Seriam CFO Homens com Martelo?
Sanjay
Bakshi
Tradução e adaptaçã: SER-
http://fundooprofessor.blogspot.com/
Rotineiramente, formulo o seguinte problema aos meus alunos:
Você é o CFO de uma companhia que
fabrica linhas têxteis. O setor em que sua companhia encontra-se é extremamente
competitivo e trabalha com excesso de capacidade.
Um fabricante líder de máquinas
têxteis dirige-se a você com a proposta
de venda de uma nova máquina, mais eficiente que qualquer outra existente no
mercado. Ele informa também que a nova invenção, além de mais eficiente, irá
economizar uma quantia substancial de dinheiro para sua empresa anualmente, de
forma que ira pagar-se em muito pouco tempo. Para justificar suas
alegações, apresenta os seguintes
números: Custo da máquina: $ 100 milhões; (2) Expectativa de vida = 10 anos;
(3) economia anual em custos operacionais pelos próximos 10 anos = $25 milhões
a.a.; (4) valor residual esperado da máquina = $10 milhões.
Você
verificou os números apresentados e chegou a conclusão de que são, de
fato, precisos. O custo de oportunidade
da sua empresa é de 15% aa. A pergunta é: - Sua companhia deveria, ou não, emitir uma ordem de compra para a máquina?
Empregado às habilidades recém
adquiridas em análise de FCD, os estudantes calcularam rapidamente o VPL, que é
grande e positivo, e concluíram que o equipamento deveria ser comprado e
instalado o mais rápido possível.
|
Custo de Capital: 15% aa Valor Residual: 10.000.000 |
||
|
Tempo |
Fluxo de caixa |
VP do Fluxo de
Caixa |
|
0 |
-100.000.000 |
-100.000.00 |
|
1 |
25.000.000 |
21.739.730 |
|
2 |
25.000.000 |
18.903.592 |
|
3 |
25.000.000 |
16.437.906 |
|
4 |
25.000.000 |
14.293.831 |
|
5 |
25.000.000 |
12.429.418 |
|
6 |
25.000.000 |
10.808.190 |
|
7 |
25.000.000 |
9.398.426 |
|
8 |
25.000.000 |
8.172.544 |
|
9 |
25.000.000 |
7.106.560 |
|
10 |
35.000.000 |
8.651.465 |
|
|
VPL: |
27.941.063 |
Em
finanças, o maior problema desse tipo de abordagem é que levam, normalmente, a
conclusões erradas sobre o emprego do modelo do FCD. Isto acontece pela
ausência do conhecimento sobre o emprego de modelos de outras disciplinas como
a Microeconomia, Teoria dos Jogos e Psicologia.
Warren
Buffett, o investidor mais respeitado do mundo e também Chairman da Berkshire
Hathaway Inc., e seu parceiro, Charlie Munger, chama isso de
“síndrome do
homem com martelo”. Para um homem com martelo na mão, tudo na frente se parece
prego. Se tudo que você possui na frente é um tipo de ferramenta, você acabará
abusando no seu emprego.
Como poderíamos lidar com a síndrome
do homem com martelo? De acordo com Munger, a melhor forma é treinar a
“ultrapasar os limites jurisdicionais” e pegar emprestado modelos mais
apropriados de múltiplas disciplinas que resolvem melhor a questão.
Antes de esboçarmos qualquer
conclusão, é importante perceber que este problema demanda uma análise em duas
etapas, desenhadas em modelos de múltiplas disciplinas.
O primeiro passo envolve a análise de
FCD que meus alunos não tiveram qualquer problema em fazer. Esta parte da
análise já foi efetuada e encontra-se descrita acima.
É a segunda parte da análise que
passa desapercebida. Passa desapercebida porquê as pessoas não são treinadas de
maneira multidisciplinar.
A segunda parte da análise requer que
a seguinte pergunta seja respondida: Quanto da economia proporcionada pela
compra da máquina ficará retida na companhia e quanto será repassada aos
consumidores?
