Gravity
- Não é o que você está pensando. - Mas marcou um encontro com ela! - Não é um encontro, eu só ando desconfiado de uma coisa... – murmurou virando-se para Remus – Este suéter ou o outro? O lobisomem sentado na cama soltou uma risada rouca e Harry baixou as mãos que seguravam os dois suéteres, se sentindo um pateta. Estavam no quarto que pertencera a Sirius, ele conservava um certo ar de nostalgia. Potter jogou as duas peças de roupa na cama, cruzando os braços, aborrecido. Lembrou James quando conseguira marcar um encontro com Lily pela primeira vez. Ele esvaziara seu armário, puxando cada peça de roupa e perguntando a seus três amigos no quarto da Grifinória que compartilhavam. O homem suspirou, não era bom lembrar dessas coisas agora. - Preciso urgentemente comprar roupas novas. Harry ainda tinha os trajes de Duda, mesmo que tivesse crescido e encorpado bastante as roupas ainda eram largas. Sem contar que era um verdadeiro desastre. - Você tem o dinheiro dos seus pais, Harry. No Beco Diagonal há boas lojas de roupas para bruxos. Ele murmurou um “eu sei”. Tinha receio de encontrar algum de seus colegas de Hogwarts rodando pelo Beco, ainda que soubesse que o lugar deveria estar mais vazio que nunca. Pensou um pouco olhando desanimado para os dois suéteres jogados na cama, parecia que não havia muita escolha. oOo E lá se encontrava Harry, vestido com seus novos trajes, esperando em uma esquina do Beco Diagonal. Quando teve a infeliz idéia de convidar a garota para sair, achara que receberia um belo fora. Ela o olhara de forma estranha, fria, mas por fim havia concordado. Mas ele tinha de tirar a história a limpo, minar de vez com suas suspeitas. Duas ou três horas deviam ser o bastante. Olhou o relógio em seu pulso, marcava duas horas da tarde. Assim que ergueu os olhos, a viu se aproximar. Usava a capa verde escuro de sempre, que estava aberta, mostrando uma camisa branca e uma saia pregueada que ia até os joelhos. A bota longa parecia ser feita de pele de dragão, observou Harry, erguendo as sobrancelhas, pareciam ser caras. Andava de um jeito meio coquete, não de um jeito muito feminino, mas elegante e arrogante. Passou a mão pelos cabelos bem escovados, afastando-os dos ombros e parou na sua frente. - Vamos? - Oh, sim! “Não se afobe Harry, isso não é um encontro, isso não é um encontro!”. Quando começaram a caminhar, jurou ver um vestígio de um sorriso sarcástico que parecia não pertencer a seus lábios femininos. Harry deveria ter cuidado para não passar perto da loja dos gêmeos Weasley, se o vissem andando com uma garota seria o fim de seu “quase” relacionamento com Gina. Estacou, percebendo para onde ela estava se dirigindo. Sofia parou e virou para trás, erguendo uma sobrancelha clara. - Está com medo, Potter? Harry sobressaltou-se, por um momento imaginou ouvir a voz dele. A garota riu e voltou-se para o caminho que seguia, sem se importar se ele a seguiria ou não. Engoliu em seco e olhou para os lados, as ruas estavam praticamente desertas. Não devia estar diferente na Travessa do Tranco. Apressou-se e a alcançou, andando do seu lado. Ela andava aprumada, ignorando os olhares de bruxos mal encarados que se encontravam nas calçadas soltando fumaças fedorentas de seus charutos. - Por que estamos indo por esse caminho? – murmurou Harry. - Preciso comprar alguns ingredientes para umas poções, e já que estamos aqui... – deu de ombros – Então... Potter. – falava seu nome como se degustasse o efeito dele na sua língua - Percebi que tem ido muito ao Caldeirão Furado, mesmo não estando hospedado lá como eu. - Oh, eu gosto da comida de lá... da cerveja amanteigada. – meteu as mãos nos bolsos, corando. - Hum... – parou e olhou para uma vitrine de loja – Na verdade, achei que nunca ia falar comigo. - Mesmo? – sua voz falhou, de que cor seu rosto estava agora? Provavelmente da mesma que aquela capa vermelha gritante do bruxo que saíra da loja – Aquele que te encontra toda manhã é seu namorado, certo? A moça