Entrevista com Claudio Daniel
       

                                
       
       Claudio  Daniel nasceu na cidade de  S�o  Paulo,
       em  1962. Estudou Jornalismo na Faculdade C�sper
       L�bero,  e  trabalhou como  rep�rter  e  redator
       free-lancer  na Folha de S. Paulo. Atuou  tamb�m
       na  Editora Abril e na Nova Cultural.  Em  1989,
       criou  com  um  grupo de amigos a revista  Gaia,
       dedicada  a  assuntos culturais.  Publicou  dois
       livros de poemas: Sutra (edi��o do autor,  1992)
       e  Yum�  (Ci�ncia  do Acidente, 1999).  Traduziu
       autores  como Rimbaud, Quevedo, Huidobro,  entre
       outros,  e  publicou  ensaios  sobre  a   poesia
       latino-americana  do  s�culo  XX.  Colaborou  em
       diversas  revistas e jornais liter�rios:  Cavalo
       Azul  (SP),  34 Letras (RJ), Bric a  Brac  (DF),
       Dimens�o  (MG),  CULT (SP),  Medusa  (PR)  e  no
       Suplemento  Liter�rio de Minas Gerais.  Publicou
       tamb�m  em  v�rias revistas estrangeiras,  entre
       elas Tercer Milenio (EUA), Serta (Espanha), Ts�-
       ts� (Argentina) e Doc(k)s a lire (Fran�a).
       Na  Internet, seus poemas podem ser acessados no
       site    Popbox,    http://users.sti.com.br/efres
       Atualmente,  Claudio  est� trabalhando  em  dois
       livros:  A  sombra  do  leopardo,  sua  terceira
       colet�nea  po�tica,  e Geometria  da  �gua,  com
       tradu��es de Jos� Kozer. O autor reside  em  S�o
       Paulo  com sua mulher, Regina, com quem vive  h�
       dez anos.
       
       
       Quando   voc�  come�ou  a  se  interessar   pela
       poesia?  Quais foram as sensa��es  do  primeiros
       contato?
       �  A poesia vem das palavras, mas � alguma coisa
       al�m  de sons e conceitos. Talvez venha  de  uma
       zona  escura  entre a sensa��o e  o  pensamento.
       Algo  que  se nutre dos nomes e das formas,  dos
       ritmos e das cores. S� posso dizer que por  tr�s
       de  toda  defini��o  est� um  gozo  animal,  uma
       m�sica  estranha,  um sabor  de  massala  e  uma
       ascese.  N�o  sei  dizer  quando  come�ou,   com
       quantos  anos  corri atr�s do coelho  de  Alice.
       Sei   que,   quando  crian�a,  uma   de   minhas
       aventuras secretas era a de entrar, sozinho,  na
       biblioteca  de  meu  pai: eu trancava  a  porta,
       acendia  o  seu cachimbo italiano e folheava  os
       volumes  de  capa dura. Foi assim  que  descobri
       esse  rosebud que � O corvo, de Edgar Allan Poe.
       A  leitura desse texto nervoso, met�lico, foi um
       choque.   As   palavras  tinham   m�sica.   Elas
       cantavam: �... quem te trouxe a meus umbrais,  /
       A  este luto e este degredo, e esta noite e este
       segredo  /  A  esta casa de �nsia e medo...�.  O
       poema provocou rea��es f�sicas em mim, algo  que
       n�o  sei descrever. Depois, li as Flores do mal,
       de Baudelaire: �Uma ilha pregui�osa e molenga  e
       sem  dono  / Em que h� �rvores ideais  e  frutos
       saborosos;  /  Homens  de corpos  nus,  finos  e
       vigorosos,  / Mulheres cujo olhar tem  franqueza
       e   abandono�.  Aquilo  eram  palavras.  Mas  eu
       sentia  o  sabor,  o cheiro, o calor  t�ctil  de
       cada  s�laba,  lendo em voz alta, com  pausas  e
       �nfases.    Depois,   vieram   outros   dem�nios
       familiares: Rimbaud, Mallarm�, Val�ry.  Descobri
       com  fervor  William Blake, com suas Can��es  da
       experi�ncia;  Trakl,  com  Sebasti�o  em  sonho;
       Rilke,   com  os  Novos  poemas.  Vieram  tamb�m
       Hopkins,  Yeats,  Celan...  a  Semana  de   Arte
       Moderna,  Murilo e Cabral. Eu j� estava  tomando
       ch�  com o Chapeleiro Maluco, e em breve jogaria
       cr�quete  com  a Rainha, em seu jardim.  Escrevi
       poemas  antes  dos quinze anos,  mas  n�o  tenho
       registro deles; o senso cr�tico falou mais  alto
       que  a vaidade. Aos trinta, publiquei o primeiro
       livro,  Sutra, que j� apresentava temas  que  eu
       iria   retrabalhar  em  Yum�:  o   tempo   e   a
       eternidade,  a mem�ria, o sil�ncio,  o  sexo,  a
       aniquila��o.   Assim,  por   exemplo,   em    As
       d�divas:
       
