Irracional

Márcia Barbieri

Mudando de canal seguidamente, sinto-me uma cadela no cio. É impressionante a quantidade de coxas, peitos e quadris à mostra em um curto espaço de tempo. Depois ainda somos obrigados a escutar longos discursos sobre a animalidade selvagem inerente a todo homem atrás da sua aparência enganosa de civilidade. Por acaso algum desses idiotas sabem definir concisamente civilidade?
Balelas!!!
Desde quando mulheres semi nuas (semi porque estou usando um eufemismo) e homens babando por um par de pernas é aparência de civilidade? Pra mim isso não passa da mais declarada e óbvia animalidade. Se o discurso fosse feito no século XIX, talvez tivesse rendido algum crédito para o orador. Mas hoje em dia?! Dai-me paciência!!!
Imóvel sobre a cadeira tentando perceber cada parte do meu corpo, sinto por alguns instantes ser homem, em outros instantes sinto-me mulher. Na realidade acho que todos nós somos uma fusão medíocre desses dois seres. Como costumo brincar: De olhos fechados todas as bocas têm o mesmo sabor.
Me vejo hermafrodita. E isso nada tem a ver com desejo sexual ou bissexualidade. E sim uma resposta adequada para nossa constante busca por um prazer egoísta.

Desejamos homens ou mulheres, até animais! Quem o sabe? Queremos apenas algo para satisfazer nossa imensa ânsia de gozo. Mesmo sendo um gozo primitivo e tépido, caindo com insipidez no amargo da língua. Isto me provoca raiva! Uma imensa raiva!

Na minha opinião qualquer coisa que se encontre morna ou insípida, está no seu estado mais degradante. Eu quero doce, amargo, azedo... Sei lá, qualquer adjetivo que não carregue consigo o peso da indiferença.
Se bem me lembro existe um versículo bíblico que diz: "Seja o sal da terra". Nunca me deparei com nada mais compatível com a minha ideologia do que esta frase. Não sou o que chamam de fanático religioso, mas também tenho meus momentos de reflexão divina. Indiferença eu sorvo todos os dias.
Nos pedestres apressados, nas balconistas preocupadas com suas comissões, nos policiais correndo em direção aos bandidos. . . Afinal em todos àqueles que se auto denominam humanos. Sou até capaz de escutar a retórica dos meus amigos em relação a minha teoria. A voz grave do Vanderley gritando: "Deixa de conversa fiada! Isso não passa de frustração e inveja porque não pode fazer sexo. A sua teoria é a mais parcial que já ouvi!". Mas tudo bem, não me importo.
Todos eles estão beirando os quarenta anos. Querendo ou não, será conveniente para eles terem convicção no hermafrodismo. Não quero dar uma de durão. Talvez realmente me sinta amputado por estar a mais de dez anos sem fazer sexo, sem sentir prazer ao tocar meu órgão genital.

É... Quem sabe o Vanderley tenha razão...
Dez longos anos cinzas, sentado nessa cadeira de rodas travadas e indiferentes. Minha cama sempre vazia, com resquícios tão vagos de orgasmos. Já não recordo a sensação do meu último orgasmo... Posso enxergar através da cortina translúcida do meu quarto, duas borboletas acasalando.
No varal do vizinho vejo sombras de camisolas e calcinhas. Daqui percebo um cheiro indigesto de sexo e mofo. Fungos se reproduzindo no pão velho esquecido no cesto de frutas...

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