Perseguição

Eliana Mattos

Estava ele beirando os cinquenta anos. Digamos que era um homem bem apessoado, inteligente e em termos de cultura poderia ser classificado como acima da média. Não se casara por pura opção. Sim, era verdade. Opção de vida mesmo.

Quando convivia com casais amigos e se defrontava com o tédio do casamento, dispensava rapidamente a companheira do momento, a menos que ela não se importasse em jamais morarem juntos.
Mas, invariavelmente elas se importavam e acabavam deixando-o por outro não tão inteligente, nem tão culto, muito menos bem apessoado, mas que lhes daria algo além daquelas boas noites em que, além dos predicados já citados, também era um bom amante.
Agora, perto dos cinquenta anos, alguma coisa parecia que se modificava dentro dele, algo que às vezes até perdia o controle. Um não sei quê de tédio, misturado com breve tristeza, talvez até uma certa falta de perspectiva em relação à vida.

Crise dos cinquenta? Será? Quando estava prestes a completar quarenta anos, achou que entraria na famosa crise chamada "idade do lobo". Sim, porque para ele, "idade do lobo" significava crise mesmo. Imaginou-se correndo atrás de ninfetas virgens, fazendo aquele papel ridículo que tantos amigos seus já tinham vivido.

Estranhamente nada acontecera. Não se interessou por "moçoila" alguma, preferindo ainda as suas famosas balzaquianas, não tão jovens, porém bem mais interessantes.
Agora questionava-se se iria procurar as menininhas filhas de seus amigos, se começaria a frequentar danceterias ou ainda, se faria outra faculdade, só para estar perto de garotas bem mais jovens. Sabia que o caminho também não era esse. Definitivamente não sentia atração por esse tipo de mulher. Achava-as bonitas, gostosas, mas nada além disso.

Noites insones, mau humor diário, irritação constante. Sabia que estava perdendo o controle de si próprio e passou a procurar ou a se procurar. O problema era procurar o quê exatamente.
Primeira providência foi dispensar Glória. Relacionamento de muitos anos e que há muito não o satisfazia. Cansara de discutir sempre os mesmos assuntos, ou melhor, de não discutir absolutamente nada com ela. O papo era sempre sem surpresas - os filhos dela, a mãe inválida, o trabalho medíocre, o ex-marido. Cansara.

A busca agora seria mais limpa, mais justa, mais digna. Poderia perseguir o que estava dentro de sua alma - e que ele nem sabia o que era -, sem deixar rastros. Melhor assim.

Numa noite ao sair do escritório, não teve vontade de voltar para casa. Sabia que lá estaria tudo como em todas as tardes: o gato dormindo sobre o sofá, a correspondência sobre a mesa da sala de jantar, alguma coisa semi-pronta na geladeira, deixada por sua fiel escudeira de tantos anos também. Resolveu ver o por-do-sol numa das praças da cidade. Sentou-se na grama recém cortada e completamente absorvido se deixou ficar pela paisagem que se descortinava à sua frente. Tarde quente, poente de nuances que iam do vermelho intenso ao laranja claro, mesclado com um azul indefinido. Há muito não parava para ver tão maravilhoso espetáculo.

Sentiu-se pequeno, muito pequeno. De súbito, sem saber por que aquilo acontecia, percebeu que estava chorando. E, também sem conseguir controlar, começou a chorar convulsivamente, desesperadamente, dolorosamente. Sentia-se ridículo. Também indefeso. Também triste. Perdido.

Percebeu naqueles breves instantes antes do sol sumir no horizonte, que dali para a frente sua vida nunca mais seria a mesma. Faltava-lhe algo que jamais tivera. Faltava-lhe algo grandioso, completo, que o arrebataria da vidinha insossa que levara até aquele momento. Nunca tivera naqueles últimos meses tanta consciência de que não era completo.

Talvez estivesse mesmo na crise dos cinquenta. Seria a tão temida andropausa? Não tinha respostas, mas apenas perguntas.
Levantou-se retirando das impecáveis calças restos de grama e percebeu grudado a uma das pernas, um pequeno inseto esverdeado. Misturado aos pedacinhos da grama, mal dava para diferenciá-los. Projetou-se naquele inseto. Camuflado na vida. Assim vivera seus cinquenta anos.
Nunca se permitira mostrar o homem que realmente era. Apenas aparências. O inseto misturado ao verde da grama. Abriu a porta do carro, girando a chave no contato e deu a partida. Para onde? Quem é que sabia. A vida estava apenas começando.


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