A Saga do SETUSA

 

O Começo
A criação do Serviço de Transportes Urbanos S/A, ou Setusa foi por parte do então governador, no fim dos anos 80, Tarcísio Burity, um homem à frente de seu tempo. No início o serviço oferecido aos pessoenses era de primeiro mundo: ônibus limpos, seguros e bem cuidados. Mas só foi Burity sair do executivo estadual para começar a destruição daquele que outrora orgulhou tanto o povo de João Pessoa.

Passe Livre
João Pessoa foi uma das poucas cidades do país até então a ter um sistema parecido: Estudantes fardados de escolas públicas poderiam usar os ônibus da empresa gratuitamente. Óbvio que muitas pessoas aproveitaram a boquinha para não pagar a caríssima passagem da época (R$ 0,20, em 1995).

E começou a decadência... tenho tantas saudades...

Higiene
Quem não se lembra do cheiro podre de vômito que exalava diariamente em seus corredores? Que ônibus limpos eram aqueles. Nos enchia de alegria quando um infeliz qualquer cometesse o ato... de vomitar. Se em um dia alguém não vomitasse no dito cujo, não era um dia normal...

Manutenção
Os ônibus da Setusa além de bem-cheirosos eram muito bem cuidados, com todas as detetizações em dia: uma vez vi em um destes coletivos lindos quando voltava da escola um rato, andando no seu límpido chão. Uma cena inesquecível. Na parte mecânica era um beleza. Todo dia via-se o guincho em pleno funcionamento: Setusas enguiçarem era tão normal... Um dia foi muito triste. Faltou gasolina... Quanta preocupação com o usuário.

Carnaval
Como parte dos saudáveis festejos, a cidade é invadida pela onda do mela-mela. Quem depende de ônibus sabe o que é isso. No período, a garotada confecciona bombas feitas com canos (algo como umas ampolas gigantes) para esguichar toda sorte de melecas e nojeiras nos ônibus que passam. Este é o tempo das viagens fétidas e abafadas, de janelas fechadas. Claro, ninguém quer se arriscar a levar um banho de água de esgoto, óleo queimado ou um ovo podre na cabeça. Todo o cuidado é pouco. Uma vez eu estava num ônibus quando uma menina que viajava com a cara na janela foi atingida por um jato de água com cal. Foi no finado SETUSA. Lógico que vinhamos alertando. "É bom fechar isso aí...", "Menina, ainda vão te pegar..." Pois bem. Foi só uma questão de tempo para a suspeita concretizar-se. Ainda pingou um pouquinho em mim...

Domingo na praia
Era o melhor situação para pegá-lo. A única diversão do "gado" fora a programação da tevê é a praia, então domingo o Setusa se transformava em veículo do "Pão e Circo" dominical. Pessoas seminuas e bêbadas. Gente feia. E claro o espetáculo do vômito. Vomitava-se sem a menor cerimônia, democraticamente, que dane-se quem estiver por perto... Nessas horas o transporte coletivo de João Pessoa me lembrava vagamente o de Nova Délhi.

Vandalismo e o fim
Depois que Burity sai, entra para Governador o "poeta" Ronaldo Cunha Lima, que depois de uma de suas bebedeiras tenta matar seu antecessor. Depois desse pequeno incidente, o vice-governador Cícero Lucena assume. O mesmo consegue com o dono da Transnacional, empresa privada concorrente do Setusa, dinheiro para sua campanha à Prefeitura de João Pessoa. A Transnacional estava louca pelas linhas rentáveis do Setusa. Cícero pôs seu irmão para ser presidente da empresa. Os ônibus, depois de um tempo, começaram a sofrer depedrações. Os usuários viram que o serviço tinha piorado muito e que nada ia mudar, surgindo assim um sentimento de revolta. Um dia arrancava-se o estofo da cadeira, no outro arrancava uma cadeira, em seguida pichava-se... E o pior: Não se comprava peças de reposição. Os consertos eram mal-feitos. Tirava-se peças de um ônibus para pôr em outro! Aí os ônibus foram se acabando. Cícero primeiro sucateou a empresa e depois vendeu-a a preço de banana em fim de feira. Em 1996 o Setusa foi desativada. A Transnacional ficou com quase todas as linhas da finada empresa e Cícero ganhou a eleição. Hoje em João Pessoa existe praticamente um monopólio. Uma só pessoa controla a Transnacional, Reunidas (João Pessoa e Cabedelo) e São Jorge. Você que fica reclamando do preço da passagem por aí, acha um absurdo pagar R$ 1,60 por essa merda de ônibus, culpe nosso querido senador Cícero... Ricardo Coutinho criou o terminal de integração; a situação melhorou um pouco, mas a população ainda paga uma passagem caríssima, levando em consideração que os ônibus de João Pessoa tem um percurso pequeno, se em comparação com Recife, cidade com tarifa igual a de JP.

   

"Cícero primeiro sucateou a empresa e depois
 vendeu-a a preço de banana em fim de feira".

Cícero Lucena

Abandono
Hoje se encontra vários Setusas em um ferro velho na Av. Cruz das Armas (perto do viaduto do oitizeiro). Uma peça que deveria estar em um museu hoje encontra-se em estado de putefração...

Linha 1500: Agora, da Transnacional.

Melô do Setusa
A banda Funk Pêso Brasil fez uma música descontraída sobre o Setusa, no maior estilo funk carioca (miami bass), a qual coloco aqui para download.

 

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