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Pequena
nota biogr�fica:
Nascido em Goi�nia, 1966, Caio Meira veio para o Rio de Janeiro em 1984.
Formou-se e fez mestrado em psicologia na UFRJ. Atualmente, faz o curso de
doutorado em po�tica na Faculdade de Letras da UFRJ. Traduziu o �Livro
Negro do Comunismo�, (Courtois, S. e outros, Bertrand do Brasil, 1999,
917 pp.). Publicou dois livros: �No oco da m�o� (UERJ, 1993), e
�Corpo solo�, (Sette Letras, 1998). �
SEOMARIO:
�O poema est� � vista / ao alcance da m�o�. Aonde mora a poesia?
� poss�vel existir poema
sem poesia? Caio
Meira: Curioso
voc� ter perguntado �aonde� mora a poesia e n�o �onde� mora a
poesia, como seria de h�bito. Penso que essa pequena licen�a gramatical
� oportuna por indicar
muito do que pode significar um lugar pr�prio para a poesia. �Aonde�
aponta para um deslocamento, no sentido de �aonde se vai�, para que
lugar se direciona o movimento que visa alcan�ar algo, no caso da sua
pergunta, uma morada. Normalmente, �aonde mora� seria a uni�o de duas
no��es em apar�ncia antag�nicas, a da busca e do repouso. Mas na
poesia h� sobretudo engajar-se
por regi�es paradoxais, fronteiri�as: a eloq��ncia do sil�ncio, v�o
e pouso conciliados num mesmo movimento, nascimento imbricado na morte, ou
seja, atrav�s dessa fissura da linguagem, apresentar o que j� est�
escapando. Um bom poema est� sempre �� vista�, diante dos olhos, ao
alcance da m�o. A simplicidade que os grandes poetas conseguem dar a seus
poemas faz com que a poesia surja como o objeto que salta diante dos
sentidos como se viesse do nada, como se nascesse ali, naquele instante
que teima em perdurar. Mas quem conhece os avessos da poesia sabe que se
trata principalmente de um investimento total, da vida inteira, com seus
desejos e instantes, felicidades e tristezas, destinos e acasos. Fazer o
simples gesto da m�o para alcan�ar o objeto-poema que �est� �
vista� implica, na maioria das vezes, todos os outros movimentos e
sentidos da vida do poeta. H� no poema, antes de mais nada, uma concentra��o
dos motivos da vida que o criou (vida que passa a ser criada por ele). Por
isso o poema � esse ser complexo, ao mesmo tempo vis�vel e invis�vel,
pr�ximo e distante, que est� dito mas �
indiz�vel, que tem sua face clara, mas h� sempre nele algo que
escapa (o poema existe para ser relido, previne Bachelard), algo obscuro.
Retomando a quest�o inicial, a casa da poesia situa-se na instabilidade
de morar no pr�prio movimento de partir, nesse estar/n�o-estando que
encontra �abrigo na hora inst�vel da madrugada�, isto �, morando
�aonde� prevalece o movedi�o e o mut�vel. O lugar de repouso do
poeta se d� justamente na instabilidade que ele consegue gerar em seus
poemas, uma vez que viver a intensidade da poesia
� deparar-se com a senten�a
rimbaudiana: �trata-se de chegar ao desconhecido atrav�s do
desregramento de todos os sentidos�. O que seria esse desconhecido sen�o
o lugar pr�prio da poesia? Morar no desconhecido, estar continuamente
avan�ando na dire��o do desconhecido, �
�aonde� mora a poesia. Quanto
� rela��o entre poema e poesia, � f�cil verificar num �sebo� do centro da cidade quantos poemas
