Alma
Por Senhorita KahoMizuki
Rodeou os lábios de Camus, empurrando delicadamente a pequena
uva. Deitado entre as pernas de Milo, o francês levantava a cabeça
para cima, para receber a fruta na boca. Era uma tarde agradável,
haviam almoçado há poucas horas. Resolveram sentar à
sombra de uma árvore alta e de copa ampla, para descansarem.
-
Milo! Tome cuidado, por Zeus! Milo tentou limpar, esfregando a camisa, a emenda ficou pior que o soneto. -
Deixa como está, Milo.
Levantou o rosto moreno sorrindo para confortá-lo. Bastou apenas
uma troca de olhares para se beijarem sob a sombra fresca. Escorpião
se inclinou, fazendo Aquário se deitar na grama, cobrindo seu
corpo com o seu. Interromperam o beijo, mirando-se. Riram. -
Saga... Colocaram-se de pé, Saga aproximou-se com um sorriso gentil. Milo virou de costas, enquanto Camus o cumprimentou com um aceno. Usava uma túnica branca, com uma faixa azul amarrada na cintura, uma sandália nos pés descobertos. O sol a pino criava reflexos nos longos cabelos ondulados que desciam sobre as costas largas, o rosto bem feito iluminado. -
Boa tarde, Camus, Mi... Milo virou-se bruscamente, correndo para longe. Camus gritou seu nome, sem efeito. O antigo mestre levantou o braço, balançando a cabeça para ele, sinalizando que estava tudo bem. Não, não estava. Milo continuava com aquela atitude infantil, com o orgulho ferido para sempre. -
Ele não perdoou ainda, não é mesmo? Mirou melancólico a toalha estendida na grama, onde alguns cachos de uvas, uma garrafa de vinho e duas taças completavam o quadro. Levantou o olhar para a camisa manchada de Camus, apontando para ela. Acompanhou o dedo tomando um susto, havia se esquecido completamente dela. Levou uma mão atrás da nuca, mostrando a língua e fechando um dos olhos, constrangido. -
É obra de Milo.
Riu, tirando a peça de roupa pela cabeça. Entregou-a para
o cavaleiro, que olhou para seu tronco bem definido, antes de fazer
um sinal com a cabeça para que o acompanhasse. Seu pequeno francês
havia crescido, virado um homem feito. Não fazia muito tempo
que aquele mesmo cavaleiro vinha procurá-lo no templo, um rapazinho
de sotaque afrancesado e expressão séria. -
Mereço que me punam... Camus negou com a cabeça silenciosamente, segurando sua mão, fazendo-o parar de andar. Ah, como era macia e confortadora, mesmo que gelada, a mão dele. Mirou seus olhos azuis, estava sério. -
O mestre que conhecemos e protegemos era justo e bondoso, como ainda
o é agora. Eu não servia a Ares, mas a você. Saga o ouvia boquiaberto, não acreditando no que ouvia, esses anos todos se mantinha escondido para que de nada soubessem. Tentou ao máximo manter a paz no Santuário, até que aquela menina voltara exigindo seu trono. -
Shaka é o homem mais próximo de Buda, acha que, mesmo
que tardiamente, não perceberia a farsa? Somos homens antes de
tudo, suscetíveis a tentações e ambições.
Você como todo homem foi vítima delas, mas depois do crime
que cometeu, tentou consertar o que fez, tornando-se bom e justo, e
acreditamos mesmo que podia dar certo, que conseguiríamos manter
um equilíbrio no mundo.
“Foram tempos maravilhosos aqueles que passamos aqui, e o senhor nos
proporcionou a maior parte deles. A melhor parte da minha vida foi aqui,
com os meus amigos e com você, não posso agora fazer como
Milo, esquecer o que passamos e voltar contra meu mestre gentil.” ***
Era um dia como aquele, de primavera. Camus então contava com
apenas catorze anos, o corpo ainda em formação, a puberdade
mexendo com os hormônios adolescentes. O rosto quase feminino,
e a silhueta indefinida e delicada, meio infantil. -
Deveria sorrir mais, seu rosto se ilumina e fica mais bonito. – sussurrou. Gaguejou, era tão tímido que mal conseguia chegar a dois metros de uma garota. Quando notava a torcida feminina nos treinamentos e lutas, todas elas amazonas, ficava vermelho e tratava de se esconder. Ao contrário de Milo, que acenava para elas, mandando beijinhos. Acreditava que preferia ficar sozinho que enfrentá-las. - Milo... O menino sussurrou baixinho o nome do amigo, o mestre percebeu sua expressão ficar melancólica. Passava a mão da cabecinha do animal adormecido no seu colo levemente, olhando para o vazio. -
O que foi, Camus?