se agachou, apoiando as mãos nos joelhos, interessada em um artigo específico. Suspirou pesarosa. - Gary? Bom... ele era. – disse e hesitou um pouco, elevando os olhos para encontrar os dele – Digamos que estamos dando um tempo. - Oh. Antes que pudesse perguntar mais, ela entrou na loja, Harry a seguiu. O lugar tinha um cheiro forte e havia caldeirões borbulhando aqui e ali. Imediatamente levou a mão ao nariz, Sofia pareceu não se importar com o cheiro. Prateleiras forravam as paredes até o teto, em um canto tinham livros sobre poções e no resto haviam frascos das coisas mais esquisitas que podia imaginar. Parecia muito com o escritório de Snape. Embaixo desses frascos haviam etiquetas amareladas com o nome dos seus conteúdos. Algo chamou a atenção de Harry e ele se aproximou de uma dessas prateleiras, havia um buraco vazio onde deveria haver... - Procurando pele de ararambóia? O garoto pulou de susto, deparando-se com um bruxo velho de aparência medonha, desdentado e que usava um olho de vidro. Por que as pessoas da Travessa do Tranco pareciam todas ter aquela aparência? Por sobre o ombro do velho viu a garota cobrir a boca para reprimir um riso, fingindo olhar interessada pra uma outra prateleira cheia de frascos. O homem continuou a falar, olhando muito intensamente para ele. Harry deu um passo para trás, parecia ser o dono da loja. - O Ministério confiscou todas, assim como os chifres de bicórnio. – gesticulou nervoso – Um absurdo! Como querem que eu sustente os negócios se continuam confiscando assim? - Eles estão aumentando o cerco para prender comensais. Poções Polissuco são proibidas, não se encontra nem mesmo edições do livro que contém a receita. – os dois olharam para a garota, sua voz soava um tanto entediada – O Profeta anda anunciando essas coisas todo o tempo ultimamente. Ela rolou os olhos e Harry corou, lembrando das edições dos dias anteriores, intactas em cima da mesa, junto com as cartas que não tinham sido abertas. Fez suas compras e saíram antes que o homem pudesse questionar sobre a cicatriz na sua testa. Como um aluno mediano de poções, não reconheceu boa parte dos ingredientes que ela levara. Não sabia se seria falta de educação perguntar para o que aquilo servia. Mas ele havia decorado a poção polissuco, e nada ali fazia parte dela. A garota o fez segurar as sacolas, falando alguma coisa sobre precisar de algumas penas e pergaminhos e indo em direção ao Beco Diagonal. Harry fincou o pé, subitamente indignado, o que significava aquilo? - Hey! Vamos continuar fazendo compras? - Ah sim, e estamos passeando também. – fez bico, em uma fingida inocência – Não era o que queria? - Quer dizer que foi por isso que aceitou o convite? - Em parte. Eu não saio sozinha do Caldeirão. – falou naturalmente, deixando-o mais indignado. - Mas... – deu uma pausa e pendeu levemente a cabeça para o lado, franzindo as sobrancelhas – Você é estranha. - Por quê? Por que não estou feliz e saltitante por estar na companhia de Harry Potter? - Bom... é. – ele não estava mentindo, era famoso! - Desculpe não ser igual a todas. – o tom não parecia nada arrependido – Acho que é o que acontece quando se estuda tanto tempo na mesma escola. Lembro-me que não era nem um pouco excepcional nas aulas. A não ser no quadribol, mas não sou do tipo que se interessa por esportistas. Harry se sentiu ofendido por um momento, mas decidiu tomar essa brecha. - Estudou em Hogwarts? – ela confirmou com a cabeça – Não lembro de você. Quero dizer, eu tenho a sensação de que já a vi, mas não... - Ah, é natural. Eu era uma lufa-lufa, é esperado que sejamos esquecidos. – deu um sorriso não muito convincente – Olhe, Potter... - Não me chame assim. – cerrou os olhos e suspirou – Me faz lembrar de alguém. Me chame de Harry. Sofia fez uma cara de desagrado, mas mudou para um sorriso polido assim que Harry abriu os olhos, esperando. - Harry... – disse pausadamente, como se fosse difícil pronunciar – Estão começando a olhar, podemos ir andando?
