PIOR QUE A PAIXÃO

Rubem Alves

Quando eu era adolescente fiquei apaixonado.

Foi uma paixão furiosa que se dividiu em quatro fases distintas:

A primeira fase:

A dor da paixão solitária, não correspondida.

A segunda fase:

A felicidade incomparável ao perceber que ela também me amava.

Esse foi o início de uma felicidade acima da compreensão. Felicidade maior impossível. Uma loucura, uma loucura feliz.

Terceira fase:

Começaram os ciúmes dela.

Não existe coisa mais inevitável entre namorados e amantes. Porque ciúme é a consciência de que o ser amado é livre e, portanto, podemos perdê-lo. Por isso, quem ama, tem ciúmes.

O amor é pássaro que não vive em gaiolas. Basta engaiolá-lo para que ele morra. Ter ciúme é reconhecer a liberdade do amor.

Tolos aqueles que pensam que o ciúme revela falta de confiança.

Posso ter absoluta confiança na pessoa amada. Mas não posso confiar no amor. Não é possível confiar na eternidade do amor.

"Que não seja eterno, posto que é chama..." Só se pode ter certeza da eternidade se não for amor.

Somente os pássaros engaiolados são dignos de confiança. Somente os pássaros engaiolados não fogem.

Há amantes que só conseguem se relacionar tranqüilamente com a pessoa amada quando sabem que ela é um pássaro sem asas. Amor feliz: o pássaro nunca voará. Morrerá em suas mãos.

Por isso há crimes de amor, por mais que isso possa parecer paradoxal: mata-se a pessoa amada para possuí-la eternamente.

Porque, se ela continuar viva, é sempre possível que ela bata asas e vá para um outro.

O problema do ciúme é quando a tristeza, natural e justa, ante a possibilidade permanente da perda do ser amado, transforma-se em ato para impedir que isto aconteça.

Aí o amante transforma-se em carcereiro e o amor transforma-se na perda da liberdade.

Foi isso que aconteceu comigo. Minha vida transformou-se num inferno.

Há namorados que, quando passeiam, vêem o mar, os jardins, as flores. Ela não via nada.

Nos meus olhos só via as outras. Passou a vigiar os meus olhos, os meus gestos, as minhas palavras, o meu tempo.

Mas eu continuava a amá-la, a despeito de perceber sua vocação de carcereira.

Por muito tempo aceitei conviver com a paixão e a prisão.

Mas há um momento que isso se torna insuportável. O desejo da liberdade é mais forte que a paixão. Pássaro, eu não podia amar quem me cortava as asas.

A Quarta fase:

A conclusão dilacerante: o amor do momento não vale o inferno da vida toda.

E assim, pedaço arrancado de mim, lágrimas correndo, pus fim ao namoro.

Sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu ficaria curado. Mas naquele momento a dor era insuportável. Mesmo porque eu não queria ficar curado do amor.

Não, não era possível evitar a dor. Não é possível por fim a um grande a mor sem dor.

Mas fiz bem em terminar aquele namoro, a despeito do sofrimento.

Espero que todos os que tem têm casos de amor semelhantes, consigam dizer adeus ao seu objeto de amor.

Há coisas bonitas demais na vida para se deixar de vivê-las.

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