sem poesia, quanta palavra impressa em forma de verso e rima que n�o
significa nem significar� nada para ningu�m. Para ir mais al�m, devemos
abandonar a quest�o de haver ou n�o poesia num determinado poema �
posto que n�o h� ju�zos nem ju�zes para respond�-lo �,
perguntando-nos se h� uma po�tica intr�nseca ao que est� sendo feito
ou lido. A for�a po�tica n�o est� em um ou dois poemas bem feitos, ela
depende muito mais da devo��o � inven��o, n�o de versos, nem mesmo
de imagens, mas inven��o de mundos, de todo um mundo ao qual s� se tem
acesso atrav�s de uma po�tica, de um pensamento que se d� na forma de
um poema. O bom poema oferece uma passagem a um mundo po�tico; quando
lemos um poema de um Ferreira Gullar, por exemplo, temos a n�tida a
impress�o de que entramos em seu mundo, onde o que vale
� o que foi inventado por
ele e por nenhum outro. �
SEOMARIO:
No poema �Pegador� (No oco da m�o, UERJ, 1993), o sol est� dentro da
gaveta. Um sol enclausurado pode iluminar a palavra ou o tempo � quem
mostra o poder e a qualidade de um texto? C.M.:
Relendo o poema, n�o tive a sensa��o de que o sol estaria enclausurado
dentro da gaveta; n�o acho que em �Pegador� trate-se de um sol
claustrof�bico, aprisionado. Penso antes que �sob o sol / dentro da
gaveta� aponta para o que est� intr�nseco a esse poema, a meu ver, o
corpo-a-corpo. Ali�s, acho que a quest�o de todo o livro �No oco da m�o� � essa, a dos poemas obtidos no corpo-a-corpo com a cidade, com o
mar, �com os punhos cerrados / na arena�, onde �cada bra�ada vence
uma tempestade�. Estar �sob o sol / dentro da gaveta� n�o � em absoluto esconder-se desse sol, nem escond�-lo ali dentro;
ao contr�rio, indica que nem mesmo dentro da gaveta, junto aos pap�is e
poemas que esperam para ser escritos, deixa-se de estar sob um sol
cerrado, no corpo-a-corpo acalorado com as mat�rias da vida que se tornar�o
ou n�o poemas. �
nesse sentido que o poema se torna um pegador, na acep��o pr�pria
do boxe: na arena, vale o confronto de punhos erguidos, vale a esquiva
para evitar o golpe, vale a dan�a em torno do advers�rio para conhec�-lo
melhor, vale agarr�-lo para recuperar o f�lego e o equil�brio, vale ir
� lona e ter de lutar de novo, em outra oportunidade, vale at� jogar a
toalha quando se sabe que um advers�rio vai demoli-lo inexoravelmente, s�
n�o vale passar todos os �rounds� fugindo dele. Como diz a sua
pergunta, o sol, mesmo dentro da gaveta, ilumina a palavra po�tica, mas
tamb�m a aquece, a desidrata, a queima. Quanto ao
tempo, o sol �
o tempo, em todos os seus sentidos, o meteorol�gico, o do transcorrer
da vida, o do amadurecimento dos filhos e frutos. Gra�as ao sol, o tempo
n�o se reduz a uma entidade totalmente abstrata. Todos os poemas transcorrem sob o
sol, mesmo estando dentro de gavetas, de estantes ou de livros, ou ainda
nascente na cabe�a ou na ponta da l�ngua. Poder lidar com esse sol
inelut�vel e perseverar na exist�ncia d� qualidade e valor a um texto e
a uma vida tamb�m. �
SEOMARIO:
A rua � uma constante na sua poesia e tudo que ela representa em oposi��o
