Sentado na cadeira do escritório e debruçado sobre os papéis,
fico imaginando o dia da minha aposentadoria, meu último dia
de trabalho.
O dia em que poderei falar tudo o que penso dessa
corja de fofoqueiros e mal amados, cuja principal função é
lustrar o saco do chefe, cogitando ganhar um cargo com um
nome mais pomposo ou o cargo de "amante oficial do chefe",
no caso de Cidinha, a moça dos peitos voadores.
Vida mais sem sentido, passar anos trabalhando ao lado de
pessoas que nem abrem a boca para dizer bom dia e quando
cometem uma boa ação, logo pensam em levar o recibo para
o céu, prá ver se terão tratamento especial. Colocam os
aniversariantes do mês na parede, mas nunca apertam a tua
mão para desejar felicidades.
Eu devia é ter sido comerciante,
pelo menos receberia alguns agrados por conta dos pobres que
pedem fiado.
Tenho certeza, as minhas visões estéticas seriam bem melhores,
não precisaria ver Dona Rose deixando aquele traseiro gordo se
espalhar pela cadeira (frágil comparada ao tamanho do seu corpo),
enquanto seu braço molhado de suor se mistura com os balancetes
do escritório. Fico a observá-la horas com um sorriso de parábola
inacabada no rosto, e acho que ela nunca percebeu a minha
vontade de vomitar quando olho para suas gorduras dançantes.
Aliás, acho que uma das poucas coisas a não me deixar com náuseas
naquele escritório é quando Cidinha pede-me para tirar suas
dúvidas (com toda certeza me acha tão pouco atraente que não
teria coragem para dar-lhe uma cantada), se inclina de uma
maneira a parecer que seus seios querem saltar prá dentro da
minha pasta e eu me esforço prá minha mão não saltar dentro
do seu soutien. Explico pacientemente suas dúvidas e ela sai
sorrindo e remexendo os quadris como se eu fosse um ser assexuado.
Mas que merda!
Será que ninguém imagina que os feios também tem coração?
Ingratos, um bando de ingratos isso sim. Me chamam para
ajudá-los nas conjugações, datas históricas, ditos populares
e até política, mas não me convidam para as festinhas depois
do trabalho, como se eu fosse um quadro instrutivo ...
Mas que não combina com o resto da decoração.
Nessas horas que eu penso: eu deveria me matar, me suicidar sim,
seria a vingança perfeita. Todos diriam: "Nossa, eu não posso
acreditar. O Seu Almeida?!...
Tão prestativo, sempre ajudando o pessoal.
Que motivos ele teria para dar cabo a sua vida?".
Posso até adivinhar o pensamento de Dona Rose,
aquela solteirona frustrada, se entope de doce para compensar
os orgasmos que nunca teve: "Meu Deus!
Ele ficava horas me olhando!
Eu deveria ter percebido que estava com algum problema.
Será que estava apaixonado?". Cidinha cogitaria:
"Coitado do Almeida... tão sem graça...
deve ter sido por causa da feiúra.
Eu bem deveria ter deixado ele roçar as mãos nos meus seios...
Talvez se sentisse um pouco mais homem".
Meu chefe diria:
"Mas logo agora. Quem eu vou colocar no lugar do Almeida?
Sabia. Não deveria contratar o Almeida, quixotesco demais.
Isso que dá. Vai morar na cova mais cedo".
Penélope refletiria: "Homem frouxo, sangue morno,
pagou com a vida pela sua própria covardia;
mas o que se há de fazer, o que não tem remédio,
remediado está, como ele mesmo dizia.
O lado positivo dessa tragédia é poder tirar esse
quadro horrível de girassóis, que destoa totalmente
do resto do ambiente".
Finalmente o office-boy (claro, o último a saber da notícia;
nesse país a informação é diretamente proporcional à
posição hierárquica) falaria: sujeito bacana, o único
que lembrava de me dar gorjetas.
Filhos da p... , isso sim.
Então eu me mato, falam um monte de bobagens a meu
respeito, mexem na minha mesa, jogam fora o meu quadro,
tem assunto intrigante por algumas semanas e
depois volta tudo ao normal?
Depois de alguns meses
até se esquecem quem foi o Seu Almeida, e eu na cova,
sendo devorado por vermes famintos, indiferentes à
minha história, aos meus triunfos, às minhas derrotas;
todos os anos dedicados a esse mundo mais vil e frio
que a própria morte.
Não, sinto muito, isso não vai acontecer,
mesmo eu sendo inclinado a fins surpreendentes e romanescos.
Infelizmente a vida não permite grandes desfechos,
pelo menos não para um protagonista suicida.
Não vou deixar de ser insignificante na vida,
para me tornar insignificante na morte.
Planejei uma saída bem mais francesa.
Resolvi dar um jantar na minha casa (assim posso ter o
privilégio de ser convidado... e de honra!).
Já tem carne e alguns legumes na geladeira,
só preciso passar na rua Candelária para comprar algumas...,
como posso dizer..., frivolidades de mulher
(se não houvessem mulheres, a vida seria feita de praticidades!)
e veneno de rato, aquela casa está infestada de ratos,
aliás, esse mundo anda infestado de ratos.
Isso me lembra homens. Homens são um bando
de ratos devoradores.
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