TEXTOS [Revisados]

 

Educação e Liberdade

Educação Libertária

Amor de jardineiro, não de botânico

Brasileiros Pocotós

Canoa

O Sabor da Vitória

Experiência

Erros do Sobreviver

O Cidadão

A Cartilha dos Sanguessugas

Carta do PCC

Porca Miséria

Injustiças

Christiania

A Importância da Arte

Droga mesmo é a hipocrisia

Entrevista de Hakim Bey

Provos

A loucura de cada um

Instituições de uma tragicomédia

Liberdade ao rei, ao povo a lei

A Tecnologia e o Humano

TV Pública: Independência ou Morte

 

EDUCAÇÃO E LIBERDADE

 

Educar é uma atividade do dia a dia. É instrução, escola, boas maneiras, comportamento, obediência, silêncio, limpeza. É tudo isso e seu reverso.

Educar é a maneira mais abrangente que temos para designar as relações sociais. Podemos escolher entre educar para a liberdade ou educar com autoridade.

Educar para a liberdade é antes de mais nada saber que a autoridade se esgota no seu próprio conhecimento. É um acontecimento de vida que envolve a criança, seus pais, parentes, vizinhos, amigos e até professores, criando em função do talento, através de relações horizontalizadas. Os superiores hierárquicos desaparecem para que predomine a amistosidade. Abandona-se a esperança no comportamento estandardizado para se potencializar liberdades exercidas por pessoas livres.

Educar para a liberdade não é uma utopia. É uma realidade possível que acontece uma vez que se deseje liberdade. Pais, professores, estudiosos e todos os educadores podem desejá-lo em nome da liberdade da criança.

Educar para a liberdade é a maneira pela qual pode ser contida a violência, valorizando-se a ajuda mútua.

 

Edson Passetti

 

Outros textos de Edson Passetti: Material

 

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EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA

 

Por Educação Libertária entendemos todas as práticas educativas pautadas pela não hierarquia nas relações educando - educador, pelas formas de organização autogestionadas, e por considerar o saber numa ótica não-disciplinar.

Na história da Educação Libertária no Brasil preponderam as iniciativas culturais de indivíduos e grupos de índole não-autoritária, como tem sido o Centro de Cultura Social de São Paulo, cujo o incentivador, Jaime Cuberos, devotou uma vida a divulgação do ideário anarquista entre nós.

Considerada por alguns pesquisadores em Educação e Ciências Sociais como uma vertente fértil de estudos e práticas, a Educação Libertária tem mobilizado Núcleos de Investigação como o NU-SOL na PUC/SP e o NAT na UFSC.

Livros e artigos vêm sendo publicados recuperando o empreendimento educativo libertário mundial e novas práticas pedagógicas produzem uma abordagem pedagógica orientada no questionamento dos limites do conhecimento disciplinar e nas possibilidades dos saberes não legitimados.

 

Maria Oly Pey

 

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AMOR DE JARDINEIRO, NÃO DE BOTÂNICO

 

"Também a pedagogia, isto é, os mecanismos pelos quais se desenvolve a formação de uma pessoa, deve ser repensada. O ato de ensinar exerce freqüentemente o autoritarismo, impõe a vontade de uma pessoa sobre a outra.

Se por um lado transmitimos uma informação histórica acumulada quando ensinamos a alguém, ao mesmo tempo restringimos sua espontaneidade.

Contraditoriamente, o ato de ensinar é, simultaneamente, enriquecedor e repressor."

"(...) E' na primeira infância que a pedagogia autoritária se instala e obtém os "melhores" resultados. Tudo o que se faz depois, com pedagogias revolucionarias e psicoterapias libertarias - restituindo `as pessoas a sua própria individualidade - e' principalmente tentar tirar essa rolha reacionária imposta com violência amorosa `as crianças" "(...) A implantação de uma pedagogia libertadora implica então uma mudança radical da estrutura familiar(...)"

 

Roberto Freire

 

(Extraídos do livro "Utopia e Paixao", capitulo 3)

 

Outros textos de Roberto Freire: Material

 

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BRASILEIROS POCOTÓS

 

"Quantas pessoas você conhece que desistiram de cursar uma faculdade porque acharam o preço muito alto?

'O jumento e o cavalinho
eles nunca andam só
quando sai (sic) pra passear
levam a égua Pocotó
Pocotó, pocotó, pocotó
Minha egüinha Pocotó'.


Luciano Pires, Diretor de Comunicação da Dana Corporation, é autor de um ótimo livro, do qual emprestei o título deste editorial, "Brasileiros Pocotós " Reflexões sobre a mediocridade que assola o Brasil" (Ed. Panda Books). Em sua contra-capa, ele escreve o seguinte: "Você liga a televisão e não se conforma com o baixo nível da programação? Abre o jornal e só encontra notícias superficiais e sensacionalistas? Liga o rádio e parece estar ouvindo sempre a mesma música? Ruim? Chama um "profissional" para fazer um conserto em sua casa e o resultado é um desastre? No trabalho, sente a solidão de não ter interlocutores? As conversas são rasas, os temas superficiais? Vê seus filhos decorando a mesma tabela periódica que você decorou anos atrás? Você tem a sensação de que o Brasil está ficando burro?
Pois eu, sim! Daí este livro".
Muito bem. Foi disso que lembrei quando, dia desses, um amigo me encaminhou um texto de autoria de Roberto Reccinella , que dizia: "Na terça-feira, dia 22/02, a Rede Globo recebeu 29 milhões de ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser eliminado do Big Brother. Vamos colocar o preço da ligação do 0300 a R$ 0,30. Então, teremos R$ 8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e setecentos mil reais que o povo brasileiro gastou só nesse paredão. Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato "fifty to fifty" com a operadora do 0300, ou seja, ela embolsou R$ 4.350.000,00.
Repito, somente em um único paredão...".
Alguém poderia ficar indignado com a Rede Globo e a operadora de telefonia ao saber que as classes menos letradas e abastadas da sociedade, que ganham mal e trabalham o ano inteiro, ajudam a pagar o prêmio do vencedor e, claro, as contas dessas empresas. Mas o "x" da questão, caro(a) leitor(a), não é esse. É saber que paga-se para obter um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos participantes e, conseqüentemente, daqueles que só bebem nessa fonte.
Certa está a Rede Globo. O programa BBB dura cerca de três meses. Ou seja, o sábio público tem ainda várias chances de gastar quanto dinheiro quiser com as votações. Aliás, algo muito natural para quem gasta mais de oito milhões numa só noite! Coisa de país rico como o nosso, claro. Nem o Unicef, quando faz o programa Criança Esperança com um forte cunho social, arrecada tanto dinheiro. Vai ver deveriam bolar um "BBB Unicef". Mas tenho dúvidas se daria audiência. Prova disso é que na Inglaterra pensou-se em fazer um Big Brother só com gente inteligente. O projeto morreu na fase inicial, de testes de audiência. A razão? O nível das conversas diárias foi considerado muito alto, ou seja, o público não se interessaria.
Programas como BBB existem no mundo inteiro, mas explodiram em terras tupiniquins. Um país onde o cidadão vota para eliminar um bobão (ou uma bobona) qualquer, mas não lembra em quem votou na última eleição. Que simplesmente anula seu voto por não acreditar mais nos políticos deste País, mas que gasta seu escasso salário num programa que acredita de extrema utilidade para o seu desenvolvimento pessoal. Que vota numa legenda política sem jamais ter lido o programa do partido, mas que não perde um capítulo sequer do BBB para estar bem informado na hora de PAGAR pelo seu voto. Que eleitor é esse? Depois não adianta dizer que político é ladrão, corrupto, safado, etc. Quem os colocou lá? Claro, o mesmo eleitor do BBB. Aí, agüente a vitória de um Severino não-sei-das-quantas para Presidente da Câmara dos Deputados e a cara de pau, digo, a grande idéia dele de colocar em votação um aumento salarial absurdo a ser pago pelo contribuinte.
Mas o contribuinte não deve ligar mesmo, ele tem condições financeiras de juntar R$ 8 milhões em uma única noite para se divertir (?!?!), ao invés de comprar um livro de literatura, filosofia ou de qualquer assunto relevante para melhorar a articulação e a auto-crítica...
Há uma frase de Robert Savage que diz: "Há mais pessoas dispostas a pagar para se entreter do que para serem educadas". E é verdade, a Globo sabe disso! Quantas pessoas você conhece que desistiram de cursar uma faculdade porque acharam o preço muito alto? Pergunte a uma criança quantos nomes de bichinhos de desenhos japoneses e funções das personagens de jogos de computador ela conhece. Você vai perder a conta. Mas se perguntar quem foi Monteiro Lobato, como se escreve "exceção" ou quanto é seis vezes três, ela vai titubear. Para piorar ainda mais o cenário dos próximos anos, cito um ditado chinês: "Se você quer educar uma criança, comece pelos avós dela".
Voltando ao parágrafo original desse editorial, o autor do livro comenta num dos primeiros capítulos o surgimento, há cerca de quarenta anos, do MNMB (Movimento Nacional pela Mediocrização do Brasil). Pois é, nem Stanislaw Ponte Preta e seu Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País) imaginariam que a coisa iria piorar. E piorou. Sabe por quê? Porque o brasileiro quer. Chega de buscar explicações sociais, coloniais, educacionais. Chega de culpar a elite, os políticos, o Congresso. Olhemos para o nosso próprio umbigo, ou o do Brasil. Chega de procurar desculpas quando a resposta está em nós mesmos. A Rede Globo sabe muito bem disso, os autores das músicas Egüinha Pocotó, O Bonde do Tigrão e assemelhadas sabem muito bem disso; o Gugu e o Faustão também; os gurus e xamãs da auto-ajuda idem.
Não é maldade nem desabafo não, é constatação".

