AS CRIANÇAS DO DIVÓRCIO

Contardo Calligaris

 

 Com a facilidade do divórcio, surgiu a pergunta: como as crianças serão afetadas por esta experiência.

A psicologia produziu uma série de afirmações apressadas. Assegurou que seria muito melhor para os filhos lidar com a separação dos pais que assistir às brigas freqüentes e à sua constante infelicidade.

Acrescentou que, por mais que fosse doloroso, o divórcio, para a criança, seria uma crise passageira.

Entretanto, pesquisas mais recentes demonstram que, para as crianças, o divórcio não é uma crise passageira, mas acarreta conseqüência que influi sobre a vida adulta.

Que as crianças são mais felizes com uma família que se mantenha unida, mesmo que seja de briga em briga.

Que o divórcio é causador de seqüelas, desde depressões severas até dificuldades tardias na vida sentimental e amorosa.

Ora, podemos perguntar entretanto: "Será que os pais não têm direito de serem um pouco felizes?"

Os pais que se divorciam transmitem essa opção a seus filhos, que se tornam, assim, defensores da nova disposição subjetiva, assim resumida: o que importa é se dar bem.

A mudança em questão explica a estranha conduta dos jovens, primeira geração do divórcio.

São pessoas cuja única obrigação institucional é procurar sua felicidade individual.

Muitas vezes nos queixamos porque nossos rebentos se engajam tão pouco em causas nobres, se drogam tanto, tentam prosperar sem suar a camisa e outros lugares comuns.

De fato, os ditos rebentos respondem ao que lhes foi transmitido quando decidimos que nosso anseio de felicidade não deve recuar nem mesmo por eles.

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