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TEXTOS [Revisados] |
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Educação e Liberdade
Educação Libertária
Amor de jardineiro,
não de botânico
Brasileiros Pocotós
Canoa
O Sabor da Vitória
Experiência
Erros do Sobreviver
O Cidadão
A Cartilha dos Sanguessugas
Carta do PCC
Porca Miséria
Injustiças
Christiania
A Importância da Arte
Droga mesmo é a hipocrisia
Entrevista de Hakim Bey
Provos
A
loucura de cada um
Instituições de uma tragicomédia
Liberdade
ao rei, ao povo a lei
A Tecnologia e o Humano
TV Pública: Independência ou
Morte
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EDUCAÇÃO E LIBERDADE |
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Educar é uma atividade do
dia a dia. É instrução, escola, boas maneiras, comportamento,
obediência, silêncio, limpeza. É tudo isso e seu reverso.
Educar é a maneira mais
abrangente que temos para designar as relações sociais. Podemos
escolher entre educar para a liberdade ou educar com autoridade.
Educar para a liberdade é
antes de mais nada saber que a autoridade se esgota no seu próprio
conhecimento. É um acontecimento de vida que envolve a criança, seus
pais, parentes, vizinhos, amigos e até professores, criando em
função do talento, através de relações horizontalizadas. Os
superiores hierárquicos desaparecem para que predomine a
amistosidade. Abandona-se a esperança no comportamento
estandardizado para se potencializar liberdades exercidas por
pessoas livres.
Educar para a liberdade
não é uma utopia. É uma realidade possível que acontece uma vez que
se deseje liberdade. Pais, professores, estudiosos e todos os
educadores podem desejá-lo em nome da liberdade da criança.
Educar para a liberdade é
a maneira pela qual pode ser contida a violência, valorizando-se a
ajuda mútua.
Edson Passetti
Outros textos de Edson
Passetti:
Material
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EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA |
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Por Educação Libertária
entendemos todas as práticas educativas pautadas pela não hierarquia
nas relações educando - educador, pelas formas de organização
autogestionadas, e por considerar o saber numa ótica
não-disciplinar.
Na história da Educação
Libertária no Brasil preponderam as iniciativas culturais de
indivíduos e grupos de índole não-autoritária, como tem sido o
Centro de Cultura Social de São Paulo, cujo o incentivador, Jaime
Cuberos, devotou uma vida a divulgação do ideário anarquista entre
nós.
Considerada por alguns
pesquisadores em Educação e Ciências Sociais como uma vertente
fértil de estudos e práticas, a Educação Libertária tem mobilizado
Núcleos de Investigação como o NU-SOL na PUC/SP e o NAT na UFSC.
Livros e artigos vêm sendo
publicados recuperando o empreendimento educativo libertário mundial
e novas práticas pedagógicas produzem uma abordagem pedagógica
orientada no questionamento dos limites do conhecimento disciplinar
e nas possibilidades dos saberes não legitimados.
Maria Oly Pey
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AMOR DE JARDINEIRO,
NÃO DE BOTÂNICO |
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"Também a pedagogia, isto
é, os mecanismos pelos quais se desenvolve a formação de uma pessoa,
deve ser repensada. O ato de ensinar exerce freqüentemente o
autoritarismo, impõe a vontade de uma pessoa sobre a outra.
Se por um lado
transmitimos uma informação histórica acumulada quando ensinamos a
alguém, ao mesmo tempo restringimos sua espontaneidade.
Contraditoriamente, o ato
de ensinar é, simultaneamente, enriquecedor e repressor."
"(...) E' na primeira
infância que a pedagogia autoritária se instala e obtém os
"melhores" resultados. Tudo o que se faz depois, com pedagogias
revolucionarias e psicoterapias libertarias - restituindo `as
pessoas a sua própria individualidade - e' principalmente tentar
tirar essa rolha reacionária imposta com violência amorosa `as
crianças" "(...) A implantação de uma pedagogia libertadora implica
então uma mudança radical da estrutura familiar(...)"
Roberto Freire
(Extraídos do livro
"Utopia e Paixao", capitulo 3)
Outros textos de Roberto
Freire:
Material
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BRASILEIROS POCOTÓS |
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"Quantas pessoas você
conhece que desistiram de cursar uma faculdade porque acharam o
preço muito alto?
'O jumento e o cavalinho
eles nunca andam só
quando sai (sic) pra passear
levam a égua Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó
Minha egüinha Pocotó'.
Luciano Pires, Diretor de Comunicação da Dana Corporation, é autor
de um ótimo livro, do qual emprestei o título deste editorial,
"Brasileiros Pocotós " Reflexões sobre a mediocridade que assola o
Brasil" (Ed. Panda Books). Em sua contra-capa, ele escreve o
seguinte: "Você liga a televisão e não se conforma com o baixo nível
da programação? Abre o jornal e só encontra notícias superficiais e
sensacionalistas? Liga o rádio e parece estar ouvindo sempre a mesma
música? Ruim? Chama um "profissional" para fazer um conserto em sua
casa e o resultado é um desastre? No trabalho, sente a solidão de
não ter interlocutores? As conversas são rasas, os temas
superficiais? Vê seus filhos decorando a mesma tabela periódica que
você decorou anos atrás? Você tem a sensação de que o Brasil está
ficando burro?
Pois eu, sim! Daí este livro".
Muito bem. Foi disso que lembrei quando, dia desses, um amigo me
encaminhou um texto de autoria de Roberto Reccinella , que dizia:
"Na terça-feira, dia 22/02, a Rede Globo recebeu 29 milhões de
ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser
eliminado do Big Brother. Vamos colocar o preço da ligação do 0300 a
R$ 0,30. Então, teremos R$ 8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e
setecentos mil reais que o povo brasileiro gastou só nesse paredão.
Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato "fifty to fifty"
com a operadora do 0300, ou seja, ela embolsou R$ 4.350.000,00.
Repito, somente em um único paredão...".
Alguém poderia ficar indignado com a Rede Globo e a operadora de
telefonia ao saber que as classes menos letradas e abastadas da
sociedade, que ganham mal e trabalham o ano inteiro, ajudam a pagar
o prêmio do vencedor e, claro, as contas dessas empresas. Mas o "x"
da questão, caro(a) leitor(a), não é esse. É saber que paga-se para
obter um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação
e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da
população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos
participantes e, conseqüentemente, daqueles que só bebem nessa
fonte.
Certa está a Rede Globo. O programa BBB dura cerca de três meses. Ou
seja, o sábio público tem ainda várias chances de gastar quanto
dinheiro quiser com as votações. Aliás, algo muito natural para quem
gasta mais de oito milhões numa só noite! Coisa de país rico como o
nosso, claro. Nem o Unicef, quando faz o programa Criança Esperança
com um forte cunho social, arrecada tanto dinheiro. Vai ver deveriam
bolar um "BBB Unicef". Mas tenho dúvidas se daria audiência. Prova
disso é que na Inglaterra pensou-se em fazer um Big Brother só com
gente inteligente. O projeto morreu na fase inicial, de testes de
audiência. A razão? O nível das conversas diárias foi considerado
muito alto, ou seja, o público não se interessaria.
Programas como BBB existem no mundo inteiro, mas explodiram em
terras tupiniquins. Um país onde o cidadão vota para eliminar um
bobão (ou uma bobona) qualquer, mas não lembra em quem votou na
última eleição. Que simplesmente anula seu voto por não acreditar
mais nos políticos deste País, mas que gasta seu escasso salário num
programa que acredita de extrema utilidade para o seu
desenvolvimento pessoal. Que vota numa legenda política sem jamais
ter lido o programa do partido, mas que não perde um capítulo sequer
do BBB para estar bem informado na hora de PAGAR pelo seu voto. Que
eleitor é esse? Depois não adianta dizer que político é ladrão,
corrupto, safado, etc. Quem os colocou lá? Claro, o mesmo eleitor do
BBB. Aí, agüente a vitória de um Severino não-sei-das-quantas para
Presidente da Câmara dos Deputados e a cara de pau, digo, a grande
idéia dele de colocar em votação um aumento salarial absurdo a ser
pago pelo contribuinte.
