Hipertexto como instrumento
para apresentação
de informações em ambiente de aprendizado mediado
pela internet.
Cristina Portugal
Resumo
Esta artigo analisa o hipertexto como um instrumento pedagógico
eficaz para o indivíduo construir seus sentidos e significar
o mundo através de uma relação compartilhada,
coletiva e social. Problemas de comunicação e de informação
foram considerados neste artigo, fatores essenciais na configuração
de ambientes educacionais. Neste trabalho, considera-se a importância
do uso de ferramentas de Design na organização dos
hipertextos em ambientes para educação a distância,
principalmente neste momento em que a tecnologia da informação
está transformando, sensivelmente, o entorno e as relações
sociais dos indivíduos.
Palavras-chave: Design, Educação a Distância,
Hipertexto
Abstract
This article analyses hypertext and its claim to be an efficient
pedagogical instrument for the construction of individual understanding
and definition of a world-view by means of a shared, collective social
relationship. The article considers some problems of communication
and information that are important factors in the design of educational
environments. It also considers the importance of using appropriate
design tools for the organization of hypertexts in distance-education
environments, especially at this moment in which IT is drastically
transforming societal contexts and relationships among individuals.
Key-words: Design, Distance Education, Hypertext
Resumen
Este trabajo analiza el hipertexto y su aserción de ser un
instrumento pedagógico efectivo para la construcción
de entendimiento individual y definición de una vista mundial
por medio de una relación social colectiva compartida. El
artículo considera algunos problemas de comunicación
y de información que son factores importantes en el diseño
de ambientes educacionales. También considera la importancia
de usar herramientas apropiadas de diseño para la organización
de hipertextos en ambientes de educación a distancia, especialmente
en este momento en el cual la tecnología de la información
esta transformando drásticamente los contextos sociales y
las relaciones entre los individuos.
Introdução
Uma questão significativa presente no mundo contemporâneo é a
velocidade do desenvolvimento tecnológico. Este fato tem sido
objeto de estudo em muitas pesquisas, pelo paradoxo que revela: desenvolvimento
e conflito. As tecnologias têm sido responsabilizadas por diversos
problemas sociais, econômicos, ecológicos. Entretanto,
novas tecnologias criam novas formas de ação e organização
social. As transformações tecnológicas e suas
conseqüências sociais, éticas, ambientais dentre
outras, se processam num ritmo célere, desafiando a educação
e produzindo uma distância expressiva entre o ensino escolar
e as movas formas de aprendizagem presentes na vida cotidiana. Neste
sentido, torna-se fundamental buscar novos modelos, novos métodos
e novas abordagens para a educação.
Este artigo tem por tema a atuação do designer como
organizador da informação e da comunicação
nos ambientes de aprendizagem mediados pela internet, a partir de
uma reflexão sobre a escrita em suporte estático e
a escrita em suporte eletrônico.
Roger Chartier, para quem não parece haver dúvida
de que as novas tecnologias têm exigido do indivíduo
contemporâneo a construção de estruturas singulares
no tocante a compreensão e apreensão de conhecimentos,
diz que: "Ao pensar o que acontece no mundo contemporâneo,
faz-se muito claro que tudo o que pensamos como estável, invariável
ou universal se fragmenta em uma descontinuidade ou em uma série
de particularidades. Assim, tem lugar uma consciência ou autoconsciência
da situação singular de cada um de nós em um
presente que também é singular". (Chartier, 2001:152).
Pode parecer a muitos que as discussões sobre hipertexto
surgiram com a informática, mas é possível falar
do conceito que está por detrás da idéia de
hipertextos como sendo anterior ao computador. A Bíblia pode
ser considerada um tipo de hipertexto pela forma não linear
de leitura que propicia. Exemplos de hipertextos podem ser encontrados,
também, nas anotações de Leonardo da Vinci e
na própria história da literatura.
A literatura impressa nos oferece diversos exemplos de hipertextos
que permitem ao leitor uma leitura não linear. Todo texto
escrito é um hipertexto onde o leitor se insere num processo
também hipermidiático, pois a leitura é feita
de ligações dos pensamentos que estão na memória
do leitor, das referências do texto, nos índices e no índex
e até mesmo em cada palavra que remeta o leitor para fora
da linearidade do texto. Pode-se considerar que a história
do hipertexto é a história do texto, mas é,
sobretudo, a história da computação.
