A revista mensal

Eliana Mattos

O que dizer àquele homem que agora se postava diante dela tão fragilmente... Que dizer de suas longas e intermináveis noites solitárias, esperando pela sua volta durante os últimos oito meses... Será que adiantaria lhe contar todas as suas desventuras?

Melhor deixar pra lá, esquecer.
Mas e a realidade que agora se apresentava? O que fazer? Aceitá-lo ou não de volta àquela casa?
Mil pensamentos passavam por sua cabeça e ela sabia que por mais que se perguntasse, dificilmente teria as respostas. Ou melhor, até as tinha. O difícil era tomar uma decisão. Decisão definitiva. Sem nunca mais olhar para trás.

Ao mesmo tempo que queria dar um basta em tudo aquilo, também pensava nos momentos bons que haviam passados juntos.
E, pensava principalmente, nos momentos bons que não puderam passar juntos. Estavam naquela fase da vida em que tudo poderia ser bom.

Não havia mais a preocupação com filhos, trabalho, despertador matinal... Tudo agora transcorria calma e mansamente. Calmo demais algumas vezes. Calmo demais...

Pensou nas noites de amor.
Novamente lhe veio à cabeça as noites de amor que não tiveram.
Lembrou-se do jovem entregador de revistas, da vez em que ele se insinuou e que tanto a ofendera.

Era um jovem bonito e, evidentemente, sem grandes refinamentos. Mas a havia desejado e era nisso que se apoiava agora quando precisava tomar a maior decisão de sua vida.

Desejos... Será que aquele homem que estava à sua frente agora, algum dia se importara com seus desejos? Pouco provável.
Jamais entre eles o sexo havia sido bom. Ou melhor, o bom era quando tudo terminava e ela podia virar-se e chorar baixinho pela insatisfação de sempre. Sua vida toda era uma grande insatisfação.
Lembrou-se novamente do jovem entregador de revistas. De súbito perguntou em voz alta em que dia do mês estavam. Pergunta mais sem pé, nem cabeça, pensou. Mas precisava saber urgentemente qual dia do mês estavam. Percebeu que faltavam apenas alguns dias para a entrega mensal de sua revista. Resolveu, então, que não decidiria absolutamente nada, até que o entregador de revistas tocasse sua campainha, como em todos os meses.

Quem sabe no periódico teria alguma reportagem interessante, algo que lhe fizesse mudar completamente a vida.

Pois bem, estava decidido mesmo. Esperaria a entrega da revista. Ele que aguardasse uma resposta sua. Afinal, também ela ficara todos aqueles meses na incerteza e na angústia da espera.

Agora o que mais queria era receber sua revista mensal. Depois veria o que iria fazer da vida.


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