Fonte: Júlio Clebsch, Profissão Mestre; copiado do sítio:

http://www.marica.com.br/2005/0404fabiom.htm

 

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CANOA

 

Em um largo rio, de difícil travessia, havia um barqueiro que atravessava as pessoas de um lado para o outro. Em uma das viagens, iam um advogado e uma professora. Como quem gosta de falar muito, o advogado pergunta ao barqueiro: “Companheiro, você entende de leis?”, “Não.” – responde o barqueiro.
E o advogado compadecido: “É uma pena, você perdeu metade da vida!”. A professora muito social entra na conversa: “Seu barqueiro, você sabe ler e escrever?”, “Também não.” – responde o remador. “Que pena!” – condói-se a mestra – “Você perdeu metade da vida!”.
Nisso chega uma onda bastante forte e vira o barco.
O canoeiro preocupado, pergunta: “Vocês sabem nadar?”, “Não!” – responderam eles rapidamente. “Então é uma pena – concluiu o barqueiro – vocês perderam toda a vida!”.

“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”.

 

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O SABOR DA VITÓRIA

 

O que é um jogo de futebol? Uma guerra, uma batalha, um combate? Sim, para muito sei que o é, principalmente para os europeus; mas sendo radical, ou seja, buscando a raiz da questão, o futebol é como um circo, em que o estádio se faz picadeiro e os jogadores atuam. Por que então havemos de nos preocupar com a vitória, se num circo o que importa é o espetáculo? Sei o que pensaram! Mas gostaria... Digo apenas que gostaria, de ver essa visão mudar, assim talvez, haveria mais futebol, mais ginga, mais dribles e menos competição; pois nossa competição não se baseia na simples vitória, mas na destruição do adversário.
Uma amostra do que um bom espetáculo pode levar, foi o que aconteceu no jogo Barcelona x Real Madri, onde Ronaldinho Gaúcho fez dois golaços que fizeram até mesmo a torcida do Real aplaudi-lo. Ou na final do Campeonato Paulista entre São Caetano e Paulista, onde as torcidas se misturavam.
Como disse Gandhi: "A satisfação está no esforço e não apenas na realização final", ou seja, a vitória é só um sabor especial, a felicidade está no caminho o qual percorremos até ela.
Sei o quão óbvio isso soa... Só que “Narciso acha feio o que não é espelho” – como diria Caetano, e a raiva do que nos é diferente nos cega a tal ponto que queremos apenas destruí-lo; ainda mais quando não é capaz de causar mal algum. Entendo, mas não compreendo...
Lembro apenas que só é possível vencer enquanto houver com quem competir!

 

Fonte: http://cantozen.blogspot.com/2006/01/o-sabor-da-vitria_22.html

 

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EXPERIÊNCIA

 

Como queremos compreender os resultados de uma experiência em um animal, se não sabemos o que este está sentindo ou pensando? Se apenas o observamos? Se ele está fora de seu ambiente natural? É como observar uma montanha, teremos a noção de sua altura, mas jamais teremos realmente a sensação de se estar nela, apenas isso imaginaremos. O frio de seu cume só será concebido se algum dia já sentimos frio.
Agimos cruelmente, ou seja, inúmeras teorias que se dizem baseadas em fatos, mas que na verdade estão carregadas de uma frieza imprópria, que jamais condizem com a personalidade humana.
Dessa forma, focamos um único aspecto. No caso da medicina, o meio humano físico. Assim, se um indivíduo tem asma, pensamos unicamente no seu tratamento, e mesmo sabendo que a civilização é o que lhe causa o mal, em vez de mudarmo-la, o que fazemos é programar o indivíduo a tomar remédios de hora em hora para que este, de maneira artificial, adapte-se a urbanização que também é artificial; ou seja, destruímos a natureza física e por conseqüência destruímos a natureza humana de viver sem remédios.
Obviamente que tudo isso gira em torno de interesses lucrativos; assim, cada vez mais temos uma sociedade baseada na competição de Weber, tornando-a egoísta, mas menos individualista, ou seja, age em função do sistema e não de sua própria personalidade, tendo sua felicidade concentrada no sucesso de se ser invejada pelos demais. Auxiliando nisso vem à teoria do trabalho antiético de Adam Smith; o qual prega a riqueza pela maior produção. Levando essa ao indivíduo, temos pessoas que trabalham mais em função de derrubar o próximo e se sobressair. Chamamos os grupos de criminosos de quadrilhas e aceitamos que a polícia os prenda, com a hipocrisia que não nos permite ver que agimos socialmente como eles.
Com isso, vemos hoje, uma sociedade que não age em função de não precisar de médicos e medicamentos, mas sim, produzi-los cada vez mais; não agindo em busca da destruição dos sofrimentos, mas de se adaptar, ilusoriamente por meio de drogas, a ele.

 

Fonte: http://cantozen.blogspot.com/2006/01/experincia.html

 

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ERROS DO SOBREVIVER

 

O mundo está cheio de armadilhas, quando menos se espera...
Lembro um colega me contando ter um dia ido a Sta. Ifigênia e lá resolveu comprar um DVD do Rappa; o cara lhe deu o cd, ele deu cinco reais e caiu fora. Chegando em casa colocou o cd no DVD e eis que nada aparece, só tocava. Sim, o cara lhe enganara, dando-lhe o cd do Rappa e não o DVD, e comecei a pensar no como a gente tem que andar na paranóia do alerta geral. Às vezes quando ando por São Paulo sinto-me um estadunidense ou israelense, mas sem essa história de bomba, e sim com o medo de a qualquer momento ser enganado.
Se você, meu caro leitor, não for de São Paulo, quando para cá vier não ache que será assaltado na primeira esquina – talvez na segunda – mas saiba que poderá ser roubado por engano em qualquer loja ou camelô.
De fato, talvez todos estejamos errados. A gente que compra produto ilegal, o lojista que além de vender produto ilegal, ainda lhe enrola, o camelô que além de não ter emprego, vende produto ilegal e sem qualidade, o hipócrita sistema capitalista que não vive sem o contrabando e sem o camelô, às empresas que vendem os produtos a preços exorbitantes, e o Estado, que além de não usar o dinheiro dos impostos para coisas públicas e sim para interesses particulares, ainda impede muitos que querem praticar boas ações por conta própria.
Assim, você pratica algo desonesto uma vez e “ganha” com isso, então se deu “certo” uma vez, por que não fazer de novo? E, assim, construímos o mundo, num sistema em que seguir a lei é suicídio. Mas também, a lei só existe porque existe um sistema que precisa impor certas ordens ao povo, fingindo uma honestidade no papel. Erramos para sobreviver, mas deitamos na cama e sonhamos em viver.
Talvez se não houvesse leis não haveria um meio imposto a se viver, assim todos poderiam buscar a sua felicidade ao seu modo.

