Avisos: Spoilers do primeiro ao sexto livro, O Enigma do Príncipe.
Agradecimentos especiais a: Ivinne pela betagem.

Disclaimer: Harry Potter e personagens aqui representados não me pertencem, mas sim a autora J.K.Rowlings e a Warner Bros. Foi escrito de fã para fã, sem fins lucrativos.


Wicked Game


Por Senhorita Kaho Mizuki

 


Capítulo 3

 


Odiava ter de admitir, ainda mais para alguém como Draco Malfoy, mas ele realmente estava sendo humilhado naquele jogo de cartas. Primeiro, porque ele não era tão bom assim de carteado. O negócio dele era voar em uma vassoura e ficar caçando pomos de ouro. Ou como acontecia recentemente, Comensais da Morte. Mas o sangue grifinório falou mais alto quando o ex-sonserino havia praticamente o desafiado.

Segundo, porque o único jogo de mesa bruxo, onde jogava minimamente bem, era xadrez, uma vez que Rony era um viciado e Harry era sempre seu parceiro. Era um jogo muito confuso, o baralho encantado sussurrava, querendo dar dicas, mas apenas confundindo ainda mais o jogador. Do outro lado da mesa Malfoy espichava os olhos por cima das suas cartas, observando-o e reprimindo um sorriso de divertimento, enquanto Harry alternava seu jogo de mão, indeciso sobre qual jogar.

Já havia perdido bons galeões e, se continuasse assim, talvez voltasse sem as botas novas. Risadinhas percorreram a mesa quando percebeu que sua jogada fora uma péssima idéia. Richard desviou sua atenção para uma conversa, o que Harry agradeceu, porque inexplicavelmente se sentia em um ninho de cobras. Definitivamente, não era o ambiente dele. Era preferível jogar snap explosivo com os gêmeos Weasley.

- Então, Harry! – começou, numa voz animada – Ficamos sabendo que está noivo da caçula dos Weasley.

“Vocês e mais o resto do mundo bruxo”, Harry pensou, antes de abrir a boca para responder. Mas foi interrompido por um rapaz de cabelos castanhos.

- Oh, eu me lembro dela! Na verdade, só comecei a notá-la quando estava... Em que ano mesmo?

- No quinto. – um outro respondeu.

- Isso! – E sorriu de um jeito que Harry não gostou nada – Era uma gracinha, deveria ter tentado ficar com ela enquanto era tempo.

Sons de aprovação percorreram a mesa e Harry os encarou embasbacado. Que audácia falarem tal coisa na frente dele! Seu olhar caiu inevitavelmente em Malfoy que apenas ergueu uma sobrancelha clara e curvou o canto dos lábios, em uma típica provocação silenciosa.

- Eu não sairia com a irmã do fuinha nem que me pagassem. – murmurou de forma audível, colocando uma carta na mesa.

- Malfoy, ela não sairia com você nem que desse toda sua fortuna. Ou melhor - curvou os cantos da sua boca, como o loiro havia feito anteriormente, – o que restou dela. Ouvi dizer que não foi muito. – Terminou, em um tom fingidamente inocente.

Os demais rapazes bateram palmas em aprovação a sua resposta, rindo e olhando em expectativa para o ex-sonserino. Harry se sentiu novamente como se estivesse de volta a escola. A disputa era entre ele e Malfoy, com uma platéia ao redor deles.

O loiro do outro lado passou lentamente a língua pelos lábios finos, estreitando os olhos cinzentos para ele. Richard passou um braço pelos ombros estreitos de Malfoy, em um gesto íntimo demais para a opinião de Harry. Na verdade, a atitude daqueles dois era estranha ao ex-grifinório. Bem mais da parte do anfitrião, que deslizava para mais perto do outro, sempre ombros e braços se encostando. Inclinava-se para cochichar em seu ouvido, muitas vezes fazendo o loiro curvar os lábios em um sorriso ou soltar um riso baixo.