                       os dons
                       da �gua e do vento
                       sil�ncio de tigres
                       � o branco
                       areais
                       a areia sem tempo
                       � o branco
                       prim�cias
                       da sublime
                       desmem�ria:
                       v�o de borboletas
       
         Hoje,  trabalho em um novo livro de poemas,  A
         sombra do leopardo, em que o tecido po�tico  �
         costurado  como um jorro de breves  met�foras.
         Gostaria de destacar, dessa colet�nea o  poema
         Tocar os poros do verde:
       
       
                       O
                       verde,
                       sua pele
                       �cida. Tocar
                       os poros
                       do verde, florir
                       met�lico. Ouvir
                       sua voz de asa
                       e sombra.
                       Olhos, fais�es
                       de cegueira.
                       J�ias de irada
                       divindade.
                       Abelhas e lagostas
                       amam-se, odeiam-se,
                       tulipas caem
                       na goela
                       do tempo.
                       Tuas m�os tateiam
                       a nervura imprecisa
                       da cicatriz
                       e n�o h� mar,
                       nem p�o, nem p�gina.
                       Alucino-te
                       ao mirar-me
                       no sil�ncio
                       de uma laranja
                       quadrada.
                       Aqui, nada mais viceja.
                       Lacraias afogam-me
                       em tua l�grima
                       e se fecha a porta
                       esquerda. Toda palavra
                       me fere com sua cor.
                       Quando cessa
                       o canto, calados,
                       ouvimo-nos
                       em um corte
                       azul.
                      
       
       Este  �  um poema com versos breves. A  concis�o
       permite  grande  agilidade  r�tmica.  Qual  �  a
       import�ncia  do ritmo, para voc�? A pe�a  inicia
       com  �O verde� e termina em �azul�, o que n�o  �
       coincid�ncia. O que � a cor na sua poesia?
       
       
       �    Tudo � um jogo entre o claro e o escuro, o som e a id�ia. A
       m�sica d� sentido ao mist�rio, torna concreto o que � abstrato �
       essa � a fun��o do ritmo. N�o se trata de ornamento, mas de um
       princ�pio construtivo. A tens�o no poema, o choque entre luz e
       sombra, alto e baixo, n�o se resolve na anarquia, no aleat�rio
       que dissolve todo o efeito est�tico. � preciso haver unidade
       dentro da variedade de ritmos, dentro da disson�ncia. Isso � o
       que eu procuro em meus poemas. Tocar os poros do verde � uma pe�a
       constru�da a partir de rela��es entre os sons e as cores, que
       representam estados psicol�gicos: �Toda palavra / me fere com sua
       cor. / Quando cessa / o canto, calados, / ouvimo-nos / em um
       corte / azul�. A concis�o dos versos, al�m de dar movimento e
       agilidade ao poema, concentra a express�o das met�foras. A
       elipse, por sua vez, cumpre uma fun��o sonora e de sentido:
       ocultar o objeto, para revelar a d�vida. Esse vazio desejado por
       mim, essa aus�ncia de uma figura de contornos n�tidos, n�o �
       apenas um recurso de estilo: forma e fundo s�o o mesmo, �amam-se,
       odeiam-se, tulipas caem / na goela / do tempo�. Outro poema de
       meu novo livro que gostaria de citar � O poeta ped�latra:
       
       
                       At�
                       a �ltima car�cia
                       do prazer at�pico, longe
                       dos seios est�reis �
                       plumas ou punhais, n�o
                       m�sculos enrijecidos
                       de basalto, suor de metal
                       libidinoso � assim os jaguares
                       mastigam iguanas de poli�ster
                       sob o sol. Por�m, a lenta
                       desapari��o do olhar
                       (estranha metamorfose)
                       faz o tempo esf�rico
                       ser menos do que o espa�o
                       indefinido pelo tato
                       � di�logo mudo
                       entre as m�os e o vazio.
                       (Fica o consolo das narinas
                       o odor � para ele �
                       t�o sweet love, sweet honey
                       de p�s fortes, grandes e sujos
                       e a voz das palavras, o mar
                       intermin�vel das vogais.)
       