 

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O CIDADÃO

 

O cidadão, insatisfeito com o produto que comprou e com o serviço que contratou, tenta ligar para a central de atendimento ao consumidor a fim de reclamar. Na gravação , uma melíflua voz feminina oferece o menu: “Para informações, tecle 1. Para sugestões, tecle 2. Para reclamações, tecle 3. O sujeito tecla 3 e cai numa gravação: “Se você está calmo, tecle 1. Se você está impaciente, tecle 2. Para reclamações, tecle 3”. O sujeito não quer parecer indelicado e tecla 1. Cai na mesma gravação e repete a operação. Cai de novo e se impacienta, teclando 2. Tudo de novo. Já irritado, tecla 3 e então cai numa terceira gravação: “Se você estava clamo, tecle 1. Se estava impaciente, aguarde. Se estava irritado, ligue mais tarde”. Até se convencer de que aquela não passa duma central de trotes, perdeu um bom tempo e gastou muitos pulsos esmurrando a mesa. A mesma coisa acontece com o eleitor diante da urna eletrônica. Ele tecla várias vezes no mesmo candidato até que lhe caia a ficha: a propaganda era enganosa desde o começo, mas, mesmo traídos, os otários insistem na mesma tecla achando que o candidato não teria tanta cara-de-pau a ponto de renovar as promessas sem mostrar serviço. Sucede que a madeira da qual é feita a cara do candidato é muito mais resistente que o plástico do qual são feitas as teclas. Um dia, alguém quebra alguma coisa e acaba quebrando coisas que pareciam inquebráveis, tais como as cláusulas pétreas.

 

Glauco Mattoso - Caros Amigos, Setembro 2006

 

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A CARTILHA DOS SANGUESSUGAS

 

Antes da eleição presidencial, Roberto Justus terá escolhido, com pompa engravatada e sadismo majestoso, de um universo de 16 candidatos resignados à humilhação e ao confinamento, aquele que se mostrar o mais idiota de todos.

O eleito, ou a eleita, será agraciado, ou agraciada, com um emprego de meio milhão de reais/ano em Manhattan – “uma cidade implacável”, como acentuou o apresentador, trovejando sua ameaça ao pé daquele touro emblemático de Wall Street – e com o direito de encarnar, aos olhos do público, o que há de pior daquela cultura corporativa, cujo primado ético consiste em brindar seu colega de trabalho – sempre um adversário a derrotar – com punhaladas pelas costas e traiçoeiros puxões de tapete.

O Aprendiz é a exibição espalhafatosa, em pastiche daquilo que os vassalos chamam de “Primeiro Mundo”, de um código de conduta social que se dissimula, no lero-lero típico dos manuais de administração à americana (“competição”, “liderança”, “estratégia”, “inovação”, “rapidez de decisão”), um individualismo insensível, aproveitador e assumidamente imoral.

O que faz nosso simulacro de Donald Trump, esse Roberto Justus cada vez mais candidato ao Prêmio Madame Toussaud de elegância, sem nenhuma ruga nem na fisionomia nem no figurino, é eleger hoje o sanguessuga de amanhã. Com o beneplácito encantado de uma sociedade para quem a idéia de triunfar pressupõe a cotovelada e a ambição é sempre uma virtude. Como disse um dos parlapatões deste atual Aprendiz, com fanfarra de auto-exaltação, “não é nada pessoal, é só business”.

Junto com a terceira versão da catequese ególatra da esperteza e da deduragem, que jura ser a última, Roberto Justus anuncia seu livro de memórias em que se vangloria das artimanhas ladinas de seus próprios Momentos-Aprendiz. Sem maiores compromissos com a modéstia, apresenta-se, no papel e na tela, como paradigma moral. Ele é o campeão do mundo. O megaempreendedor. De repente, disponibiliza para aqueles coitados do grupo eventualmente vencedor, num jantar de confraternização, uns minutinhos do charme de sua inteligente presença.

A primeira vítima a ouvir a sentença do banimento, no timbre enfatuado do apresentador, foi uma moçoila cujo pecado consistiu em exibir sensibilidade humana e sinceridade cândida. Assistido por uma ex-Aprendiz que faz jus à láurea (ela lamentou que a candidata não tivesse “pulso forte”) e por um barbudinho para quem “democracia não é anarquia” (raciocínio, diga-se, bastante original), o Supremo Magistrado confessou não ter gostado “da atitude dela”, a banida. A moça é nordestina. Audácia, né? O que pretendia ela, pobrezinha, naquela vertigem de sonhos nova-iorquinos, ofuscada pelas luzes da metrópole, diante do chefão de timbre estudadamente blasé, naquela agressiva cenografia de concorrentes que se orgulham de ser robôs corporativos? Aquilo lá não é para gente normal.

 

Nirlando Beirão

 

Fonte: Carta Capital

 

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CARTA DO PCC TRANSMITIDA PELO DVD À REDE GLOBO

 

"Como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC) venho pelo único meio encontrado por nós para transmitir um comunicado para a sociedade e os governantes. A introdução do Regime Disciplinar Diferenciado, pela Lei 10.792 de 2003, no interior da fase de execução penal, inverte a lógica da execução penal. E coerente com a perspectiva de eliminação e inabilitação dos setores sociais redundantes, leia-se clientela do sistema penal, a nova punição disciplinar inaugura novos métodos de custódia e controle da massa carcerária, conferindo à pena de prisão um nítido caráter do castigo cruel.

 

"O Regime Disciplinar Diferenciado agride o primado da ressocialização do sentenciado, vigente na consciência mundial, desde o ilusionismo (sic) e pedra angular do sistema penitenciário nacional, inspirado na escola da nova defesa social. A LEP (Lei de Execução Penal) já em seu primeiro artigo traça como objetivo o cumprimento da pena e a reintegração social do condenado, a qual é indissociável da efetivação da sanção penal. Portanto, qualquer modalidade de cumprimento de pena em que não haja comitância (sic) dos dois objetivos legais, o castigo é reintegração social com observância apenas do primeiro, mostra-se ilegal e contrário à Constituição federal.

 

"Queremos um sistema carcerário com condições humanas, não um sistema falido desumano no qual sofremos inúmeras humilhações e espancamentos. Não estamos pedindo nada mais do que está dentro da lei. Se nossos governantes, juízes, desembargadores, senadores, deputados e ministros trabalham em cima da lei, que se faça justiça em cima da injustiça que é o sistema carcerário: sem assistência médica, sem assistência jurídica, sem trabalho, sem escola, enfim, sem nada.

 

"Pedimos aos representantes da lei que se faça um mutirão judicial, pois existem muitos sentenciados com situação processual favorável, dentro do princípio da dignidade humana. O sistema penal brasileiro é na verdade um verdadeiro depósito humano, onde lá se jogam os serem humanos como se fossem animais. O RDD é inconstitucional. O Estado Democrático de Direito tem a obrigação e o dever de dar o mínimo de condições de sobrevivência para os sentenciados. Queremos que a lei seja cumprida na sua totalidade. Não queremos obter nenhuma vantagem, apenas não queremos e não podemos sermos (sic) massacrados e oprimidos.