Mas o contribuinte não deve ligar mesmo, ele tem condições
financeiras de juntar R$ 8 milhões em uma única noite para se
divertir (?!?!), ao invés de comprar um livro de literatura,
filosofia ou de qualquer assunto relevante para melhorar a
articulação e a auto-crítica...
Há uma frase de Robert Savage que diz: "Há mais pessoas dispostas a
pagar para se entreter do que para serem educadas". E é verdade, a
Globo sabe disso! Quantas pessoas você conhece que desistiram de
cursar uma faculdade porque acharam o preço muito alto? Pergunte a
uma criança quantos nomes de bichinhos de desenhos japoneses e
funções das personagens de jogos de computador ela conhece. Você vai
perder a conta. Mas se perguntar quem foi Monteiro Lobato, como se
escreve "exceção" ou quanto é seis vezes três, ela vai titubear.
Para piorar ainda mais o cenário dos próximos anos, cito um ditado
chinês: "Se você quer educar uma criança, comece pelos avós dela".
Voltando ao parágrafo original desse editorial, o autor do livro
comenta num dos primeiros capítulos o surgimento, há cerca de
quarenta anos, do MNMB (Movimento Nacional pela Mediocrização do
Brasil). Pois é, nem Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá (Festival
de Besteira que Assola o País) imaginariam que a coisa iria piorar.
E piorou. Sabe por quê? Porque o brasileiro quer. Chega de buscar
explicações sociais, coloniais, educacionais. Chega de culpar a
elite, os políticos, o Congresso. Olhemos para o nosso próprio
umbigo, ou o do Brasil. Chega de procurar desculpas quando a
resposta está em nós mesmos. A Rede Globo sabe muito bem disso, os
autores das músicas Egüinha Pocotó, O Bonde do Tigrão e assemelhadas
sabem muito bem disso; o Gugu e o Faustão também; os gurus e xamãs
da auto-ajuda idem.
Não é maldade nem desabafo não, é constatação".
Fonte: Júlio Clebsch, Profissão Mestre; copiado do sítio:
http://www.marica.com.br/2005/0404fabiom.htm
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CANOA |
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Em um largo rio, de
difícil travessia, havia um barqueiro que atravessava as pessoas de
um lado para o outro. Em uma das viagens, iam um advogado e uma
professora. Como quem gosta de falar muito, o advogado pergunta ao
barqueiro: “Companheiro, você entende de leis?”, “Não.” – responde o
barqueiro.
E o advogado compadecido: “É uma pena, você perdeu metade da vida!”.
A professora muito social entra na conversa: “Seu barqueiro, você
sabe ler e escrever?”, “Também não.” – responde o remador. “Que
pena!” – condói-se a mestra – “Você perdeu metade da vida!”.
Nisso chega uma onda bastante forte e vira o barco.
O canoeiro preocupado, pergunta: “Vocês sabem nadar?”, “Não!” –
responderam eles rapidamente. “Então é uma pena – concluiu o
barqueiro – vocês perderam toda a vida!”.
“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”.
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O SABOR DA VITÓRIA |
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O que é um jogo de
futebol? Uma guerra, uma batalha, um combate? Sim, para muito sei
que o é, principalmente para os europeus; mas sendo radical, ou
seja, buscando a raiz da questão, o futebol é como um circo, em que
o estádio se faz picadeiro e os jogadores atuam. Por que então
havemos de nos preocupar com a vitória, se num circo o que importa é
o espetáculo? Sei o que pensaram! Mas gostaria... Digo apenas que
gostaria, de ver essa visão mudar, assim talvez, haveria mais
futebol, mais ginga, mais dribles e menos competição; pois nossa
competição não se baseia na simples vitória, mas na destruição do
adversário.
Uma amostra do que um bom espetáculo pode levar, foi o que aconteceu
no jogo Barcelona x Real Madri, onde Ronaldinho Gaúcho fez dois
golaços que fizeram até mesmo a torcida do Real aplaudi-lo. Ou na
final do Campeonato Paulista entre São Caetano e Paulista, onde as
torcidas se misturavam.
Como disse Gandhi: "A satisfação está no esforço e não apenas na
realização final", ou seja, a vitória é só um sabor especial, a
felicidade está no caminho o qual percorremos até ela.
Sei o quão óbvio isso soa... Só que “Narciso acha feio o que não é
espelho” – como diria Caetano, e a raiva do que nos é diferente nos
cega a tal ponto que queremos apenas destruí-lo; ainda mais quando
não é capaz de causar mal algum. Entendo, mas não compreendo...
Lembro apenas que só é possível vencer enquanto houver com quem
competir!
Fonte:
http://cantozen.blogspot.com/2006/01/o-sabor-da-vitria_22.html
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EXPERIÊNCIA |
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Como queremos compreender
os resultados de uma experiência em um animal, se não sabemos o que
este está sentindo ou pensando? Se apenas o observamos? Se ele está
fora de seu ambiente natural? É como observar uma montanha, teremos
a noção de sua altura, mas jamais teremos realmente a sensação de se
estar nela, apenas isso imaginaremos. O frio de seu cume só será
concebido se algum dia já sentimos frio.
Agimos cruelmente, ou seja, inúmeras teorias que se dizem baseadas
em fatos, mas que na verdade estão carregadas de uma frieza
imprópria, que jamais condizem com a personalidade humana.
Dessa forma, focamos um único aspecto. No caso da medicina, o meio
humano físico. Assim, se um indivíduo tem asma, pensamos unicamente
no seu tratamento, e mesmo sabendo que a civilização é o que lhe
causa o mal, em vez de mudarmo-la, o que fazemos é programar o
indivíduo a tomar remédios de hora em hora para que este, de maneira
artificial, adapte-se a urbanização que também é artificial; ou
seja, destruímos a natureza física e por conseqüência destruímos a
natureza humana de viver sem remédios.
Obviamente que tudo isso gira em torno de interesses lucrativos;
assim, cada vez mais temos uma sociedade baseada na competição de
Weber, tornando-a egoísta, mas menos individualista, ou seja, age em
função do sistema e não de sua própria personalidade, tendo sua
felicidade concentrada no sucesso de se ser invejada pelos demais.
Auxiliando nisso vem à teoria do trabalho antiético de Adam Smith; o
qual prega a riqueza pela maior produção. Levando essa ao indivíduo,
temos pessoas que trabalham mais em função de derrubar o próximo e
se sobressair. Chamamos os grupos de criminosos de quadrilhas e
aceitamos que a polícia os prenda, com a hipocrisia que não nos
permite ver que agimos socialmente como eles.
Com isso, vemos hoje, uma sociedade que não age em função de não
precisar de médicos e medicamentos, mas sim, produzi-los cada vez
mais; não agindo em busca da destruição dos sofrimentos, mas de se
adaptar, ilusoriamente por meio de drogas, a ele.
Fonte:
http://cantozen.blogspot.com/2006/01/experincia.html
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ERROS DO SOBREVIVER |
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O mundo está cheio de
armadilhas, quando menos se espera...
Lembro um colega me contando ter um dia ido a Sta. Ifigênia e lá
resolveu comprar um DVD do Rappa; o cara lhe deu o cd, ele deu cinco
reais e caiu fora. Chegando em casa colocou o cd no DVD e eis que
nada aparece, só tocava. Sim, o cara lhe enganara, dando-lhe o cd do
Rappa e não o DVD, e comecei a pensar no como a gente tem que andar
na paranóia do alerta geral. Às vezes quando ando por São Paulo
sinto-me um estadunidense ou israelense, mas sem essa história de
bomba, e sim com o medo de a qualquer momento ser enganado.
Se você, meu caro leitor, não for de São Paulo, quando para cá vier
não ache que será assaltado na primeira esquina – talvez na segunda
– mas saiba que poderá ser roubado por engano em qualquer loja ou
camelô.
