Por Senhorita Kaho Mizuki
“And
you don’t seem to understand I
am falling, I am fading I
am falling, I am fading, I am drowning
Ficou vagando sem rumo de cabeça baixa, mal prestando atenção para onde ia ou pisava. Trombava com as pessoas, balbuciando um pedido de desculpas, sem olhar para elas. Afinal de contas, porque estava perturbado daquela maneira? Aquilo não deveria afeta-lo, devia ser frio e equilibrado. Teria mudado tanto ao conviver com os seus amigos, a sensação era totalmente diferente da época em que vivia isolado na Sibéria. Pensava consigo mesmo se ainda continuava com sua ambição de se tornar o mais poderoso dos cavaleiros, havia voltado para o Japão com esse desejo. Ele desvaneceu-se, dando lugar a outros tipos de desejos, que tinha medo de descobrir e ter de admiti-los para si mesmo. Apressou o passo, sem razão nenhuma, talvez fosse a ansiedade e a vontade de sumir do mundo. Foi acelerando até chegar numa espécie de corrida, quando uma barreira se pôs no seu caminho. - Opa! Trombou em alguém alto e forte, que segurou seus ombros para que não se desequilibrasse. Era tão macio, encostou a cabeça no peito largo do protetor, aspirando o perfume leve. Olhou para cima, descobrindo quem era. Trincou os dentes, seus olhos ficaram lacrimejantes de raiva. Milo com aquela cara solícita e preocupada era de matar. - Você está bem, Hyoga? - Não! Afastou-se rudemente dos braços dele, tomando posição de defesa. Com um gemido, começou a socar a esmo o peito e o tórax do cavaleiro. Surtiam efeito algum, Milo sabia que era puro extravasamento. Deixou soca-lo, abraçando o rapaz e segurando sua cabeça, para acalmá-lo. - Eu te odeio! Desatou em lágrimas, com o corpo sendo sacudido pelos soluços. Enterrou o rosto molhado no peito seguro do outro, deixando-se ser afagado. - Shh...passou...passou... Quente, macio, aconchegante...Como sentia falta daquele carinho. Falta? Um dia chegara a ter? Imaginava que era assim com sua mãe, e sempre esperou que Camus o confortasse da mesma forma. - Por que tudo tem de ser tão complicado? Minha cabeça não condiz com o meu coração, o que um quer o outro rejeita...Já não sei o que eu quero... - Eu sei... - Não sabe! Ninguém entende... - Acalme-se, vamos conversar...Às vezes duas cabeças pensam melhor q eu uma...ou fedem mais.
A piada era sem graça, mas Hyoga não evitou que um sorriso
tímido estampasse seu rosto. - Está melhor? – recebeu um aceno – O que te incomoda, Hyoga? Deu uma risada sem graça, escondendo o rosto entre as mãos. - É confuso..não sei...Alias, porque estou falando logo com você? - Porque sou o único disposto a te ouvir? Senta! - Hunf! Claro, é o culpado disso tudo! - Como assim? Por favor, Hyoga! Você sabia que eu e Camus éramos bastante ligados, deve ter pelo menos desconfiado! - Desconfiado? Eu sou bastante ligado aos meus amigos e nem por isso...tenho relações desse tipo com eles! Escorpião cruzou os braços e recostou-se na cadeira, olhando-o descrente. - Certo! Esquece o que eu disse, mas isso não livra da culpa! - Que culpa, por Zeus? - Fez Camus se afastar de mim, e conseqüentemente, de você! - Tem certeza?Será que não foi essa sua mania de ser um revoltado que causou isso? De qualquer forma, é culpa de ninguém, Camus sempre foi assim, se algo o incomoda, ele simplesmente se afasta. Ao contrario do que imaginava, Milo Não estava atiçando nem brigando com ele, falava tranqüilamente, olhando-o nos olhos. O loiro ficou desarmado com essa nova postura do cavaleiro, não era justo, conseguia manter a superioridade da conversa. - Fala sem pensar muitas vezes, Hyoga. É a sua fraqueza. Atinge as pessoas sem perceber, e depois se arrepende. Cisne levantou-se e andou um pouco pelo aposento, ouvindo o moreno falar manso. Encostou-se na parede, com os braços cruzados, olhando fixo para o chão. Milo