ao claustro. Como � falar da rua e de Emily Dickinson? O ser humano � um
paradoxo ambulante? C.M.:
A rua s� se op�e ao claustro em apar�ncia! Um sujeito pode ser
prisioneiro de uma rua ou de uma cidade. Outro pode passar seus dias numa
cela de pris�o sem ser claustrof�bico. A claustrofobia, e creio que os
psiquiatras corroborar�o essa afirma��o, est� na cabe�a e na alma de
quem se sente aprisionado. A rua, em minha po�tica, n�o se op�e �
casa, ao quarto. Ao andar pela cidade, ao buscar nas ruas os poemas e a
vida, n�o estou fugindo de uma pris�o qualquer, estou apenas
dirigindo-me ao lugar em que a vida pulula em todas as suas formas e
velocidades, na diversidade plena de movimentos sem antagonismos. Depois,
ao voltar para casa, ao entrar em meu quarto, em meu escrit�rio de 8m2,
n�o me sinto apartado das ruas, que continuam a agir em mim, em minha
fala e em minha escrita. Veja o
caso extremo da Emily Dickinson. Ela, que passou boa parte de sua vida
�enclausurada�, isto �, vivendo praticamente em seu quarto e s�
saindo para cuidar de seu jardim, escreveu cerca de 1770 poemas, entre os
quais n�o se respira nenhum tipo de claustrofobia. Pelo contr�rio, a
intensidade alcan�ada por sua escrita � em 1862, ela escreveu 366
poemas; em m�dia, mais de um poema por dia! � a leva a regi�es que
poucos alcan�aram. E mesmo assim n�o creio que sua exist�ncia tenha
sido paradoxal, pelo menos, mais paradoxal do que a de qualquer outro. No
caso do poeta, n�o h� uma f�rmula, um caminho demarcado para atingir o
sublime. Seja no rebelde viajante Rimbaud, seja na aparente calma vida mon�stica
de E. Dickinson, nos dois casos, alcan�ou-se um extremo, chegou-se a essa
regi�o fronteiri�a com o desconhecido � lugar pr�prio da poesia.
Dentro do quarto de uma cidadezinha da Nova Inglaterra ou perambulando
pelas ruas s�rdidas de Londres ou Paris, quem pode dizer quando vai se
dar o encontro com o poema? �
SEOMARIO:
CORPO SOLO (Sette Letras, 1998) � uma radicaliza��o de NO OCO DA M�O?
� poss�vel entender CORPO SOLO sem antes ler NO OCO DA M�O? C.M.:
Em todos os sentidos, �Corpo solo� �
uma radicaliza��o de �No oco da m�o�. Em primeiro lugar, porque
no livro de 1993 h� uma reuni�o do que de melhor eu havia feito at� ent�o. Ainda que
se possa discernir suas linhas po�ticas principais, trata-se ali de uma
colet�nea de poemas. J� os poemas presentes em meu �Corpo solo�
foram pensados em fun��o do livro. Ao contr�rio de �No oco da m�o�,
no qual os poemas antecederam o livro, em �Corpo solo� foi a presen�a
do livro que antecedeu a exist�ncia dos poemas, ou pelo menos interferiu
em sua cria��o. Pode-se dizer que os poemas de �Corpo solo�
pertencem a um projeto po�tico que
� de fato a pr�pria exist�ncia
do livro. Esse � um aspecto. Al�m
disso, se em �No oco da m�o� est� em jogo
a descoberta do corpo-a-corpo da palavra com a cidade e com a vida
como principal ve�culo para a minha escrita, em �Corpo solo� esse
corpo-a-corpo n�o �
mais um ponto de partida, mas a sua realiza��o, a sua efetiva��o.
Os poemas do �Corpo solo� s�o frutos da experi�ncia de um �solo de
corpo�, seja na rua, seja em casa, seja na praia, seja apenas na imagina��o.