Harry esfregou os olhos, mais uma vez. Devia ter bebido demais. Estava até devolvendo as provocações de Malfoy, uma vez que havia prometido a si mesmo – e para Hermione também – que não se deixaria levar por elas. O seu copo se enchia magicamente e ninguém ali fazia noção de quantos já bebera. Achava que esse era o espírito da coisa.

- Rapazes, não vão brigar! – e nisso ergueu uma taça, que se encheu magicamente, assim como todos os copos da mesa – Draco também noivou, brindemos a sorte dos dois!

Todos, menos os dois rivais, ergueram suas taças, louvando. Finalmente, ergueram as suas, o som de tilintar soando pelo salão. Harry encarou zombeteiro o ex-sonserino, antes de beber toda a bebida borbulhante, de um gole só.

- Ah sim, Malfoy. – Começou, antes que pudesse segurar a própria língua – Poucos dias atrás, estávamos imaginando se existiria uma fábrica de noivas para puro-sangues feito você.

- Por que quer saber, Potter? – perguntou, inclinando-se na mesa e se apoiando nos cotovelos – Por acaso, quer transformar a Weaslete em uma dama de verdade?

- Se para ser dama de verdade, você se refere a andar como se tivessem algo mal cheiroso em baixo do nariz, como se estivessem andando em ovos ou, para ser mais explícito, uma cópia afetada da sua mãe... – viu satisfeito um dos olhos claros dele tremer – eu acho que não. Obrigado, Malfoy.

Sorriu, encostando-se no espaldar da cadeira, pegando o baralho e olhando para as cartas. Nem sabia o que acontecia no jogo e nem se importou mais de estar perdendo de lavada, apenas queria saborear aquele momento. Vendo Malfoy, uma pessoa normalmente fria, segurando-se para não explodir, provavelmente apenas pensando nas pessoas importantes e de nome que lotavam o andar de baixo do castelo.

Naquele instante, podia perder até as meias que nada mais importava a não ser aquela sensação de triunfo.

oOo

Uma hora depois, trocando farpas com Malfoy e perdendo mais que podia naquela noite, Harry estava começando a se sentir enjoado e tonto demais. Achou que era realmente hora de ir embora, estando com a cabeça, o peito e os bolsos leves.

Os rapazes reclamaram e tentaram fazê-lo ficar mais, tão bêbados quanto ele e certamente adorando a diversão que o ex-sonserino e o ex-grifinório promoviam quando estavam no mesmo recinto. Então, aos tropeços, alcançou a porta e saiu pelos corredores, admirando as armaduras e as pinturas de várias eras.

Parou e franziu as sobrancelhas, olhando para uma extremidade do corredor e para a outra. Então, percebeu que não se lembrava daquele lugar. Não sabia de onde viera ou para onde devia ir. Decidiu voltar o caminho até o salão de jogos de onde saíra. Chegou a uma porta vagamente familiar, achando que talvez fosse aquela, então a abriu.

Deparou-se com uma sala totalmente diferente e vazia, ocupada por estantes com livros, uma poltrona e uma mesinha onde descansava um jogo de chá. Balançando a cabeça e achando que havia se enganado, fechou-a e foi abrir uma outra porta próxima. Nada.

Passou a abrir todas e, para seu desespero, mesmo as que ele voltava a abrir, revelavam lugares diferentes. Assim que abriu uma que tinha certeza que havia checado umas três vezes, em cada uma delas mostrando um aposento diferente, concluiu com desespero: eram encantadas como as escadas de Hogwarts.

Ainda zonzo pela bebida, entrou por ela, que dessa vez revelara um banheiro de mármore escuro. Aproximou-se da pia e jogou uma boa quantidade de água no rosto, na esperança que o ajudasse a clarear a mente e dar um jeito de sair daquela situação. Aparatar seria uma boa idéia, se Harry estivesse sóbrio o bastante para não correr o risco de deixar algum pedaço seu para trás.

Os instrutores faziam sempre questão de contar aquele tipo de história para aurores em treinamento, sobre algum bruxo embriagado que desaparatava em algum lugar ermo do mundo ou com as partes mais bizarras de seu corpo faltando. Não era uma perspectiva muito boa.