Numerosos autores das áreas de Educação, Lingüística,
Análise de Sistemas, Psicologia, Ergonomia, Informática
entre outras, vêm disponibilizando seus estudos e reflexões
sobre o conceito de hipertexto. Neste trabalho, que não tem
a pretensão de esgotar o tema, mas tão somente esboçar
um pano de fundo para o entendimento dos meandros do hipertexto como
instrumento para ambientes de aprendizado mediados pela internet.
O conceito de hipertexto
Segundo Preece (1997), o termo hipertexto surgiu com Theodore Holm
Nelson para definir a idéia de escrita e leitura não
lineares em sistema de informática. Este autor idealizava
um sistema de texto que permitissem aos escritores rever, desfazer
e comparar de maneira ágil qualquer parte de suas obras. Nesta época
(1967), os processadores de texto não existiam e Nelson, ao
inventar o termo hipertexto visava exprimir a idéia de leitura
e escrita não linear, utilizando um sistema informatizado
denominado Xanadu.
Contudo, a primeira concepção de hipertexto é atribuída
a Vannevar Bush, segundo Ramal (2001), no artigo publicado em 1945, “As
we may think”. Neste trabalho, Bush esboça o Memex que,
em linhas gerais, é um precursor do computador pessoal hoje
utilizado. Sua formação era em matemática e
ele trabalhava numa agência de Desenvolvimento e Pesquisa Científica
do Governo Norte Americano, onde coordenava cerca de seis mil cientistas.
O grande desafio imposto a Bush foi o de tentar criar um sistema
que pudesse organizar e armazenar um volume crescente de dados, de
tal forma que permitisse a outros pesquisadores a utilização
destas informações de maneira rápida e eficiente.
No citado artigo, este autor afirma que o raciocínio humano
funciona por associações, saltando de uma representação à outra
ao longo de uma rede de conhecimento. O volume de dados crescentes,
sua organização, seu transporte e as facilidades de
acesso, estudadas por Bush, foram a base para que seus seguidores
desenvolvessem o conceito de hipertexto.
Na história do hipertexto, outro personagem importante é Douglas
Engelbert, Diretor do Argmentation Research Center (ARC) do Stanford
Research Institute. Neste centro de pesquisa foram testadas várias
situações relacionadas com a apresentação
de informações: tela com múltiplas janelas de
trabalho; possibilidade de navegação com o mouse; complexos
informacionais representados na tela por símbolos gráficos;
conexões associativas (hipertextuais) em bancos de dados ou
entre documentos escritos por autores diferentes; tutoriais dinâmicos
para representar estruturas conceituais nos sistemas de ajuda ao
usuário integrado ao programa. Neste centro de pesquisa foi
criada uma metáfora de desktop, uma interface gráfica
desenvolvida pela Xerox Parc.
Nessa época, o conceito e o uso de metáforas de interface
proporcionou uma mudança nos processos de desenvolvimento
de produtos, enfatizando o projeto centrado no usuário.
Organizações como a IBM, Hewlett Packard e a Apple
começaram a integrar profissionais como ergonomistas, cientistas
cognitivos, artistas e outros em suas equipes de desenvolvimento.
A Apple, fundada por Steve Jobs e Steve Wozniac, certamente ocupa
um lugar de grande importância na história do hipertexto.
Desde 1987 a Apple passou a distribuir gratuitamente o programa Hypercard
nos seus computadores Macintosh.
O contexto do hipertexto, resumidamente descrito acima, serviu de
introdução ao hipertexto como instrumento para apresentação
de informações em ambiente digital.
Hipertexto na educação
Após esta rápida contextualização do
hipertexto, que remete às suas primeiras versões, trago
para a discussão o hipertexto nos dias atuais. Para tal, tomo
por base idéias de Chartier (2001), ao dizer que os modos
de reprodução, inscrição e recepção
da informação mudaram radicalmente com o texto eletrônico.
