La Cumparsita ...
sávio roberto - 04:15hs ( 30/09/2000)
Na madrugada, absolutamente sem sono...este vento suave, esta brisa ... de repente,
entra pela janela de minha alma um velho tango... o tango dos cinemas ! Todos os
cinemas de Campos, antes dos filmes tocavam La Cumparsita... e se espalham
fragmentos dos anos 60 na minha cabeça, como num filme... a vida passando
de trás pra frente, como num rodopio ...passional.... como o Tango dos cinemas...
num passe de mágica, aparece o Cinema Goitacá, pomposo...com suas matinées... as
pessoas... verdadeira multidão no corredor que sai na Rua São Bento... ao lado, em
contraste, o velho paredão que conduz ao Cine Coliseu... o pessoal mais pobre, o
“operariado” e suas lustrosas bicicletas... O Goitacá que raramente podia ir ...
era mais caro... o velho Coliseu com seu teto de Zinco e suas colunas dentro do
cinema ... As Soirées... 3 filmes de cada vez ... na verdade, dois filmes... e um
seriado ... Zorro...Faroeste ... o Canal 100... As propagandas em imagem fixa...
a garotinha do Pão Pullmann ...a propaganda do Ginásio Floriano:__Antes ...Depois...
a propaganda da Casas Hudersfield ... da Pena de Bronze... da Drogamap... da
Floricultura São Salvador ...As balas da bomboniére... O velho Trianon... quando
faltava luz, ouvia-se o filme e ao fundo o pom-pom-pom do gerador... ao lado do
cinema, onde hoje é a Isalvo Lima, os 12 Bilhares...bar e casa de jogos... mais
adiante, o High-life - onde hoje é a Caixa Econômica...
Na praça São Salvador, em frente ao Café Central, o ponto final dos bondes...
mais adiante, a parada dos “Trolley-bus” - maravilhosos e silenciosos ônibus
elétricos ... No centro, a Casa do Chá... para os sorvetes de depois do cinema...
à esquerda, o Caldo-Andrade e seus famosos sorvetes com cobertura...frequentado
pela mais alta-sociedade... mais adiante um pouco, na Barão de Amazonas, o Restau-
rante Arpege ... Os majestosos ônibus da Auto-Viação Santo Antônio...ponto de saída
para o Rio de Janeiro ...Na época, estavam aprontando a Rodoviária Roberto Silvei-
ra...
À noite, várias opções: Campestre Boliche ...Bom-Boliche ...Os bailes no Saldanha
da Gama – na época em pleno centro da cidade ...Os “Convívios”- Bailes no Automóvel
Clube Fluminense ...
E vagueia a mente, agora na Av Pelinca, no Cine Teatro São Salvador (onde hoje
é a Projex)... filme: A um Passo da Eternidade ... chuva na saída – Na Rua São
Bento, os bailes de sábado no Tênis Clube de Campos – O Boliche era em fren-
te ... Na 28 de Março, o Cine Teatro São José... onde ainda repousa no mesmo
lugar, a sua carcaça... mais, poderia ser reconstruído... Mais no centro, no
mesmo lugar, mas com muito mais pompa naquela época, o Cine Capitólio...
No Rádio, Elizete Cardoso interpreta “Canção da manhã feliz “... As Rádios Jornal
do Brasil e Nacional, entram “estourando” nos lustrosos rádios SEMP... as “radio-
las” têm o design Art-noveau da época – impressionante ... todos os móveis
“modernos” eram “pés-palito” ...
Aparecem os modelos High-Fi ... As Zilomag, Standard Eletric, General Eletric.
Phillips ...O rádio portátil marca Mitshubishi, o “Spika”... o poderoso Trans-
globe, primeiro de 8 faixas, depois 11 ! Pegava o mundo todo ... A televisão que
existia era a TV Tupi – Canal 6 – que em Campos tinha um sinal horrível ... as
Marcas de TV da época, TeleKing, Emerson, Standard Eletric ...depois, as Phillips
e as Phico...
Voltamos à Praça São Salvador... ao lado da Catedral, as Bandas de Música...A Lira
Guarani, a Operários Campistas, a Lira de Apolo ... a do Patronato São José,
encantam o fim de tarde ...os maravilhosos pastéis do Restaurante do Papai, ou
as omeletes do Restaurante Arpége...sem falar, os suculentos filés do Restaurante
A Francesa ... tinham glamour... ao lado, a Colombo, mais adiante, a Agência
Santana, que depois, no seu lugar, ficou a Papelaria Nasser ... em frente, a Relojo-
aria Fritz, em seguida, A Normalista ...
