Entrevista com Claudio Daniel
Claudio Daniel nasceu na cidade de S�o Paulo,
em 1962. Estudou Jornalismo na Faculdade C�sper
L�bero, e trabalhou como rep�rter e redator
free-lancer na Folha de S. Paulo. Atuou tamb�m
na Editora Abril e na Nova Cultural. Em 1989,
criou com um grupo de amigos a revista Gaia,
dedicada a assuntos culturais. Publicou dois
livros de poemas: Sutra (edi��o do autor, 1992)
e Yum� (Ci�ncia do Acidente, 1999). Traduziu
autores como Rimbaud, Quevedo, Huidobro, entre
outros, e publicou ensaios sobre a poesia
latino-americana do s�culo XX. Colaborou em
diversas revistas e jornais liter�rios: Cavalo
Azul (SP), 34 Letras (RJ), Bric a Brac (DF),
Dimens�o (MG), CULT (SP), Medusa (PR) e no
Suplemento Liter�rio de Minas Gerais. Publicou
tamb�m em v�rias revistas estrangeiras, entre
elas Tercer Milenio (EUA), Serta (Espanha), Ts�-
ts� (Argentina) e Doc(k)s a lire (Fran�a).
Na Internet, seus poemas podem ser acessados no
site Popbox, http://users.sti.com.br/efres
Atualmente, Claudio est� trabalhando em dois
livros: A sombra do leopardo, sua terceira
colet�nea po�tica, e Geometria da �gua, com
tradu��es de Jos� Kozer. O autor reside em S�o
Paulo com sua mulher, Regina, com quem vive h�
dez anos.
Quando voc� come�ou a se interessar pela
poesia? Quais foram as sensa��es do primeiros
contato?
� A poesia vem das palavras, mas � alguma coisa
al�m de sons e conceitos. Talvez venha de uma
zona escura entre a sensa��o e o pensamento.
Algo que se nutre dos nomes e das formas, dos
ritmos e das cores. S� posso dizer que por tr�s
de toda defini��o est� um gozo animal, uma
m�sica estranha, um sabor de massala e uma
ascese. N�o sei dizer quando come�ou, com
quantos anos corri atr�s do coelho de Alice.
Sei que, quando crian�a, uma de minhas
aventuras secretas era a de entrar, sozinho, na
biblioteca de meu pai: eu trancava a porta,
acendia o seu cachimbo italiano e folheava os
volumes de capa dura. Foi assim que descobri
esse rosebud que � O corvo, de Edgar Allan Poe.
A leitura desse texto nervoso, met�lico, foi um
choque. As palavras tinham m�sica. Elas
cantavam: �... quem te trouxe a meus umbrais, /
A este luto e este degredo, e esta noite e este
segredo / A esta casa de �nsia e medo...�. O
poema provocou rea��es f�sicas em mim, algo que
n�o sei descrever. Depois, li as Flores do mal,
de Baudelaire: �Uma ilha pregui�osa e molenga e
sem dono / Em que h� �rvores ideais e frutos
saborosos; / Homens de corpos nus, finos e
vigorosos, / Mulheres cujo olhar tem franqueza
e abandono�. Aquilo eram palavras. Mas eu
sentia o sabor, o cheiro, o calor t�ctil de
cada s�laba, lendo em voz alta, com pausas e
�nfases. Depois, vieram outros dem�nios
familiares: Rimbaud, Mallarm�, Val�ry. Descobri
com fervor William Blake, com suas Can��es da
experi�ncia; Trakl, com Sebasti�o em sonho;
Rilke, com os Novos poemas. Vieram tamb�m
Hopkins, Yeats, Celan... a Semana de Arte
Moderna, Murilo e Cabral. Eu j� estava tomando
ch� com o Chapeleiro Maluco, e em breve jogaria
cr�quete com a Rainha, em seu jardim. Escrevi
poemas antes dos quinze anos, mas n�o tenho
registro deles; o senso cr�tico falou mais alto
que a vaidade. Aos trinta, publiquei o primeiro
livro, Sutra, que j� apresentava temas que eu
iria retrabalhar em Yum�: o tempo e a
eternidade, a mem�ria, o sil�ncio, o sexo, a
aniquila��o. Assim, por exemplo, em As
d�divas:
os dons
da �gua e do vento
sil�ncio de tigres
� o branco
areais
a areia sem tempo
� o branco
prim�cias
da sublime
desmem�ria:
v�o de borboletas
Hoje, trabalho em um novo livro de poemas, A
sombra do leopardo, em que o tecido po�tico �
costurado como um jorro de breves met�foras.