       
       O  contraponto  entre o jaguar e as  iguanas  de
       poli�ster produz uma ant�tese entre o real  e  o
       falso.  Qual  o  lugar  da  realidade  em   seus
       poemas? Qual a import�ncia da realidade  para  o
       poeta?
       
       
       �  O  tempo  �  algo  abstrato,  concebido  pela
       mente.  O  espa�o � percebido pela vis�o  e,  em
       menor  grau,  pela audi��o e pelo  tato.  Tempo,
       espa�o  e movimento formam aquilo que imaginamos
       ser  a  realidade. Para quem sofre de  cegueira,
       no  entanto,  as  percep��es s�o  diferentes:  o
       tempo  �  quase irreal, e as dist�ncias  s�  s�o
       compreendidas  com o aux�lio dos ouvidos  e  das
       m�os. Quando dormimos, esquecemos quem somos,  e
       o  que  �  o mundo; algo similar ocorre, talvez,
       na  loucura. No sono profundo, n�o h�  percep��o
       de  formas;  n�o h� altura, largura,  volume  ou
       profundidade. E � prov�vel que, na  morte,  tais
       no��es   se   desarticulem   por   completo.   A
       realidade,  assim,  � uma constru��o  subjetiva,
       pois  depende da a��o dos sentidos e  da  mente.
       Em   nossa  pr�pria  consci�ncia  cotidiana,  as
       coisas   n�o  s�o  o  que  aparentam:   nada   �
       est�tico, nada permanece igual a si mesmo,  tudo
       se   altera,   se  transforma  em  outro,   numa
       cont�nua metamorfose. O que nos faz recordar,  �
       claro,  de  Ov�dio e dos disfarces de Zeus,  que
       se  fez de cisne para seduzir Leda e de chuva de
       ouro   para  amar  D�nae.  Tamb�m  nos   relatos
       indianos, no Mahabharata, no Ram�yana,  temos  a
       transfigura��o   dos   her�is   divinos,    como
       Krishna,  que  assume a forma do universo.  Tudo
       isso  parece  fant�stico, mas  acontece  conosco
       todo  o  tempo � com o nosso corpo, por exemplo.
       As   c�lulas   nascem  e  morrem,  a  complei��o
       muscular  se altera ao longo dos anos, e  tamb�m
       a  ossatura, a vitalidade dos �rg�os e a textura
       da  pele. At� os nossos pensamentos mudam.  Essa
       constante    muta��o,   ou    vir-a-ser,    fogo
       heracl�tico,  � a �nica coisa que n�o  muda,  na
       mat�ria;   �   o   �nico  �real�   que   podemos
       apreender.  E  os  meus poemas, claro,  refletem
       essa eterna metamorfose, como em At� cinzas:
       
       
                        Talvez
                        p�tala, bailado
                        mudo, ard�ncia:
                        aqui
                        � onde a seda
                        inflama o azul
                        em amarelo
                        (fosse tingida
                        em vol�til p�rpura,
                        cicatriz esculpida
                        em outra voz).
                        Algo de felina,
                        ruidosa vol�pia
                        em seu desejo,
                        que se consome
                        at� cinzas.
       
       
       O  tempo  esf�rico � o que acaba com a concep��o
       de progresso?
       