Meu Deus...quanta coisa boa que se foi ... Ainda na Praça, a paisagem de carros
... parecia filme americano da década de 40...50 ... os carros das marcas Mer-
cury, Ford ... um ou outro Studbaker, alguns Citroens... o luxo dos Bel-Air...
carros de “saia e blusa “, isto é, teto de cor diferente do resto do carro...
Claro, o fusquinha estava em pleno auge... Depois, os Aero-Willys, os Sinca Cham-
bord, o Esplanada, o Dauphinne e depois, os Gordines ao lado dos DKV Vemag...
Lembro-me com especial saudade, do velho Frajola... motorista negro, empertigado,
sempre com sua roupa impecavelmente branca, seu boné -que lhe conferia a imponência
de um brigadeiro... Seu velho fordeco, levando a alegre rapaziada do Liceu para
o Centro ...No final, seu carro só pegava empurrado ...mas, quem ligava pra isso?
Na Alberto Torres, o contingente de estudantes do Liceu , do Bittencourt, do Colégio
Batista... as brigas, as rixas entre os colégios ... o pau quebrava feio! Era Liceu
contra Bittencourt, que era contra a rapaziada do Senai ... que quebrava o pau com
a turma do Colégio São Salvador...
E vai a música do cinema entrando na mente e na alma ...o apito do trem na 28 de
Março... o cheiro de café torrado, nas proximidades do Colégio XV de Novembro...
Os professores vão desfilando na minha cabeça... Dona Olga Cretton... Rui Pinheiro
...José Luiz Glória...Ariema Barbeitas Gusmão... Padre Jomar... Dona Rosita... Padre
Rosário... Dona Ruth Rosário... Eraldo Leite e tantos e tantos outros...
As serestas aos sábados, a Boate Barril... as tardes de domingo ... O Ítalo Júdice
anunciando a sua PRF-7 Rádio Cultura de Campos... o filme Candelabro Italiano ... AL
DI LÄ ...Os primeiros encontros...a primeira namorada ! Paixão completa e irre-
versível !
De repente...tudo foi mudando...sem que a gente percebesse ... As noites de ir ao
cinema com meu pai... primeiro, garupa de bicicleta... depois, a velha lambreta
LD 57... o vento frio na volta, descendo a Praça das Quatro Jornadas... cortando as
orelhas, de tanto frio ...
Na Estação da Leopoldina, as viagens de trem com minha mãe, o cheiro gostoso do
tecido do vestido que ela usava, se misturando ao perfume da Colônia de Alfazema...
íamos para São João da Barra, ou para o Rio de Janeiro...o cheiro de fumaça da for-
nalha da locomotiva... as roupas “caki” do pessoal da estação... o cheiro de café
fresquinho, os bolos de fubá e os “bolinhos de arroz”... Uma festa!
Tanta coisa vem na minha cabeça...
Amigos eternos que jamais deram notícias...onde estarão? __ o que fizeram de suas
vidas ?
De repente, percebo como o tempo passou rápido... você não percebe o que o tempo
faz...
Aí, você descobre como era feliz ...
Tudo isso, me volta às lembranças no velho tango ...La Cumparsita...
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O DIA QUE CANDICE (BERGEN...) ME ENCHEU O SACO...
Sávio Gomes
Não agüentava mais ficar na praia de Atafona ! A Candice ( Bergen ) havia novamente
despencado de Paris, apesar de termos acabado tudo desde o verão de 96 ! Ela já es-
tava decadente, desde então...
Também era insuportável o ciúme que ela tinha da Braga ( Sônia ) e olha, que eu não
tinha mais nenhum vestígio do caso que tive com ela.. a bem dizer, não fora propria-
mente um caso... foi um incidente, na verdade! Estava em Amsterdã, num café, ba-
tendo um descontraído papo com Zubin Metha ( nem sei se é assim que se escreve o
nome do regente...) quando a Sônia, que havia ido para divulgação de um filme,
estava no mesmo café... Ao passar por nós, derramou o Dom Perignon em cima do meu
colo... imediatamente, totalmente embaraçada, pegou um guardanapo e começou a limpar
-me a calça...
Foi quando passou a mão bem no meio das minhas pernas !
Aí, fazer o que...bem...acabamos rolando nos tapetes do meu apartamento !!!
Mas, fala a verdade! Isto é um caso ? Sequer lhe dei meu celular, apesar dos insis-
tentes apelos...mas, não havia uma razão para isso... La Braga, não era mais essas
coisas... Deu pro gasto... até porque, havia dormido muito aquela tarde e estava sem
sono...