Então o grifinório percebeu aqueles bruxos mal encarados,
que era tão comum encontrar naquele lugar, encarando-os com uma
cara nada amigável. Engoliu em seco e acenou com a cabeça,
sendo guiado para a saída por uma garota começando a ficar
irritada. Ela agarrou-lhe o braço e foi puxando em direção a uma doceria, fazendo o garoto se atrapalhar com os pacotes que carregava. Engoliu em seco reconhecendo as proximidades, a loja dos gêmeos se não se enganava era por ali. Balançou a cabeça sem acreditar. Por que aquilo estava acontecendo? Olhava cauteloso para aquela direção enquanto ela parecia escolher cada doce da vitrine. Arregalou os olhos, uma garota podia comer tanto? Depois lembrou da vez em que Hermione e Gina quase acabaram com o estoque de bolos e tortas dos Weasley porque estavam deprimidas. Pagou e resolveu não se preocupar com aquilo, só precisava se afastar dali e manter os olhos nela por pelo menos duas horas ou mais. Sofia fez com que a seguisse por praticamente todo o Beco, seus braços estavam doloridos de carregar suas compras. Ela parecia não querer manter uma conversa, e Harry não tinha experiência o suficiente em encontros para saber o que fazer ou dizer. Notou que ela olhava receosa para certos bruxos, o grifinório sabia que eram aurores. Muitos não se arriscavam ao menos a ir ao Beco, e os aurores faziam inspeção intensa. Mantiveram-se ocupados pelo menos por uma hora e quarenta minutos. Até que acabaram sentados em um banco afastado das lojas, tomando dois sorvetes de casquinha. As sacolas se encontravam no meio dos dois, meio que prevenindo que nada mais acontecesse. Não que ele quisesse, bem... Harry suspirou pesaroso, não sabia se ficava aliviado ou decepcionado com o resultado. - Uma pena que não encontrou as unhas de onça da Amazônia. – para que servia essas unhas, afinal? - Sim, uma pena. São tão difíceis de encontrar na Romênia. – e deu uma mordida grande que quase acabou com o sorvete e olhou para o de Harry, praticamente intacto – Vai comer esse? – balançando a cabeça o garoto deu seu doce, assustado com o olhar faminto – Obrigada. - Então! – pigarreou antes de continuar, nervoso – Você é da Romênia... Se importa de dizer por que veio para Londres? Ela congelou, fazendo a mesma cara que fizera quando olhara para aqueles aurores. - Você viu aquele rapaz comigo, Gary. – algo na voz dela não lhe pareceu muito convincente - Eu vim por causa dele. - Ouvi você dizer que não era sua namorada. - Tivemos uma briga. – olhou feio pra Harry – Não que te interesse saber. O grifinório levantou as mãos, num pedido mudo de desculpas. Sofia terminou de comer em silêncio, aquilo parecia tudo menos um encontro. Então ela se levantou de súbito e cambaleou, fazendo careta e colocando a mão sobre a testa. Parecia sentir dor. Harry de pronto se pôs a seu lado, passando o braço pelo seu ombro e impedindo-a de cair. - Você está bem? - Sim, acho que estou no meu período. Harry demorou a entender, mas quando entendeu sentiu sua face queimar, ficando embaraçado. Era impressão sua ou a garota pareceu se divertir com isso? - Só preciso voltar. - Ah, sim. Acho melhor aparatarmos, não? Onde está sua varinha? - Não! – o grito dela o assustou, fazendo-o quase soltá-la. Ela apertou os olhos, gemendo baixinho – Sem magia. Vamos voltar andando. - Tem certeza? - Tenho! Era só o que faltava, carregar uma garota e mais as sacolas. O que ela havia comprado, chumbo? Sofia respirava com dificuldade e parecia estar prestes a desmaiar. Harry ficou realmente tentado a aparatar, seria tão simples e a distância não seria tão grande. Quase suspirou de alívio quando chegou à entrada do Caldeirão, um homem se encontrava ali, nervoso. Ele os viu e se aproximou com o cenho franzido, apressando-se a alcançá-los. Olhou irritado para o grifinório, e Harry rezou para que não sobrasse para ele. Bom, o que ele queria, estava carregando a recém ex do cara! - É Potter? O que estava fazendo com Potter? – vociferou, muito