Para ele, três aspectos básicos diferenciam os suportes
estáticos dos suportes eletrônicos. O primeiro deles é a
possibilidade de escrever no corpo do texto, enquanto que no livro
escreve-se apenas nas margens, nos espaços em branco, permanecendo
intocável o texto básico inicial. Na leitura em tela
esta presença extensiva e preliminar desaparece. Para Chartier, "...com
a representação eletrônica do texto, existe a
possibilidade de submeter o texto recebido às decisões
próprias do leitor para cortar, deslocar, mudar a ordem, introduzir
sua própria escrita etc. Pode-se escrever no texto ou reescrevê-lo".
(Chartier, 2001:145).
O segundo aspecto considerado por Chartier é a eliminação
do intermediário para a produção de livros.
Com o texto escrito, mediações precisam ser feitas,
como por exemplo, o modo como o livro é exposto na livraria,
que contribui para dar um sentido a ele. Com o texto digital tudo
isto pode ser evitado e a escrita e sua publicação
podem ser feitas simultaneamente. O texto é difundido a partir
da escrita do autor, sem mediações, sem intermediários.
O terceiro aspecto é a possibilidade de todos os textos serem
transformados em digitais, para que se tenha uma biblioteca universal. "Já não
há um lugar do texto, cada leitor tem seu próprio lugar,
pode ter acesso a esse patrimônio textual universal".
(Chartier, 2001:146).
Segundo Ramal (2001), o hipertexto é uma forma de organização
da informação, que tanto pode ser veiculada em um suporte
estático como através de meios eletrônicos.
Pode-se dizer que o surgimento dessa nova ecologia cognitiva, trazida
pelo hipertexto, mudou a velocidade da disseminação
da informação. O hipertexto guarda semelhança
com o modelo mental proposto por diversos autores, dentre os quais
destaca-se David Ausubel (1963) apud Rezende (2003), que considera
o pensamento de uma forma não linear, admitindo que a mente
humana funciona em uma lógica de associações
que forma uma verdadeira rede. Ele diz que o aprendizado significativo
ocorre quando uma informação nova é adquirida
mediante um esforço deliberado por parte do aluno em unir
a informação nova com conceitos ou proposições
relevantes preexistentes em sua estrutura cognitiva.
Segundo Rezende (2003); Ausubel (1933) aborda o modo como as pessoas
aprendem grandes quantidades de material significativo por meio de
apresentações textuais e verbais em um quadro escolar.
Para o autor, o aprendizado é baseado em tipos de processos
mentais que ocorrem durante a recepção da informação.
O conhecimento é a informação processada, articulada
e integrada à rede de conhecimento prévio da pessoa.
Caso uma determinada informação não encontre
uma outra em com a qual possa se articular na rede de conhecimento,
não será apreendida e, deste modo, não se tornará conhecimento.
Quando o conhecimento é internalizado, Ausubel considera
que ocorreu a assimilação, que implica a adesão
de um novo conceito à estrutura cognitiva da pessoa, gerando
uma reorganização da malha de significados, como resultado,
uma nova estrutura cognitiva.
Na mesma linha, Mamede Neves (1996) considera que o pensamento é um
processo que pressupõe a organização, numa rede
de associações com diferentes graus de complexidade,
de um sistema de representações de objetos, vivências
e ações, que são recebidas como informações
pelo psiquismo, sendo por ele registradas e significadas. Para ela,
esta é a mesma lógica do funcionamento do hipertexto. "Pensar
pressupõe haver o suporte de uma organização
(a organização psíquica) que se constitui num
sistema de representações dos impulsos internos, dos
objetos e vínculos percebidos, dos momentos vivências
e das ações do próprio indivíduo, tudo
isto recebido como informações pelo psiquismo, nele
registrado e por ele significado. Na verdade, o sistema psíquico
realiza um duplo trabalho, transforma percepções, externas
e internas, em imagens e operações mentais, integrando-as
ao conjunto de registros já estruturados, ao mesmo tempo em
que modifica suas próprias estruturas de operação,
em função da entrada das informações
no próprio sistema". (Mamede Neves, 1996: 2).
Lévy (1996) define hipertexto como um conjunto de nós
conectados por ligações. O autor descreve algumas das
funções do hipertexto informático como: hierarquizar
e selecionar área de sentido, tecer ligações
entre estas zonas, conectar o texto a outros documentos, arrumá-lo
a toda uma memória que forma uma espécie de base sobre
o qual ele se destaca e ao qual remete.