 

"Queremos que as providências sejam tomadas, pois não vamos aceitar e ficarmos de braços cruzados pelo que está acontecendo no sistema carcerário. Deixamos bem claro que nossa luta é com os governantes e policiais, e que não mexam com nossas famílias que não mexeremos com as de vocês. A luta é nós e vocês.”

 

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PORCA MISÉRIA

 

Gloriosa fome que alimenta os que ironicamente passam longe dela, prometendo seu fim em projetos assistencialistas que, em invés de alimentarem a vida matando a fome, alimentam mais desgraças a partir da esperança de ver um saco de dinheiro se transformar em prato de comida.

Esperança em que se esvai ao descobrir que, como num passe de mágica, o dinheiro sumiu dos cofres públicos para reaparecer em alguma conta particular.

Como aconteceu em Guaíbas, Piauí – em que a verba repassada para a construção de poços e um sistema de abastecimento de água – não seguiu seu leito devido. A empreiteira recebeu R$ 121mil por serviços minimamente realizados.

Enquanto em Alagoas, prefeituras como a de Rio Largo desviaram cerca de R$ 2mi de verba destinada a merenda escolar.

Todavia, não apenas através da corrupção escancarada que se gera a fome. Diversos países europeus para amenizar os trágicos efeitos da exploração que realizam na África doam quantias irrisórias a ONU destinadas a medicamentos, comida, etc.

Se for por falta de exemplos, pode-se falar também da suíça Nestlé, acusada de matar indiretamente mais de vinte mil crianças na Bolívia ao incentivar as mães a darem seu leite industrial as recém-nascidas, deixando clara a despreocupação com a saúde em favor dos interesses meramente lucrativos.

Isso tudo mostra apenas que a fome só é problema para quem a carrega no lugar do alimento, já que essa é capaz não somente de alimentar à boca, mas também a vaidade exacerbada daqueles que através dela se sustentam no poder.

Se o amor não é capaz de florescer a hombridade naqueles que regem leis e nos que se atrevem a dizer: “isto é meu”, então somente a atitude popular apartidária em prol do bem comum será capaz de gerar algum resultado eficiente na busca pela dignidade e pelo bem estar.

A ignorância é o principal fator para manter os povos inertes em meio a todas as imposições, serem escravizados e não se indignar.

Somos incendiados pelo marketing que nos incentiva a desejar, a comprar, a ter status, mas nunca a pensar.

Estatisticamente, mede-se a intelectualidade pela quantidade de livros que um povo lê por ano, porém, quantidade não significa qualidade. A população prefere os livros mais vendidos para estarem na moda, ou aqueles que lhe dêem soluções para seus problemas - como se existisse uma fórmula vital - ao invés de livros que levem-na ao questionamento.

O desestimulo a leitura, parte de uma sociedade formada em grande parte por analfabetos funcionais. A escola em invés de incentivar, manda as crianças lerem livros que não condizem com a realidade, nem possibilitam a formação crítica; e sem qualquer noção de mundo, mandam que os adolescentes leiam livros que não conseguirão entender.

Vemos as crianças dizerem, estufando o peito, que não gostam de ler, sendo que as que gostam, são rotuladas de forma preconceituosa por toda a sociedade, que tem como conceito a crença de que quem muito lê acaba louco.

Nos países desenvolvidos, a intelectualidade não passa de mais uma forma de vaidade, pois se esta fosse sinônimo sabedoria, os povos denominados intelectuais não permitiram que seus próprios países explorassem outros.

Estes considerados intelectuais, dizem haver uma certa ignorância desejada por aqui, algo incabível, pois apenas os sábios têm consciência da própria ignorância. Jamais um ignorante terá consciência da sua própria ignorância, sempre se considerarão sábios, por saberem humilhar o próximo, por apoiar aqueles que torturam desejando um dia serem torturadores.

Portanto, de nada adianta a um povo ler se o que lê não lhe faz transgredir as próprias barreiras, descobrir o infinito da mente, sendo que aqueles que o descobrem são sacrificados por questionarem demais e responder de menos.

Gerado pela repressão, tanto do Estado, quanto de nós mesmos, o ódio se mantém na sociedade, usando a ignorância como trampolim para a intolerância prevalecer. Conformamos-nos com nossos medos e não enfrentamos o que nos impede de ser felizes. Assim, culpamos o vizinho pela rua suja, mas nunca nos propomos a ajudar limpá-la.

Motivados pela pobreza, fruto do abstrato capitalismo, líderes inescrupulosos utilizam religiões e ideologias para disseminar ideais racistas e preconceituosas, estimulando a desuniam entre os povos que crêem na eliminação dos que não apresentam a mesma opinião como solução de todos os problemas, levando o povo a crer em demônios como causa de sua miséria.

Demônios que em países desenvolvidos são os imigrantes e filhos destes – em maioria latinos e negros, que sofrem o preconceito nas ruas, sem que se faça muita coisa para reverter esta situação, pois inúmeros governantes, por debaixo dos panos, apóiam estas práticas como meio de reduzir a entrada de imigrantes.

Cada vez de forma mais clara, o ódio é disseminado através até mesmo do esporte. Vemos integrantes de torcidas organizadas jogando bananas no campo ou imitando macacos referindo-se aos jogares negros.

Nos países intitulados subdesenvolvidos, essa ligação entre torcedores da mesma equipe, acontece por uma busca de identidade não encontrada no patriotismo nem no nacionalismo, devido à falta de soberania de seus senhores.

Patriotismo e nacionalismo que deram impulso a inúmeras guerras durante a história. E que ainda hoje são usados para fazer os seres humanos se verem diferentes uns dos outros por enxergarem limites opostos.

E mesmo depois de tantos aparecerem pregando a paz, e mesmo depois da ciência comprovar que entre todos seres vivos há muito mais semelhanças do que diferenças, a maioria ainda prefere manter a ignorância – sem consciência desta – e crer nas mínimas diferenças aparentes.

Acontece que, a vaidade é o grande precedente deste ódio, já que ambicionados por ela, importamos-nos mais com a aparência do que com a inteligência, e, com isso, somos enganados por imagens, que mostram aqueles que buscam uma maneira de sobreviver como causadores do mal, sendo os verdadeiros causadores dos males, louvados e abençoados pela grande maioria. Afinal, todos querem estar num belo hotel de frente para o mar com todos a servir, mas para que haja o senhor, é preciso haver o servo, e vice-versa.

 

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INJUSTIÇAS

 

Para uma sociedade que acredita que injustiças curam injustiças, a pena de morte não está na lei, mas é um fato que até a mídia já mostrou ao vivo e a cores. Como “o caso do ônibus 174”, em que o seqüestrador foi enforcado por PM’s no camburão por uma questão de honra a incompetência do atirador de elite que num ato precipitado matou a vítima.

Enquanto muitos politiqueiros matam crianças de fome ao desviarem verbas de merendas ou de projetos assistenciais, a população carente é recebida a cassetetes dos cúmplices fardados de um poder corrupto – redundância enfática, já que sabemos da impossibilidade da existência de poder honesto.

Mesmo assim, acomodada pela ignorância, a população continua obedecendo-o, iludida no sonho de que labutar enriquecerá, tornando-se também cúmplice dos criminosos ao aceitar a corrupção e dando esmolas na esperança de um mendigo elevar sua humilhação ao trabalho servil, assim como ela.

Já o chamado infrator, entende que o trabalho não o permitirá alcançar seus sonhos – iguais ao de qualquer um que sustente em si a vaidade – e se espelha nos grandes criminosos, como politiqueiros, traficantes, empresários que, além de explorarem o trabalhador, sonegam impostos, dos quais os trabalhadores desunidos não têm como fugir.

