APRENDENDO A "SÓ SER"
Regina M. Azevedo
Ecoa na minha cabeça a voz vibrante de Alceu Valença cantando o refrão: "A solidão é fera, a solidão devora/ É amiga da noite, prima-irmã do tempo/ E faz nossos relógios caminharem lentos/ Causando descompasso no meu coração..."
De fato, quando se está desesperadamente só, o tempo custa a passar.
As noites são intermináveis e em geral velamos por elas como se, ao encará-las, acelerássemos o relógio, trazendo a luz do novo dia e renovando as esperanças.
Dor de solidão é visceral porque nenhum sentimento é experimentado tão intimamente.
Medo, raiva, amor, alegria quase sempre são exteriorizados e compartilhados.
Abandono, impotência e amargura ficam corroendo os solitários, arrastando-os ao fundo do poço como uma âncora da qual não se pode libertar.
Que caminhos nos conduzem à solidão?
Em muitos casos, "estar sozinho" não é sinônimo de "ser solitário".
E há muita gente que experimenta a contragosto este sentimento, mesmo estando acompanhada...
Há dois tipos básico de solidão:
O primeiro é fruto de carências e do sentimento de abandono desenvolvido na infância, que reflete a história pessoal do indivíduo, o modelo de mundo criado a partir das experiências do seu passado.
O segundo é resultante de um processo de diferenciação do ser humano: quanto mais elevado o seu nível de consciência e compreensão, maior a dificuldade de encontrar interlocutores para partilhar idéias e expectativas.
Apesar de todos os seus conhecimentos, esse indivíduo se vê, aos poucos,, "falando com as paredes" e vai se fechando.
Pode chegar ao extremo de tentar refrear seu desenvolvimento ou até mesmo regredir, para novamente se integrar à massa dos "simples mortais".
Tentativas assim, em geral, resultam inúteis.
Esse tipo de solitário precisa entender que pessoas diferenciadas existem em menor número mesmo.
O remédio é persistir na procura e fluir com o tempo...
Anos atrás experimentei o amargo sabor da solidão. Depois de uma separação, na minha imaturidade, direcionei muita energia na busca "do homem dos meus sonhos", sem o qual me sentia completamente só.
Minha solidão era a do "tipo 2": difícil de encontrar alguém que falasse meu idioma ( "gente comum" parece pouco se interessar por desenvolvimento do próprio potencial, terapias alternativas, metafísica e outros quesitos tais).
Cruzei com todo tipo de pessoas e experimentei várias estratégias, desde técnicas mentais a atitudes físicas de "sair e badalar".
Foi um tempo de caos interior.
Depois de tudo revirado, acordei e fui, aos poucos, edificando um novo eu.
Estabeleci diretrizes realizáveis e me ocupei de proporcionar mais lazer e prazer a mim mesma.
Dediquei-me à música e à introspecção através de meditação e da prática de tai chi chuan.
Mudei de refrão, graças à sacada genial de Gilberto Gil: descobri que em vez do "preciso aprender a ser só" é possível cantar "preciso aprender a só ser".
A ansiedade foi dando lugar à satisfação pessoal e finalmente consegui ficar em paz, sem o assédio dos fantasmas do passado.
Afinal, como diz a sabedoria popular, antes só do que mal acompanhada...