De fato, talvez todos estejamos errados. A gente que compra produto
ilegal, o lojista que além de vender produto ilegal, ainda lhe
enrola, o camelô que além de não ter emprego, vende produto ilegal e
sem qualidade, o hipócrita sistema capitalista que não vive sem o
contrabando e sem o camelô, às empresas que vendem os produtos a
preços exorbitantes, e o Estado, que além de não usar o dinheiro dos
impostos para coisas públicas e sim para interesses particulares,
ainda impede muitos que querem praticar boas ações por conta
própria.
Assim, você pratica algo desonesto uma vez e “ganha” com isso, então
se deu “certo” uma vez, por que não fazer de novo? E, assim,
construímos o mundo, num sistema em que seguir a lei é suicídio. Mas
também, a lei só existe porque existe um sistema que precisa impor
certas ordens ao povo, fingindo uma honestidade no papel. Erramos
para sobreviver, mas deitamos na cama e sonhamos em viver.
Talvez se não houvesse leis não haveria um meio imposto a se viver,
assim todos poderiam buscar a sua felicidade ao seu modo.
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O CIDADÃO |
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O cidadão, insatisfeito
com o produto que comprou e com o serviço que contratou, tenta ligar
para a central de atendimento ao consumidor a fim de reclamar. Na
gravação , uma melíflua voz feminina oferece o menu: “Para
informações, tecle 1. Para sugestões, tecle 2. Para reclamações,
tecle 3. O sujeito tecla 3 e cai numa gravação: “Se você está calmo,
tecle 1. Se você está impaciente, tecle 2. Para reclamações, tecle
3”. O sujeito não quer parecer indelicado e tecla 1. Cai na mesma
gravação e repete a operação. Cai de novo e se impacienta, teclando
2. Tudo de novo. Já irritado, tecla 3 e então cai numa terceira
gravação: “Se você estava clamo, tecle 1. Se estava impaciente,
aguarde. Se estava irritado, ligue mais tarde”. Até se convencer de
que aquela não passa duma central de trotes, perdeu um bom tempo e
gastou muitos pulsos esmurrando a mesa. A mesma coisa acontece com o
eleitor diante da urna eletrônica. Ele tecla várias vezes no mesmo
candidato até que lhe caia a ficha: a propaganda era enganosa desde
o começo, mas, mesmo traídos, os otários insistem na mesma tecla
achando que o candidato não teria tanta cara-de-pau a ponto de
renovar as promessas sem mostrar serviço. Sucede que a madeira da
qual é feita a cara do candidato é muito mais resistente que o
plástico do qual são feitas as teclas. Um dia, alguém quebra alguma
coisa e acaba quebrando coisas que pareciam inquebráveis, tais como
as cláusulas pétreas.
Glauco Mattoso - Caros
Amigos, Setembro 2006
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A CARTILHA DOS
SANGUESSUGAS |
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Antes da eleição
presidencial, Roberto Justus terá escolhido, com pompa engravatada e
sadismo majestoso, de um universo de 16 candidatos resignados à
humilhação e ao confinamento, aquele que se mostrar o mais idiota de
todos.
O eleito, ou a eleita, será agraciado, ou agraciada, com um emprego
de meio milhão de reais/ano em Manhattan – “uma cidade implacável”,
como acentuou o apresentador, trovejando sua ameaça ao pé daquele
touro emblemático de Wall Street – e com o direito de encarnar, aos
olhos do público, o que há de pior daquela cultura corporativa, cujo
primado ético consiste em brindar seu colega de trabalho – sempre um
adversário a derrotar – com punhaladas pelas costas e traiçoeiros
puxões de tapete.
O Aprendiz é a exibição espalhafatosa, em pastiche daquilo
que os vassalos chamam de “Primeiro Mundo”, de um código de conduta
social que se dissimula, no lero-lero típico dos manuais de
administração à americana (“competição”, “liderança”, “estratégia”,
“inovação”, “rapidez de decisão”), um individualismo insensível,
aproveitador e assumidamente imoral.
O que faz nosso simulacro de Donald Trump, esse Roberto Justus cada
vez mais candidato ao Prêmio Madame Toussaud de elegância, sem
nenhuma ruga nem na fisionomia nem no figurino, é eleger hoje o
sanguessuga de amanhã. Com o beneplácito encantado de uma sociedade
para quem a idéia de triunfar pressupõe a cotovelada e a ambição é
sempre uma virtude. Como disse um dos parlapatões deste atual
Aprendiz, com fanfarra de auto-exaltação, “não é nada pessoal, é
só business”.
Junto com a terceira versão da catequese ególatra da esperteza e da
deduragem, que jura ser a última, Roberto Justus anuncia seu livro
de memórias em que se vangloria das artimanhas ladinas de seus
próprios Momentos-Aprendiz. Sem maiores compromissos com a modéstia,
apresenta-se, no papel e na tela, como paradigma moral. Ele é o
campeão do mundo. O megaempreendedor. De repente, disponibiliza para
aqueles coitados do grupo eventualmente vencedor, num jantar de
confraternização, uns minutinhos do charme de sua inteligente
presença.
A primeira vítima a ouvir a sentença do banimento, no timbre
enfatuado do apresentador, foi uma moçoila cujo pecado consistiu em
exibir sensibilidade humana e sinceridade cândida. Assistido por uma
ex-Aprendiz que faz jus à láurea (ela lamentou que a candidata não
tivesse “pulso forte”) e por um barbudinho para quem “democracia não
é anarquia” (raciocínio, diga-se, bastante original), o Supremo
Magistrado confessou não ter gostado “da atitude dela”, a banida. A
moça é nordestina. Audácia, né? O que pretendia ela, pobrezinha,
naquela vertigem de sonhos nova-iorquinos, ofuscada pelas luzes da
metrópole, diante do chefão de timbre estudadamente blasé,
naquela agressiva cenografia de concorrentes que se orgulham de ser
robôs corporativos? Aquilo lá não é para gente normal.
Nirlando Beirão
Fonte:
Carta Capital
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CARTA DO PCC TRANSMITIDA
PELO DVD À REDE GLOBO |
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"Como integrante do
Primeiro Comando da Capital (PCC) venho pelo único meio encontrado
por nós para transmitir um comunicado para a sociedade e os
governantes. A introdução do Regime Disciplinar Diferenciado, pela
Lei 10.792 de 2003, no interior da fase de execução penal, inverte a
lógica da execução penal. E coerente com a perspectiva de eliminação
e inabilitação dos setores sociais redundantes, leia-se clientela do
sistema penal, a nova punição disciplinar inaugura novos métodos de
custódia e controle da massa carcerária, conferindo à pena de prisão
um nítido caráter do castigo cruel.
"O Regime
Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do
sentenciado, vigente na consciência mundial, desde o ilusionismo
(sic) e pedra angular do sistema penitenciário nacional, inspirado
na escola da nova defesa social. A LEP (Lei de Execução Penal) já em
seu primeiro artigo traça como objetivo o cumprimento da pena e a
reintegração social do condenado, a qual é indissociável da
efetivação da sanção penal. Portanto, qualquer modalidade de
cumprimento de pena em que não haja comitância (sic) dos dois
objetivos legais, o castigo é reintegração social com observância
apenas do primeiro, mostra-se ilegal e contrário à Constituição
federal.
"Queremos um
sistema carcerário com condições humanas, não um sistema falido
desumano no qual sofremos inúmeras humilhações e espancamentos. Não
estamos pedindo nada mais do que está dentro da lei. Se nossos
governantes, juízes, desembargadores, senadores, deputados e
ministros trabalham em cima da lei, que se faça justiça em cima da
injustiça que é o sistema carcerário: sem assistência médica, sem
assistência jurídica, sem trabalho, sem escola, enfim, sem nada.
"Pedimos aos
representantes da lei que se faça um mutirão judicial, pois existem
muitos sentenciados com situação processual favorável, dentro do
princípio da dignidade humana. O sistema penal brasileiro é na
verdade um verdadeiro depósito humano, onde lá se jogam os serem
humanos como se fossem animais. O RDD é inconstitucional. O Estado
Democrático de Direito tem a obrigação e o dever de dar o mínimo de
condições de sobrevivência para os sentenciados. Queremos que a lei
seja cumprida na sua totalidade. Não queremos obter nenhuma
vantagem, apenas não queremos e não podemos sermos (sic) massacrados
e oprimidos.