Além do que, a injustiça é de um nível que nem ao menos se pensa em rever os processos daqueles que foram presos ou condenados por ex-autoridades como o ex-policial “Rambo”.

E a tal ponto chegou à situação de desigualdade que já houve casos de libertados pedirem o retorno ao presídio por terem lá três refeições diárias, mostrando que a sociedade aqui fora também paga sua pena por nada fazer contra a desigualdade.

Vê-se com isso que, se temos a justiça como meta, o sistema penitenciário não é apenas uma forma de se tentar fugir de um problema específico ou uma forma de se desviar verba sem que a população se manifeste. Até porque, para a maioria preso não é humano. Dessa forma, o sistema carcerário torna-se mais um dos mecanismos de controle da população por parte do sistema capitalista.

Com isso, se queremos igualdade, precisamos pensar também na libertação destes. Pois nenhum deles é menos digno do que qualquer trabalhador, já que o trabalhador, assim como o escravo, sustenta o sistema com sua ignorância.

Vemos os presos sendo tachados de vagabundos ou preguiçosos, mas são eles tão iguais aos que caminham do outro lado do muro e que como a maioria ds que lá estão preferem trabalham para virar o dinheiro num copo de cerveja para esquecer dos problemas, comprar carne de um animal judiado para se divertir num churrasco,  roupas novas para se exibir ou simplesmente doando a igreja acreditando que de seus pecados vá se redimir, em vez de buscar uma maneira de transformar a realidade que os assola.

E engana-se aquele que pressupõe aumento da violência com o fim dos presídios, já que o banditismo se tornou uma profissão em que, para um preso pobre hoje, há um substituto pobre amanhã. Pois enquanto muitos revezam a hora de sono por não terem espaço na cela para dormir, outros ficam em celas individuais com segurança máxima, a fim de controlarem o crime.

Logo, sendo mais direto, o Estado é corrupto; as autoridades apóiam o crime para lucrarem e amedrontarem o povo, “mantendo o morro no morro”, mas a população apóia o Estado, o trabalhador ignorante quer um dia chegar a ser burguês, e vota. Ou seja, é cúmplice dos criminosos. Se olhássemos na lei, cúmplice também deve ser preso, então, se às vezes aqui fora é pior do que lá dentro e se não é possível prender a todos, então, que nenhum seja preso.

Talvez o leitor mais específico pense em casos como o de estupradores ou de serial killers, porém, de nada adianta prendê-los e não tentar entendê-los para que outros casos não se ocorram, pois em muitos casos de estupros, esquece-se a vítima em função de condenar o estuprador.  Pensar que os presos deverão continuar presos é insistir na necessidade de Estado, é continuar tentando destruir o sistema remontando-o com outro nome. A sociedade é que deve se unir e tomar uma atitude para com seus problemas, e não jogar a responsabilidade nas mãos do Estado, lavando as mãos e fechando os olhos, como se aquilo não existisse.

Sabemos que o poder é prejudicial e que o ser humano não é perfeito, portanto, não busquemos um sistema ideal, mas sim a ausência de tal. Admitindo que as mudanças sempre serão necessárias e que estas devem respeitar não apenas o coletivo, mas principalmente o indivíduo, já que não adianta lutar pelo interesse da maioria sem ser feliz.

 

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CHRISTIANIA

 

Christiania: A Lenda da Liberdade No coração gelado do capitalismo europeu, na fria Copenhagen, Dinamarca, uma comunidade de 10 mil pessoas vive num outro compasso. Cristiania não tem prefeito, não tem eleição e funciona sem governo, sem imposição de leis que controlem a organização social. A lenda da cidade-livre da Dinamarca é real: inspirada no Anarquismo, Christiania resiste há mais de 20 anos, inventando um jeito novo de conviver com os problemas da vida comunitária. Limpeza das ruas, rede de esgoto, manutenção dos serviços básicos, tudo é decidido e feito a partir de reuniões entre os moradores da cidade.

Eles se definem como uma comunidade ecologicamente orientada, com uma economia discreta e muita autogestão, sem hierarquia estabelecida e o máximo de liberdade e poder para o indivíduo. Uma verdadeira democracia popular direta, onde o bom senso e o diálogo substituem as leis. No Brasil, poucos conhecem a história da cidade-livre. O tesão vai contar, com exclusividade, a lenda da liberdade.

Christiania começou a escrever sua história em 1971. Foi a partir das idéias de um jornal alternativo, o Head Magazine, que um grupo de pessoas, de idades e classes sociais variadas, decidiu ocupar os barracos de uma área militar desativada na periferia de Copenhagen. Era o início de uma luta incansável contra o Estado. A polícia tentou várias vezes expulsar os invasores da área, mas sem sucesso. Christiania virou um problema político, sendo discutida no parlamento dinamarquês. A primeira vitória veio com o reconhecimento da cidade-livre como um "experimento social", em troca do pagamento das contas de luz e água, até então a cargo dos militares, proprietários da área. O Parlamento decidiu que o experimento Christiania continuaria até a conclusão de um concurso público destinado a encontrar usos para a área ocupada.

Em 73 houve troca de governo na Dinamarca e a situação de radicalizou: o plano agora era expulsar todos e fechar o local. O governo decretou que a área seria esvaziada até o dia 1º de abril de 1976. Na última hora, o Parlamento decidiu adiar o fechamento de Christiania. A população da cidade-livre tinha se mobilizado para o confronto com o Estado, mas a guerra não aconteceu. O dia 1º de abril tornou-se o dia de uma grande manifestação da Dinamarca Alternativa. Ao longo dos anos, a cidade-livre aprimorou sua autogestão: casa comunitária de banhos, creche e jardim de infância, coleta e reciclagem de lixo; equipes de ferreiros para fazer aquecedores a lenha de barris velhos, lojas e fábricas comunitárias de bicicletas.

A década de 80 foi marcada pelas drogas. Em 82, o governo começou uma campanha difamatória contra Christiania: a cidade-livre era considerada o centro das drogas do Norte da Europa e a raiz de muitos males. A comunidade teve então que organizar programas de recuperação de drogados e expulsar comerciantes de drogas pesadas, como a heroína. O mercado de haxixe continua funcionando normalmente. O governo dinamarquês nunca deixou Christiania em paz, Vários planos foram elaborados visando a "normalização e legalização" da área.

Em janeiro de 92, finalmente um acordo foi assinado. Christiania já tinha mais de vinte anos de independência e provara ao mundo que é possível viver em liberdade. Mesmo com o acordo, o governo ainda tenta controlar a cidade-livre. A resposta veio no ano passado, com o lançamento do Plano Verde, onde os moradores de Christiania expressam sua visão de futuro e que rumos tomar. A lenda de Christiania continua sendo escrita.

Christiania: uma cidade sem governo

Christiania II: Uma Cidade sem Governo Christiania tem provado ao mundo que é possível viver numa sociedade sem autoridade constituída, sem delegação de poder através de mandatos e eleições. A cidade-livre da Dinamarca criou um experimento social definitivo contra a idéia dominante de que a humanidade se auto-destruirá se não existir um controle sobre a liberdade individual.

Os habitantes de Christiania decidiram correr o risco de andar na contra-mão da história. Para eles, o governo, seja lá qual for, e seus mecanismos de administração pública são sinônimos de burocracia, abuso de poder e corrupção.

Vivendo sem a necessidade de leis que controlem a organização social, cada morador da cidade livre tem que fazer sua parte enquanto cidadão e confiar que todos farão o mesmo. É uma nova ética de convivência, baseada na honestidade e na solidariedade.

