SEXO NÃO É TUDO

  

O professor Ailton Amélio da Silva é o criador e o responsável pela disciplina de relacionamento amoroso nos cursos de graduação e pós graduação, da escola de Psicologia da USP.

Veja - Há vida inteligente no casamento?

Ailton - É claro que sim. Estimativas antropológicas afirmam que 92% das pessoas se casam ao menos uma vez na vida. Quem não se casa se sente diferente, fora da sociedade, e ninguém é imune a esse sentimento de exclusão. Homens e mulheres têm necessidade biológica de formar um par.

Veja - Onde entra o amor nessa história?

Ailton - O amor é a cola que une o casal. Antigamente, afirmava-se que havia cultura em que ele não existia. Hoje, sabe-se que ele é universal: não há registro histórico ou antropológico de sociedade em que não haja alguma forma de amor.

Veja - Morar em casas separadas é uma forma válida de manter um casamento na temperatura ideal?

Ailton - Acredito que estamos caminhando para o que se poderia definir como "personalização" do casamento. A época em que o mesmo tipo de relacionamento valia para todos está chegando ao fim. No entanto, viver em casas separadas provoca, quase sempre, as mesmas vítimas: os filhos. É preciso criá-los num ambiente em que haja os dois modelos, pai e mãe.

Veja - O que mantém uma relação saudável?

Ailton - Três elementos, basicamente: a satisfação, a falta de alternativas melhores e os investimentos psicológicos. A falta de alternativas pode ser resumida numa frase: o ótimo é inimigo do bom. Ou seja, um namoro feliz terá seu fim decretado se surgir uma alternativa mais atraente. Isso explica,

em parte, porque bons relacionamentos são desfeitos quando um dos parceiros fica famoso ou sobe na vida rapidamente. Os investimentos psicológicos são os planos conjuntos: viagens, divisão de tarefas e por aí adiante.

Veja - É bom brigar?

Ailton - Sim, desde que seja um bom combate. A boa briga não usa armas como o desprezo, contribui para o melhor entendimento do casal e não remói o passado. Uma expressão de raiva é justa, desde que não seja dirigida à personalidade ou ao caráter do outro. É melhor brigar do que deixar os assuntos pendentes, mal resolvidos. Não raro, esses assuntos se tornam infecções encapsuladas que, quando lancetadas, revelam-se impossíveis de serem curadas.

Veja - Qual a importância do sexo num relacionamento?

Ailton - Ele é superestimado. A maioria dos casais desfruta de sexo de uma forma satisfatória, sem muita ousadia. Esta história de ter de criar mil situações para melhorar a qualidade do sexo é pura fantasia. Relações sôfregas não duram do jeito que se imagina. O mais importante num relacionamento é o companheirismo, o apoio mútuo, a cumplicidade.

Veja - Os opostos se atraem?

Ailton - Isso é balela. A regra dos casais é a homogeneidade. Segundo uma pesquisa, 80% dos casais são semelhantes em quatro aspectos: faixa etária, grau de escolaridade, religião e raça. Alguns estudos mostram que a maioria dos casais é formada, inclusive, por gente parecida fisicamente.

Veja - Como é que escolhemos um parceiro?

Ailton - Nós nos envolvemos com quem está ao alcance de nossas próprias possibilidades. Pense numa lista de mulheres bonitas e desejáveis. Se lhe fosse dada a opção, com qual escolheria sair?

Veja - Com a mais bonita?

Ailton - Não, com mais semelhante a você. Pela simples razão de que, tanto para o homem quanto para a mulher, o que impera é o receio de levar um fora. Geralmente tememos quem é muito melhor do que nós.

Veja - "Discutir a relação" é importante, como acreditam as mulheres, ou não passa de uma tremenda perda de tempo, como julgam os homens?

Ailton - As mulheres agem com sabedoria quando expressam seu desejo de discutir a relação. É bom para o casal e também para cada um dos parceiros individualmente. Para os homens, discutir a relação é complicado porque desde cedo eles aprendem a esconder os sentimentos. Homens são educados para resolver problemas, não para debatê-los.

Veja - Ciúme é bom?

Ailton - Só é ruim quando adquire o caráter de obsessão. É curioso observar que o homem sente mais ciúme quando pensa na possibilidade de sua mulher fazer sexo com outro. A mulher, por sua vez, diante da possibilidade de seu marido se apaixonar por outra. A contradição é que quando o homem trai e quer dar uma desculpa à mulher, ele diz: "Foi só sexo". Mas se ela dissesse o mesmo sobre uma relação extra conjugal, seria uma tragédia para o marido.

Como o amor, o ciúme também é universal.

Veja - Ainda se morre de amor?

Ailton - Morre-se. Estudos mostram que em casos extremos de desilusão amorosa, a pessoa torna-se anoréxica e enfraquecida, transformando-se em alvo fácil para doenças.

Veja - O que é mais difícil: separar-se ou unir-se?

Ailton - Separar-se. Uma separação costuma causar mais transtornos emocionais do que a morte de um parente ou de um amigo. Um dos motivos pelos quais um casamento dura é porque não é fácil separar-se. Para atenuar o trauma da separação, uma das táticas mais utilizadas - e legítimas - é

demonizar o outro. Mais tarde, quando as coisas se acalmam, esse julgamento em geral é revisto.

Veja - Como estudioso do relacionamento amoroso, o senhor ainda consegue ser romântico?

Ailton - Eu gosto do amor. Estudá-lo permite que eu possa usufruir de seus encantos. Não existe nada mais bonito do que o amor. Juro por Deus.

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