Gostaria de destacar, dessa colet�nea o poema
Tocar os poros do verde:
O
verde,
sua pele
�cida. Tocar
os poros
do verde, florir
met�lico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, fais�es
de cegueira.
J�ias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas m�os tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e n�o h� mar,
nem p�o, nem p�gina.
Alucino-te
ao mirar-me
no sil�ncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacraias afogam-me
em tua l�grima
e se fecha a porta
esquerda. Toda palavra
me fere com sua cor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.
Este � um poema com versos breves. A concis�o
permite grande agilidade r�tmica. Qual � a
import�ncia do ritmo, para voc�? A pe�a inicia
com �O verde� e termina em �azul�, o que n�o �
coincid�ncia. O que � a cor na sua poesia?
� Tudo � um jogo entre o claro e o escuro, o som e a id�ia. A
m�sica d� sentido ao mist�rio, torna concreto o que � abstrato �
essa � a fun��o do ritmo. N�o se trata de ornamento, mas de um
princ�pio construtivo. A tens�o no poema, o choque entre luz e
sombra, alto e baixo, n�o se resolve na anarquia, no aleat�rio
que dissolve todo o efeito est�tico. � preciso haver unidade
dentro da variedade de ritmos, dentro da disson�ncia. Isso � o
que eu procuro em meus poemas. Tocar os poros do verde � uma pe�a
constru�da a partir de rela��es entre os sons e as cores, que
representam estados psicol�gicos: �Toda palavra / me fere com sua
cor. / Quando cessa / o canto, calados, / ouvimo-nos / em um
corte / azul�. A concis�o dos versos, al�m de dar movimento e
agilidade ao poema, concentra a express�o das met�foras. A
elipse, por sua vez, cumpre uma fun��o sonora e de sentido:
ocultar o objeto, para revelar a d�vida. Esse vazio desejado por
mim, essa aus�ncia de uma figura de contornos n�tidos, n�o �
apenas um recurso de estilo: forma e fundo s�o o mesmo, �amam-se,
odeiam-se, tulipas caem / na goela / do tempo�. Outro poema de
meu novo livro que gostaria de citar � O poeta ped�latra:
At�
a �ltima car�cia
do prazer at�pico, longe
dos seios est�reis �
plumas ou punhais, n�o
m�sculos enrijecidos
de basalto, suor de metal
libidinoso � assim os jaguares
mastigam iguanas de poli�ster
sob o sol. Por�m, a lenta
desapari��o do olhar
(estranha metamorfose)
faz o tempo esf�rico
ser menos do que o espa�o
indefinido pelo tato
� di�logo mudo
entre as m�os e o vazio.
(Fica o consolo das narinas
o odor � para ele �
t�o sweet love, sweet honey
de p�s fortes, grandes e sujos
e a voz das palavras, o mar
intermin�vel das vogais.)
O contraponto entre o jaguar e as iguanas de
poli�ster produz uma ant�tese entre o real e o
falso. Qual o lugar da realidade em seus
poemas? Qual a import�ncia da realidade para o
poeta?
� O tempo � algo abstrato, concebido pela
mente. O espa�o � percebido pela vis�o e, em
menor grau, pela audi��o e pelo tato. Tempo,
espa�o e movimento formam aquilo que imaginamos
ser a realidade. Para quem sofre de cegueira,
no entanto, as percep��es s�o diferentes: o
tempo � quase irreal, e as dist�ncias s� s�o
compreendidas com o aux�lio dos ouvidos e das
m�os. Quando dormimos, esquecemos quem somos, e
o que � o mundo; algo similar ocorre, talvez,
na loucura. No sono profundo, n�o h� percep��o
de formas; n�o h� altura, largura, volume ou
profundidade. E � prov�vel que, na morte, tais
no��es se desarticulem por completo. A
realidade, assim, � uma constru��o subjetiva,
pois depende da a��o dos sentidos e da mente.
