DA RELAÇÃO E DA MESMICE

Walmor Urban

 

Pessoas há que consideram a relação homem-mulher, estabelecida em uma união, fadada à mesmice.

Assim acreditando, tais pessoas entendem que, qualquer que seja o grau de dedicação dos envolvidos, o caminho inexorável das relações é a apatia.

Discordo.

O primeiro pressuposto que entendo como básico para que se possa haver o estabelecimento de uma relação, é a aceitação incondicional do outro e que só a ele cabe definir os caminhos pelos quais pretende trilhar sua vida.

Tenho, a partir daí, duas alternativas: afastar-me, ou aproximar-me, do outro.

O que vai definir minha decisão pelo afastamento ou aproximação é, sob certo aspecto, relativamente simples: se percebo que a proximidade de determinada pessoa estabelece em mim sentimentos e sensações não agradáveis, para os quais não estou disponível, afasto-me. Se ocorre o inverso, tendo a optar pela aproximação.

Criam-se assim as condições para o estabelecimento do segundo pressuposto relacional, qual seja, o acolhimento mútuo.

Isso quer dizer que, aceitando nossas diferenças, colocamo-nos abertos à pesquisa das maneiras palas quais tais diferenças possam contribuir para o crescimento da cada um como pessoa.

Isso não é tão simples como possa parecer. Pressupõe que ambos se disponham à busca dos porquês de nossas reações: "o porquê sinto o que sinto, da forma como sinto".

De forma resumida, esse segundo pressuposto está ligado à disposição de ambos para a busca.

Será essa busca a origem do terceiro pressuposto, já que, invariavelmente, ela vai nos colocar no cainho do confronto com fantasmas internos que, nem sempre, e nem todos, estamos dispostos a enfrentar.

Teimamos em qualificar o outro como eterno responsável por aquilo que sentimos.

Em termos do dia-a-dia relacional, esse terceiro pressuposto traz consigo o conceito de que minhas emoções dizem respeito apenas a mim: não posso apontar o outro como responsável pelo que sinto.

Ele opera apenas como vetor das emoções que já moram em mim. Ele apenas as faz aflorar, de forma que, flagrados possam , meus fantasmas e fadas, possibilitarem a visão que permitirá o mergulho dentro de mim.

Verifica-se então o que chamaria de "mergulho" da relação: cada novo confronto traz em si uma nova descoberta que solidifica a relação, possibilitando a estruturação de um "cavar mais profundo".

Passa a ser intensa, então, a gratificação pessoal pela constatação de nosso próprio crescimento e o observado no outro.

Como resultado tem-se uma relação viva, uma relação que se realimenta continuamente.

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