"Queremos que as
providências sejam tomadas, pois não vamos aceitar e ficarmos de
braços cruzados pelo que está acontecendo no sistema carcerário.
Deixamos bem claro que nossa luta é com os governantes e policiais,
e que não mexam com nossas famílias que não mexeremos com as de
vocês. A luta é nós e vocês.”
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PORCA MISÉRIA |
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Gloriosa fome que
alimenta os que ironicamente passam longe dela, prometendo seu fim
em projetos assistencialistas que, em invés de alimentarem a vida
matando a fome, alimentam mais desgraças a partir da esperança de
ver um saco de dinheiro se transformar em prato de comida.
Esperança em que se
esvai ao descobrir que, como num passe de mágica, o dinheiro sumiu
dos cofres públicos para reaparecer em alguma conta particular.
Como aconteceu em
Guaíbas, Piauí – em que a verba repassada para a construção de poços
e um sistema de abastecimento de água – não seguiu seu leito devido.
A empreiteira recebeu R$ 121mil por serviços minimamente realizados.
Enquanto em Alagoas,
prefeituras como a de Rio Largo desviaram cerca de R$ 2mi de verba
destinada a merenda escolar.
Todavia, não apenas
através da corrupção escancarada que se gera a fome. Diversos países
europeus para amenizar os trágicos efeitos da exploração que
realizam na África doam quantias irrisórias a ONU destinadas a
medicamentos, comida, etc.
Se for por falta de
exemplos, pode-se falar também da suíça Nestlé, acusada de matar
indiretamente mais de vinte mil crianças na Bolívia ao incentivar as
mães a darem seu leite industrial as recém-nascidas, deixando clara
a despreocupação com a saúde em favor dos interesses meramente
lucrativos.
Isso tudo mostra
apenas que a fome só é problema para quem a carrega no lugar do
alimento, já que essa é capaz não somente de alimentar à boca, mas
também a vaidade exacerbada daqueles que através dela se sustentam
no poder.
Se o amor não é
capaz de florescer a hombridade naqueles que regem leis e nos que se
atrevem a dizer: “isto é meu”, então somente a atitude popular
apartidária em prol do bem comum será capaz de gerar algum resultado
eficiente na busca pela dignidade e pelo bem estar.
A ignorância é o
principal fator para manter os povos inertes em meio a todas as
imposições, serem escravizados e não se indignar.
Somos incendiados
pelo marketing que nos incentiva a desejar, a comprar, a ter
status, mas nunca a pensar.
Estatisticamente,
mede-se a intelectualidade pela quantidade de livros que um povo lê
por ano, porém, quantidade não significa qualidade. A população
prefere os livros mais vendidos para estarem na moda, ou aqueles que
lhe dêem soluções para seus problemas - como se existisse uma
fórmula vital - ao invés de livros que levem-na ao questionamento.
O desestimulo a
leitura, parte de uma sociedade formada em grande parte por
analfabetos funcionais. A escola em invés de incentivar, manda as
crianças lerem livros que não condizem com a realidade, nem
possibilitam a formação crítica; e sem qualquer noção de mundo,
mandam que os adolescentes leiam livros que não conseguirão
entender.
Vemos as crianças
dizerem, estufando o peito, que não gostam de ler, sendo que as que
gostam, são rotuladas de forma preconceituosa por toda a sociedade,
que tem como conceito a crença de que quem muito lê acaba louco.
Nos países
desenvolvidos, a intelectualidade não passa de mais uma forma de
vaidade, pois se esta fosse sinônimo sabedoria, os povos denominados
intelectuais não permitiram que seus próprios países explorassem
outros.
Estes considerados
intelectuais, dizem haver uma certa ignorância desejada por aqui,
algo incabível, pois apenas os sábios têm consciência da própria
ignorância. Jamais um ignorante terá consciência da sua própria
ignorância, sempre se considerarão sábios, por saberem humilhar o
próximo, por apoiar aqueles que torturam desejando um dia serem
torturadores.
Portanto, de nada
adianta a um povo ler se o que lê não lhe faz transgredir as
próprias barreiras, descobrir o infinito da mente, sendo que aqueles
que o descobrem são sacrificados por questionarem demais e responder
de menos.
Gerado pela
repressão, tanto do Estado, quanto de nós mesmos, o ódio se mantém
na sociedade, usando a ignorância como trampolim para a intolerância
prevalecer. Conformamos-nos com nossos medos e não enfrentamos o que
nos impede de ser felizes. Assim, culpamos o vizinho pela rua suja,
mas nunca nos propomos a ajudar limpá-la.
Motivados pela
pobreza, fruto do abstrato capitalismo, líderes inescrupulosos
utilizam religiões e ideologias para disseminar ideais racistas e
preconceituosas, estimulando a desuniam entre os povos que crêem na
eliminação dos que não apresentam a mesma opinião como solução de
todos os problemas, levando o povo a crer em demônios como causa de
sua miséria.
Demônios que em
países desenvolvidos são os imigrantes e filhos destes – em maioria
latinos e negros, que sofrem o preconceito nas ruas, sem que se faça
muita coisa para reverter esta situação, pois inúmeros governantes,
por debaixo dos panos, apóiam estas práticas como meio de reduzir a
entrada de imigrantes.
Cada vez de forma
mais clara, o ódio é disseminado através até mesmo do esporte. Vemos
integrantes de torcidas organizadas jogando bananas no campo ou
imitando macacos referindo-se aos jogares negros.
Nos países
intitulados subdesenvolvidos, essa ligação entre torcedores da mesma
equipe, acontece por uma busca de identidade não encontrada no
patriotismo nem no nacionalismo, devido à falta de soberania de seus
senhores.
Patriotismo e
nacionalismo que deram impulso a inúmeras guerras durante a
história. E que ainda hoje são usados para fazer os seres humanos se
verem diferentes uns dos outros por enxergarem limites opostos.
E mesmo depois de
tantos aparecerem pregando a paz, e mesmo depois da ciência
comprovar que entre todos seres vivos há muito mais semelhanças do
que diferenças, a maioria ainda prefere manter a ignorância – sem
consciência desta – e crer nas mínimas diferenças aparentes.
Acontece que, a
vaidade é o grande precedente deste ódio, já que ambicionados por
ela, importamos-nos mais com a aparência do que com a inteligência,
e, com isso, somos enganados por imagens, que mostram aqueles que
buscam uma maneira de sobreviver como causadores do mal, sendo os
verdadeiros causadores dos males, louvados e abençoados pela grande
maioria. Afinal, todos querem estar num belo hotel de frente para o
mar com todos a servir, mas para que haja o senhor, é preciso haver
o servo, e vice-versa.
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TOPO |
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INJUSTIÇAS |
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Para uma sociedade que
acredita que injustiças curam injustiças, a pena de morte não está
na lei, mas é um fato que até a mídia já mostrou ao vivo e a cores.
Como “o caso do ônibus 174”, em que o seqüestrador foi enforcado por
PM’s no camburão por uma questão de honra a incompetência do
atirador de elite que num ato precipitado matou a vítima.
Enquanto muitos
politiqueiros matam crianças de fome ao desviarem verbas de merendas
ou de projetos assistenciais, a população carente é recebida a
cassetetes dos cúmplices fardados de um poder corrupto – redundância
enfática, já que sabemos da impossibilidade da existência de poder
honesto.
Mesmo assim, acomodada
pela ignorância, a população continua obedecendo-o, iludida no sonho
de que labutar enriquecerá, tornando-se também cúmplice dos
criminosos ao aceitar a corrupção e dando esmolas na esperança de um
mendigo elevar sua humilhação ao trabalho servil, assim como ela.
Já o chamado infrator,
entende que o trabalho não o permitirá alcançar seus sonhos – iguais
ao de qualquer um que sustente em si a vaidade – e se espelha nos
grandes criminosos, como politiqueiros, traficantes, empresários que, além de explorarem o trabalhador, sonegam impostos, dos quais os
trabalhadores desunidos não têm como fugir.