Respondendo mais diretamente a sua pergunta, o que est� em germe em �No
oco da m�o� realiza-se em
�Corpo solo�. Nesse sentido, ler o livro de 1993 antes do livro de
1998 ajuda a mostrar que caminho foi percorrido para se chegar ao que h�
de maduro em �Corpo solo�, ao solo de corpo da minha escrita. �
SEOMARIO:
No poema VELOCIDADES PARA PASSEIO P�BLICO, do livro CORPO SOLO, quando o
n�o dito � mais importante que o
discurso aparente? C.M.:
N�o s� para esse poema, mas para todo o livro, trata-se da experi�ncia
do corpo enquanto mat�ria e superf�cie em contato com outras mat�rias e
superf�cies, explorando as misturas decorrentes, os avizinhamentos, o
embaralhamento de limites e fronteiras. H� sobretudo uma tentativa de
equivocar o limite que separa o corpo da cidade, ampliar esse limite, recu�-lo,
e principalmente estar em contato com essa regi�o. Em vez de conhecer os
meus limites, quero, ao contr�rio, desconhec�-los, provoc�-los, instig�-los, fazer com que eles n�o
se tornem uma casca ou capara�a entre mim e o mundo, mas ao contr�rio,
que essa fronteira, que � um p�rtico, permane�a perme�vel e m�vel. Talvez �velocidades
para o passeio p�blico� seja um de meus poemas em que isso aparece mais
radicalmente, pois n�o h� ali nenhum discurso sobre esse limite, isto �,
o poema n�o fala sobre isso, ele apenas se torna a mobilidade dessa fronteira sendo experimentada. Trata-se de um
poema superficial, no sentido de haver ali mais do que a experi�ncia da
superf�cie, do atrito entre as v�rias camadas de superf�cies materiais
� mas tamb�m imateriais �, umas em contato com as outras: �passo
espremido entre paisagens, fibras de a�o, dobra de carne, embalagens de
pl�stico�; ou ent�o: �um pico de morosidade assalta-me o torso,
desoculta intervalos, espa�o de pra�a e beco�. N�o h� nesse poema
nenhuma pretens�o de ser mais do que uma experi�ncia dos limites entre o
corpo e a cidade, entre o homem e o mundo; de fato, o n�o-dito ali
presente, o seu indiz�vel, n�o � um discurso sobre o
limite, mas o pr�prio limite em movimento. �
SEOMARIO:
�arrepios reverberam (...) / barulhos (...) atravessam o asfalto //
transeuntes engolem breu na areia da praia, / um sil�ncio corta (...) /
(...) s�bitos ruminam (...)�. A sua poesia
� uma poesia m�vel. O seu
poema �
uma avalanche? Como diria o Tit�s, tudo acontece ao mesmo tempo
agora? C.M.:
Mas toda poesia �
m�vel! Faz-se poesia levando algo a seu extremo, ao ponto m�ximo do
seu ser, mas tamb�m � regi�o desconhecida, fronteiri�a, onde se d� a
separa��o com outros corpos, outra mat�ria, outro esp�rito.
�Extremo�, nesse caso, significa ao mesmo tempo o auge e o fim. O
poeta se esfor�a, levando alguma coisa ao seu extremo. Nesse sentido, a
poesia n�o pode deixar de ser m�vel, pois na imobilidade n�o h�
surpresa, n�o h� espanto, n�o h� susto. Todo bom poema � imprevis�vel, pois n�o
h� como anteceder seus movimentos, prever o seu destino. Ao ler um bom
poema, somos movidos por ele, somos arrastados para uma outra regi�o,
para um outro mundo. E � por essa via que o poema pode tornar-se uma avalanche, quando
significar um movimento violento que arrasta consigo tudo o que encontra
pela frente. Muitos poemas e poetas que li tiveram sobre mim esse efeito
de avalanche: Ferreira Gullar, Emily Dickinson, Arthur Rimbaud, Edmond Jab�s,
Alberto Pucheu, Manoel de Barros e tantos outros. Com eles fui e permane�o
sendo arrastado para o meu desconhecido, para o lugar em que me desconhe�o,
para o portal do meu crescimento po�tico. Seguindo a