Ah ha! Agora a coisa fica mais
complicada, não é? Fica complicada porquê, para responder a esta pergunta, as
pessoas têm que pegar modelos emprestados da microeconomia como, por
exemplo, o modelo da competição. É
claro que, quando você foca o problema por esse ângulo fica óbvio, dada à
natureza da concorrência presente na industria têxtil, resultantes de um
excesso de capacidade instalada e das características de comodities dos
produtos, que a maior parte da economia proporcionada pela máquina irá para os
consumidores e não para os donos do negócio.
Isso ocorrerá porquê, após a compra
da máquina e obtida a redução de custos prometida, a companhia tenderá a
reduzir seus preços para ganhar “market share”, ou manter os preços
inalterados para auferir margens superiores.
Mais cedo ou mais tarde, ambas as
possibilidades serão percebidas pelos concorrentes que, naturalmente, irão
adiantar-se para efetuar o mesmo investimento em máquinas novas e mais
eficientes, de maneira a reconquistar o “market share” perdido ou
aumentar suas próprias margens. Ironicamente, a mesma pessoa que lhe vendeu a
máquina irá rapidamente tentar empurrar o mesmo equipamento para seu maior
concorrente, depois para o segundo, e assim por diante citando, com bastante
precisão, a economia de recursos obtida pela sua própria empresa como razão
para que se adquira a nova invenção. Afinal de contas, ele não está nesse ramo
para fazer da sua a empresa mais eficiente. Ele está no negócio para ganhar
dinheiro para a companhia dele (“Cujo
pão eu como, e a canção eu canto”).
Nesse problema, a competição, que é a
inexistência de cartel, garantirá que quase todos os ganhos de eficiência parem
no bolso dos compradores de tecidos, e não no bolso dos donos das companhias
têxteis.
Outra ironia é que todo esse
resultado trágico tende a ocorrer mesmo que os ganhos de eficiência
prospectados se materializem. Não é que a máquina não seja realmente boa. De
fato, ela é tão boa que qualquer vantagem auferida pelos que a compraram
se provarão uma ilusão temporária porquê, mais cedo ou mais tarde, todo mundo
terá que comprar uma ou arriscarão a ver-se fora do mercado.
Esta é a natureza de certos negócios
que necessitam mais e mais dinheiro apenas para permanecer onde estão.
(É como correr para cima em uma escada rolante que está indo para baixo: uma
enormidade de investimentos e zero de progresso). Você continuará investindo
dinheiro em projetos que possuem VPL positivo e alta taxa interna de retorno e,
mesmo assim, continuará recebendo um retorno padrão sobre o capital investido,
que só fazem destruir o valor do acionista.
Por outro lado, se estivermos lidando
com a ITC, uma das maiores companhias de tabaco da Índia e que é virtualmente
um monopólio, a coisa seria diferente. Nesse caso, os consumidores de cigarro
são viciados e indiferentes ao preço, e se alguém tentasse lhes vender uma
máquina mais eficiente de fazer cigarros a economia de custos dessa nova e
maravilhosa invenção não seria repassada para os consumidores. Ao invés disso,
grande parte da economia de custos após os impostos agregará valor aos
acionistas da empresa.
Logo, sem ultrapassar os limites
jurisdicionais das finanças, onde reside o modelo do FCD, indo para os limites
jurisdicionais da microeconomia, você não conseguirá resolver o problema em
questão de maneira satisfatória.
No começo da década de 80, Buffett
encarou um dilema similar na administração de uma companhia têxtil pouco
lucrativa, a Berkshire Hathaway. Ele sabia que a indústria têxtil
norte-americana se tornaria cada vez mais competitiva, basicamente devido aos
seus altos custos trabalhistas, quase impossíveis de se reduzir. Ele sabia também
que tinha outras oportunidades nas quais poderia investir capital e cujas
possibilidades de obter retornos superiores eram excelentes, em razão dos
fundamentos econômicos disponíveis naqueles negócios.