Acenou com a cabeça, lançando um olhar triste. Saga sentiu
uma ligeira pontada no coração, um dos seus anjinhos iria
embora, para aperfeiçoar-se. Lembrou-se de que Shaka também
partiria para a Índia. O que podia fazer, eles não eram
seus meninos, pudera ele cuidar deles para sempre. Sem a ameaça
daquela sombra que o seguia, e nem da deusa que ousou trair. - Shhh...
Acalmou-o, como ele mesmo fizera com o filhote, esfregando suas costas
confortando-o. Camus retribuiu o abraço meio encabulado. Permaneceram
algum tempo assim, o que incomodou Saga. Sob suas narinas havia o cheiro
doce de bálsamo dos cabelos, em suas mãos um corpinho
magro e frágil. A respiração fraca, mas quente
na sua nuca o estava enlouquecendo. -
Vamos sentir muitas saudades suas, Camus. Não deixe de nos visitar
e de cumprir seus deveres para com o santuário de Athena. -
Que patético! É um covarde, Saga!
A imagem refletida era diferente da sua, apesar das semelhanças
óbvias. Um homem alto, de cabelos longos iguais aos seus, mas
cinzentos, os olhos avermelhados, ameaçadores, completados pelo
sorriso sarcástico nos lábios carnudos. -
Não seja tolo, Saga. Eu o tenho, não adianta fechar sua
mente. Sei de tudo que passa nela. – piscou um olho – Inclusive sobre
um jovem cavaleiro... Ares desapareceu do espelho, deixando Gêmeos confuso, olhando para todos os lados da sala. A voz potente volta a soar de outro canto, vindo de um espelho maior, de corpo inteiro. Aproximou-se arrastando os pés, seus lábios fremiam. -
Porque não o tomou? Estava tão fácil. E você
queria... Recebeu as palavras como se fossem socos no estômago, fazendo-o perder o fôlego. -
Não era isso...eu...ele...é só uma criança... Levantou os ombros com descaso, Saga pôs a mão na boca, para conter um grito de desgosto. Seus meninos, seus lindos aprendizes. Dois deles haviam descoberto seu segredo, e aliaram-se a ele na sede de poder que Ares envenenara nas suas cabeças tolas. Mas Camus, fora criado nas normas de honra dos cavaleiros, das mais antigas delas. Fizera um juramento, e era um rapaz que não traía a si próprio. -
Eu não tenho tanta certeza...
Num acesso de fúria, levanta o trono pesado de ouro, e o joga
com força contra o espelho, que se espatifa em mil pedacinhos.
Alguns voam e atingem o seu rosto, fazendo pequenos cortes. O sangue
fino que sai deles mistura-se às lágrimas que saem abundantemente
de seus olhos.
Esfregava a peça entre suas mãos sem força, nem
percebia o que fazia. Estava imerso em pensamentos. Sobressaltou-se
ao sentir algumas gotas de água atingir seu rosto. Camus pegava
um punhado da fonte e jogava em Saga, para acordá-lo. Sorriu,
pedindo desculpas pela distração. -
Pensando bem, Milo tem um bom motivo para odiá-lo.
“Porque sorri para mim? Porque ainda confia em mim? Eu não sou
digno da sua confiança. Da de ninguém.” Vivia por permissão
da Deusa, sendo generosa. Mas em toda parte olhares acusadores o incomodavam,
dedos apontando, comentários maldosos às suas costas.
