SERÁ QUE TENHO RAZÃO ?

( Artur da Távola )

Quero falar em favor de certas formas subjetivas de amar, não refletidas em gestos nem em sacrifícios.

Aquele silêncio, por exemplo.

Aquele silêncio que machuca o outro, que nos queria alegres, faladores, contando as peripécias da vida.

E, no entanto, cheios de coisas para contar, nada sai de nossa boca.

Parece um tremendo desamor. Mas será que dá para entender que há ou pode haver uma forma especial de amor naquele silêncio?

Eis a tradução do silêncio: "Eu a amo tanto, que a você posso entregar o meu cansaço, o meu silêncio, a minha vontade de ficar calado, de nada falar. Estou aqui a seu lado como quem pede socorro em silêncio, na suposição e esperança de que ninguém vai exigir que eu fale, me defenda, seja brilhante, etc. Estou aqui com você com meu silêncio, o meu cansaço e o meu egoísmo, exatamente porque sei que você os saberá entender".

Com quem nos ama , devemos nos sentir à vontade para exercer impulsos menores, desprezíveis, primários.

Injusto? Quem nos ama, por suas carências e necessidades, talvez seja quem mais precise de nosso gesto, afeto ou palavra. Ao agirmos assim talvez estejamos nos esquecendo das suas necessidades.

Mas se ela for do mesmo estilo ( mais sentimento do que gestos ), vai nos entender.

Se não for do mesmo estilo, acabará em cobrança, porque vai querer receber da mesma forma que doa ( gestos ). E não recebe.

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