Além do que, a injustiça é
de um nível que nem ao menos se pensa em rever os processos
daqueles que foram presos ou condenados por ex-autoridades como o
ex-policial “Rambo”.
E a tal ponto chegou à
situação de desigualdade que já houve casos de libertados pedirem o
retorno ao presídio por terem lá três refeições diárias, mostrando
que a sociedade aqui fora também paga sua pena por nada fazer contra
a desigualdade.
Vê-se com isso que, se
temos a justiça como meta, o sistema penitenciário não é apenas uma
forma de se tentar fugir de um problema específico ou uma forma de
se desviar verba sem que a população se manifeste. Até porque, para a
maioria preso não é humano. Dessa forma, o sistema carcerário
torna-se mais um dos
mecanismos de controle da população por parte do sistema capitalista.
Com isso, se queremos
igualdade, precisamos pensar também na libertação destes. Pois nenhum
deles é menos digno do que qualquer trabalhador, já que o
trabalhador, assim como o escravo, sustenta o sistema com sua
ignorância.
Vemos os presos sendo
tachados de vagabundos ou preguiçosos, mas são eles tão iguais aos
que caminham do outro lado do muro e que como a maioria ds que lá
estão preferem trabalham para virar o dinheiro num copo
de cerveja para esquecer dos problemas, comprar carne de um
animal judiado para se divertir num churrasco, roupas novas para se
exibir ou simplesmente doando a igreja acreditando que de seus
pecados vá se redimir, em vez de buscar uma maneira de transformar a
realidade que os assola.
E engana-se aquele que
pressupõe aumento da violência com o fim dos presídios, já que o
banditismo se tornou uma profissão em que, para um preso pobre hoje,
há um substituto pobre amanhã. Pois enquanto muitos revezam a hora
de sono por não terem espaço na cela para dormir, outros ficam em
celas individuais com segurança máxima, a fim de controlarem o
crime.
Logo, sendo mais direto, o
Estado é corrupto; as autoridades apóiam o crime para lucrarem e
amedrontarem o povo, “mantendo o morro no morro”, mas a população
apóia o Estado, o trabalhador ignorante quer um dia chegar a ser
burguês, e vota. Ou seja, é cúmplice dos criminosos. Se olhássemos
na lei, cúmplice também deve ser preso, então, se às vezes aqui fora
é pior do que lá dentro e se não é possível prender a todos, então,
que nenhum seja preso.
Talvez o leitor mais
específico pense em casos como o de estupradores ou de serial
killers, porém, de nada adianta prendê-los e não tentar
entendê-los para que outros casos não se ocorram, pois em muitos
casos de estupros, esquece-se a vítima em função de condenar o
estuprador. Pensar que os presos
deverão continuar presos é insistir na necessidade de Estado, é
continuar tentando destruir o sistema remontando-o com outro nome. A
sociedade é que deve se unir e tomar uma atitude para com seus
problemas, e não jogar a responsabilidade nas mãos do Estado,
lavando as mãos e fechando os olhos, como se aquilo não existisse.
Sabemos que o poder é
prejudicial e que o ser humano não é perfeito, portanto, não
busquemos um sistema ideal, mas sim a ausência de tal. Admitindo que
as mudanças sempre serão necessárias e que estas devem respeitar não
apenas o coletivo, mas principalmente o indivíduo, já que não
adianta lutar pelo interesse da maioria sem ser feliz.
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TOPO |
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CHRISTIANIA |
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Christiania: A Lenda
da Liberdade No coração gelado do capitalismo europeu, na fria
Copenhagen, Dinamarca, uma comunidade de 10 mil pessoas vive num
outro compasso. Cristiania não tem prefeito, não tem eleição e
funciona sem governo, sem imposição de leis que controlem a
organização social. A lenda da cidade-livre da Dinamarca é real:
inspirada no Anarquismo, Christiania resiste há mais de 20 anos,
inventando um jeito novo de conviver com os problemas da vida
comunitária. Limpeza das ruas, rede de esgoto, manutenção dos
serviços básicos, tudo é decidido e feito a partir de reuniões entre
os moradores da cidade.
Eles se definem como uma comunidade ecologicamente orientada, com
uma economia discreta e muita autogestão, sem hierarquia
estabelecida e o máximo de liberdade e poder para o indivíduo. Uma
verdadeira democracia popular direta, onde o bom senso e o diálogo
substituem as leis. No Brasil, poucos conhecem a história da
cidade-livre. O tesão vai contar, com exclusividade, a lenda da
liberdade.
Christiania começou a escrever sua história em 1971. Foi a partir
das idéias de um jornal alternativo, o Head Magazine, que um grupo
de pessoas, de idades e classes sociais variadas, decidiu ocupar os
barracos de uma área militar desativada na periferia de Copenhagen.
Era o início de uma luta incansável contra o Estado. A polícia
tentou várias vezes expulsar os invasores da área, mas sem sucesso.
Christiania virou um problema político, sendo discutida no
parlamento dinamarquês. A primeira vitória veio com o reconhecimento
da cidade-livre como um "experimento social", em troca do pagamento
das contas de luz e água, até então a cargo dos militares,
proprietários da área. O Parlamento decidiu que o experimento
Christiania continuaria até a conclusão de um concurso público
destinado a encontrar usos para a área ocupada.
Em 73 houve troca de governo na Dinamarca e a situação de
radicalizou: o plano agora era expulsar todos e fechar o local. O
governo decretou que a área seria esvaziada até o dia 1º de abril de
1976. Na última hora, o Parlamento decidiu adiar o fechamento de
Christiania. A população da cidade-livre tinha se mobilizado para o
confronto com o Estado, mas a guerra não aconteceu. O dia 1º de
abril tornou-se o dia de uma grande manifestação da Dinamarca
Alternativa. Ao longo dos anos, a cidade-livre aprimorou sua
autogestão: casa comunitária de banhos, creche e jardim de infância,
coleta e reciclagem de lixo; equipes de ferreiros para fazer
aquecedores a lenha de barris velhos, lojas e fábricas comunitárias
de bicicletas.
A década de 80 foi marcada pelas drogas. Em 82, o governo começou
uma campanha difamatória contra Christiania: a cidade-livre era
considerada o centro das drogas do Norte da Europa e a raiz de
muitos males. A comunidade teve então que organizar programas de
recuperação de drogados e expulsar comerciantes de drogas pesadas,
como a heroína. O mercado de haxixe continua funcionando
normalmente. O governo dinamarquês nunca deixou Christiania em paz,
Vários planos foram elaborados visando a "normalização e
legalização" da área.
Em janeiro de 92, finalmente um acordo foi assinado. Christiania já
tinha mais de vinte anos de independência e provara ao mundo que é
possível viver em liberdade. Mesmo com o acordo, o governo ainda
tenta controlar a cidade-livre. A resposta veio no ano passado, com
o lançamento do Plano Verde, onde os moradores de Christiania
expressam sua visão de futuro e que rumos tomar. A lenda de
Christiania continua sendo escrita.
Christiania: uma cidade sem governo
Christiania II: Uma Cidade sem Governo Christiania tem provado ao
mundo que é possível viver numa sociedade sem autoridade
constituída, sem delegação de poder através de mandatos e eleições.
A cidade-livre da Dinamarca criou um experimento social definitivo
contra a idéia dominante de que a humanidade se auto-destruirá se
não existir um controle sobre a liberdade individual.
Os habitantes de Christiania decidiram correr o risco de andar na
contra-mão da história. Para eles, o governo, seja lá qual for, e
seus mecanismos de administração pública são sinônimos de
burocracia, abuso de poder e corrupção.
Vivendo sem a necessidade de leis que controlem a organização
social, cada morador da cidade livre tem que fazer sua parte
enquanto cidadão e confiar que todos farão o mesmo. É uma nova ética
de convivência, baseada na honestidade e na solidariedade.
Em 23 anos de existência, a cidade-livre sempre esteve associada a
rebelião contra a ordem estabelecida e experimentando novos meios de
democracia e formas de autogestão da administração pública.