       
       �    Sem d�vida. No Ocidente, desde o cristianismo, firmou-se a
       id�ia de que a hist�ria � uma linha reta, evolutiva, da G�nese
       at� o Apocalipse. Depois, tal princ�pio perdeu o sentido b�blico,
       de hist�ria da salva��o, e ganhou outro significado, o de avan�o
       econ�mico e tecnol�gico. Prefiro pensar no tempo como esfera, n�o
       linha reta; como um sonho (yum�) ou jogo c�clico. Nesse sentido,
       n�o acredito em evolu��o ou progresso, mas em sucessivas
       muta��es; por�m, como as possibilidades combinat�rias s�o quase
       infinitas, nesse I Ching ou caleidosc�pio ilimitado, temos uma
       variedade de resultados que n�o pode ser calculada. A matem�tica
       n�o seria poss�vel sem as no��es de zero e de infinito; a
       filosofia tamb�m n�o, e a poesia dialoga com a id�ia e o n�mero.
       Em meu poema Nagarjuna, digo:
       
                       Olho
                       peixe flor
                       t�o falange
                       pelicano
                       � pedra at�
                       morder
                       o verde
                       leopardo:
                       cego espa�o
                       para um galo
                       acender o ch�
                       de manteiga
                       e a sopa
                       de cevada.
                       Disse
                       Nagarjuna:
                       por tr�s
                       das treli�as,
                       o avesso
                       do sonho
                       (impalp�vel),
                       que n�o cessa.
       
       
       O que a poesia tem em comum com a filosofia?
       �  A poesia � uma forma de pensamento. Quando  o
       poeta   muda  a  linguagem,  ele  age  sobre   a
       consci�ncia:   mudar  as   rela��es   entre   as
       palavras  �  alterar a nossa  atitude  junto  �s
       pessoas  e ao mundo. Por que � assim? O  idioma,
       regido  pela gram�tica, tem uma l�gica  pr�pria,
       que  define n�o apenas a nossa forma  de  ler  e
       escrever,  mas  tamb�m o nosso modo  de  sentir,
       pensar  e  agir.  Todos n�s somos aristot�licos,
       pelo  uso que fazemos do idioma. Por�m, ao criar
       outra  l�gica verbal, outra sintaxe, diluindo  e
       alterando  as  fun��es normais de sujeito,  a��o
       verbal e objeto, o poeta cria uma nova vis�o  de
       mundo.  Dos pensadores que tenho lido  ao  longo
       dos  anos,  poucos me impressionaram tanto  como
       Schopenhauer,  autor  de obras  maravilhosas:  O
       mundo  como vontade e representa��o,  Parerga  e
       Paralipomena, entre outras. Dediquei  a  ele  um
       poema, que leva o seu nome por t�tulo:
                   
                   
                   Breve,
                   a jornada
                   � �gua de nenhuma
                   fonte, gema
                   de extinta  mina �
                   n�o mais que o fulgor
                   de vidros (cristaleira)
                   e o vi�o de madeira nova,
                   lua l�quida. O tempo
                   lacera o verde
                   nos olhos do gato,
                   lepra das flores, �cido
                   que corr�i toda cor ou pele
                   em escuro miasma,
                   peixes do nada.
                   Sim, voc� sempre soube:
                   este � um of�cio doloroso,
                   uma �pera ruidosa.
                   Por�m, tu foste o tigre.
       
       
       A  exist�ncia  da morte, um fato  que  hoje  n�o
       preocupa  tanto  a  filosofia,  sempre  foi  uma
       quest�o  central  em Plat�o, S�neca,  Descartes,
       Montaigne,  Schopenhauer,  porque  ela  p�e   em
       xeque   todas  as  nossas  certezas.  Em   nosso
       �ntimo,   mesmo  se  formos  ateus,   existe   a
       esperan�a  de  uma vida infinita,  de  algo  que
       sobreviva  �s muta��es. Esse algo  pode  ou  n�o
       ser  um  Deus interior (Atman); talvez seja  uma
       Vacuidade,  Nirvana budista, ou algo que  jamais
       saberemos, ou sempre soubemos. De todo modo,  se
       �la  vida  es  sue�o�, tem de haver  Aquele  que
       sonha este sonho.
       
       
       Voc�  �  um poeta dionis�aco? Como lida  com  as
       sensa��es  e  as percep��es? Como  v�  o  mundo?
       Como � o mundo no filtro que � o poema?
          