Mas, voltemos à la pluie chata, a Candice...
Havia ido pra Atafona, com a finalidade de descansar, já que aquela praia está mesmo
falida, não aparece nem mesmo espera-maré por lá... Bem, tem a Jandyra... mulata
sestrosa, filha de Seu Zé da quitanda... 18 anos, pernas perfeitas, peitinho empi-
nado, cheiro de sapoti misturado com jambo...um monumento ! E como mexe a criatura !
Viagra é dispensável, tal a estampa da criatura ! Aquilo só nasceu pra natureza!
Estava lá, camarãozinho frito do lado esquerdo, lata de cerveja ancorada na quilha da
canoa, e Jandyra deitada com a cara bem no meu colo...Sabe como é... aquele solzinho
mortiço...aquela lassidão, que só os bons safados sabem sentir...
Foi aí que chegou a tresloucada da Candice...(ex-belle de jour) !!!
Instintivamente só falei: __ MERDE !... MERDE, MERDE, MERDE !!!
E ela: Mon cherie...Je vous aime !
Aí, não teve jeito...dei-lhe duas bofetadas na cara.. a idiota ainda caiu em cima de
cocô de cachorro, lambuzou os cabelos... Eu fui firme, pois aquela situação me fez
perder a cabeça. Aí, eu sapequei:
VOUS ÊTES UNE FEMME VULGAIRE LAIDE ET HIDEUSE... IL REVIENT À PARIS... IL DISPARAÎT
DE MA VIE!!!
Ela ainda agarrou-me pela perna, e gritava e chorava: mon amour... pardon! Mais je
vous aime! Si vous voulez, je serai prostituée pour vous soutenir, mais il ne
m'ordonne pas loin, s'il vous plaît! Je vous implore!
Não tive mais saco, dei-lhe duas porradas bem na cara. As pessoas iam juntando em
volta daquela cena deprimente... Jandyra, com sua beleza burra, não entendia nada.
Na sua concepção, aquela língua estranha, era coisa do outro mundo, e dizia num
risinho nervoso: Ih, mané... a coroa “pegou santo dos brabo”...fala coisa que só Pode
ser o “coisa ruim”... Olha o biquinho da dona! Coitada...desconjuro!
Bem, o resto é dispensável comentar...
Candice teve uma crise nervosa, e chamaram uma ambulância do Hospital Henrique Roxo,
de Campos... Desceu um negão, que era o médico e um enfermeiro meio efeminado...
Mediram pressão, batimento cardíaco, essas coisas... O médico perguntou: __Como se
sente, senhora?
Bem...ela não entendia uma palavra em Português...e começou a balbuciar em francês,
alguma coisa de forma inaudível pela distância em que me encontrava...
O médico perguntou: __ Alguém conhece essa senhora ?
Jandyra olhou pra minha cara... O enfermeiro bichinha olhou-me e disse: __ Conhece
a bofe ?
Entendiado, respondi: Nunca vi tão gorda...
Bem, foi o suficiente para estragar a minha tarde! Peguei minhas sandálias havaianas,
e fui pra casa dormir ! Que saco !
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Oi, James:
Cara, você é sensacional, continua um jovem criativo! Sei a satisfação que sentes, e
suas montagens sempre foram primorosas!
Vejo assim, uma espécie de visionária poesia:
James Salvador
quer salvar o mundo,
trazer de volta
o passado sintonizado.
Quer rever o mundo,
passá-lo à limpo
Em Ondas Médias,
Ondas Curtas
E Tropicais!
Já vão longe
os doces madrigais,
os "convívios" no Saldanha,
os sorvetes da Casa-do-Chá,
as bandas de domingo
na Praça São Salvador,
__ a "velha", antes do "tombo" ...
E o James sintoniza
As tardes de cinema,
as "soirées",
Os Carnavais de Colombinas,
chorosos Pierrots!
Sintoniza, mano-velho,
Traga de volta
as madrugadas,
as "paneladas",
o frio gostoso
sintonizados nas manhãs
de sonhos, projetos,
aspirações eterizadas!
Sinta o cheiro,
a goma que isola
camadas e camadas
na carcaça de ferro
a mão ansiosa
que conta espiras,
como quem roda
o mundo de volta.
James sintoniza
o passado,
o mundo de volta,
na volta do tempo!
Sávio Roberto M. Gomes
com carinho, ao meu querido amigo.
24/11/2005
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