Christiania se organiza em vários conselhos, onde todos os moradores
têm direito a opinar e discutir os problemas comunitários. As
decisões não são feitas por votação, mas sim através do consenso.
Isso significa que não é a maioria que decide e sim que todos tem
que estar de acordo com as decisões tomadas nas reuniões. Às vezes,
contam-se os votos somente para se ter uma idéia mais clara das
opiniões, mas essas votações não tem nenhum significado
deliberativo, não contam como uma solução para os problemas da
comunidade. Christiania é dividida em 12 áreas, cada uma
administrada pelos seus moradores, para facilitar o funcionamento
dos serviços básicos. As decisões tomadas sempre por consenso podem
parecer difíceis para nós, brasileiros acostumados ao poder da
maioria sobre a minoria (pelo menos, é assim que se justificam os
defensores das eleições).
Mas para os habitantes da cidade-livre, o consenso só é impossível
quando existe autoritarismo, quando alguém tenta impor uma opinião
sem dar abertura para que outras idéias apareçam e até prevaleçam
como melhor solução. A experiência tem ensinado aos moradores de
Christiania que cada reunião deve discutir só um assunto,
principalmente na Reunião Comum, que decide sobre os problemas mais
importantes da comunidade. E, contrariando o pessimismo dos que não
conseguem imaginar uma vida sem governo institucional, a utopia está
dando certo: a vida comunitária de Christiania preserva a liberdade
individual e constrói uma eficiente dinâmica de relacionamento
social, livre do autoritarismo e da submissão. A cidade-livre vive o
anarquismo aqui e agora.
AÇÃO DIRETA
Os moradores da Christiania fazem questão de ser uma pedra no sapato
do capitalismo. Eles não se contentam apenas em incomodar os valores
tradicionais da sociedade européia com a vida alternativa que levam.
Christiania também desenvolve várias atividades com o objetivo de
contestar o sistema capitalista e divulgar as idéias anarquistas.
Durante os primeiros anos, a cidade-livre se tornou conhecida por
suas ações no teatro e na política. E quem conseguiu maior sucesso
nessa área foi o grupo Solvognen. Uma de suas ações diretas mais
famosas foi em 1973, quando a OTAN (Organização do Tratado do
Atlântico Norte), uma espécie de braço armado dos Estados Unidos na
Europa, realizou um encontro de cúpula em Copenhagen. Inspirados no
programa de rádio "Guerra dos Mundos" de Orson Welles, que simulou
uma invasão de marcianos colocando em pânico a população
norte-americana na década de 40, centenas de pessoas, lideradas pelo
grupo de teatro de Christiania, fizeram parecer que um exército da
OTAN tinha ocupado a Rádio Dinamarca e outros pontos estratégicos da
cidade. A impressão que se tinha era que a Dinamarca estava ocupada
por forças estrangeiras. Durante várias horas, o país inteiro ficou
em dúvida se a invasão era teatro ou realidade. A ação foi uma dura
crítica a intervenção dos Estados Unidos na vida dos países
europeus.
O Solvognen também usou a critividade para contestar o comércio da
maior festa do cristianismo. Em 1974, o grupo organizou o primeiro
Natal dos Pobres da Dinamarca. Milhares de presentes foram
distribuídos por um batalhão de Papai Noéis. Detalhe: os presentes
eram artigos roubados das lojas de Copenhagen. Resultado: foram
todos presos, mas o escândalo ganhou as manchetes dos principais
jornais da europa, com fotos de dezenas de Papais Noéis sendo
carregados pela polícia. Até hoje o Natal dos Pobres continua sendo
organizado como uma tradição e todo ano aproximadamente 2 mil
pessoas recebem uma grande ceia em Christiania. Vote Nulo.
Fonte:
http://www.brnpunk.cjb.net/
Veja mais:
http://www.somaterapia.com.br/pa_noticias_interna.jsp?not_cd=7
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A IMPORTÂNCIA DA ARTE |
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Nossa arte
contemporânea é totalmente superficial, denotando a arte a velha
função do quadro bonito enfeitando a sala; da arte burguesa que faz
beleza em meio à feiúra e a desgraça, tornando o indigno digno de
apreciação ao artista e pena a inspiração. Veja, por exemplo, as
fotos de Sebastião Salgado mostrando as desgraças do mundo. São
todas belíssimas, mostrando uma essência em meio a lugares
aparentemente sóbrios, pobres e desumanos. Porém, na arte, ao
contrário da ciência, você tem a ciência de que ela mostra não o
real, mas o que parece, ou seja, a interpretação de um determinado
fato por um determinado artista; e o que parece é que o fato da arte nos mostrar essa
essência de forma bela, livra-nos da nossa angústia pela culpa a
qual sabemos que temos com relação não só ao africano que morre
cheio de vermes na barriga, mas ao que está sendo escravizado para
produzir roupas na mesma cidade em que vivemos. Sabemos que isso
existe, mas fingimos não ver; e a arte contemporânea nos mostra de
uma forma que não doa. Com isso, a arte perdeu um pouco do seu
valor, o de fazer pensar, refletir ou até mesmo não-pensar e viajar
por entre as entranhas da mente. A arte nos dá a ciência e a
ciência é que nos dá a arte. Observe os acontecimentos artísticos
sempre após alguma grande descoberta científica. As descobertas de
Freud e o Surrealismo, por exemplo; tanto, que, antes das doutrinas
positivistas e deterministas virem com a separação da ciência da
filosofia, temos muitos dos grandes cientistas, artistas como Leonardo da
Vinci. Enquanto colocamos a arte na parede da sala, perdemos nossa
expressão, nossa vida, nossa consciência; vivendo de forma mundana,
num mundo onde diplomados que dizem ter a ciência por matarem
animais em nome da humanidade impõem suas verdades egocêntricas, e
nós, sem arte, desumanos, aceitamos.
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DROGA MESMO É A HIPOCRISIA |
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Vivemos numa sociedade que
diz prezar pela saúde trancando-se cada vez mais dentro de carros,
apartamentos e casas, para, dessa forma, fugir das reais causas dos
problemas não apenas sociais mais também das moléstias que nos
atingem. Porém, se não conseguimos fugir da bronquite ou da asma,
acabamos por piorar com o stress, a depressão, dentre outros males
da sociedade moderna.
Para fugir desses problemas, vem à medicina com seus remédios,
chamados de drogas somente nas drogarias. No entanto, não enxergamos
que fazemos o mesmo que as pessoas que usam os famosos alucinógenos,
como se os faixas-pretas das farmácias também não causassem
alucinações (só acha isso quem os usa).
Assim, não resolvemos os problemas pela raiz, por exemplo, o
problema da bronquite não está no pulmão da pessoa, está na poluição
das grandes cidades, se acabarmos com ela, acabaremos com a
bronquite, ou ao menos, reduziremos efetivamente os efeitos dela em
quem a possui. Tanto como o câncer, que é, em muitos casos, um
distúrbio genético impulsionado por um psicológico em mau estado ou
causado também pela má alimentação decorrente do cotidiano atual.
Com isso, temos que ter a consciência de que a hipocrisia é o nosso
grande problema, pois por sua causa, encobrimos as reais causas dos
nossos problemas, que se não têm solução, ao menos podem ser
reduzidos, basta pararmos de fugir deles e virmos que fazemos parte
da sociedade, tendo, portanto, culpa também.
Sabemos que os discursos sociais estão na moda agora com a miséria
na porta de nossas casas, ou dentro delas, mas discursos não levam a
nada – veja em todos que votamos. É preciso assumir nosso papel
ativo dentro do meio em que vivemos para assim atacarmos as raízes
dos problemas que podem nos levar a extinção, ou a uma vida sem nada
além da juventude e da fuga do estresse nos finais de semana ou
férias.
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ENTREVISTA DE HAKIM BEY A HIGH TIMES
MAGAZINE |
High Times - Hakim,
de onde você é?
Hakim Bey - Bem, a
informação padrão (que é tudo o que falo) é que eu era um poeta da
corte um principado sem nome do norte da Índia, que eu fui preso
na Inglaterra por um atentado anarquista a bomba e que eu vivo em
Pine Barrens, Nova Jersey, em um trailer da Airstream (
tradicional marca americana de trailers). Quando venho a Nova York
fico num hotel em Chinatown.