Em nossa pr�pria consci�ncia cotidiana, as
coisas n�o s�o o que aparentam: nada �
est�tico, nada permanece igual a si mesmo, tudo
se altera, se transforma em outro, numa
cont�nua metamorfose. O que nos faz recordar, �
claro, de Ov�dio e dos disfarces de Zeus, que
se fez de cisne para seduzir Leda e de chuva de
ouro para amar D�nae. Tamb�m nos relatos
indianos, no Mahabharata, no Ram�yana, temos a
transfigura��o dos her�is divinos, como
Krishna, que assume a forma do universo. Tudo
isso parece fant�stico, mas acontece conosco
todo o tempo � com o nosso corpo, por exemplo.
As c�lulas nascem e morrem, a complei��o
muscular se altera ao longo dos anos, e tamb�m
a ossatura, a vitalidade dos �rg�os e a textura
da pele. At� os nossos pensamentos mudam. Essa
constante muta��o, ou vir-a-ser, fogo
heracl�tico, � a �nica coisa que n�o muda, na
mat�ria; � o �nico �real� que podemos
apreender. E os meus poemas, claro, refletem
essa eterna metamorfose, como em At� cinzas:
Talvez
p�tala, bailado
mudo, ard�ncia:
aqui
� onde a seda
inflama o azul
em amarelo
(fosse tingida
em vol�til p�rpura,
cicatriz esculpida
em outra voz).
Algo de felina,
ruidosa vol�pia
em seu desejo,
que se consome
at� cinzas.
O tempo esf�rico � o que acaba com a concep��o
de progresso?
� Sem d�vida. No Ocidente, desde o cristianismo, firmou-se a
id�ia de que a hist�ria � uma linha reta, evolutiva, da G�nese
at� o Apocalipse. Depois, tal princ�pio perdeu o sentido b�blico,
de hist�ria da salva��o, e ganhou outro significado, o de avan�o
econ�mico e tecnol�gico. Prefiro pensar no tempo como esfera, n�o
linha reta; como um sonho (yum�) ou jogo c�clico. Nesse sentido,
n�o acredito em evolu��o ou progresso, mas em sucessivas
muta��es; por�m, como as possibilidades combinat�rias s�o quase
infinitas, nesse I Ching ou caleidosc�pio ilimitado, temos uma
variedade de resultados que n�o pode ser calculada. A matem�tica
n�o seria poss�vel sem as no��es de zero e de infinito; a
filosofia tamb�m n�o, e a poesia dialoga com a id�ia e o n�mero.
Em meu poema Nagarjuna, digo:
Olho
peixe flor
t�o falange
pelicano
� pedra at�
morder
o verde
leopardo:
cego espa�o
para um galo
acender o ch�
de manteiga
e a sopa
de cevada.
Disse
Nagarjuna:
por tr�s
das treli�as,
o avesso
do sonho
(impalp�vel),
que n�o cessa.
O que a poesia tem em comum com a filosofia?
� A poesia � uma forma de pensamento. Quando o
poeta muda a linguagem, ele age sobre a
consci�ncia: mudar as rela��es entre as
palavras � alterar a nossa atitude junto �s
pessoas e ao mundo. Por que � assim? O idioma,
regido pela gram�tica, tem uma l�gica pr�pria,
que define n�o apenas a nossa forma de ler e
escrever, mas tamb�m o nosso modo de sentir,
pensar e agir. Todos n�s somos aristot�licos,
pelo uso que fazemos do idioma. Por�m, ao criar
outra l�gica verbal, outra sintaxe, diluindo e
alterando as fun��es normais de sujeito, a��o
verbal e objeto, o poeta cria uma nova vis�o de
mundo. Dos pensadores que tenho lido ao longo
dos anos, poucos me impressionaram tanto como
Schopenhauer, autor de obras maravilhosas: O
mundo como vontade e representa��o, Parerga e
Paralipomena, entre outras. Dediquei a ele um
poema, que leva o seu nome por t�tulo:
Breve,
a jornada
� �gua de nenhuma
fonte, gema
de extinta mina �
n�o mais que o fulgor
de vidros (cristaleira)
e o vi�o de madeira nova,
lua l�quida. O tempo
lacera o verde
nos olhos do gato,
lepra das flores, �cido
que corr�i toda cor ou pele
em escuro miasma,
peixes do nada.
