Ratoeira

Márcia B. Barbieri

Sentado na cadeira do escritório e debruçado sobre os papéis, fico imaginando o dia da minha aposentadoria, meu último dia de trabalho. O dia em que poderei falar tudo o que penso dessa corja de fofoqueiros e mal amados, cuja principal função é lustrar o saco do chefe, cogitando ganhar um cargo com um nome mais pomposo ou o cargo de "amante oficial do chefe", no caso de Cidinha, a moça dos peitos voadores.
Vida mais sem sentido, passar anos trabalhando ao lado de pessoas que nem abrem a boca para dizer bom dia e quando cometem uma boa ação, logo pensam em levar o recibo para o céu, prá ver se terão tratamento especial. Colocam os aniversariantes do mês na parede, mas nunca apertam a tua mão para desejar felicidades.
Eu devia é ter sido comerciante, pelo menos receberia alguns agrados por conta dos pobres que pedem fiado.

Tenho certeza, as minhas visões estéticas seriam bem melhores, não precisaria ver Dona Rose deixando aquele traseiro gordo se espalhar pela cadeira (frágil comparada ao tamanho do seu corpo), enquanto seu braço molhado de suor se mistura com os balancetes do escritório. Fico a observá-la horas com um sorriso de parábola inacabada no rosto, e acho que ela nunca percebeu a minha vontade de vomitar quando olho para suas gorduras dançantes.
Aliás, acho que uma das poucas coisas a não me deixar com náuseas naquele escritório é quando Cidinha pede-me para tirar suas dúvidas (com toda certeza me acha tão pouco atraente que não teria coragem para dar-lhe uma cantada), se inclina de uma maneira a parecer que seus seios querem saltar prá dentro da minha pasta e eu me esforço prá minha mão não saltar dentro do seu soutien. Explico pacientemente suas dúvidas e ela sai sorrindo e remexendo os quadris como se eu fosse um ser assexuado.
Mas que merda!
Será que ninguém imagina que os feios também tem coração? Ingratos, um bando de ingratos isso sim. Me chamam para ajudá-los nas conjugações, datas históricas, ditos populares e até política, mas não me convidam para as festinhas depois do trabalho, como se eu fosse um quadro instrutivo ... Mas que não combina com o resto da decoração.

Nessas horas que eu penso: eu deveria me matar, me suicidar sim, seria a vingança perfeita. Todos diriam: "Nossa, eu não posso acreditar. O Seu Almeida?!... Tão prestativo, sempre ajudando o pessoal. Que motivos ele teria para dar cabo a sua vida?". Posso até adivinhar o pensamento de Dona Rose, aquela solteirona frustrada, se entope de doce para compensar os orgasmos que nunca teve: "Meu Deus! Ele ficava horas me olhando!
Eu deveria ter percebido que estava com algum problema. Será que estava apaixonado?". Cidinha cogitaria: "Coitado do Almeida... tão sem graça... deve ter sido por causa da feiúra. Eu bem deveria ter deixado ele roçar as mãos nos meus seios... Talvez se sentisse um pouco mais homem".
Meu chefe diria: "Mas logo agora. Quem eu vou colocar no lugar do Almeida? Sabia. Não deveria contratar o Almeida, quixotesco demais. Isso que dá. Vai morar na cova mais cedo".
Penélope refletiria: "Homem frouxo, sangue morno, pagou com a vida pela sua própria covardia; mas o que se há de fazer, o que não tem remédio, remediado está, como ele mesmo dizia. O lado positivo dessa tragédia é poder tirar esse quadro horrível de girassóis, que destoa totalmente do resto do ambiente".
Finalmente o office-boy (claro, o último a saber da notícia; nesse país a informação é diretamente proporcional à posição hierárquica) falaria: sujeito bacana, o único que lembrava de me dar gorjetas.
Filhos da p... , isso sim. Então eu me mato, falam um monte de bobagens a meu respeito, mexem na minha mesa, jogam fora o meu quadro, tem assunto intrigante por algumas semanas e depois volta tudo ao normal?

Depois de alguns meses até se esquecem quem foi o Seu Almeida, e eu na cova, sendo devorado por vermes famintos, indiferentes à minha história, aos meus triunfos, às minhas derrotas; todos os anos dedicados a esse mundo mais vil e frio que a própria morte.
Não, sinto muito, isso não vai acontecer, mesmo eu sendo inclinado a fins surpreendentes e romanescos. Infelizmente a vida não permite grandes desfechos, pelo menos não para um protagonista suicida. Não vou deixar de ser insignificante na vida, para me tornar insignificante na morte.
Planejei uma saída bem mais francesa. Resolvi dar um jantar na minha casa (assim posso ter o privilégio de ser convidado... e de honra!). Já tem carne e alguns legumes na geladeira, só preciso passar na rua Candelária para comprar algumas..., como posso dizer..., frivolidades de mulher (se não houvessem mulheres, a vida seria feita de praticidades!) e veneno de rato, aquela casa está infestada de ratos, aliás, esse mundo anda infestado de ratos.
Isso me lembra homens. Homens são um bando de ratos devoradores.

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