aproximou-se, ficando de frente para ele. - Tem a tendência de não saber ao certo o que quer, vive oscilando para ambos os lados. Falta-lhe firmeza nas suas decisões. Inclinou-se, colocando uma mão na parede, ao lado da cabeça do menino. Hyoga estremeceu com a proximidade, o outro percebeu sua inquietude. Forçou-o a olha-lo, levantando seu queixo com o dedo indicador. - Vê? É isso que te incomoda. Não sou eu, mas você. Porque luta contra si próprio? Não é isso que seu corpo quer, que seu coração pede? Achegou-se mais, encostando a boca na testa do loiro, que pressionou-se mais contra a parede, numa vã tentativa de fuga. A respiração ficou mais rápida, assim como as batidas do coração. - Não há como escapar do que sente. Se nem Camus conseguiu, porque você conseguiria? Afastou-se um pouco, o suficiente para encarar Cisne. Logo depois afastou-se rapidamente, sem explicação. Shun apareceu na porta ofegante e assustado, Hyoga ficou surpreso. - S-Shun? O que faz aqui? Não respondeu, estava agitado, devia ter corrido muito até ali. Milo ficou preocupado. - Respira fundo, calma...O que foi? - Uma...uma ligação...de...Sorento... - Fala logo, por Zeus! - ...é sobre Camus. - Como? - Ele está no hospital. Os dois ficaram em silêncio, pasmos com a notícia, fitando o garoto que ainda se recompunha. Milo sentiu o coração falhar, a visão ficou turva, e balançou para trás. Foi amparado por Andrômeda. - Mestre!
*** - Creio que chegou no meu limite, Camus. Não há mais nada que eu possa ensinar a você. Quero que prove que meus ensinamentos foram bem passados e aproveitados. O rapaz franziu as sobrancelhas, de que raios estava falando? Após uns minutos, arregalou os olhos surpreso, ele estava falando sério, como sempre. Havia sido treinado esse tempo todo para ser um cavaleiro? Por um momento ficou eufórico, seu sonho iria se concretizar, ia vestir uma armadura, conhecer o mundo. O homem notou sua alegria, e cruzou os braços dando um sorriso sarcástico. - Sinto desaponta-lo, mas ainda falta uma última prova. - Sim senhor...- tratou de disfarçar o entusiasmo. - Quero que me ataque com todas as suas forças, usando tudo aquilo que lhe foi ensinado. Tomou a posição de luta, incitando a fazer o mesmo. Como o outro demorava para iniciar o ataque, entendeu que ele próprio deveria começar. Partiu com tudo para cima, gritando o nome do golpe. - Trovão Aurora!
Sem efeito. Foi facilmente repelido, recebendo um contra-ataque, sendo
arremessado contra o chão de gelo. Este trincou ante o impacto,
Camus estremeceu ao sentir a superfície frágil cedendo.
Inesperadamente, o mestre deu um golpe rápido, abrindo um buraco
e fazendo o garoto cair no lago. - Você me envergonha, Camus. Não acredito que perdi meu tempo com um traste. Não é digno de usar uma armadura sagrada, nem de usar o meu nome! O rapaz levantou com dificuldade, não sentia as pernas. As afastou e juntou as mãos, não ia permitir que seu sonho ruísse, não agora. - Trovão Aurora! Repelido novamente, impaciente, o homem o fez cair com apenas um dedo. - O que eu ensinei? Que esses golpes chulos não funcionam contra mim, porque meu nível de poder é superior, terá que usar a Execução.
Olhou-o surpreso, conhecia a técnica, mas infelizmente não
conseguira domina-la. Ficara meses e meses sozinho embrenhado numa floresta,
tentando, e voltara para casa de mãos abanando. Era preciso atingir
o sétimo sentido, o máximo de poder que um cavaleiro poderia
alcançar. E sabia que ele estava longe disso... - A questão é essa: ou me mata, ou você morre. Uma simples regra da natureza, matar ou morrer... - M-matar?
Lançou mais um golpe, rachando ainda mais o gelo, estava falando
sério, muito sério. Desesperado, Camus despejou inúmeros
“Trovão aurora”, que continuavam sem efeito. - Não merece viver, um inútil como você só atrapalha!