Sim, voc� sempre soube:
este � um of�cio doloroso,
uma �pera ruidosa.
Por�m, tu foste o tigre.
A exist�ncia da morte, um fato que hoje n�o
preocupa tanto a filosofia, sempre foi uma
quest�o central em Plat�o, S�neca, Descartes,
Montaigne, Schopenhauer, porque ela p�e em
xeque todas as nossas certezas. Em nosso
�ntimo, mesmo se formos ateus, existe a
esperan�a de uma vida infinita, de algo que
sobreviva �s muta��es. Esse algo pode ou n�o
ser um Deus interior (Atman); talvez seja uma
Vacuidade, Nirvana budista, ou algo que jamais
saberemos, ou sempre soubemos. De todo modo, se
�la vida es sue�o�, tem de haver Aquele que
sonha este sonho.
Voc� � um poeta dionis�aco? Como lida com as
sensa��es e as percep��es? Como v� o mundo?
Como � o mundo no filtro que � o poema?
� Tudo o que sabemos e sentimos vem de nosso
contato com as palavras e as coisas. Quer
dizer, da experi�ncia sensorial e intelectual.
O poema reflete tudo isso, nama-rupa. Por�m, o
texto po�tico n�o � um simples reflexo ou eco
do �real�, mas um ente em si, uma coisa, com
sua l�gica interna, estrutural. O poema tem sua
pr�pria fauna e flora, como queria Huidobro.
N�o acredito na inspira��o, nem na �escrita
autom�tica� dos surrealistas, para mim uma
desculpa psicol�gica para justificar maus
versos. Concordo com Poe, que em seu ensaio O
princ�pio po�tico afirma que a imagina��o �
combinat�ria: ela faz permutas e simbioses com
os elementos de nossa mem�ria, que vieram de
leituras e viv�ncias. O trabalho do poeta �
coisificar as impress�es que v�m desse vasto
reposit�rio de lembran�as e obsess�es. Ou, como
diz Poe, nessa memor�vel senten�a: poesia � a
�constru��o precisa do impreciso�. Com
Mallarm�, aprendi a buscar "o verso que, de
diversos voc�bulos, refaz uma palavra total,
nova, estranha � l�ngua e como que
encantat�ria�. Apolo e Dioniso, diz a Sibila,
s�o duas m�scaras de um deus sem rosto. Onde
come�a em mim o exaltado, o delirante, e onde
termina o cerebral, o ge�metra? N�o sei bem o
que dizer. Sei que a linguagem de meus poemas �
planejada; nenhuma palavra � colocada ao acaso.
O ato de escrever, por�m, � compulsivo; sinto
um �xtase de bacante, de sult�o com odaliscas,
de santo levitando sobre as ondas.
O camale�o alucinado de nossa �poca acena
em duas dire��es: a primeira, alvorada, jardim
de cerejeiras, manga fatiada num prato; a
outra, glacial, cabelos de Medusa, escorpi�o
mordendo a pr�pria cauda. Dizendo de outro
modo: fico animado com as chances de um novo
humanismo, que vem do encontro entre a ecologia
profunda, o pacifismo, a nova f�sica e o
budismo tibetano. Surge desse caldeir�o,
aquecido por uma nova safra de intelectuais, a
hip�tese de que a Terra � a nossa �nica p�tria,
sem distin��es entre etnias, credos e
fronteiras. Por outro lado, vemos ressurgir a
f�nix m�rbida do racismo, do fascismo, das
guerras coloniais; e vemos a rapinagem dos
grandes monop�lios, que tentam impor um
�monote�smo de mercado�, na frase feliz de
Roger Garaudy. Os EUA se arrogam em ser a
pol�cia do mundo, e um resultado dessa
prepot�ncia foram os ataques brutais da OTAN �
Iugosl�via, que motivaram meu poema Olhar atr�s
do p�ssego:
I
Olhar atr�s do p�ssego:
p�lpebras, m�os
que se tocam
esse canto, algo entre
a garganta
e a coluna cervical.