A idéia de interconexões de nós parece estar
subjacente ao entendimento do hipertexto como apresentação
de informações que estão disponibilizadas através
de uma rede de nós interconectados por links, que pode ser
acessada livremente pelo usuário de um modo não linear.
Já Chartier (2001) afirma que as novas práticas de
leitura e escrita, as novas formas de comunicação,
as mudanças na linguagem e as novas formas de pensar e de
aprender devem ser entendidas a partir de toda rede sociotécnica
que passa pelas tecnologias.
Ramal (2001), por seu turno, considera que o hipertexto é uma
espécie de materialização de uma rede associativa
mental. A sua existência e a sua difusão como tecnologia
e metáfora dos processos comunicacionais e cognitivos de nosso
tempo interrogam a sala de aula, dizendo-lhe que a forma de educar
hoje, mais do que nunca, é por meio de um diálogo ao
qual os envolvidos possam reassumir como protagonistas. O hipertexto
vem criar condições de possibilidade para tornar as
salas de aula o espaço de todas as falas, de redes de conhecimentos,
da construção coletiva, da partilha das interpretações.
Na mesma linha, Rezende (2003) afirma que o sistema de hipertexto é um
ambiente dialógico em dois sentidos, ou seja, no diálogo
com o próprio sistema e também no diálogo com
outros usuários. Ele considera que uma estrutura de navegação
fechada poderá acarretar não somente a sub-utilização
do potencial associativo e dialógico deste meio, como também
a perpetuação do método monológico de
transmitir informações e conhecimentos. Citando Cambiem
(2002), ele diz que os ambientes de aprendizagem devem ser construídos
de modo a encontrar o equilíbrio entre o rigor da apresentação
do conteúdo, sem o qual o aprendizado não é significativo,
e as diversas possibilidades que o usuário se depara durante
a navegação em ambientes virtuais, os quais permitem
a manipulação dialógica das informações,
sua contextualização e, conseqüentemente, sua
significação.
Design e a organização dos hipertextos em suportes
eletrônicos
A grande questão que se apresenta para o designer é a
de como organizar hipertextos, configurando ambientes educacionais
de forma a não limitar a exploração e a criatividade
do aluno garantindo que os objetivos de aprendizagem sejam alcançados.
Um dos elementos mais importantes na criação do hipertexto é a
sua organização. Pensar cuidadosamente o que se pretende
informar, como se pretende informar e principalmente, quem será o
usuário desta informação. É imprescindível
que o designer esteja familiarizado com o conteúdo do ambiente
virtual a ser projetado, permitindo criar um fluxograma das principais
características, passos e objetivos do ambiente virtual, fazer
um storyboard das informações em seções
e subseções, planejar como fazer relações
de uma seção com outra e vice -versa e criar um mapa
do site. Estes subsídios podem ajudar muito quando for realizada
a construção de cada página individualmente
do ambiente virtual.
Um mapa do ambiente virtual bem organizado pode ser a principal
ferramenta de navegação, não somente uma lista
de links. Através do mapa do ambiente virtual tem-se uma visão
geral da organização, da extensão e do fluxo
narrativo de sua apresentação. Há várias
situações que devem ser evitadas na organização
de hipertextos como:
1. A estrutura dos hipertextos tem que ser lógica e previsível,
não se pode ter uma amontoado de links que não tenha
um propósito significativo, como mostra esquematicamente na
figura a seguir:

Figura 1: Estrutura de hipertexto aleatória. (Web Style
Guide, 2003).
2. Os ambientes virtuais que têm a característica hierárquica
de informações demasiadamente “rasas” podem
ter uma lista enorme de menus acarretando confusão para o
usuário, como mostra o modelo a seguir:

Figura 2: Estrutura de hipertexto rasa. (Web Style
Guide, 2003).
3. Esquemas de menu também podem ser demasiadamente profundos,
disponibilizando as informações debaixo de diversas
páginas de menus, fazendo com que a navegação
através das páginas torne-se cansativa e frustrante,
como mostra o exemplo a seguir:

Figura 3: Estrutura de hipertexto profunda. (Web
Style Guide, 2003).