       �  Tudo  o  que sabemos e sentimos vem de  nosso
       contato  com  as  palavras  e  as  coisas.  Quer
       dizer,  da  experi�ncia sensorial e intelectual.
       O  poema reflete tudo isso, nama-rupa. Por�m,  o
       texto  po�tico n�o � um simples reflexo  ou  eco
       do  �real�,  mas um ente em si, uma  coisa,  com
       sua  l�gica interna, estrutural. O poema tem sua
       pr�pria  fauna  e  flora, como queria  Huidobro.
       N�o  acredito  na  inspira��o, nem  na  �escrita
       autom�tica�  dos  surrealistas,  para  mim   uma
       desculpa   psicol�gica  para   justificar   maus
       versos.  Concordo com Poe, que em seu  ensaio  O
       princ�pio  po�tico  afirma que  a  imagina��o  �
       combinat�ria:  ela faz permutas e simbioses  com
       os  elementos  de nossa mem�ria, que  vieram  de
       leituras  e  viv�ncias. O trabalho  do  poeta  �
       coisificar  as  impress�es que v�m  desse  vasto
       reposit�rio de lembran�as e obsess�es. Ou,  como
       diz  Poe, nessa memor�vel senten�a: poesia  �  a
       �constru��o    precisa   do   impreciso�.    Com
       Mallarm�, aprendi a buscar "o  verso   que,   de
       diversos   voc�bulos, refaz uma  palavra  total,
       nova,    estranha   �   l�ngua   e   como    que
       encantat�ria�. Apolo e Dioniso,  diz  a  Sibila,
       s�o  duas  m�scaras de um deus sem  rosto.  Onde
       come�a  em mim o exaltado, o delirante,  e  onde
       termina  o cerebral, o ge�metra? N�o sei  bem  o
       que dizer. Sei que a linguagem de meus poemas  �
       planejada; nenhuma palavra � colocada ao  acaso.
       O  ato  de escrever, por�m, � compulsivo;  sinto
       um  �xtase  de bacante, de sult�o com odaliscas,
       de santo levitando sobre as ondas.
       
       	     O  camale�o alucinado de nossa �poca acena
       em  duas dire��es: a primeira, alvorada,  jardim
       de  cerejeiras,  manga  fatiada  num  prato;   a
       outra,  glacial,  cabelos de  Medusa,  escorpi�o
       mordendo  a  pr�pria  cauda.  Dizendo  de  outro
       modo:  fico  animado com as chances de  um  novo
       humanismo, que vem do encontro entre a  ecologia
       profunda,  o  pacifismo,  a  nova  f�sica  e   o
       budismo   tibetano.   Surge   desse   caldeir�o,
       aquecido  por uma nova safra de intelectuais,  a
       hip�tese de que a Terra � a nossa �nica  p�tria,
       sem   distin��es   entre   etnias,   credos    e
       fronteiras.  Por outro lado, vemos  ressurgir  a
       f�nix  m�rbida  do  racismo,  do  fascismo,  das
       guerras  coloniais;  e  vemos  a  rapinagem  dos
       grandes   monop�lios,  que   tentam   impor   um
       �monote�smo  de  mercado�,  na  frase  feliz  de
       Roger  Garaudy.  Os  EUA se  arrogam  em  ser  a
       pol�cia   do   mundo,  e  um   resultado   dessa
       prepot�ncia foram os ataques brutais da  OTAN  �
       Iugosl�via, que motivaram meu poema Olhar  atr�s
       do p�ssego:
                           
                           
                           I
                           
                   Olhar atr�s do p�ssego:
                   p�lpebras, m�os
                   que se tocam
                   esse canto, algo entre
                   a garganta
                   e a coluna cervical.
                           
                           
                           II
                           
                   Malva t�nica, �gua verde �gua
                   jasmim � nome de flor
                   a pele (p�tala)
                   brutalizada em grafite.
                   �spero � o tecido da voz, modulada
                   em pontas de agulha.
                           
                           III
                           
                   Todo lugar � aqui, o dentro se expande
                   metal canta metal, flora��es
                   de l�minas, e o tempo
                   se desfaz. (Ela sorri, manqueja
                   e traz o cego ala�de
                   decorado.)
                           
                           IV
                           
                   Rosbife, queijo de cabra, presunto
                   vinho serbo, esterco ou nada,
                   uns tocam violoncelo,
                   �guias bic�falas, os turcos
                             /se foram com o crescente
                   em ondas: celebra-se
                   o rito bizantino, liturgia em esloveno.
                       
                           V
                       
                   Campa, camp�nula, campan�rio,
                   verde-malva em volta, pinheiros
                   o lago, a mo�a (trigo, centeio)
                   ainda sorri: � esmeralda, mas
                   logo garrafadas, tumulto
                   de pontes que desabam.
                       
