O EXORCISTA DO AMOR
Entrevista com Jacob Goldberg
O professor Jacob Goldberg, 62 anos, PhD em psicologia, com uma racionalidade desconcertante, desmonta a teoria de que, para ser feliz, o ser humano precisa dessa emoção chamada amor.
Para ele, a idealização do amor é um resquício medieval que atrapalha as relações e é até capaz de desfazê-los.
Analista de comportamento, Goldberg acredita que a realidade de hoje não se coaduna com as aspirações românticas mantidas por homens e mulheres.
Segundo ele "a ilusão esbarra na brutalidade do real do mundo de hoje, e a desilusão é inevitável".
ISTO É: O mais importante num casamento é o amor?
Jacob Goldberg: Isso é uma asneira. Talvez seja o principal obstáculo para que se consolide uma relação. Essa noção de amor, por ser exagerada, onipotente, acaba sendo cruel.
I.É.: A idéia de um amor único e eterno ainda é muito forte?
J.G.: Extremamente. A idéia do amor ideal continua. Amor sacralizado. E muita mentira em torno dele.
Você pode falar contra Deus, mas se disser que o amor é um sentimento chato, por exemplo, dirão que você está blasfemando.
Ora, as relações humanas são muito complicadas. Levam em conta interesses, conveniência, preconceitos, oportunismos.
O amor ideal é talvez uma das últimas fronteiras do machismo. Quando isto terminar, por exemplo, terminam os assassinatos em nome desse amor.
Na cama estão sempre quatro pessoas: duas de carne e osso, com problemas diários, fragilidades, medos, e os outros dois seres maravilhosos com os quais os seres reais tentam transacionar.
I.É.: O que fazer com estes dois "seres"?
J.G.: Eles têm de ser expurgados. São os grandes obstáculos para que aqueles dois seres reais se encontrem.
I.É.: Qual é o amor possível então?
J.G.: É o jogo de afinidade. A minha proposta é reduzir o outro a um ser humano qualquer.
Alguém com quem você se dá bem sexualmente ou não. O que se tem à mão. Não é tão perfeito, tão sensacional. Mas você também não é tão lindo, tão magnânimo, tão bom. É o que é.
I.É.: Significa parar de procurar alguém especial?
J.G.: As pessoas procuram a outra parte da maçã. Nós não somos maçã e não temos a outra metade. Não temos a chamada alma gêmea. Temos pessoas que nos ajudam a viver razoavelmente.
I.É.: Assim as exigências mútuas diminuiriam?
J.G.: Adequar-se à realidade diminui a tensão. Não é preciso estar o tempo todo apaixonado pelo seu par. Muitas vezes você sente indiferença ou até mesmo pode odiá-lo e isto é normal. Ninguém pode ser feliz o tempo todo.
I.É.: O que há de mal na fantasia se ela faz parte do ser humano?
J.G.: Ela é benéfica desde que não ocupe o espaço do real. Se uma mulher quer substituir seu marido, com quem tem filhos, com quem se dá bem, com quem atinge o orgasmo, por aquele de sua fantasia, a fantasia é prejudicial.
I.É.: A vida seria então melhor sem amor?
J.G.: Seria mais consoante com o ritmo moderno. Hoje as pessoas não têm tempo para essa chatice do amor. O mundo contemporâneo tem muitos estímulos. O amor acaba sobrando para os medíocres.
I.É.: O senhor imagina que possa haver algumas regras para manter um casamento?
J.G.: A manutenção de um casamento exige habilidade e competência. Está na ciência do comportamento e na arte do respeito pelo par. Não é possível uma boa convivência, sem se dedicar á relação um esforço e uma parte de sua inteligência.
I.É.: É possível estabelecer uma fronteira entre um bom casamento e a fatídica acomodação?
J.G.: Alguns sonhadores acham a acomodação prejudicial. Acomodar faz parte de nossa existência assim como movimentar-se.
A movimentação passou a ser vista como uma função necessária e a acomodação como uma função prejudicial.
Nós temos a vontade, a necessidade e o direito de nos acomodar. É um absurdo fazer da vida um inferno de exigências de transformações permanentes.
I.É.: Mas o senhor não concorda que há um ranço ruim na acomodação?
J.G.: As pessoas se acomodam por suas limitações e precisam ser respeitadas por isso. Exigir de alguém mudanças além de suas possibilidades é crueldade.
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