Um dos principais problemas durante a navegação em
hipertexto é a falta de organização das informações,
pois o usuário precisa saber o local em que se encontra no
site. Na figura abaixo a Web Style Guide (2003) apresenta um modelo
onde as informações estão disponibilizadas de
modo que o usuário possa navegar nas páginas voltando
e avançando de forma organizada:

Figura 4: Estrutura de hipertexto organizada. (Web
Style Guide, 2003).
Para Chartier (2001), a história da leitura mostra com clareza
que as mudanças na ordem das práticas são geralmente
mais lentas do que as revoluções tecnológicas.
Segundo Couloun (1995) citando Willian Orgbun (1929), no livro a
Escola de Chicago, ele estudou o conceito de distância cultural
no contexto da influência da tecnologia e do impacto das invenções
sobre o desenvolvimento social. Para ele, as mudanças provocam
tensões em virtude da demora necessária para a assimilação
dos progressos tecnológicos e das descobertas científicas,
pelas instituições sociais e pelos indivíduos
acomodados a sua própria cultura. Contudo, os indivíduos
são obrigados a adaptar-se a esta nova realidade, mas ao custo
de uma desorganização. Assim, os problemas sociais
que os indivíduos enfrentam surgem do fato de que os aspectos
materiais da cultura tendem a modificar-se com mais rapidez que seus
traços psicológicos.
Durante muito tempo, os textos produzidos em códice nada
mais eram do que a transposição do conteúdo
dos rolos. Com o desenvolvimento tecnológico, foram desenvolvidas
técnicas de redação para os novos suportes.
Hoje em dia, geralmente, os ambientes virtuais não passam
de uma transposição do material produzido em suporte
estático, apontando para a necessidade de uma mudança
de paradigma que considere os padrões para o texto em suporte
eletrônico.
Quando a tecnologia da escrita se disseminou, provocou profundas
mudanças na prática educativa, assim como ocorre hoje
com o advento das novas tecnologias. Atualmente, não é possível
vislumbrar um processo de ensino-aprendizagem sem um material escrito,
oferecido em suporte estático e em suporte eletrônico,
permitindo a convivência harmônica entre tecnologias
modernas e antigas.
Georg Simmel (1987), em seu artigo “A Metrópole e a
Vida Mental”, caracterizou a situação do indivíduo
na sociedade moderna como ponto de interseção de vários
mundos. O reconhecimento da diferença como elemento construtivo
da sociedade, não só o conflito, mas a troca, a aliança
e a interação em geral, constituem a própria
vida social através da experiência, da troca e do reconhecimento
explícito ou implícito de interesses e valores diferentes.
Portanto, pode-se dizer que os ambientes virtuais promovem a troca
entre indivíduos e, assim, proliferam-se pela internet grupos
de discussão, salas de bate-papo virtual, fóruns de
assuntos específicos, listas de contato para troca de mensagens,
entre outros. Vários aspectos da sociabilidade humana estão
ocorrendo através dos recursos das tecnologias de informação
e de comunicação, compondo um novo cenário de
relacionamentos. Cada vez mais, se faz necessário o estudo
das tecnologias que possibilitem a interatividade entre professor
e aluno, para a inclusão destas tecnologias no processo de
ensino-aprendizagem.
Considerações finais
O paradoxo educacional é a supremacia do corpo discente sobre
os docentes no que se refere a manipulação das novas
tecnologias. Atemorizados, muitos professores vêem as novas
técnicas como uma ameaça aos antigos métodos
educacionais, que garantiam o restabelecimento e o controle do quadro
educativo e ajudavam a manter a função histórica
das instituições de ensino. Sobreposto aos demais problemas
da questão educacional, no caso específico do Brasil,
a resistência às novas formas de ensino e de aprendizagem,
mediada pelas novas tecnologias, gera uma distância muito grande
entre a contemporaneidade e a educação praticada nas
escolas. A superação do analfabetismo da língua
ainda é um desafio para muitos países como o Brasil
e, entretanto, um novo desafio já se estabelece, sem a possibilidade
de se esperar a solução do primeiro. É o analfabetismo
tecnológico sobrepondo-se ao analfabetismo escrito.