Respirou fundo e lavou o rosto mais algumas vezes, secando-o e abrindo a porta. Exclamou indignado. A mesma porta pela qual entrara abrira para um aposento completamente diferente. Parecia um quarto com uma cama grande o bastante para três pessoas, móveis de séculos passados, sem nenhum quadro de pessoas. Descobriu-se atrás de um biombo com muitas roupas jogadas por cima, de forma displicente.

Ouviu vozes e viu dois vultos. Suspirou aliviado por finalmente poder sair daquele labirinto, mas o que viu, quando pôs o pé para fora, o fez voltar para trás do biombo rapidinho. O olhar de relance foi o suficiente para ver que era Richard, o filho mais novo do dono daquele castelo, e Malfoy. O que ainda tinha dúvidas sobre o que vira fora a visão dos dois em um... abraço.

Ainda estava bastante bêbado, só podia ser. Com cautela espiou pela fresta do biombo, observando-os, escondido. Engoliu em seco. Continuava a vê-los abraçados como se fossem um par de amantes? Podia ser que, além das portas, as bebidas daquele lugar também fossem encantadas? Harry ficou entre tentar sair dali ou ficar até que fossem embora. Mas quando eles voltaram a falar, decidiu ficar.

- Foi divertido ver Harry ficar embriagado e perder quase tudo, não foi? Pena que ainda não é casado. Imagine o que aquela Weasley diria se... – interrompeu-se quando viu o loiro virar a cara e tentar se afastar – O que foi?

- Chame-o de Potter. – falou com desgosto.

- Oh, não ficou realmente zangado com o que ele disse, ficou? Preferia que eu defendesse você?

- Como se eu precisasse me defender daquele meio bruxo sem classe! – olhou-o de cima a baixo muito indignado, o que pareceu fazer Richard se divertir.

- Aquele “meio bruxo sem classe” derrotou o “maior meio bruxo das trevas”. – falou como se ensinasse a uma criança.

- Não estava falando de poder.

- Certo. – sorriu, mas não insistiu – Eu acho que o convidarei para uma partida de quadribol um dia desses, o que acha?

- Faça o que quiser. – murmurou.

Harry o imaginou revirando os olhos, como o loiro sempre fazia quando usava aquele tom entediado de voz. O que ouviu a seguir foram as risadinhas do outro rapaz, puxando Malfoy de encontro a si. O ex-grifinório arregalou os olhos verdes, vendo os braços serpentearem pelas costas do loiro, apertando o que encontrava e demorando-se nas nádegas.

Malfoy gemeu longamente, fazendo os pêlos de Harry arrepiarem, mesmo aquela distância. O viu pender a cabeça para o lado e para trás, dando acesso à boca exigente do outro para explorar o pescoço longo e esguio. O quarto era apenas iluminado por um abajur, mas viu claramente os cabelos prateados cobrirem parte de seu rosto, uma cortina macia.

Percebeu que estar ali era muito, mas muito errado quando viu os olhos claros entreabrirem-se lânguidos. Uma imagem que Harry nunca imaginara presenciar e não podia ter certeza, agora, se nunca gostaria de ver. Mas então os olhos pareceram se estreitar intrigados e Harry congelou, percebendo para onde olhavam.

O ex-sonserino apoiou as mãos nos ombros largos do outro rapaz e o empurrou, fazendo-o protestar. O loiro ainda deu uma última olhada em direção ao biombo, antes de falar com ele.

- Acho melhor ir lá para o saguão. A essa hora, as pessoas devem estar indo embora e seu pai deve querê-lo ao seu lado para as despedidas.

Richard ainda o encarou, contrariado, mas depois de alguns segundos sustentando seu olhar, o soltou. Ajeitou as vestes e voltou a vestir sua capa. Malfoy se afastou e se sentou de pernas cruzadas ao pé da cama enquanto isso.

- Vai estar aqui quando eu voltar?

- Não. Tenho de acompanhar mamãe e Sylvie. – Malfoy disse de modo frio.

E sem mais palavras, toques ou despedidas, Richard se retirou por uma outra porta.


Continua...

Abril/2006

 

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