CONJUGAL
Rubem Alves
Li muitas vezes o poema de Drummond "As sem razões do amor".
A leitura é mansa , fácil como uma carícia.
Eis as palavras do poeta:
"O amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca
não se conjuga..."
"Não se conjuga". Esse "conjuga" me incomodou. É claro que amor não se conjuga. O poeta estava dizendo o óbvio.
Perturbado por essa obviedade, suspeitei que houvesse algo mais, pois na poesia, o óbvio é sempre disfarce: há nele alguma coisa escondida.
Tratei então de investigar. Em primeiro lugar me perguntei o sentido de "conjugar".
Consultei a etmologia, e descobri que "conjugar" vem do latim con + jugum.
Jugum quer dizer "canga". Conjugar é obrigar algo a se submeter a uma canga.
"Canga", como todo mundo sabe, é uma trava horizontal de madeira que se coloca sobre o pescoço dos bois.
Graças às cangas os bois puxam os carros. Sem a canga cada boi iria numa direção diferente e seria impossível controlar o carro.
Boi em canga não faz nada errado. É inútil fazer planos de sair correndo pelo mato, porque não é possível.
Sob a canga o boi fica a mercê do carreiro e de seu ferrão. Como diria Dante: "Deixai toda esperança, vós, bois sob canga".
Depois vi a palavra jugulare, de onde vem "jugular", derivada da mesma raiz jugum.
Jugulare, em latim, tem o sentido sinistro de "degolar", "cortar a garganta".
Descobri então - e foi isso que me assustou - que "conjugal" vem da mesma raiz.
Quem diria que uma palavra tão bonita, tão amorosa - leito conjugal, laços conjugais - tem a ver com a canga.
"Conjugal", em ultima análise, quer dizer "aqueles que estão controlados pela canga".
Deus me livre.
Fiquei horrorizado com esta possibilidade, razão porque venho solicitar das autoridades competentes que seja proibido o uso da palavra "conjugal" para se referir à condição de casado.
Temo, entretanto, que esta palavra tenha sido escolhida exatamente para caracterizar a indissolubilidade do casamento.
De fato , sob a canga, ou seja, conjugalmente, os casamento são indissolúveis. Não conheço nenhum boi que tenha conseguido quebrar o jugo.