                           VI
                       
                   Aqui � a esta��o do olhar: toda
                             /hist�ria � impureza.
                   Alvura, escarlate, azul-piscina,
                   o abismo � sem cor,
                   �blis que te abisma, espelho
                   (desluzido) �mbar. O tempo � ru�na;
                   onde cessa, � o canto.
                   
                   
       �Navegar � preciso viver n�o � preciso�?
       
       
       �  Fernando Pessoa desejou escrever os  Lus�adas
       da  Hora  Morta,  o  �pico da twilight  zone.  O
       resultado   �   esse  belo  e  estranho   livro,
       Mensagem.  Aqui,  o  poeta  adotou  o  lema  dos
       antigos   navegantes  portugueses:  �Navegar   �
       preciso, viver n�o � preciso�. Essa legenda �  a
       exalta��o  do  her�i tr�gico,  que  renuncia  ao
       gozo  da  vida  �f�til,  cotidiana,  tribut�vel�
       para  mergulhar na eternidade.  O  poeta  fez  a
       den�ncia   do  homo  faber,  do  homem   oco   e
       empalhado,   manequim  ambulante   de   shopping
       centers,  ao  qual contrap�e  a  figura  de  Dom
       Sebasti�o, o arqu�tipo do santo guerreiro.  Esse
       poem�rio  aleg�rico, em sua riqueza de s�mbolos,
       permite muitas e diferentes leituras.
       
       Para   mim,   �   uma   met�fora   de   gritante
       atualidade. N�s perdemos a dimens�o do  sagrado,
       as  mitologias,  e  trocamos os  valores  morais
       pela   tabela   de  pre�os.  Nos  afastamos   do
       Mist�rio,  e  sem ele n�o � poss�vel  a  unidade
       com  o  Todo.  Em  outras palavras,  n�o  existe
       �tica  sem  metaf�sica, e n�s ficamos �rf�os  da
       Divindade.  Hoje,  s�  se  discute  economia  de
       mercado,  tecnologia, dicas de sa�de  e  beleza:
       como  Fausto,  seduzido  por  Mefisto,  trocamos
       toda  a  cultura humana por uma pobre  vis�o  de
       mundo  que  nos reduz a rob�s. Nesse sentido,  a
       voz  de  Pessoa  �  quase  prof�tica,  oracular:
       precisamos  repensar nossos valores  e  modo  de
       vida.  Ser� que n�o fizemos o pacto com o  Cujo,
       o  Tinhoso, o N�o-sei-que-diga? Sem a  busca  do
       sentido   mais  profundo,  a  comunh�o   com   o
       sagrado,  o homem � apenas �uma besta  sadia,  /
       cad�ver  adiado  que procria�.  Fernando  Pessoa
       foi  um  poeta-vidente,  dos  poucos  que  fazem
       sentido hoje, na Era da Banalidade.
       
       Quem  existe,  como poeta, em seu interior?  Que
       vozes po�ticas escuta?
       
       �   A poesia vem da poesia, disse Jorge Luis Borges. Vem dos
       livros e autores que lemos. � a leitura e a nossa viv�ncia no
       mundo que definem a nossa rela��o com o idioma e a linguagem.
       Hoje, ou�o o eco de muitas vozes, um imenso coral; e essa
       multid�o de timbres, sem d�vida, vem inseminando a minha cria��o
       po�tica. Ou�o em mim um anacoreta japon�s, que viajou com Bash�
       nas sendas de Oku; um trovador proven�al, comparsa de Arnaut,
       amante de belas damas, da l�rica imprevista e dos duelos; um
       poeta barroco, vizinho de Don Luis de G�ngora, para quem as boas
       met�foras n�o s�o menos complexas do que as catedrais; um
       rom�ntico, por certo, amigo de Keats, Hoelderlin, Sous�ndrade; um
       simbolista franc�s, que fumou �pio com Rimbaud num caf� imundo de
       Paris; um modernista avesso ao moderno, como Eliot e Pound, para
       quem a inven��o verbal � um modo de zombar da id�ia de progresso;
       e um cultor de enigmas e labirintos, como Borges. Por certo, h�
       muitas outras vozes � sou uma esp�cie de m�dium dos autores que
       li. Sei que devo muito a Cruz e Souza, Ern�ni Rosas, Augusto dos
       Anjos; a Oswald de Andrade, Murilo Mendes e Jo�o Cabral; a
       Augusto e Haroldo de Campos e Paulo Leminski. Por certo, estou
       sendo injusto; mas n�o seria poss�vel citar todos os poetas a
       quem amei aqui. Devo acrescentar, fora das refer�ncias
       liter�rias, a m�sica de Richard Wagner, em especial suas �ltimas
       obras, Trist�o e Isolda, O Anel dos Niebelungos, Parsifal, que
       despertam em mim um j�bilo selvagem, quase sexual. � a m�sica do
       para�so, ou pelo menos do �meu� para�so, nesse inferno de gralhas
       desafinadas que nos atormentam, dia e noite, nos meios de
       comunica��o.
       