indica��o bachelardiana, sabemos que o instante do poema est� em
descontinuidade permanente tanto com o instante precedente quanto em rela��o
ao instante que se segue. Tudo o que acontece na poesia cria seu pr�prio
tempo, e acontece de forma diversa da cotidiana, quando as coisas se ligam
umas �s outras previsivelmente, quando se pode antecipar os
acontecimentos. Em poesia n�o h� antecipa��o. Esse agora a que se
refere a letra da m�sica dos Tit�s,
� justamente o tempo que
se diferencia, que se distingue e perdura imprevistamente em nosso
espanto. � SEOMARIO: �e nunca mais houve o s�timo dia� est� escrito num verso do livro CORPO SOLO. O que seria o s�timo dia? O tempo nasceu no s�timo dia? C.M.: O s�timo dia b�blico foi o dia do descanso, do repouso depois da cria��o. Mas creio tratar-se de um equ�voco. Quem pode criar verdadeiramente alguma coisa e depois sossegar, isto �, sair do �mbito e das conseq��ncias do que foi criado, estar, mesmo que por um breve per�odo, livre do a�odamento pr�prio � cria��o? Contos e hist�rias fant�sticas est�o repletos de exemplos de quando a criatura se volta contra o seu criador, que pensava poder descansar depois de criar, estar impune ao ato de criar. Quem cria abole no mesmo ato o seu s�timo dia. � poss�vel a um pai deixar de ser pai, mesmo que por um instante, mesmo que sua criatura pere�a? Paternidade significa esse engajamento perene, eterno, que n�o se desfaz com o tempo. Como dizem, amor de m�e (e de pai) n�o tem limites, n�o se esgota. Para o poeta, n�o h� s�timo dia. O poeta n�o tira f�rias, n�o se isenta. Alguns poetas acordam sobressaltados � noite com frases ou palavras marcando sua presen�a. Outros andam quil�metros em busca de solu��es, ou mesmo sob a �gide de um nascimento repentino. Mesmo Rilke, ao ficar mais de uma d�cada sem escrever poesia, n�o repousava: algo de maior estava sendo produzido nele, sendo gestado silenciosamente sob a apar�ncia de um descanso. As �Elegias duinenses�, dez anos depois de iniciadas e logo interrompidas, foram conclu�das em poucos dias. E em seguida vieram os �Sonetos a Orfeu�. Durante todo esse per�odo de aparente inatividade, n�o havia qualquer repouso. Dez anos foi o tempo necess�rio para ger�-los. Do ponto de vista po�tico, n�o h� s�timo dia, n�o h� como n�o ser instigado, aguilhoado, pelas tenta��es da cria��o e da criatura. Nesse sentido, o tempo n�o nasce do s�timo dia, mas do pr�prio ato criador, j� que n�o h� tempo poss�vel antes da cria��o. �
SEOMARIO:
No poema GARE DU NORD estar sempre chutando o pau da barraca
� uma forma de viver
intensamente? As dificuldades forjam bons poemas? C.M.:
Dois
escritores inspiraram fundamentalmente esse poema: Arthur Rimbaud e Henry
Miller. S�o dois exemplos supremos de levar uma exist�ncia po�tica a
seu extremo m�ximo. Quem passou por suas obras n�o permaneceu ileso, foi
arrastado por essa �avalanche�, utilizando-me da imagem de sua
pergunta anterior, que �
por exemplo o �Tr�pico de C�ncer� ou �Uma esta��o no
inferno�. Os dois estavam continuamente �chutando o pau da barraca�,
termo que no poema quer dizer bem mais do que a provoca��o ou a rebeldia
juvenis, j� que est� ligado a um destino de �aridez, deser��o e
desperd�cio�. �Estar sempre chutando o pau da barraca� aponta para
o cont�nuo ultrapassar de suas pr�prias conquistas, o que s� se pode
conseguir n�o estando fixado em f�rmulas ou estilos. Trata-se de uma
convoca��o inapel�vel pelo desconhecido, pela experi�ncia do
desconhecido e sua transforma��o em escrita. Para os dois, ser escritor