High Times - O que
é Zona Autônoma Temporária?
HB - A Zona Autônoma
Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas
eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome
esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência
dos indivíduos de se juntarem em grupos para buscarem a liberdade.
E não terem que esperar por ela até que chegue algum futuro
utópico abastrato e pós-revolucionário. A questão é: como os
indivíduos maximizam a liberdade sob as situações nos dias de
hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos
que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo
transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora. Quando
falamos sobre uma Zona Autônoma Temporária, estamos falando em
como um grupo, uma coagulação voluntária de pessoas afins
não-hierarquizadas, pode maximizar a liberdade por eles mesmos
numa sociedadade atual. Organização para a maximização de
atividades prazeirosas sem controle de hierarquias opressivas.
Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas
invadem numa regularidade quase diária: você pode falar sobre
educação compulsória, ou trabalho. Você é forçado a ganhar a vida,
e o trabalho por si só é organizado como uma hierarquia opressiva.
Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar a
hierarquia opressiva do trabalho alienado. Por essa razão, criar
uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobre essas
hierarquias reais e opressivas - não somente declarar antipatia
teórica a essas instituições. Você vê a diferença que eu coloco
aqui? No aumento da popularidade do livro, muitas pessoas se
confundiram com esse termo e usaram ele como um rótulo para todo o
tipo de coisa que ele realmente não é. Isso é inevitável, uma vez
que o próprio vírus da frase está solto na rede (para usar
metáforas de computadores). Se as pessoas usam erroneamente ele ou
não isso não é tão importante, porque o significado está
inscrustado no termo. É como um vírus verbal. Ele diz o que
significa.
HT - Você pode
explicar o terrorismo poético?
HB - Por terorismo
poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podem
ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato
terrorista - com a diferença que o ato é uma mudança de
consciência. Digamos que você tem um grupo de atores de rua. Se
você chamar o que você esta fazendo de "performance de ruas", você
já criou uma divisão entre o artista e a audiência, e você alineou
de si mesmo qualquer qualquer possibilidade de colidir diretamente
nas vidas diárias da audiência. Mas se você pregar uma peça, criar
um incidente, criar uma situação, pode ser possível persuadir as
pessoas a participar e a maximizar sua liberdade. É uma estranha
mistura de ação clandestina e mantira ( que é a essência da arte)
com uma técnica de penetração psicológica de aumento de liberdade,
tanto no nível individual quanto social.
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A LOUCURA DE CADA UM |
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Define-se por
loucura o estado daquele que foge a normalidade; porém é totalmente
subjetivo o que venha a ser normal, já que isso depende dos padrões
estabelecidos por uma sociedade. Por isso, mais precisamente,
loucura se define quando os conteúdos da mente prevalecem sobre a
capacidade de incorporar a realidade. Contudo, a realidade também é
subjetiva, já que vemos o mundo por meio de nossas mentes, a partir
de nossa individualidade.
Com isso, podemos dizer que somos todos loucos, porém, como a
loucura é uma definição estabelecida pela sociedade e nos encaixamos
nessa definição, então somos também todos normais independentemente
do que pensamos, de como agimos, pois tudo o que fazemos possui uma
determinada lógica em nossas mentes.
Todos possuímos nossos complexos e neuroses, o estabelecimento de um
padrão parte do medo que temos inconscientemente dessas e, com isso,
os criamos para nos reprimir. Porém, uma hora o inconsciente não
suporta mais e resolve se expressar de uma maneira brusca; é quando
derrubamos padrões. Contudo, na maioria das vezes, derrubamos um
padrão para impor outro, e passamos a nos reprimir por outro lado.
Quantos não foram considerados loucos por agir de forma diferente?
Hoje a juventude ouve rock, mas nos anos 40 quem o fazia era
considerado louco, como foi Little Richard. Nos anos 70 eram os
hippies. Tantos foram condenados a “prisão perpétua” dentro de
manicômios por serem considerados loucos, como usuários de drogas,
mulheres que traíam seus maridos, homossexuais, dentre outros.
Assim, consideraram a loucura a partir de preconceitos, e com isso,
mataram judeus, mataram “bruxas” no fogo da Inquisição, fizeram
guerras em nome da normalidade, em nome da ordem.
Para que pudéssemos definir a normalidade seria preciso conhecer a
verdade; mas se a tudo podemos questionar, se ainda não conseguimos
atingir a verdade, também não podemos definir a normalidade, pois
enquanto houver aquilo que consideramos errado mudaremos, não somos
perfeitos, não somos fixos, não somos normais, pois a loucura vem a
ser justamente a expressão real de nossa personalidade quando não
nos impomos repressões.
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INSTITUIÇÕES DE UMA TRÁGICOMÉDIA |
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Aniquilando o processo
reflexivo, as instituições possuem como intuito estabelecer aspectos
normativos que, em sua maioria, têm como ideal, a massificação da
sociedade em função daqueles que a governam.
A família, os professores e a
mídia são alguns dos perpetuadores de um espetáculo em que o povo atua,
mas não dirige, esquecendo a vida para suar apenas em troca de um
salário, que como todo direito instituído, é mais um que mantém o povo
nos trilhos.
Logo na infância as crianças são
induzidas a crer em tudo que a família lhes diz. Inúmeros dogmas são
introduzidos, e, por conta disso, a falta de auto-conhecimento e a
repressão (tanto de si quanto da sociedade) ocasionam problemas
psíquicos por não se entenderem, e, por conseqüência, não conseguirem
expressar sua personalidade. A rebeldia do adolescente, por exemplo, é
fruto não só da repressão dos pais, mas também da busca pelo eu, que
nunca incentivada, resultam muitas vezes, em um jovem perdido no mundo;
podendo levá-lo até mesmo às drogas.
Quando as primeiras portas são
abertas, paira-se trancado pelas chaves do medo numa sala observando
professores que direcionam os pensamentos dos alunos ao que eles impõem,
ao invés de darem o acesso livre às informações. Traumatizados, tornam o
pensar algo obrigatório, um dever a ser cumprido na escola, onde novos
dogmas são introduzidos a fim de se impor um destino em que todos devem
seguir para alcançar o sucesso na vida. A felicidade não importa, fica
apenas no final da novela, nas propagandas de cerveja ou cigarro.
Por meio da manipulação de
informações, a mídia se caracteriza por ser uma instituição que tem como
mérito hipnotizar e conduzir a população aos interesses dos dominantes,
como se pôde ver em toda a história em capítulos como o da Era Vargas ou
o das eleições.
Com isso, faz-se essa
tragicomédia, cheia de risos para os senhores que engordam suas contas
com a fome de um povo que não enxerga a felicidade além da riqueza
financeira, que chama a liberdade de utopia, mas acredita iludida, que a
locomotiva do capitalismo possa oferecer igualdade por meio da
competição.
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LIBERDADE AO REI, AO POVO A LEI |
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A imposição da lei já
remete a sua injustiça, pois qualquer imposição vai contra a liberdade.
Estando quem cria e quem rege acima dela. Não é de se admirar, tendo em
vista que o poder corrompe, que estes se aproveitarão desta em benefício
próprio.
O fato de serem humanos os que fazem as leis faz delas mais injustas por
estarem sob a ação dos valores de uma sociedade. Assim, o Estado impõe
através do medo e com ajuda da ignorância popular um padrão social, que
se enraíza no inconsciente do povo. Por exemplo, em toda a história
houve homossexuais, porém a lei não lhes garante o direito do casamento.
Tem também o fato de que não há crime se a infração for desconhecida, ou
seja, desde que não existam provas nem testemunhas não há crime,
deixando claro que a lei não gera respeito, mas medo, conforme o grau de
fiscalização. Veja por exemplo o caso Paulo Maluf, acusado de
superfaturar obras públicas; caso que até hoje não foi comprovado por
falta de provas e por que se houverem testemunhas, estas provavelmente
também estão envolvidas.