Em 23 anos de existência, a cidade-livre sempre esteve associada a rebelião contra a ordem estabelecida e experimentando novos meios de democracia e formas de autogestão da administração pública. Christiania se organiza em vários conselhos, onde todos os moradores têm direito a opinar e discutir os problemas comunitários. As decisões não são feitas por votação, mas sim através do consenso. Isso significa que não é a maioria que decide e sim que todos tem que estar de acordo com as decisões tomadas nas reuniões. Às vezes, contam-se os votos somente para se ter uma idéia mais clara das opiniões, mas essas votações não tem nenhum significado deliberativo, não contam como uma solução para os problemas da comunidade. Christiania é dividida em 12 áreas, cada uma administrada pelos seus moradores, para facilitar o funcionamento dos serviços básicos. As decisões tomadas sempre por consenso podem parecer difíceis para nós, brasileiros acostumados ao poder da maioria sobre a minoria (pelo menos, é assim que se justificam os defensores das eleições).

Mas para os habitantes da cidade-livre, o consenso só é impossível quando existe autoritarismo, quando alguém tenta impor uma opinião sem dar abertura para que outras idéias apareçam e até prevaleçam como melhor solução. A experiência tem ensinado aos moradores de Christiania que cada reunião deve discutir só um assunto, principalmente na Reunião Comum, que decide sobre os problemas mais importantes da comunidade. E, contrariando o pessimismo dos que não conseguem imaginar uma vida sem governo institucional, a utopia está dando certo: a vida comunitária de Christiania preserva a liberdade individual e constrói uma eficiente dinâmica de relacionamento social, livre do autoritarismo e da submissão. A cidade-livre vive o anarquismo aqui e agora.

AÇÃO DIRETA

Os moradores da Christiania fazem questão de ser uma pedra no sapato do capitalismo. Eles não se contentam apenas em incomodar os valores tradicionais da sociedade européia com a vida alternativa que levam. Christiania também desenvolve várias atividades com o objetivo de contestar o sistema capitalista e divulgar as idéias anarquistas.

Durante os primeiros anos, a cidade-livre se tornou conhecida por suas ações no teatro e na política. E quem conseguiu maior sucesso nessa área foi o grupo Solvognen. Uma de suas ações diretas mais famosas foi em 1973, quando a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma espécie de braço armado dos Estados Unidos na Europa, realizou um encontro de cúpula em Copenhagen. Inspirados no programa de rádio "Guerra dos Mundos" de Orson Welles, que simulou uma invasão de marcianos colocando em pânico a população norte-americana na década de 40, centenas de pessoas, lideradas pelo grupo de teatro de Christiania, fizeram parecer que um exército da OTAN tinha ocupado a Rádio Dinamarca e outros pontos estratégicos da cidade. A impressão que se tinha era que a Dinamarca estava ocupada por forças estrangeiras. Durante várias horas, o país inteiro ficou em dúvida se a invasão era teatro ou realidade. A ação foi uma dura crítica a intervenção dos Estados Unidos na vida dos países europeus.

O Solvognen também usou a critividade para contestar o comércio da maior festa do cristianismo. Em 1974, o grupo organizou o primeiro Natal dos Pobres da Dinamarca. Milhares de presentes foram distribuídos por um batalhão de Papai Noéis. Detalhe: os presentes eram artigos roubados das lojas de Copenhagen. Resultado: foram todos presos, mas o escândalo ganhou as manchetes dos principais jornais da europa, com fotos de dezenas de Papais Noéis sendo carregados pela polícia. Até hoje o Natal dos Pobres continua sendo organizado como uma tradição e todo ano aproximadamente 2 mil pessoas recebem uma grande ceia em Christiania. Vote Nulo.
 

Fonte: http://www.brnpunk.cjb.net/

 

Veja mais:

http://www.somaterapia.com.br/pa_noticias_interna.jsp?not_cd=7

 

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A IMPORTÂNCIA DA ARTE

 

Nossa arte contemporânea é totalmente superficial, denotando a arte a velha função do quadro bonito enfeitando a sala; da arte burguesa que faz beleza em meio à feiúra e a desgraça, tornando o indigno digno de apreciação ao artista e pena a inspiração. Veja, por exemplo, as fotos de Sebastião Salgado mostrando as desgraças do mundo. São todas belíssimas, mostrando uma essência em meio a lugares aparentemente sóbrios, pobres e desumanos. Porém, na arte, ao contrário da ciência, você tem a ciência de que ela mostra não o real, mas o que parece, ou seja, a interpretação de um determinado fato por um determinado artista; e o que parece é que o fato da arte nos mostrar essa essência de forma bela, livra-nos da nossa angústia pela culpa a qual sabemos que temos com relação não só ao africano que morre cheio de vermes na barriga, mas ao que está sendo escravizado para produzir roupas na mesma cidade em que vivemos. Sabemos que isso existe, mas fingimos não ver; e a arte contemporânea nos mostra de uma forma que não doa. Com isso, a arte perdeu um pouco do seu valor, o de fazer pensar, refletir ou até mesmo não-pensar e viajar por entre as entranhas da mente. A arte nos dá a ciência e a ciência é que nos dá a arte. Observe os acontecimentos artísticos sempre após alguma grande descoberta científica. As descobertas de Freud e o Surrealismo, por exemplo; tanto, que, antes das doutrinas positivistas e deterministas virem com a separação da ciência da filosofia, temos muitos dos grandes cientistas, artistas como Leonardo da Vinci. Enquanto colocamos a arte na parede da sala, perdemos nossa expressão, nossa vida, nossa consciência; vivendo de forma mundana, num mundo onde diplomados que dizem ter a ciência por matarem animais em nome da humanidade impõem suas verdades egocêntricas, e nós, sem arte, desumanos, aceitamos.

 

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DROGA MESMO É A HIPOCRISIA

 

Vivemos numa sociedade que diz prezar pela saúde trancando-se cada vez mais dentro de carros, apartamentos e casas, para, dessa forma, fugir das reais causas dos problemas não apenas sociais mais também das moléstias que nos atingem. Porém, se não conseguimos fugir da bronquite ou da asma, acabamos por piorar com o stress, a depressão, dentre outros males da sociedade moderna.
Para fugir desses problemas, vem à medicina com seus remédios, chamados de drogas somente nas drogarias. No entanto, não enxergamos que fazemos o mesmo que as pessoas que usam os famosos alucinógenos, como se os faixas-pretas das farmácias também não causassem alucinações (só acha isso quem os usa).
Assim, não resolvemos os problemas pela raiz, por exemplo, o problema da bronquite não está no pulmão da pessoa, está na poluição das grandes cidades, se acabarmos com ela, acabaremos com a bronquite, ou ao menos, reduziremos efetivamente os efeitos dela em quem a possui. Tanto como o câncer, que é, em muitos casos, um distúrbio genético impulsionado por um psicológico em mau estado ou causado também pela má alimentação decorrente do cotidiano atual.
Com isso, temos que ter a consciência de que a hipocrisia é o nosso grande problema, pois por sua causa, encobrimos as reais causas dos nossos problemas, que se não têm solução, ao menos podem ser reduzidos, basta pararmos de fugir deles e virmos que fazemos parte da sociedade, tendo, portanto, culpa também.
Sabemos que os discursos sociais estão na moda agora com a miséria na porta de nossas casas, ou dentro delas, mas discursos não levam a nada – veja em todos que votamos. É preciso assumir nosso papel ativo dentro do meio em que vivemos para assim atacarmos as raízes dos problemas que podem nos levar a extinção, ou a uma vida sem nada além da juventude e da fuga do estresse nos finais de semana ou férias.

 

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ENTREVISTA DE HAKIM BEY A HIGH TIMES MAGAZINE

 

High Times - Hakim, de onde você é?

 

Hakim Bey - Bem, a informação padrão (que é tudo o que falo) é que eu era um poeta da corte um principado sem nome do norte da Índia, que eu fui preso na Inglaterra por um atentado anarquista a bomba e que eu vivo em Pine Barrens, Nova Jersey, em um trailer da Airstream ( tradicional marca americana de trailers). Quando venho a Nova York fico num hotel em Chinatown.

 

High Times - O que é Zona Autônoma Temporária?