n�o era uma profiss�o, mas uma modalidade de ser, uma vibra��o que
impele ao ��cio, � fuga, � fome�, a uma forma de vida que tem de
ser �marginal�, no sentido de que est� sempre � margem de si pr�pria,
vizinha dos seus limites. Importa frisar que em ambos os casos n�o se
tratava de uma liga��o imagin�ria ou imaginada com essa exist�ncia �
margem, era algo vivido, experimentado. Para mim, na condi��o de
escritor e de poeta, cabe-me tamb�m n�o estar apenas imaginariamente
identificado com essa revolu��o, no sentido que n�o basta e nem mesmo
tem valor repetir as experi�ncias rimbaudiana e milleriana, mas sim
procurar na vida e na escrita a minha pr�pria margem, o meu pr�prio
desconhecido, e transform�-los em poesia. �
SEOMARIO:
Em GARE DE L�EST, mesmo afirmando que n�o volta atr�s, n�o
� o passado um material
nobre para a constru��o de uma po�tica pr�pria? C.M.:
Do
mesmo modo que n�o se est� ileso � aus�ncia do �s�timo dia�, n�o
se pode �voltar atr�s nas cicatrizes, nas tatuagens e nos dentes que j�
se foram�. Criar tem esse imperativo que obriga a caminhar para a
frente, a chutar continuamente �o pau da barraca�, a n�o se amarrar e
nem se fixar em suas pr�prias conquistas. Criar implica transformar,
deformar, alterar o real e a realidade. Nesse sentido, o passado, como
qualquer outra coisa que se submeta � experi�ncia po�tica, pode
constituir-se, como voc� disse, num material para a constru��o de uma
escrita pr�pria, desde que surja como deforma��o ou transforma��o.
Mas nunca como um material �nobre�. A poesia � pelo menos a poesia
que me interessa � por ter esse apelo pag�o, essa convoca��o profana,
lida com a nobreza apenas para mundaniz�-la, dessacraliz�-la. Mas h�,
no que tange a mem�ria, um outro aspecto ainda mais importante. Para quem
percorre o caminho da poesia, existem in�meras armadilhas a serem
ultrapassadas. A primeira delas �
o uso de trocadilhos e jogos de palavras. Muitos s�o os poetas e as
po�ticas que permanecem nesse que me parece ser um n�vel muito prim�rio
da escrita. A segunda armadilha � o apelo � mem�ria,
� inf�ncia, ao passado, como imagens que bastariam ser mencionadas para
trazer � tona uma �aura� po�tica. Ora, a poesia, por ter uma liga��o
radical com o presente, n�o pode ser mais do que a exposi��o crua desse
presente e de suas entranhas. O tempo da poesia n�o pode ser outro que o
instante presente, esse instante que n�o passa, que desafia a
continuidade e teima em permanecer. Referir-se ao passado por si s� n�o
leva � poesia, n�o traz poesia, apenas copia � e c�pia n�o
� poesia � ou evoca
imagens e sensa��es que outrora tiveram valor pessoal mas que n�o
apresentam nenhum relev�ncia po�tica propriamente dita. �
SEOMARIO:
Escrever na busca de uma linguagem, criar uma linguagem � medida em que o
poema est� sendo escrito �
um paradigma da poesia p�s-moderna? C.M.:
Obviamente,
sua pergunta se refere ao fato de atualmente n�o haver modelos po�ticos
preestabelecidos, isto �, para a poesia contempor�nea n�o prevalece um
c�none po�tico a ser seguido. Cada poeta inventa suas pr�prias solu��es
para quest�es que n�o podem nem mesmo ser postas lado a lado. Mas, para
ir al�m, h� algumas considera��es de extrema import�ncia a esse
respeito. N�o creio que se possa falar em paradigma po�tico. O primeiro
sentido de paradigma � �modelo padr�o�. Em nenhuma medida pode-se assimilar a escrita
a um modelo ou a um padr�o, j� que se trata antes de mais nada de criar,
isto �, fazer surgir o novo, o que n�o est� previamente estabelecido.