Muitas vezes a lei é utilizada por aproveitadores, como grileiros,
herdeiros, para adquirirem posses, que muitas vezes seguem carreira
política para manterem-nas.
Concluindo, as leis impõem barreiras em nome do bem comum, mas não há
bem comum sem liberdade individual, e sem liberdade não há vida; não
serão leis que acabarão com a desigualdade, mas sua inexistência,
garantindo a liberdade do indivíduo.
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A TECNOLOGIA E O HUMANO |
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Muitos ao verem, superficialmente, a tecnologia ocupando o que antes
eram espaços onde humanos trabalhavam, acreditam e pregam o fim da
tecnologia.
É certo que hoje, mais do que imaginar um futuro aparentemente remoto,
podemos ver o Admirável Mundo Novo de Adouls Huxley exposto em nossas
janelas e até mesmo dentro de nossas próprias casas.
No entanto, engana-se aquele que acredita que o ADM seja constituído
apenas pela Internet, pelos caixas eletrônicos ou pelas televisões. O ADM está
mais em nossa forma de usar as tecnologias, já que em si não passam de
circuitos integrados desperdiçando espaço na natureza.
Os humanos é que utilizam as máquinas, não em benefício próprio, mas sim
para alimentar um vício, a vaidade.
Alma do capitalismo, ela é quem faz com que os humanos sejam seres
superficiais, gananciosos, e que acreditem no simples material, que
apenas para si possui utilidade, como meio para atingir a nobre
felicidade.
Com isso, a tecnologia deveria ser usada como eram os escravos na Antiga
Grécia, ou seja, fazendo o trabalho braçal, enquanto os humanos fazem
aquilo que desejam, seja filosofar, produzir arte, desenvolver
tecnologias; sempre em prol do bem-estar, sem preconceitos
ou pressões por parte de um sistema que nos impõe sua forma de
sobrevivência em troca de alimento para a inútil vaidade humana.
Enquanto isso, desperdiçamos nosso tempo olhando vitrines e nos
amargurando com preços que não nos permitem obter o que desejamos. Desta
forma, aumentamos nossas angústias e fazemos de nossa vida, algo
totalmente superficial, acreditando nesta máscara que criamos,
influenciado pelo nosso arquétipo e pela sociedade em que vivemos.
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TV PÚBLICA:
INDEPENDÊNCIA OU MORTE |
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Conheci Greg Dyke, o
diretor-geral da BBC, no almoço oferecido aos indicados para o Emmy, no
qual ele foi o orador principal. Perguntaram-lhe: "Por que a BBC recebe
2,8 bilhões de libras por meio de taxações da sociedade?". Ele
respondeu: "Para produzir a televisão de qualidade que vocês não têm
vontade de produzir, apesar de todo o dinheiro do mercado". A reportagem
de Andrew Gilligan, o suicídio de David Kelly e o julgamento político de
lorde Brian Hutton, nomeado por Blair para absolvê-lo e condenar a BBC,
como fez, levou Greg a demitir-se. Não importa se a BBC não conseguiu
aprofundar a verdade dos fatos até o limite de uma explicação
convincente, como gostaria John Lloyd, editor do "Financial Times".
Acontece que, desde a questão das Malvinas, quando a emissora se opôs à
guerra de lady Tatcher, até a Guerra do Iraque, em que se opôs a Tony
Blair, a BBC é a única emissora européia capaz de revelar o
contraditório. E Greg Dyke foi um defensor notável dessa independência.
A sentença coroa uma ação lenta e persistente contra a independência e,
mesmo, pela extinção da televisão pública. Vejamos. Jean Pierre Cottet,
presidente da Cinquième, televisão educativa francesa, e da Aited
(Associação Internacional de Televisões Educativas e da Descoberta), foi
exonerado do comando do canal. Conheço-o bem, como vice-presidente que
sou da Aited, e posso testemunhar que foi um dos melhores presidentes
que a Cinquième já teve.
A televisão educativa da Austrália vai ser fechada, por pressão de
Murdoch sobre o governo. Berlusconi enviou proposta de lei ao parlamento
italiano pedindo autorização para privatizar a RAI. Ele, que já tem o
monopólio da rede privada, talvez queira incluir a rede pública italiana
no mesmo pacote ideológico. A PBS, Public Broadcasting Service, dos
Estados Unidos, foi ameaçada no fim do ano passado de sofrer uma redução
de 50% na contribuição dada pelo National Endowment.
Em toda parte torna-se difícil a compreensão de uma televisão que baseia
seu relacionamento com a sociedade na independência diante do mercado e
dos governos. Mas isso é indispensável para que não baixem os padrões de
qualidade, pela pressão da audiência, e para que a televisão seja uma
expressão pluralista das forças sociais, e não um diário oficial dos
governos. A luta em defesa da televisão pública é urgente e
imprescindível. É uma luta da sociedade, a quem ela se destina; do
Estado, que é a representação política dessa sociedade; da imprensa, que
é a representação mais razoável das realidades; dos artistas e
intelectuais, que são autores e protagonistas da divulgação
indispensável do conhecimento.
Se os sintomas dos riscos são visíveis, suas causas mais profundas nem
sempre são percebidas. Nós todos submetemo-nos, no mundo atual,
incondicionalmente ao espetáculo. Não só o gosto como os valores
subordinam-se à lógica do espetáculo. Isso acontece em toda parte e de
tal forma que, antes mesmo de "O Exterminador do Futuro 3" estrear, o
herói já se tornara governador da Califórnia. Espetáculo, isto é,
diversão antes do conhecimento, é a base do maior negócio desenvolvido
no século 20: informação transformada em show. Não se trata de
influência recente, apenas causada pela mídia globalizada. Desde o
distante ano de 1821, nos Estados Unidos, o teatro de vaudeville
declarou e ganhou a guerra contra o teatro shakespeareano . Em início de
expansão, Nova York tinha apenas quatro teatros, mas funcionavam lá 80
botecos, com palcos para desabusados entretenimentos.
A cultura do popularesco, baseada inteiramente no entretenimento que
envolvia divertimento para os sentidos, dominou as massas americanas em
tal proporção que Gabler Neal, em seu livro "Vida, o Filme", afirma que
"o ópio do povo não é a religião, como queriam os marxistas, mas o
entretenimento". A mídia tem uma clara preferência pelo espetáculo,
embora quem mais o promova seja a própria realidade, sensacional,
produzida pela política, pelas religiões, pela economia e pelas artes,
principalmente o teatro, o cinema e a TV. Longe os critérios gregos, que
dividiam claramente os espaços da tragédia e da comédia. Hoje, quase
tudo é dramalhão e pantomima, ambos consagrados nas medições do Ibope.
Com tal herança passada em julgado, não temos como reclamar da baixaria.
Não podemos nos considerar alternativa -nem a TV Cultura, nem nenhuma
outra televisão educativa. Como poderíamos, se o fator determinante do
gosto é a oferta, e não a demanda, como proclamam os manipuladores do
mercado? Como poderíamos, se a oferta do mau gosto e da baixaria
predomina tanto na informação quanto no entretenimento? A TV pública
pode não ser uma alternativa, mas paradigma novo capaz de suscitar o
espírito crítico do telespectador. Por isso mesmo nós insistiremos até o
fim.
Nós, membros da Aitec (Associação Internacional de Televisões Públicas e
Culturais); nós, associados da Abepec (Associação Brasileira de
Emissoras Públicas Educativas e Culturais); nós, diretores e
funcionários da Cultura, lutaremos para defender uma estrutura
jurídico-administrativa que confira independência às emissoras para
produzir uma programação de qualidade, voltada para a sociedade. O novo
jornalismo público lançado pela TV Cultura busca ser a expressão
informativa dessas idéias. Estamos apenas evoluindo, mas, com a crítica
dos ouvintes, da mídia e de nossos colaboradores, seremos fiéis ao nosso
manifesto e à nossa missão.
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Jorge da Cunha Lima,
72, jornalista e escritor é presidente da Fundação Padre Anchieta e da
Abepec (Associação Brasileira de Emissoras Públicas Educativas e Culturais). |
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SUBVERSIVO - DESDE 6 DE OUTUBRO DE 2003
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