriores.
 
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