Em 1985, muito antes do que a maioria
dos capitalistas pudesse ao menos considerar, Buffett decidiu fechar as
operações têxteis e realocar o capital disponível em grandes negócios. Essa se
provou uma das melhores decisões de toda sua vida. Em 1985, numa carta aos acionistas ele explicou:
“Os benefícios prometidos pelos
investimentos no setor têxtil eram mera ilusão. Muitos dos nossos concorrentes,
tanto internos quanto externos, estão envolvidos e incorrendo no mesmo tipo de
despesa e, uma fez que uma companhia faz isso, sua redução de custo se torna a
base para a redução de preços em todo o setor. Vista separada e
individualmente, cada decisão de investimento das companhias aparenta ser efetiva e racional mas, vistas
coletivamente; uma decisão acaba neutralizando a outra e são irracionais (da
mesma forma que acontece quando uma pessoa acha que conseguirá ver melhor um
desfile ficando na ponta dos pés). Depois de cada rodada, Todos os jogadores
colocam mais dinheiro no negócio e os retornos permanecem anêmicos”
Buffett empregou a metáfora do
desfile para ilustrar um problema bem conhecido na Teoria dos Jogos chamado
de “Dilema do Prisioneiro”.
O Dilema do Prisioneiro envolve dois
suspeitos, A e B, que foram presos pela polícia. A Polícia não possui
evidências suficientes para uma dupla condenação e, depois de separá-los,
oferece a cada um a mesma oportunidade: Se um testemunhar contra o outro, e o
outro permanecer calado, o traidor ficará livre e o que se manteve calado
recebe a sentença completa de 10 anos. Se ambos permanecerem calados, a polícia
pode sentenciar ambos a uma pena de apenas seis meses. Se um acusar o outro,
ambos receberão uma sentença de dois anos. Obrigatoriamente, cada um dos
prisioneiros deve optar em acusar o outro ou manter-se calado. Porém, ao certo,
nenhum dos prisioneiros sabe que escolha o outro fará. Então a pergunta
que este dilema impõe é: O que acontecerá? Como os prisioneiros reagirão? O
dilema é resumido no quadro a seguir:
|
|
Prisioneiro B fica
calado |
Prisioneiro B
acusa |
|
Prisioneiro A fica
calado |
Ambos recebem pena de
seis meses |
Prisioneiro A
recebe 10 anos Prisioneiro B
fica livre |
|
Prisioneiro A
acusa |
Prisioneiro A
fica livre Prisioneiro B
recebe 10 anos |
Ambos recebem 2 anos |
O dilema surge quando um prisioneiro assume que a única coisa que um
prisioneiro pensa é em minimizar seu próprio tempo de cadeia. Cada um dos
prisioneiros possui duas opções: cooperar com o comparsa e ficar calado, ou
quebrar o pacto implícito e trair o cúmplice em troca de uma sentença mais
leve. O resultado de cada opção depende do grau de cumplicidade entre eles, mas
o jogador deve efetuar a escolha sem saber o que sua contraparte escolheu
fazer.
Vamos supor que o prisioneiro A
esteja pensando sobre qual seria sua melhor alternativa. Se seu parceiro ficar
calado, sua melhor opção seria traí-lo para conseguir sair isento de pena, ao
invés de pegar a pena mínima. Se seu comparsa traí-lo, sua melhor opção
continuaria sendo delatá-lo visto que, receberia uma sentença menor do que ficando
calado. Ao mesmo tempo, o pensamento do outro prisioneiro deve chegar a mesma
conclusão e ele também deve tender a delatar o outro.
Se ambos forem levados no ímpeto de
chegarem a melhor solução para o grupo (de dois prisioneiros), a escolha
correta seria que ambos cooperarem um com o outro, de forma a reduzir o período
global de cárcere para 1 ano. Sob a ótica do grupo, qualquer outra opção seria
pior para os prisioneiros. Quando ambos delatam um ao outro, cada um consegue
um resultado final pior do que se tivessem cooperado um com o outro.