Todos se perguntavam por que um homem como ele fora poupado. ***
O grande mestre havia os convocado ao Santuário, o assunto era
de máxima importância. Depois de seis anos treinando e
preparando novos cavaleiros, os guerreiros dourados estavam agora reunidos.
Mas nem todos. Libra continuava em sua eterna reclusão nos cinco
picos da China, Mu ignorara os chamados, e Aioros estava morto. - E você, Camus? O que acha?
O francês surpreendeu-se com a pergunta repentina. Em alguns segundos,
todas as cabeças se voltaram para ele em expectativa. Porque
perguntava a ele, justamente a ele? Olhou em volta intimidado, não
sabia bem o que dizer. Encontrou o olhar de Milo, que sorria para ele,
encorajando-o. - Bem... Os olhares ficaram mais atentos a ele, sentiu perder a força nas pernas. Se não estivesse sentado, cairia ao chão, e seria mais constrangedor do que estava sendo agora. Pigarreou. -
Realmente, também acredito que alguns cavaleiros de prata do
Santuário cuidariam tranqüilamente desses meninos. No entanto,
não devemos subestimar ninguém. Capricórnio se levantou furioso, cerrando os punhos, prestes a socar o rapaz que olhava frio e impassível. Aioria segurou seus ombros, impedindo-o de avançar sobre Camus, este nem sequer piscou, apenas estreitou o olhar. Shura se livrou bruscamente de Leão, jogando-o longe. Apontou para ele, direcionando sua raiva para outro foco. -
Cale a boca, seu traidor! O primeiro eliminado deveria ser você!
O jovem de cabelos castanhos claros abriu a boca, estupefato, estava
sendo acusado! Camus olhou horrorizado, será que iam ter uma
luta ali? Não, não podia! Se começassem, seria
uma luta quase eterna, em que nenhum dos dois ganharia e nada restaria
do Santuário. Levantou-se disposto a apartar a briga, se Shura
tinha que bater em alguém, que fosse nele. - Shura tem razão em desconfiar de você, Aioria. Já que possui o sangue do traidor que tentou matar nossa Athena. Dessa vez foi a vez de Milo se erguer, com uma voz de escárnio. - Bem pensado! Como confiar de que Aioria não fará o mesmo? Camus ficou pasmo, um campo de batalha estava armado. E tudo sobre os olhares impassíveis do Mestre. Porque ficava ali sentado? Parecia até estar apreciando aquele circo ridículo! Sua cabeça doía, aqueles gritos, aquelas acusações. Levantou bruscamente, a cadeira acabou caindo com seu movimento. Todos o olharam. - O que foi Camus? Irá me acusar também? – Aioria disse magoado.
Mirou-o incrédulo, balançando a cabeça. Estava
se sentindo tonto. Algo estava errado, muito errado. Baixou a cabeça
e saiu da sala em silêncio, precisava de ar. Shaka ergueu-se e
o seguiu, antes que Milo o fizesse. O moreno bateu o punho na mesa,
furioso com a audácia do indiano. - Você sentiu também, não sentiu Camus? Aquário ficou boquiaberto, olhando-o confuso. Ele também? Então não era uma peça que sua imaginação pregava, era real. Shaka era o homem mais sobrenatural e sensitivo dos doze cavaleiros. -
Por favor, diga que o que acabei de ver era uma ilusão! Eu não
falei aquilo, eu não vi aquilo! Quase houve uma batalha naquela
sala, e o mestre parecia estar apreciando aquele circo! Camus estacou, interrompendo o que ia falar, ao virar-se e ver o homem de máscara e uma longa capa parado na porta. Shaka ficou assustado, teria ouvido a conversa deles? Não havia sentido sua presença, era como se não existisse! -
O que fazem aqui escondidos? Não estão fazendo o que não
devem, estão? O mestre se aproximou da janela, olhando para fora. Os dois cavaleiros iam se retirando, quando pediu para que Camus ficasse. O indiano hesitou antes de deixá-los a sós, mas foi embora com o gesto impaciente que o mestre fez. Aproximou-se do francês, que evitava olhar para aquela máscara impassível e fria. -
O que aconteceu, Camus? Porque ficou nervoso daquele jeito? Perturbado com o olhar do cavaleiro, que parecia querer analisar sua alma. Ah, como aquele olhar o matava! Rodeou-o, ficando atrás dele. -
Porque não testa sua fidelidade? Passou um braço pela cintura fina do cavaleiro de gelo, que estremeceu com o toque. Era um toque estranho, frio...malicioso. Nada tinha do mestre que se lembrava antes de partir para a distante Sibéria. Desvencilhou-se gentilmente, para não fazê-lo perceber sua desconfiança. Virou-se de frente para ele, com uma ruga na testa. -
Missão?