II
Malva t�nica, �gua verde �gua
jasmim � nome de flor
a pele (p�tala)
brutalizada em grafite.
�spero � o tecido da voz, modulada
em pontas de agulha.
III
Todo lugar � aqui, o dentro se expande
metal canta metal, flora��es
de l�minas, e o tempo
se desfaz. (Ela sorri, manqueja
e traz o cego ala�de
decorado.)
IV
Rosbife, queijo de cabra, presunto
vinho serbo, esterco ou nada,
uns tocam violoncelo,
�guias bic�falas, os turcos
/se foram com o crescente
em ondas: celebra-se
o rito bizantino, liturgia em esloveno.
V
Campa, camp�nula, campan�rio,
verde-malva em volta, pinheiros
o lago, a mo�a (trigo, centeio)
ainda sorri: � esmeralda, mas
logo garrafadas, tumulto
de pontes que desabam.
VI
Aqui � a esta��o do olhar: toda
/hist�ria � impureza.
Alvura, escarlate, azul-piscina,
o abismo � sem cor,
�blis que te abisma, espelho
(desluzido) �mbar. O tempo � ru�na;
onde cessa, � o canto.
�Navegar � preciso viver n�o � preciso�?
� Fernando Pessoa desejou escrever os Lus�adas
da Hora Morta, o �pico da twilight zone. O
resultado � esse belo e estranho livro,
Mensagem. Aqui, o poeta adotou o lema dos
antigos navegantes portugueses: �Navegar �
preciso, viver n�o � preciso�. Essa legenda � a
exalta��o do her�i tr�gico, que renuncia ao
gozo da vida �f�til, cotidiana, tribut�vel�
para mergulhar na eternidade. O poeta fez a
den�ncia do homo faber, do homem oco e
empalhado, manequim ambulante de shopping
centers, ao qual contrap�e a figura de Dom
Sebasti�o, o arqu�tipo do santo guerreiro. Esse
poem�rio aleg�rico, em sua riqueza de s�mbolos,
permite muitas e diferentes leituras.
Para mim, � uma met�fora de gritante
atualidade. N�s perdemos a dimens�o do sagrado,
as mitologias, e trocamos os valores morais
pela tabela de pre�os. Nos afastamos do
Mist�rio, e sem ele n�o � poss�vel a unidade
com o Todo. Em outras palavras, n�o existe
�tica sem metaf�sica, e n�s ficamos �rf�os da
Divindade. Hoje, s� se discute economia de
mercado, tecnologia, dicas de sa�de e beleza:
como Fausto, seduzido por Mefisto, trocamos
toda a cultura humana por uma pobre vis�o de
mundo que nos reduz a rob�s. Nesse sentido, a
voz de Pessoa � quase prof�tica, oracular:
precisamos repensar nossos valores e modo de
vida. Ser� que n�o fizemos o pacto com o Cujo,
o Tinhoso, o N�o-sei-que-diga? Sem a busca do
sentido mais profundo, a comunh�o com o
sagrado, o homem � apenas �uma besta sadia, /
cad�ver adiado que procria�. Fernando Pessoa
foi um poeta-vidente, dos poucos que fazem
sentido hoje, na Era da Banalidade.
Quem existe, como poeta, em seu interior? Que
vozes po�ticas escuta?
� A poesia vem da poesia, disse Jorge Luis Borges. Vem dos
livros e autores que lemos. � a leitura e a nossa viv�ncia no
mundo que definem a nossa rela��o com o idioma e a linguagem.