Em outras palavras, ações que
aparentam ser racionais pela perspectiva do indivíduo, às vezes se tornam
tolas, quando vistas pela perspectiva do grupo. No nosso problema, o
equivalente funcional do dilema do prisioneiro cria péssimas opções. Mas será
que as teríamos descoberto se não tivéssemos entrado na área jurisdicional da Teoria
dos Jogos? Acredito que não.
Dessa forma, pegamos emprestado o FCD
das Finanças, depois pulamos os limites jurisdicionais para o território
da microeconomia, de onde tiramos a competição. Depois pulamos a cerca e
pegamos emprestado o dilema do prisioneiro da Teoria dos Jogos.
Precisamos dar ainda mais um salto
para a área de jurisdição da psicologia. Depois poderemos para de ciscar de lá
para cá, e resolver o problema.
O modelo que pegaremos da psicologia
é o que Munger chama de “erro do compromisso e consistência”. Quando já se
tiver efetuado um comprometimento prévio a pequenos projetos, você poderá
considerar difícil, ou até mesmo impossível, mudar de idéia e alterar o rumo.
Se as razões anteriores não são mais válidas para suportarem a decisão
original, novas têm que ser inventadas porquê, afinal de contas, o homem não é
um animal racional, mas sim um racionalizador.
Outro modelo que pegaremos da
psicologia é chamado de “efeito contraste”. Uma versão do efeito contraste faz
com que pequenas escaladas incrementais no nível de comprometimento passem
desapercebidas, principalmente quando ocorrem num longo período de tempo.
São técnicas de raciocínio chinesas.
Também contribuem para decisões ruins .
Se você já tiver afundado 100 milhões
do seu capital em um projeto de investimento ruim, um aporte adicional de $10
milhões parecerá muito pequeno em comparação com um comprometimento muito maior
já efetuado e tenderá, por isso mesmo, a passar desapercebido.
Esta versão do efeito contraste é
também chamada de “síndrome do sapo escaldado” : se você colocar um sapo
na água fervendo, ele pulará fora rapidamente, mas se você colocar um sapo na
temperatura ambiente e depois começar a aquece-la lentamente, ele irá ferver e
morrer.
O caso do sapo escaldado não é
verídico. Mas, por vezes, a metáfora é extremamente apropriada, porquê mostra o
equivalente humano do sapo escaldado existe em cada um de nós.
Buffett pode ver os erros do
compromisso, da consistência e a síndrome do sapo escaldado da
psicologia freqüentemente combinados com o modelo do dilema do prisioneiro da Teoria
dos Jogos, fazendo com que vários homens de negócio tomem decisões tolas,
continuando a afundar mais e mais dinheiro num negócio perdedor, ao invés de
retirarem o dinheiro e empregá-lo em qualquer outro lugar mais produtivo. Eles
compreenderam que em certas indústrias o principal problema é que não é
possível se manter num jogo, em que “você não consegue ser mais inteligente que
seu concorrente mais burro”.
Da mesma forma, Buffett, muito
sabiamente, negou-se a continuar apostando neste jogo e tirou seu capital da
indústria têxtil e investiu seus rendimentos em negócios com fundamentos econômicos
muito melhores, como a Coca-Cola,
Gillette, Capital Cities, See’s Candies, e Nebraska Furniture Mart. Ao longo do tempo, sua decisão de fechar as
operações têxteis da Berkshire e realocar o capital gerado em outros lugares
fez com que seus acionistas ficassem mais ricos em dezenas de bilhões de
dólares.
A mente multidisciplinar de Buffett o
ajudou a resolver problemas corporativos complexos. Eu não vejo nenhuma razão
para que os CFOs não possam aplicar a
mesma linha de raciocínio para resolver outros problemas corporativos complexos
com que se deparam. Se não for assim, continuarão predestinados a permanecerem
“homens com martelos”.