Desceu a mão em direção do seu pescoço,
num momento de consciência, Camus repeliu o ataque, tirando o
pedaço de gelo da própria ferida e abrindo uma no tórax
do agressor. - Acha que isso basta? É um ingênuo se pensou isso. - Não, não basta. Bem próximos, Camus sequer se deu ao trabalho de tomar distância para lançar o golpe fatídico. - Execução Aurora! O corpo do homem voou longe, indo bater numa montanha de gelo, que de partiu em milhares de pedaços. Caiu desfalecido, entre os fragmentos. O menino esperou um pouco, não havia movimento algum. Teria...? Rezou para que tivesse resistido, não era sua intenção. - Pai! Correu até o local, tirando os destroços de cima dele. Aliviado, constatou que ainda respirava. Com cuidado, ergueu seu tronco, apoiando-o em si. - Pai? O senhor está bem? Entreabriu os olhos, sorrindo ternamente. Acariciou-lhe o rosto gelado. - Parabéns, estou orgulhoso de você, meu filho. Com certeza será um poderoso guerreiro, e não acabará como eu. - Orgulhoso? Eu quase o matei! - Eu já estava morrendo, tinha que deixa-lo pronto para me substituir. Era a última lição que tive de passar, escute isso: não deve nem amar e nem odiar seu inimigo. Os sentimentos atrapalham o desempenho de uma batalha, são armadilhas.
“Criei você como a um estranho, longe dos outros, para que não
desenvolvesse as fraquezas que um dia me derrubaram. Minha missão
está encerrada, é digno de me suceder. Obrigado...” - Muito bem, posso saber porque estamos fugindo deles? - Por causa disso! Tirou de dentro da calça um bracelete de ouro, cravejado de rubis. O outro pegou o artefato boquiaberto, estava protegendo um ladrão? - Você os roubou? Milo, isso é ridículo e inaceitável! Por que? - Ora! Eu tinha que me vingar de alguma forma, num tinha? - É um maluco...porque ainda ouço você? - E porque você tem que ser tão certinho, engomadinho? Relaxa! Foi só uma brincadeira... - Sei...Que arriscou nossos pescoços... Sentou-se no chão, encostando-se na parede. Assustado pegou a mão de Milo, Havia sangue pingando do cotovelo aos dedos dele. - Que foi? - Esta sangrando... - Ah...um deles deve ter me atingido na fuga, não prestei atenção...AI! não aperta! - Isso vai infeccionar, aí você vai aprender a parar com essas idiotices! - Blá blá blá... Tirou a camisa, rasgando-a em tiras. Milo ficou abobado, aquele doido estava destruindo a roupa, iria pegar friagem, aquela noite ia ser umas das mais frias. Limpou o sangue ainda úmido, e depois amarrou uma tira com força no braço, para estancá-lo. - Mas...não esta sentindo frio? Meus ossos estão congelando! - Frio? Esse lugar é quente demais para mim. - Ah sim...esqueci que você é da classe de cavaleiros do gelo.
O rapaz sorriu matreiro, terminando de ajeitar o curativo. Com um suspiro,
Camus deitou-se no chão, improvisando um travesseiro com as folhagens
que encontrou. Fechou os olhos, aquela corrida deixou-o fatigado, precisava
dormir. Logo abriu-os novamente, Milo tremia feito uma vareta. - Você esta bem, Milo? - Tudo, é só um pouco de frio, logo, logo eu durmo. Camus deitou-se novamente, perturbado. Aquela temperatura não o atingia, mas Milo podia pegar uma pneumonia, não importava o quão resistente era seu corpo. Um espirro o fez levantar decidido. Puxou-o para si, o outro ficou confuso. - Está melhor, assim? - Está quente...está bom...muito bom...- falou sonolento.
Ruborizou com o comentário do amigo, não sabia o porquê.
Milo aconchegou-se mais a ele, escondendo mais o rosto no seu peito
nu, caindo no sono profundo. Se já estava com calor, seu corpo
pareceu ferver com o contato da sua pele com a outra. Perdera completamente
o sono, inexplicavelmente. - No hospital. - O que? - Não se lembra? - Creio que não... - Não se preocupe, depois eu digo... Apertou um botão preso á cama, e em pouco tempo várias pessoas vestidas de branco entraram e passaram a examiná-lo. Deixando-se, Camus apenas olhava para a figura um pouco afastada, do outro lado do quarto. Não importava o que acontecia a sua volta, estava atraído pelo olhar do amante. Este sorriu divertido com a cena, deixando uma lágrima escorrer pelo rosto. TO BE CONTINUE... *** Escrito em 2002
|