EM LOUVOR À INUTILIDADE
Rubem Alves
Lá em Minas era assim que se valorizava o marido:
- "O Onofre é assim caladão, desengonçado e sem jeito, mas marido melhor não pode haver. É sem defeito. Bom demais: não deixa faltar nada em casa..."
Por sua vez, as mães, sagazes, sabiam que um casamento duradouro depende de utilidade das esposas.
Como a expressão "esposa útil" não fica bem, substituíram-na por "esposa prendada".
Sabedoria das mães sagazes: esposa prendada, casamento duradouro, mãe viúva obrigada.
Preparavam suas filhas para o casamento transformando-as em ferramentas-complementos de panelas, agulhas e vassouras.
Cozinhar, varrer, costurar: esses eram os saberes necessários à formação de uma mulher útil, aliás, prendada.
Nunca ouvi falar, não conheço, ignoro qualquer esforço no sentido de desenvolver nos homens e nas mulheres os seus potenciais.
O que se procura é um cavalo marchador, que não se espante com o mal tempo, que fique amarrado no pau espantando moscas com o rabo; muito mais útil que um cavalo selvagem, maravilhoso, mas impossível de se montar.
Simetricamente, uma mulher submissa, caseira, trabalhadora, vale mais que uma mulher com idéias próprias, que voa para lugares não sabidos.
Tem um título das Sagradas Escrituras, no livro de provérbios, onde se encontra a mais fantástica ficção sobre a mulher virtuosa que eu jamais vi.
Aquilo não é uma mulher; é uma máquina, Mulher faz-tudo de um marido faz-nada.
Porque não sobra nada para ele fazer.
A descrição é tão doida que a única explicação que tenho para tal colar impossível de virtudes é que o autor devia estar fazendo brincadeira, gozação amorosa com sua mulherzinha.
Quando o valor das coisas está na utilidade, no momento em que deixam de ser úteis, são jogadas fora.