 

HB - A Zona Autônoma Temporária é uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que eu pus um nome esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos para buscarem a liberdade. E não terem que esperar por ela até que chegue algum futuro utópico abastrato e pós-revolucionário. A questão é: como os indivíduos maximizam a liberdade sob as situações nos dias de hoje, no mundo real? Eu não estou perguntando como nós gostaríamos que o mundo fosse, nem naquilo em que nós estamos querendo transformar o mundo, mas o que podemos fazer aqui e agora. Quando falamos sobre uma Zona Autônoma Temporária, estamos falando em como um grupo, uma coagulação voluntária de pessoas afins não-hierarquizadas, pode maximizar a liberdade por eles mesmos numa sociedadade atual. Organização para a maximização de atividades prazeirosas sem controle de hierarquias opressivas. Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas invadem numa regularidade quase diária: você pode falar sobre educação compulsória, ou trabalho. Você é forçado a ganhar a vida, e o trabalho por si só é organizado como uma hierarquia opressiva. Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar a hierarquia opressiva do trabalho alienado. Por essa razão, criar uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobre essas hierarquias reais e opressivas - não somente declarar antipatia teórica a essas instituições. Você vê a diferença que eu coloco aqui? No aumento da popularidade do livro, muitas pessoas se confundiram com esse termo e usaram ele como um rótulo para todo o tipo de coisa que ele realmente não é. Isso é inevitável, uma vez que o próprio vírus da frase está solto na rede (para usar metáforas de computadores). Se as pessoas usam erroneamente ele ou não isso não é tão importante, porque o significado está inscrustado no termo. É como um vírus verbal. Ele diz o que significa.

 

HT - Você pode explicar o terrorismo poético?

 

HB - Por terorismo poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista - com a diferença que o ato é uma mudança de consciência. Digamos que você tem um grupo de atores de rua. Se você chamar o que você esta fazendo de "performance de ruas", você já criou uma divisão entre o artista e a audiência, e você alineou de si mesmo qualquer qualquer possibilidade de colidir diretamente nas vidas diárias da audiência. Mas se você pregar uma peça, criar um incidente, criar uma situação, pode ser possível persuadir as pessoas a participar e a maximizar sua liberdade. É uma estranha mistura de ação clandestina e mantira ( que é a essência da arte) com uma técnica de penetração psicológica de aumento de liberdade, tanto no nível individual quanto social.

 

Retirado do sítio do Coletivo Anarquista Domingo Passos

 

 

A LOUCURA DE CADA UM

 

Define-se por loucura o estado daquele que foge a normalidade; porém é totalmente subjetivo o que venha a ser normal, já que isso depende dos padrões estabelecidos por uma sociedade. Por isso, mais precisamente, loucura se define quando os conteúdos da mente prevalecem sobre a capacidade de incorporar a realidade. Contudo, a realidade também é subjetiva, já que vemos o mundo por meio de nossas mentes, a partir de nossa individualidade.
Com isso, podemos dizer que somos todos loucos, porém, como a loucura é uma definição estabelecida pela sociedade e nos encaixamos nessa definição, então somos também todos normais independentemente do que pensamos, de como agimos, pois tudo o que fazemos possui uma determinada lógica em nossas mentes.
Todos possuímos nossos complexos e neuroses, o estabelecimento de um padrão parte do medo que temos inconscientemente dessas e, com isso, os criamos para nos reprimir. Porém, uma hora o inconsciente não suporta mais e resolve se expressar de uma maneira brusca; é quando derrubamos padrões. Contudo, na maioria das vezes, derrubamos um padrão para impor outro, e passamos a nos reprimir por outro lado.
Quantos não foram considerados loucos por agir de forma diferente? Hoje a juventude ouve rock, mas nos anos 40 quem o fazia era considerado louco, como foi Little Richard. Nos anos 70 eram os hippies. Tantos foram condenados a “prisão perpétua” dentro de manicômios por serem considerados loucos, como usuários de drogas, mulheres que traíam seus maridos, homossexuais, dentre outros.
Assim, consideraram a loucura a partir de preconceitos, e com isso, mataram judeus, mataram “bruxas” no fogo da Inquisição, fizeram guerras em nome da normalidade, em nome da ordem.
Para que pudéssemos definir a normalidade seria preciso conhecer a verdade; mas se a tudo podemos questionar, se ainda não conseguimos atingir a verdade, também não podemos definir a normalidade, pois enquanto houver aquilo que consideramos errado mudaremos, não somos perfeitos, não somos fixos, não somos normais, pois a loucura vem a ser justamente a expressão real de nossa personalidade quando não nos impomos repressões.

 

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INSTITUIÇÕES DE UMA TRÁGICOMÉDIA

 

Aniquilando o processo reflexivo, as instituições possuem como intuito estabelecer aspectos normativos que, em sua maioria, têm como ideal, a massificação da sociedade em função daqueles que a governam.

A família, os professores e a mídia são alguns dos perpetuadores de um espetáculo em que o povo atua, mas não dirige, esquecendo a vida para suar apenas em troca de um salário, que como todo direito instituído, é mais um que mantém o povo nos trilhos.

Logo na infância as crianças são induzidas a crer em tudo que a família lhes diz. Inúmeros dogmas são introduzidos, e, por conta disso, a falta de auto-conhecimento e a repressão (tanto de si quanto da sociedade) ocasionam problemas psíquicos por não se entenderem, e, por conseqüência, não conseguirem expressar sua personalidade. A rebeldia do adolescente, por exemplo, é fruto não só da repressão dos pais, mas também da busca pelo eu, que nunca incentivada, resultam muitas vezes, em um jovem perdido no mundo; podendo levá-lo até mesmo às drogas.

Quando as primeiras portas são abertas, paira-se trancado pelas chaves do medo numa sala observando professores que direcionam os pensamentos dos alunos ao que eles impõem, ao invés de darem o acesso livre às informações. Traumatizados, tornam o pensar algo obrigatório, um dever a ser cumprido na escola, onde novos dogmas são introduzidos a fim de se impor um destino em que todos devem seguir para alcançar o sucesso na vida. A felicidade não importa, fica apenas no final da novela, nas propagandas de cerveja ou cigarro.

Por meio da manipulação de informações, a mídia se caracteriza por ser uma instituição que tem como mérito hipnotizar e conduzir a população aos interesses dos dominantes, como se pôde ver em toda a história em capítulos como o da Era Vargas ou o das eleições.

Com isso, faz-se essa tragicomédia, cheia de risos para os senhores que engordam suas contas com a fome de um povo que não enxerga a felicidade além da riqueza financeira, que chama a liberdade de utopia, mas acredita iludida, que a locomotiva do capitalismo possa oferecer igualdade por meio da competição.

 

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LIBERDADE AO REI, AO POVO A LEI

 

A imposição da lei já remete a sua injustiça, pois qualquer imposição vai contra a liberdade. Estando quem cria e quem rege acima dela. Não é de se admirar, tendo em vista que o poder corrompe, que estes se aproveitarão desta em benefício próprio.
O fato de serem humanos os que fazem as leis faz delas mais injustas por estarem sob a ação dos valores de uma sociedade. Assim, o Estado impõe através do medo e com ajuda da ignorância popular um padrão social, que se enraíza no inconsciente do povo. Por exemplo, em toda a história houve homossexuais, porém a lei não lhes garante o direito do casamento.
Tem também o fato de que não há crime se a infração for desconhecida, ou seja, desde que não existam provas nem testemunhas não há crime, deixando claro que a lei não gera respeito, mas medo, conforme o grau de fiscalização. Veja por exemplo o caso Paulo Maluf, acusado de superfaturar obras públicas; caso que até hoje não foi comprovado por falta de provas e por que se houverem testemunhas, estas provavelmente também estão envolvidas.
Muitas vezes a lei é utilizada por aproveitadores, como grileiros, herdeiros, para adquirirem posses, que muitas vezes seguem carreira política para manterem-nas.
Concluindo, as leis impõem barreiras em nome do bem comum, mas não há bem comum sem liberdade individual, e sem liberdade não há vida; não serão leis que acabarão com a desigualdade, mas sua inexistência, garantindo a liberdade do indivíduo.