Camus apenas acenou negativamente com a cabeça, melancólico.
Ficou olhando para aquela máscara maldita. Ares apertou os lábios
por debaixo dela. “Oh, pare de me olhar desse jeito, seu moleque atrevido!”.
Fitaram-se um bom tempo em silêncio, alguns minutos que pareceram
uma eternidade de tortura. Finalmente Camus sorriu, desarmando o deus
traidor. Seus ombros relaxaram.
A declaração surpreendeu Camus, que arregalou os olhos,
ainda sentindo o abraço se estreitar mais e mais. Sentiu o mestre
soluçar, e mesmo sem ver seu rosto, soube que estava chorando
em seu ombro. Estava cada vez mais confuso, mas sabia que aquele ali
era seu mestre querido. A quem ele e os outros meninos veneravam, chamavam
de um homem justo e bom. - Milo...Camus questiona nossos atos, acha que o que estamos fazendo é errado. O Cavaleiro de Escorpião o olha estupefato, piscando os olhos várias vezes. Ah, como era inocente... - Como assim, Camus? Eles é que estão errados, eles que nos ameaçam com sua audácia de exibir uma armadura de ouro para esse mundo corrupto! Precisamos limpar esse mundo desses impostores! Camus quase cai em lágrimas naquele momento. Ele não havia notado a mudança no mestre, não desconfiava de nada. Ainda acreditava e servia a ele como quando eram crianças. Sentiu a mão de Saga no seu rosto, enquanto encarava incrédulo Milo. Sabia o que ele estava fazendo. Se não o fizesse por ele, que fizesse por Milo. - Camus...não vamos matar inocentes, acredite.
Não conseguia acreditar no que dizia, mas o que podia fazer?
Já estava preso na sua teia. Fosse o que fosse que estivesse
acontecendo, ainda confiava no homem bom que era o mestre. E também
não podia levantar a mão contra Milo. Acenou um sim com
a cabeça, deixando que um o beijasse na face, enquanto o outro
lhe afagava seu cabelo. *** - Ares nos jogou uns contra os outros. Eu tinha a impressão de o que estávamos fazendo estava errado, mas como fazer Milo acreditar nisso? Então decidi ignorar tudo e seguir as ordens do Santuário, cheguei até a desacreditar em Athena...
Saga estendeu o tecido na borda da fonte. Levantou-se para postar-se
atrás de Camus, que estava absorto em observar as pequenas ondas
da água fresca e gelada. Abraçou seus ombros, encostando
sua face quente na sua face fria, lisa e macia. Deixou seu cabelo escorrer
pelos braços, indo se confundir com o dele. -
Eu sempre os amei, nunca quis que se machucassem. Vocês sempre
serão os meus meninos...
Camus olhou para o outro lado, estendendo a mão. Gêmeos
acompanhou com o olhar, as sobrancelhas franzidas. Milo havia saído
do seu esconderijo atrás das colunas grossas, o francês
sabia o tempo todo que ele estava lá, ouvindo cada palavra, vendo
cada gesto. Vestia uma túnica curta, presa por um cinto grosso
de couro na cintura, usava sandálias com tiras de couro que eram
amarradas na perna torneada. Parecia aquele pequeno grego de quem se
lembrava com tanto carinho. -
Nosso mestre é um homem bom e justo, não é Camus? Os dois abraçaram o antigo mestre. Para Saga, aquele calor era a coisa mais importante, eles eram sua vida. Preferia perder a proteção de sua deusa a perdê-los. FIM -----------------*************---------------- Escrito
em alguma data de 2002
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