Hoje, ou�o o eco de muitas vozes, um imenso coral; e essa
multid�o de timbres, sem d�vida, vem inseminando a minha cria��o
po�tica. Ou�o em mim um anacoreta japon�s, que viajou com Bash�
nas sendas de Oku; um trovador proven�al, comparsa de Arnaut,
amante de belas damas, da l�rica imprevista e dos duelos; um
poeta barroco, vizinho de Don Luis de G�ngora, para quem as boas
met�foras n�o s�o menos complexas do que as catedrais; um
rom�ntico, por certo, amigo de Keats, Hoelderlin, Sous�ndrade; um
simbolista franc�s, que fumou �pio com Rimbaud num caf� imundo de
Paris; um modernista avesso ao moderno, como Eliot e Pound, para
quem a inven��o verbal � um modo de zombar da id�ia de progresso;
e um cultor de enigmas e labirintos, como Borges. Por certo, h�
muitas outras vozes � sou uma esp�cie de m�dium dos autores que
li. Sei que devo muito a Cruz e Souza, Ern�ni Rosas, Augusto dos
Anjos; a Oswald de Andrade, Murilo Mendes e Jo�o Cabral; a
Augusto e Haroldo de Campos e Paulo Leminski. Por certo, estou
sendo injusto; mas n�o seria poss�vel citar todos os poetas a
quem amei aqui. Devo acrescentar, fora das refer�ncias
liter�rias, a m�sica de Richard Wagner, em especial suas �ltimas
obras, Trist�o e Isolda, O Anel dos Niebelungos, Parsifal, que
despertam em mim um j�bilo selvagem, quase sexual. � a m�sica do
para�so, ou pelo menos do �meu� para�so, nesse inferno de gralhas
desafinadas que nos atormentam, dia e noite, nos meios de
comunica��o.
Como est� a poesia brasileira? Concorda com a
mat�ria publicada na revista Veja?
� A nova poesia brasileira, produzida nos anos
90, possui autores de primeira qualidade, como
Carlito Azevedo, Claudia Roquette-Pinto,
Ademir Assun��o, Angela de Campos, Ronald
Polito e Jussara Salazar. Poucas vezes, em
nossa literatura, tivemos um conjunto t�o
expressivo de poetas. Infelizmente, essa
riqueza � ignorada pelos cadernos culturais da
imprensa di�ria, que preferem noticiar
amenidades sobre o show business americano,
novelas de televis�o ou grupos musicais de
valor duvidoso. Vivemos sob o imp�rio da
mediocridade, que s� l� obras de auto-ajuda,
romances sentimentais ou manuais de direito e
economia. A mat�ria publicada em Veja apenas
ilustra a mis�ria de nosso jornalismo
�cultural�. A melhor poesia brasileira tem sido
publicada em revistas de pequena circula��o,
mas de alta qualidade, como Dimens�o, Medusa,
Inimigo Rumor, Monturo e no Suplemento
Liter�rio de Minas Gerais. � nessas
publica��es, e n�o na imprensa �oficial�, que
vamos encontrar a corrente sang��nea que
alimenta nossa literatura.
Por outro lado, as grandes editoras n�o se
arriscam a publicar os novos poetas, que s�o
obrigados a pagar do pr�prio bolso a impress�o
de seus livros, cuja distribui��o em livrarias
deixa um pouco a desejar. Como diria aquele
s�sia russo e mal-humorado de Verlaine, o que
fazer? Em minha opini�o, cabe aos pr�prios
poetas a tarefa de divulgar sua produ��o. Um
caminho l�gico para isso seria a cria��o de uma
revista especializada em poesia, peri�dica e de
circula��o nacional, distribu�da em livrarias e
bancas de jornal, que espelhasse o que se faz
hoje de melhor em nossas letras. Uma revista
aberta � inven��o, � pesquisa de linguagem, que
fosse a caixa de resson�ncia do novo. A cr�tica
s�ria e qualificada � exercida hoje por quem
faz poesia, por quem que est� atento aos
processos de cria��o, e n�o por jornalistas que
v�em o poeta como uma esp�cie de planta ex�tica
africana ou lib�lula rara de Madagascar.
Qual a utilidade da Internet? Quais sites lhe
interessam?