Uma questão muito pertinente no momento atual, é:
a tecnologia produz exclusões? Cada nova tecnologia de informação
e comunicação gera excluídos. Não havia
iletrados antes da invenção da escrita. O fato de ter
pessoas analfabetas ou sem telefone não nos leva a condenar
a escrita ou as telecomunicações, pelo contrário,
somos estimulados a desenvolver educação primária
e a estender as redes telefônicas. No caso da internet deveria
ocorrer o mesmo, ou seja, buscar soluções para prover
benefícios às pessoas. Assim é que, mesmo com
o advento das novas tecnologias, possibilitando múltiplas
formas de adquirir conhecimento, a educação defende
o racionalismo científico, o ensino dirigido pelo professor,
que aponta caminhos e respostas, a manutenção do livro
e da escrita, assim como o discurso unilateral e definitivo.
Por sua vez, a internet institui a possibilidade de dar voz a "todos",
de se buscar caminhos alternativos, de se escolher e pesquisar um
assunto de interesse, de se ter acesso a trocas sobre os mais variados
assuntos, de se tornar co-autor e transformar o discurso unilateral
em hipertexto. Diferentemente das principais instituições
educadoras, que ao longo da história, como a Igreja e a escola,
reforçaram a dependência desta visão dualista,
privilegiando o conhecimento lógico-matemático e o
lingüístico, a internet propicia uma visão múltipla,
aberta a inclusões.
O caminho para se repensar uma educação nos moldes
pós-modernos é não utilizar o computador apenas
como ferramenta, mas como agente transformador do processo educacional
como um todo. É necessário clareza em relação
aos objetivos da introdução das novas tecnologias nas
instituições de ensino, pois os computadores, por exemplo,
não possuem uma característica intrinsecamente interativa
e transformadora. É o modo como a escola o utiliza que determina
se sua função será de estímulo à criatividade,
de transmissor de informações, de incentivador de novas
formas de sociabilidade e de desenvolvimento de determinadas habilidades
cognitivas. Para Lévy (1996): "Desde suas origens mesopotâmicas,
o texto é um objeto virtual, abstrato, independente de um
suporte específico. Essa entidade virtual atualiza-se em múltiplas
versões, traduções, edições, exemplares
e cópias. Ao interpretar, ao dar sentido ao texto aqui e agora,
o leitor leva adiante essa cascata de atualizações?
. (Lévy, 1996:35).
No que difere, então, dos métodos educação
tradicional, a entrada das novas tecnologias? Parece ser a instantâneidade
das respostas, a troca imediata de informações a possibilidade
de se virtualizar-atualizar-virtualizar, segundo os termos de Lévy,
em poucos segundos. Ao entrar em contato com uma diversidade de pessoas
que debatem os mais variados temas, as chances de expandir o conhecimento,
a criação e a imaginação são elevadas.
Tudo isto, em tempo real. Para a educação, especificamente
para ambientes virtuais, pode-se sugerir um currículo flexível
que aproveite o inesperado e mude a cada momento, e que seja traçado
pelo próprio aluno. Considera-se que o hipertexto, não
como elemento do espaço virtual, mas como virtualização-atualização
que sempre existiu desde suas origens mesopotâmicas, o caminho
para se pensar uma nova Educação. Em busca deste desiderato,
não se pode deixar de considerar a posição do
indivíduo frente às novas exigências do espaço
virtual.
Sendo assim, a utilização das novas tecnologias na
educação só se tornará eficaz se houver
flexibilidade de pensamento e disposição para reverter
as tradições do ensino presencial. O afastamento físico
gera a necessidade do uso de recursos tecnológicos para aproximar
os indivíduos, minimizando as distâncias físicas,
emocionais e sociais identificadas nos processos educacionais.
No Brasil, como os sistemas de educação a distância
iniciaram seu processo pedagógico através da modalidade
do ensino por correspondência via correio, baseado na tecnologia
das mídias escritas. Quando se implementou este ambiente educacional,
as novas tecnologias de informação e comunicação
não existiam. Portando, o ensino por correspondência
foi o método empregado durante muito tempo. A evolução
tecnológica possibilitou a criação dos ambientes
virtuais, que disponibilizam uma série de recursos pedagógicos
e permitem a comunicação interativa dos sujeitos nos
processos educacionais a distância. Esta tecnologia potencializou
a aprendizagem, segundo a premissa de que toda aprendizagem para
se efetivar necessita de uma retro-alimentação para
que a necessidade e o anseio do indivíduo no processo seja
alcançado. Uma necessidade satisfeita implica na sua reestruturação
e assim surge uma nova necessidade, em um movimento cíclico
de construções de necessidades e aprendizagens.
