Mudando de canal seguidamente, sinto-me uma cadela no cio.
É impressionante a quantidade de coxas, peitos e quadris
à mostra em um curto espaço de tempo.
Depois ainda somos obrigados a escutar longos discursos
sobre a animalidade selvagem inerente a todo homem atrás
da sua aparência enganosa de civilidade.
Por acaso algum desses idiotas sabem definir concisamente
civilidade?
Balelas!!!
Desde quando mulheres semi nuas
(semi porque estou usando um eufemismo) e homens babando
por um par de pernas é aparência de civilidade?
Pra mim isso não passa da mais declarada e óbvia animalidade.
Se o discurso fosse feito no século XIX, talvez tivesse
rendido algum crédito para o orador.
Mas hoje em dia?! Dai-me paciência!!!
Imóvel sobre a cadeira tentando perceber cada parte
do meu corpo, sinto por alguns instantes ser homem,
em outros instantes sinto-me mulher.
Na realidade acho que todos nós somos uma fusão
medíocre desses dois seres. Como costumo brincar:
De olhos fechados todas as bocas têm o mesmo sabor.
Me vejo hermafrodita. E isso nada tem a ver com desejo
sexual ou bissexualidade.
E sim uma resposta adequada para nossa constante busca
por um prazer egoísta.
Desejamos homens ou mulheres, até animais!
Quem o sabe? Queremos apenas algo para satisfazer nossa
imensa ânsia de gozo.
Mesmo sendo um gozo primitivo e tépido, caindo
com insipidez no amargo da língua. Isto me provoca raiva!
Uma imensa raiva!
Na minha opinião qualquer coisa que se encontre morna
ou insípida, está no seu estado mais degradante.
Eu quero doce, amargo, azedo...
Sei lá, qualquer adjetivo que não carregue
consigo o peso da indiferença.
Se bem me lembro existe um versículo bíblico que diz:
"Seja o sal da terra".
Nunca me deparei com nada mais compatível com a minha
ideologia do que esta frase.
Não sou o que chamam de fanático religioso,
mas também tenho meus momentos de reflexão divina.
Indiferença eu sorvo todos os dias.
Nos pedestres apressados, nas balconistas preocupadas
com suas comissões, nos policiais correndo
em direção aos bandidos. . .
Afinal em todos àqueles que se auto denominam humanos.
Sou até capaz de escutar a retórica dos meus amigos em
relação a minha teoria. A voz grave do Vanderley gritando:
"Deixa de conversa fiada!
Isso não passa de frustração e inveja porque não pode
fazer sexo. A sua teoria é a mais parcial que já ouvi!".
Mas tudo bem, não me importo.
Todos eles estão beirando os quarenta anos.
Querendo ou não, será conveniente para eles terem
convicção no hermafrodismo. Não quero dar uma de durão.
Talvez realmente me sinta amputado por estar a mais de
dez anos sem fazer sexo, sem sentir prazer ao tocar
meu órgão genital.
É... Quem sabe o Vanderley tenha razão...
Dez longos anos cinzas, sentado nessa cadeira de rodas
travadas e indiferentes. Minha cama sempre vazia,
com resquícios tão vagos de orgasmos.
Já não recordo a sensação do meu último orgasmo...
Posso enxergar através da cortina translúcida do meu
quarto, duas borboletas acasalando.
No varal do vizinho vejo sombras de camisolas e calcinhas.
Daqui percebo um cheiro indigesto de sexo e mofo.
Fungos se reproduzindo no pão velho esquecido no cesto de frutas...
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