Mesmo quando paradigma quer dizer algo que se repete, modelos que
permanecem orientando durante certo tempo a busca de uma gera��o, e isso
efetivamente acontece quando se examina uma �gera��o po�tica� como
a de 22 ou a de 45, importa muito mais considerar as solu��es
particulares de cada po�tica do que as que foram comum a todos os membros
do grupo. Pode-se, por exemplo, assimilar a po�tica de Drummond ao
paradigma de 22 ou Jo�o Cabral ao de 45 sem empobrecer suas obras? Quanto �
busca particular de uma linguagem enquanto se escreve o poema, trata-se do
imperativo po�tico propriamente dito, mas pelas raz�es opostas �quelas
apontadas por sua pergunta. Pois se h� de fato a cria��o de uma
linguagem, ou melhor, se simplesmente h� cria��o, n�o pode haver
nenhum paradigma envolvido, j� que criar
� justamente afastar-se de modelos e padr�es, e isso n�o somente no
que diz respeito � poesia contempor�nea, mas toda boa poesia de qualquer
tempo. �
SEOMARIO:
O que faz algu�m ser poeta? C.M.:
Ao
contr�rio do que possa parecer, n�o se trata de algo que o poeta tenha a
mais. O poeta n�o �
nem mais culto, nem mais inteligente, nem mais s�bio do que os demais
homens. Para mim, ao contr�rio, a poesia vem de uma fissura, uma
rachadura, de algo que n�o ele n�o tem e que n�o ter� jamais. Como ep�grafe
aos nove poemas de �prosa do ch�o�, utilizo uma frase do
conto-depoimento �The
Crack-up� de F.S
Fitzgerald: �h� v�rias maneiras de um homem rachar�. O poeta � um homem rachado,
fissurado, e a poesia vaza por essa rachadura. Escolher a poesia, ou ser
escolhido por ela, implica abra�ar um funcionamento distinto, poder-se-ia
dizer anormal, no sentido daquilo que foge � norma. O poeta � aquele que busca n�o
funcionar de acordo com modelos preestabelecidos. Ele inventa um
funcionamento pr�prio, que invariavelmente parece aos demais como
bizarro, heterodoxo. Quem convive com a poesia, quem existe em fun��o da
poesia, percebe e cultiva essa rachadura, tirando dela as experi�ncias
que est�o na base de sua escrita. Veja-se Artaud, por exemplo, que soube
vasculhar como poucos essa fissura, tateando os limites entre sanidade e
insanidade; ou o pr�prio Fitzgerald, que coloca a descoberta de sua condi��o
de rachado, �prematuramente rachado�, como o ponto nevr�lgico de toda
a sua vida. Depois de rachado, n�o s� o homem n�o
� mais o mesmo, mas todo o
mundo e a pr�pria vida n�o s�o mais os mesmos. Todas as coisas do mundo passam a ter fun��es e
valores diferentes e se mostram de maneira distinta para quem rachou e
conseguiu manter-se suficientemente inteiro para n�o so�obrar na
loucura. Por isso, h� v�rias maneiras de um homem rachar. A conviv�ncia
com a pr�pria fissura d� a
medida e o valor de uma po�tica. �
SEOMARIO:
Qual uso faz da internet? C.M.:
Relativamente
� poesia, penso que a internet pode funcionar como uma amplia��o dos
campos de descoberta, de investiga��o, de rastreamento de diversas e
diferentes abordagens da poesia. Mas, a meu ver, isso deve ocorrer de uma
maneira quase que subversiva ao uso comum da rede. Normalmente, o
ciberespa�o �
a forma mais radical da descartabilidade que assola a cultura de uma
forma geral. Para ir de uma p�gina a outra, basta um clique, e isso sem
que haja qualquer tipo de comprometimento, de repercuss�o interna, �ntima.
Ora, a poesia n�o pode funcionar dessa maneira, pois a imagem po�tica
� muito mais uma interrup��o
da continuidade do que um deslizamento tranq�ilo entre campos diversos. A
poesia n�o faz �rede�, n�o faz �teia�, ela irrompe quebrando a
previsibilidade dos encadeamentos contempor�neos. A �pedra� cabralina
n�o pode ser um hiperlink ou hipertexto para a �pedra� drummondiana.