Os programas de educação a distância têm
como premissa um ensino que respeita as idiossincrasias pessoais
e busca compreender o aluno na sua individualidade, mas considera
essencial a interação dos sujeitos no processo de construção
de conhecimento. Os ambientes virtuais viabilizam oportunidades e
meios para que ocorram interações, entretanto, não é por
si só suficiente para construir relações interativas
entre professores e alunos, e entre alunos. Segundo Velho (1981),
quanto mais exposto estiver o indivíduo a experiências
diversificadas, quanto mais tiver que dar conta de etnos e de visões
de mundo contrastantes, quanto menos fechada for sua rede de relação
ao nível do cotidiano, mais marcada será a sua auto-percepção
de individualidade. Por sua vez, a essa consciência da individualidade
que poderá ser fabricada dentro de uma experiência cultural
específica, promoverá uma maior elaboração
dos saberes.
Segundo Johnson (2001), o link é a primeira nova forma significante
de pontuação a emergir em séculos, mas é só um
sinal do que está por vir. O hipertexto, de fato, sugere toda
uma nova gramática de possibilidades, uma nova maneira de
escrever e narrar. O hipertexto, como recurso tecnológico
mediado pela internet,, é um instrumento pedagógico
eficaz para o indivíduo construir seus sentidos e significar
o mundo através de uma relação compartilhada,
coletiva e social. Portanto, o desafio para o designer está em
descobrir, no espaço do processo de ensino-aprendizagem, as
possibilidades de interação que acontecem na relação
professores, alunos, informações e de construção
de conhecimento, e propor soluções para o uso das novas
tecnologias como mediadora do processo pedagógico.
Referências Bibliográficas
CAMPOS, G. H. B. Modalidade de uso de Software Educacional na Web,
ambientes de aprendizagens e portais educacionais. Rio de Janeiro.
Senac, 2002
CHARTIER, R. Cultura Escrita, Literatura e História. Porto
Alegre. Armed, 2001.
_________, A aventura do livro do leitor ao navegador. São
Paulo. UNESO, 1998.
COULON, A. A Escola de Chicago. Campinas. Papirus, 1995.
JOHNSON, Steven. Cultura da Interface como o Computador Transforma
a nossa Maneira de Criar e Comunicar. Rio de Janeiro. Jorge Zahar,
2001.
LÉVY, P. O Que é Virtual. Rio de Janeiro: Editora
34, 1996.
___________. Cibercultura.. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
MAMEDE-NEVES, A. Conversando com Sara Paín Série Convergências,
Rio de Janeiro: CEPERJ,1997, n. 5.
MAMEDE-NEVES, A. CD-Rom Aprendendo Aprendizagem. Rio de Janeiro.
PUC-Rio, 1999
MARGOLIN, V. O Designer e a Situação Mundial. in Arcos
design e cintura e visualidade. Rio de Janeiro. Contra Capa, 1998.
NICOLACI DA COSTA, A. M. Na Malha da Rede. os Impactos Íntimos
da Internet. Rio de Janeiro. Campus, 1998.
NORMAN, D A The invisible Computer. Why good products can fail the
personal computer is so complex and information appliances are the
solutions. EUA: MIT Press.1999.
PARENTE, A. Imagem Máquina. São Paulo. 34, 2001. 3º edição
PREECE, Jenny. A guide to usability. Addison- Wesley, 1997.
RAMAL, A. C. Educação na Cibercultura. São
Paulo. Armed, 2001.
REZENDE, A C. Hipertexto, construção do conhecimento
e a disponibilização do material didático na
internet. Dissertação de mestrado. PUC-Rio, 2003.
SIMMEL, G. “A Metrópole e sua Vida Mental” in
O Fenômeno Urbano. (org. Velho, G.). Rio de Janeiro. Guanabara,
1987.
VELHO. G. Individualismo e Cultura. Rio de Janeiro. Zahar, 1981.
Web Style Guide. Disponível em: <http://www.webstyleguide.com/index.html?/>.
Acesso em 2003.