� Se a poesia do s�culo XX teve influ�ncia do
jazz, das artes pl�sticas e do cinema, a do
novo mil�nio, com certeza, ser� marcada pelo
computador, que permite integrar som, imagem e
movimento. O espa�o cibern�tico, al�m disso,
possibilita a edi��o de �livros� eletr�nicos
interativos, realizando a profecia de Mallarm�.
O que n�o representa a morte do livro impresso,
a meu ver, mas amplia as possibilidades de
veicula��o da poesia. A Internet significa a
supera��o das fronteiras nacionais. Hoje, �
poss�vel a troca de informa��es entre
diferentes pontos do planeta numa velocidade
nunca vista. Isto fortalece as chances de um
universalismo, a afirma��o de uma cultura
humana pluralista, rica e diversificada, o que
� diferente da globaliza��o, que significa
apenas a domina��o econ�mica dos grandes
monop�lios. Creio que o caminho para evitarmos
o desastre � o da integra��o: somos da mesma
ra�a, habitamos o mesmo planeta, temos os
mesmos direitos e responsabilidades. A Internet
n�o tem apenas import�ncia para a informa��o
est�tica, mas para a transforma��o pol�tica:
agora, n�o podemos mais ficar indiferentes �
fome na �frica, ao genoc�dio em Timor Leste ou
� ocupa��o do Tibete pela ditadura chinesa.
Podemos nos manifestar, boicotar, pressionar
governos, exercer a nossa cidadania planet�ria,
indo al�m dos limites de fronteira. Eu e minha
mulher, Regina, somos adeptos dessa guerrilha
tecnol�gica. Dos sites que visito, indicaria
tr�s: Popbox, editada pelo excelente poeta
Elson Fr�es, com p�ginas de tradu��o, poesia
visual e sonora; Caqui, especializado em
haicais; e o Jornal de Poesia, editado a duras
penas pelo Soares Feitosa, que � uma verdadeira
biblioteca virtual.
O espelho e as coisas
OLHO-de-virgo, barriga-de-peixe, dentes-de-
le�o: palavras s�o reflexos. Habitei no espelho
e comi serragem, vidro mo�do, trapos de jornal;
e copulei com os rel�gios de pulso, com as
navalhas, com fechaduras. Sobre a mesa da sala,
entre as vogais dispersas do alfabeto,
estilha�os de ampolas para abolir a id�ia do
tempo. Os vermes saem pelo buraco da agulha, a
palavra jade � pus, a palavra jalde � cuspe. A
palavra janga est� nua, vestida de alarme. As
ma��s enlouquecem. O verde enfurece as conchas
e a lesma pensa na �rvore da palavra despida
que sonha. Tudo s�o nomes e formas. L�minas
cortam os fios desatados de �gua estagnada. H�
uma pra�a onde comprei p�ras ou figos, n�o sei.
Onde ouvi a menina dizer eibishu�. A lua pisca
um olho para a jovem parca, ela � cega e surda,
e come entulho no banco da pra�a. Sua voz
arisca, bruta, tantaliza: fio de arame tenso,
buraco de agulha, cano de pistola. Tudo s�o
palavras, e palavras s�o coisas. Que n�o
permanecem. Tudo queima, e o sol vegetal � a
urina de um c�o que arde em vermelho. A poesia
pode dizer o tempo que escorrega de seus dedos?
A poesia diz tudo e n�o quer dizer nada e seu
nome se escreve no vazio da p�gina, s�tio de
poss�veis reflexos. Tudo s�o simulacros,
pegadas no limo do nada. Todavia, o velho coxo
sangrado disputa comida com o c�o. A poesia
pode andar de bicicleta, deslancha no mar azul,
onda em castelhano se diz ola, nuvem em franc�s
se diz nuage. Ela pode ser escrita em pele
viva, em algod�o, no suor do Marrocos, no
violoncelo de S�o Petersburgo, numa bodega de
La Habana. Por�m, a tesoura corta tudo em
peda�os. Permanece uma sombra, um eco de
ruidoso sil�ncio. Que o espelho captura e
multiplica em um n�mero incalcul�vel de
reflexos.
<==