H� um abismo, um universo entre essas duas pedras. Tenho uma
p�gina na internet (http://sites.uol.com.br/caio.meira/)
onde se pode ter acesso ao conte�do dos meus dois livros. Meu objetivo
� abrir e ampliar a
possibilidade de uma descoberta, de que algu�m que esteja navegando,
deslizando, pela rede, interrompa ali o seu caminho, isto �, que possa
acontecer uma interrup��o � ou uma irrup��o � nesse deslizar e que
desta maneira a poesia cumpra com o seu destino de ruptura. �
SEOMARIO:
Tem alguma ep�graf C.M.:
V�rias
s�o as palavras e frases que nos acompanham e que nos guiam, de modo
muitas vezes obsidiante. De fato, somos verdadeiramente assombrados por
essas frases. A j� citada �h� v�rias maneiras de um homem rachar�
esteve presente durante boa parte do processo de elabora��o de �corpo
solo�. Para o meu pr�ximo livro, h� em especial uma frase que me
persegue, e que eu persigo, encontrada numa introdu��o � obra de Emily
Dickinson. Robert N. Linscott comenta que ela escreveu como Thoreau quis
viver: �close to the bone�. Essa express�o, de dif�cil tradu��o,
concentra minha principal preocupa��o atual: a de alcan�ar uma escrita
que se fa�a n�o somente a partir do corpo, mas a partir do osso, do
nervo, do tutano. O corpo, fendido, como na fratura exposta, exp�e o
nervo que sobe � flor da pele. Atingir essa escrita do nervo, escrever n�o
mais com a ponta dos dedos ou com a m�o, mas com o tutano dos meus ossos,
viver e escrever �close to the bone�, � sob a �gide dessa ep�grafe
que me movimento agora. �
SE C.M.:
Nenhum. Por tudo o que disse nas respostas anteriores, depreende-se que n�o
h� papel poss�vel para o escritor. Primeiro porque em todos os sentidos
do verbo criar n�o cabe o de cumprir um papel, isto �, ter uma fun��o
preestabelecida (se n�o for preestabelecido n�o
� fun��o). Por exemplo,
o ator representa um papel no teatro ou no cinema. Ele estuda suas falas e
as repete. Se h� cria��o no trabalho do ator, esta se d� justamente
quando ele consegue escapar ao papel, dizendo o que n�o est� dito atrav�s
do que j� foi dito, dando filigranas ao que est� sendo repetido. Para o
escritor, repetir, cumprir um papel,
� ir na dire��o oposta a
da cria��o, pois n�o h� a presen�a da transforma��o, da deforma��o,
da inven��o. Dizendo de outra maneira, se o escritor cumprir um papel na
sociedade ele imediatamente deixa de fazer o que h� de mais
primordial ao seu of�cio, ou seja, dar vaz�o � inven��o, deixando
sempre a porta aberta para a entrada do desconhecido, Ora, se houvesse um
papel para a poesia, seria o da conviv�ncia com o desconhecido, com
aquele de quem n�o se pode dizer quem
� nem o que �. O
desconhecido, sabe-se da sua presen�a, ou melhor, pressentiu-se que ele
esteve presente, mas ningu�m pode dar-lhe um nome certo, dizer qual o seu
endere�o fixo (�aonde mora�), identificar sua profiss�o verdadeira.
Ali�s, assimilar a escrita ao contato com o desconhecido (com o estranho,
na acep��o que a palavra tem em franc�s � ��tranger�,
aquilo que � ao mesmo tempo estranho e estrangeiro) indica o qu�o pouco
ajuizado � trilhar esse caminho, no sentido apontado pela sabedoria popular:
�� sempre perigoso convidar um completo desconhecido a entrar em sua
casa�.
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