       
       Como  est� a poesia brasileira? Concorda  com  a
       mat�ria publicada na revista Veja?
       
       
       �  A  nova poesia brasileira, produzida nos anos
       90,  possui autores de primeira qualidade,  como
       Carlito    Azevedo,   Claudia    Roquette-Pinto,
       Ademir   Assun��o,  Angela  de  Campos,   Ronald
       Polito  e  Jussara  Salazar.  Poucas  vezes,  em
       nossa   literatura,  tivemos  um  conjunto   t�o
       expressivo   de   poetas.   Infelizmente,   essa
       riqueza  � ignorada pelos cadernos culturais  da
       imprensa    di�ria,   que   preferem    noticiar
       amenidades  sobre  o  show  business  americano,
       novelas  de  televis�o  ou  grupos  musicais  de
       valor   duvidoso.  Vivemos  sob  o  imp�rio   da
       mediocridade,  que  s� l� obras  de  auto-ajuda,
       romances  sentimentais ou manuais de  direito  e
       economia.  A  mat�ria publicada em  Veja  apenas
       ilustra    a   mis�ria   de   nosso   jornalismo
       �cultural�. A melhor poesia brasileira tem  sido
       publicada  em  revistas de  pequena  circula��o,
       mas  de  alta qualidade, como Dimens�o,  Medusa,
       Inimigo   Rumor,   Monturo   e   no   Suplemento
       Liter�rio    de   Minas   Gerais.    �    nessas
       publica��es,  e  n�o na imprensa �oficial�,  que
       vamos   encontrar  a  corrente   sang��nea   que
       alimenta nossa literatura.
       
       
       Por  outro  lado,  as grandes  editoras  n�o  se
       arriscam  a  publicar os novos poetas,  que  s�o
       obrigados  a pagar do pr�prio bolso a  impress�o
       de  seus  livros, cuja distribui��o em livrarias
       deixa  um  pouco  a desejar. Como  diria  aquele
       s�sia  russo e mal-humorado de Verlaine,  o  que
       fazer?  Em  minha  opini�o,  cabe  aos  pr�prios
       poetas  a  tarefa de divulgar sua  produ��o.  Um
       caminho l�gico para isso seria a cria��o de  uma
       revista especializada em poesia, peri�dica e  de
       circula��o nacional, distribu�da em livrarias  e
       bancas  de jornal, que espelhasse o que  se  faz
       hoje  de  melhor em nossas letras.  Uma  revista
       aberta � inven��o, � pesquisa de linguagem,  que
       fosse  a caixa de resson�ncia do novo. A cr�tica
       s�ria  e  qualificada � exercida hoje  por  quem
       faz   poesia,  por  quem  que  est�  atento  aos
       processos de cria��o, e n�o por jornalistas  que
       v�em  o poeta como uma esp�cie de planta ex�tica
       africana ou lib�lula rara de Madagascar.
       
       
       Qual  a  utilidade da Internet? Quais sites  lhe
       interessam?
       