 

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A TECNOLOGIA E O HUMANO

 

Muitos ao verem, superficialmente, a tecnologia ocupando o que antes eram espaços onde humanos trabalhavam, acreditam e pregam o fim da tecnologia.
É certo que hoje, mais do que imaginar um futuro aparentemente remoto, podemos ver o Admirável Mundo Novo de Adouls Huxley exposto em nossas janelas e até mesmo dentro de nossas próprias casas.
No entanto, engana-se aquele que acredita que o ADM seja constituído apenas pela Internet, pelos caixas eletrônicos ou pelas televisões. O ADM está mais em nossa forma de usar as tecnologias, já que em si não passam de circuitos integrados desperdiçando espaço na natureza.
Os humanos é que utilizam as máquinas, não em benefício próprio, mas sim para alimentar um vício, a vaidade.
Alma do capitalismo, ela é quem faz com que os humanos sejam seres superficiais, gananciosos, e que acreditem no simples material, que apenas para si possui utilidade, como meio para atingir a nobre felicidade.
Com isso, a tecnologia deveria ser usada como eram os escravos na Antiga Grécia, ou seja, fazendo o trabalho braçal, enquanto os humanos fazem aquilo que desejam, seja filosofar, produzir arte, desenvolver tecnologias; sempre em prol do bem-estar, sem preconceitos ou pressões por parte de um sistema que nos impõe sua forma de sobrevivência em troca de alimento para a inútil vaidade humana.
Enquanto isso, desperdiçamos nosso tempo olhando vitrines e nos amargurando com preços que não nos permitem obter o que desejamos. Desta forma, aumentamos nossas angústias e fazemos de nossa vida, algo totalmente superficial, acreditando nesta máscara que criamos, influenciado pelo nosso arquétipo e pela sociedade em que vivemos.
 

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TV PÚBLICA: INDEPENDÊNCIA OU MORTE

 

Conheci Greg Dyke, o diretor-geral da BBC, no almoço oferecido aos indicados para o Emmy, no qual ele foi o orador principal. Perguntaram-lhe: "Por que a BBC recebe 2,8 bilhões de libras por meio de taxações da sociedade?". Ele respondeu: "Para produzir a televisão de qualidade que vocês não têm vontade de produzir, apesar de todo o dinheiro do mercado". A reportagem de Andrew Gilligan, o suicídio de David Kelly e o julgamento político de lorde Brian Hutton, nomeado por Blair para absolvê-lo e condenar a BBC, como fez, levou Greg a demitir-se. Não importa se a BBC não conseguiu aprofundar a verdade dos fatos até o limite de uma explicação convincente, como gostaria John Lloyd, editor do "Financial Times".
Acontece que, desde a questão das Malvinas, quando a emissora se opôs à guerra de lady Tatcher, até a Guerra do Iraque, em que se opôs a Tony Blair, a BBC é a única emissora européia capaz de revelar o contraditório. E Greg Dyke foi um defensor notável dessa independência. A sentença coroa uma ação lenta e persistente contra a independência e, mesmo, pela extinção da televisão pública. Vejamos. Jean Pierre Cottet, presidente da Cinquième, televisão educativa francesa, e da Aited (Associação Internacional de Televisões Educativas e da Descoberta), foi exonerado do comando do canal. Conheço-o bem, como vice-presidente que sou da Aited, e posso testemunhar que foi um dos melhores presidentes que a Cinquième já teve.
A televisão educativa da Austrália vai ser fechada, por pressão de Murdoch sobre o governo. Berlusconi enviou proposta de lei ao parlamento italiano pedindo autorização para privatizar a RAI. Ele, que já tem o monopólio da rede privada, talvez queira incluir a rede pública italiana no mesmo pacote ideológico. A PBS, Public Broadcasting Service, dos Estados Unidos, foi ameaçada no fim do ano passado de sofrer uma redução de 50% na contribuição dada pelo National Endowment.
Em toda parte torna-se difícil a compreensão de uma televisão que baseia seu relacionamento com a sociedade na independência diante do mercado e dos governos. Mas isso é indispensável para que não baixem os padrões de qualidade, pela pressão da audiência, e para que a televisão seja uma expressão pluralista das forças sociais, e não um diário oficial dos governos. A luta em defesa da televisão pública é urgente e imprescindível. É uma luta da sociedade, a quem ela se destina; do Estado, que é a representação política dessa sociedade; da imprensa, que é a representação mais razoável das realidades; dos artistas e intelectuais, que são autores e protagonistas da divulgação indispensável do conhecimento.
Se os sintomas dos riscos são visíveis, suas causas mais profundas nem sempre são percebidas. Nós todos submetemo-nos, no mundo atual, incondicionalmente ao espetáculo. Não só o gosto como os valores subordinam-se à lógica do espetáculo. Isso acontece em toda parte e de tal forma que, antes mesmo de "O Exterminador do Futuro 3" estrear, o herói já se tornara governador da Califórnia. Espetáculo, isto é, diversão antes do conhecimento, é a base do maior negócio desenvolvido no século 20: informação transformada em show. Não se trata de influência recente, apenas causada pela mídia globalizada. Desde o distante ano de 1821, nos Estados Unidos, o teatro de vaudeville declarou e ganhou a guerra contra o teatro shakespeareano . Em início de expansão, Nova York tinha apenas quatro teatros, mas funcionavam lá 80 botecos, com palcos para desabusados entretenimentos.
A cultura do popularesco, baseada inteiramente no entretenimento que envolvia divertimento para os sentidos, dominou as massas americanas em tal proporção que Gabler Neal, em seu livro "Vida, o Filme", afirma que "o ópio do povo não é a religião, como queriam os marxistas, mas o entretenimento". A mídia tem uma clara preferência pelo espetáculo, embora quem mais o promova seja a própria realidade, sensacional, produzida pela política, pelas religiões, pela economia e pelas artes, principalmente o teatro, o cinema e a TV. Longe os critérios gregos, que dividiam claramente os espaços da tragédia e da comédia. Hoje, quase tudo é dramalhão e pantomima, ambos consagrados nas medições do Ibope.
Com tal herança passada em julgado, não temos como reclamar da baixaria. Não podemos nos considerar alternativa -nem a TV Cultura, nem nenhuma outra televisão educativa. Como poderíamos, se o fator determinante do gosto é a oferta, e não a demanda, como proclamam os manipuladores do mercado? Como poderíamos, se a oferta do mau gosto e da baixaria predomina tanto na informação quanto no entretenimento? A TV pública pode não ser uma alternativa, mas paradigma novo capaz de suscitar o espírito crítico do telespectador. Por isso mesmo nós insistiremos até o fim.
Nós, membros da Aitec (Associação Internacional de Televisões Públicas e Culturais); nós, associados da Abepec (Associação Brasileira de Emissoras Públicas Educativas e Culturais); nós, diretores e funcionários da Cultura, lutaremos para defender uma estrutura jurídico-administrativa que confira independência às emissoras para produzir uma programação de qualidade, voltada para a sociedade. O novo jornalismo público lançado pela TV Cultura busca ser a expressão informativa dessas idéias. Estamos apenas evoluindo, mas, com a crítica dos ouvintes, da mídia e de nossos colaboradores, seremos fiéis ao nosso manifesto e à nossa missão.

 

Jorge da Cunha Lima, 72, jornalista e escritor é presidente da Fundação Padre Anchieta e da Abepec (Associação Brasileira de Emissoras Públicas Educativas e Culturais).

 

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SUBVERSIVO - DESDE 6 DE OUTUBRO DE 2003

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