Eu não o chamaria de fumante inveterado.
Afinal, com setenta e sete anos de idade, fumando,
já ultrapassara as estatísticas.
Aquelas tardes em que eu o visitava e nos sentávamos
para conversar no quintal, nos fundos da casa dele,
de onde podíamos ver a gaiola, sempre aberta,
do papagaio assobiador, eu observava o seu gato
preguiçoso, que ele garantia ser um terrível e maquiavélico
devorador dos invasores pardais.
Pedia que ele contasse de sua montanha "sete montanhas além"
e nos perdíamos em divagações, filosofando sobre o significado
de mil e tantos símbolos, a tarde terminava.
Jamais confessei que ali estivesse para me refugiar do quotidiano.
Quando eu queria empréstimo de algum de seus livros,
a recomendação era imediata. "Vou dizer mais uma vez.
Empresto mas, saiba que a outras pessoas nego.
Digo que consultem o que preferirem.
Os livros daqui não saem porque outros podem precisar e
será difícil lembrar a quem emprestei.
Emprestei livros que nunca retornaram."
Me sentia importante.
Eu, quase trinta anos mais jovem que ele.
Certas vezes, perguntava minha opinião sobre alguns de seus escritos.
Quando sua filha não estava em casa, ele mesmo preparava o cafezinho.
Vez ou outra, um vinhozinho "do Porto" adocicava nossa tagarelice.
Estas foram algumas das lembranças que me acordaram.
Meu confidente travesseiro, talvez cansado de sentir minha
cabeça revirando, me fez perceber que eu ainda não havia contado,
sobre ele, as coisas e os agradecimentos que esse convívio,
representavam.
Sei apenas que, nessa noite, nutria a idéia de escrever apenas
fatos alegres, querendo contrariar a tendência dos jornais
em revelar tragédias, denúncias, abusos.
Desejava escrever coisas alegres, bem humoradas,
como Osvaldo Montenegro, ao escrever "Metade".
Acordei para o fato de que as pessoas podem se ausentar
mas, o trabalho, os exemplos e as idéias que os impulsionaram,
merecem, mais que nosso respeito.
Meu travesseiro questionou sobre quem, realmente eu seja.
Talvez eu seja do tipo daquelas pessoas que acredita que a
vida de uma pessoa, não pode terminar quando sua presença
física não mais acontece. Como apagar a memória?
Vivemos a época da realidade virtual.
Antigamente, "dados" eram cubos usados para jogos.
Hoje é a tradução da palavra americana "data" que
representava informação. Quando queremos dizer que tal
fato está em "nossa memória", dizemos que "está gravado
no winchester".
Toda essa linguagem, moderna, era bem entendida pelo meu amigo.
Mesmo na avançada idade de setenta e sete anos,
conseguira a adaptação a essas exigências da tecnologia.
Seus novos escritos e a revisão de criações antigas,
estavam ali gravadas.
Se a vaidade é um sentimento pecaminoso, pequei por me
sentir envaidecido ao perceber que ele aprendera comigo,
técnicas que ele não conseguira apreender em cursos de
"informática".
Esta é a uma das razões de, novamente, escrever sobre o
amigo e irmão JORGE MARTINS. Paulista, nascido em Itapira,
escolheu Indaiatuba para terminar seus dias.
Ainda não contei tudo.
Terei de falar mais vezes.
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