       
       �  Se  a poesia do s�culo XX teve influ�ncia  do
       jazz,  das  artes pl�sticas e do  cinema,  a  do
       novo  mil�nio,  com certeza, ser�  marcada  pelo
       computador, que permite integrar som,  imagem  e
       movimento.  O  espa�o cibern�tico,  al�m  disso,
       possibilita  a  edi��o  de �livros�  eletr�nicos
       interativos, realizando a profecia de  Mallarm�.
       O  que n�o representa a morte do livro impresso,
       a  meu  ver,  mas  amplia as  possibilidades  de
       veicula��o  da  poesia. A Internet  significa  a
       supera��o  das  fronteiras  nacionais.  Hoje,  �
       poss�vel   a   troca   de   informa��es    entre
       diferentes  pontos  do planeta  numa  velocidade
       nunca  vista.  Isto fortalece as chances  de  um
       universalismo,  a  afirma��o  de   uma   cultura
       humana pluralista, rica e diversificada,  o  que
       �   diferente  da  globaliza��o,  que  significa
       apenas   a   domina��o  econ�mica  dos   grandes
       monop�lios.  Creio que o caminho para  evitarmos
       o  desastre  � o da integra��o: somos  da  mesma
       ra�a,  habitamos  o  mesmo  planeta,  temos   os
       mesmos  direitos e responsabilidades. A Internet
       n�o  tem  apenas import�ncia para  a  informa��o
       est�tica,  mas  para  a transforma��o  pol�tica:
       agora,  n�o  podemos mais ficar  indiferentes  �
       fome  na �frica, ao genoc�dio em Timor Leste  ou
       �  ocupa��o  do  Tibete pela  ditadura  chinesa.
       Podemos  nos  manifestar,  boicotar,  pressionar
       governos,  exercer a nossa cidadania planet�ria,
       indo  al�m dos limites de fronteira. Eu e  minha
       mulher,  Regina,  somos adeptos dessa  guerrilha
       tecnol�gica.  Dos  sites que  visito,  indicaria
       tr�s:   Popbox,  editada  pelo  excelente  poeta
       Elson  Fr�es,  com  p�ginas de tradu��o,  poesia
       visual   e   sonora;  Caqui,  especializado   em
       haicais; e o Jornal de Poesia, editado  a  duras
       penas  pelo Soares Feitosa, que � uma verdadeira
       biblioteca virtual.
                                
                                
                                
       O espelho e as coisas
                                
       OLHO-de-virgo,   barriga-de-peixe,    dentes-de-
       le�o:  palavras s�o reflexos. Habitei no espelho
       e  comi serragem, vidro mo�do, trapos de jornal;
       e  copulei  com  os rel�gios de  pulso,  com  as
       navalhas, com fechaduras. Sobre a mesa da  sala,
       entre   as   vogais   dispersas   do   alfabeto,
       estilha�os  de ampolas para abolir  a  id�ia  do
       tempo.  Os vermes saem pelo buraco da agulha,  a
       palavra  jade � pus, a palavra jalde � cuspe.  A
       palavra  janga est� nua, vestida de  alarme.  As
       ma��s  enlouquecem. O verde enfurece as  conchas
       e  a  lesma  pensa na �rvore da palavra  despida
       que  sonha.  Tudo  s�o nomes e  formas.  L�minas
       cortam  os fios desatados de �gua estagnada.  H�
       uma  pra�a onde comprei p�ras ou figos, n�o sei.
       Onde  ouvi a menina dizer eibishu�. A lua  pisca
       um  olho para a jovem parca, ela � cega e surda,
       e  come  entulho  no  banco da  pra�a.  Sua  voz
       arisca,  bruta, tantaliza: fio de  arame  tenso,
       buraco  de  agulha,  cano de pistola.  Tudo  s�o
       palavras,  e  palavras  s�o  coisas.   Que   n�o
       permanecem.  Tudo queima, e o sol  vegetal  �  a
       urina  de um c�o que arde em vermelho. A  poesia
       pode  dizer o tempo que escorrega de seus dedos?
       A  poesia diz tudo e n�o quer dizer nada  e  seu
       nome  se  escreve no vazio da p�gina,  s�tio  de
       poss�veis   reflexos.   Tudo   s�o   simulacros,
       pegadas  no limo do nada. Todavia, o velho  coxo
       sangrado  disputa comida com  o  c�o.  A  poesia
       pode  andar de bicicleta, deslancha no mar azul,
       onda  em castelhano se diz ola, nuvem em franc�s
       se  diz  nuage.  Ela pode ser  escrita  em  pele
       viva,  em  algod�o,  no  suor  do  Marrocos,  no
       violoncelo  de S�o Petersburgo, numa  bodega  de
       La  Habana.  Por�m,  a  tesoura  corta  tudo  em
       peda�os.  Permanece  uma  sombra,  um   eco   de
       ruidoso  sil�ncio.  Que  o  espelho  captura   e
       multiplica   em   um  n�mero   incalcul�vel   de
       reflexos.
       
       
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