nervoso. - Não agora, Gary. – a garota apertou os olhos, a voz dele parecia lhe ferir - Preciso entrar. O rapaz agarrou o braço da garota com força, arrancando-a dos braços de Harry. Seus olhos flamejavam de ciúmes. Harry a viu gemer e enfureceu-se, como ousava tratar uma mulher daquele jeito? - Hey! – adiantou-se, mas foi impedido por Sofia. - Preciso. Entrar. Agora! Sofia disse entre dentes, lançando um olhar de dar medo ao rapaz da Lufa-lufa. Ele finalmente a soltou e ela passou pelos dois, praticamente se apoiando pelas paredes ao subir as escadas da hospedaria. Os dois rapazes ficaram se encarando intensamente, Gary era forte, mas não tanto quanto Harry. Além disso, havia crescido bastante desde que fecharam Hogwarts. Aquele não lhe metia medo algum. O contato foi quebrado quando o rapaz decidiu entrar furioso no Caldeirão, obviamente iria atrás dela. E no estado em que estava não era nada bom. Por que se importava, Harry se perguntou. Havia feito o que tinha vindo fazer, não? Ver se suas suspeitas estavam corretas, e não estavam. Uma poção polissuco só podia durar uma hora, e já devia ter passado duas. Ele só precisava se virar e ir embora, não era da sua conta. Deu alguns passos decididos, mas parou, praguejando e amaldiçoando seu complexo de heroísmo. Olhando para os lados, se embrenhou atrás de várias gaiolas empilhadas fora de uma loja. Havia trazido sua capa da invisibilidade para o caso de precisar dela; tirou-a da bolsa de carteiro e evolveu-se nela. Entrando no bar-hospedaria, o sino da porta soou. Parou de súbito, vendo uma dúzia de olhares se virarem curiosos para onde se encontrava. Esperou até que deixassem de olhar para subir a escadaria que levava aos quartos. Não foi difícil encontrá-los, o corredor estava deserto, se perguntou onde estariam os hóspedes. Gary prensava Sofia contra a parede, sussurrando nervoso, enquanto a garota tossia e parecia se contorcer ainda mais de dor. Sua cabeça estava coberta com o capuz da capa verde escura, deixando ver apenas o queixo e os fios de cabelo. Harry deu passos cautelosos até que pudesse ouvi-los. - Temos que ir embora logo. Não tem sentido ficar aqui, a vista. - Não... Não ainda... - Aquele era Potter! Que idiotice pensa que estava fazendo? Potter! - Sim, eu ouvi, poderia parar de repetir esse nome? – disse sarcástica, mas com voz abafada. Está superestimando o garoto. - Enlouqueceu? É questão de tempo até que descubram! A menção de seu nome o intrigou, até que descobrissem o que? Mas Harry não pode ouvir mais, um som agitado no andar debaixo, no bar, os interrompeu. Eles ficaram quietos, prestando atenção. Sofia não podia impedir de tossir. - Temos de revistar seu bar, Tom. – uma voz grave se fez ouvir, seguida de uma série de murmúrios, provavelmente dos freqüentadores. - Oh, certo. – se ouviu a voz trêmula do proprietário – Não assustem os clientes, por favor. - Oh não... – Gary sussurrou. - Havia vários deles no Beco. – a voz da garota estava cada vez mais estranha, como se misturasse a outra – Vá embora, antes que subam! Harry quase engasgou. Comensais da Morte? Sofia empurrava o rapaz para uma janela, ele pareceu hesitar em deixá-la, mas por fim deslizou para fora. Ela então se pôs a procurar as chaves no bolso, arrastando-se pela parede, parecia ser muito difícil andar. Ouviram-se som de passos nas escadas, estavam subindo. A garota se desesperava, tentando enfiar a chave na fechadura e olhando para o corredor ainda vazio. As chaves caíram no chão, e ela desabou também, tossindo e se contorcendo. O capuz lhe cobria o rosto e a cabeça, Harry não podia ver o que estava acontecendo. Parou, apenas ouviu o som ofegante da sua respiração. O que se sucedeu foi rápido demais para Harry sequer pensar em agir. Uma mão pálida agarrou a barra de sua capa e a puxou. Um instante depois se viu na mira de uma varinha... E
de um par de olhos cinzentos e frios. Continua...
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