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 EFEITOS DA VIOLÊNCIA ASSISTIDA OU NARRADA EM CRIANÇAS

 por Cláudia Maria de Morais Souza (retirado da página psicopedagogia online)

A idéia deste texto surgiu a partir de uma questão levantada por uma família, sendo que esta, por sua vez, teve sua origem na observação dos pais de como sua filha de cinco anos vinha se comportando diante de cenas de violência exibidas na TV ou narradas cotidianamente.

 

Como opinião comum tínhamos que, embora a exposição das crianças à violência não seja uma novidade, o elevado nível de informações a que se tem acesso atualmente pode tornar, proporcionalmente, incompreensível e insuportável o estado atual das coisas. A questão não era – como ainda não é – se os meios de comunicação devem ou não denunciar a violência, mas antes “como” reduzir os efeitos nocivos e perturbadores de imagens ou acontecimentos narrados nas crianças sem, contudo, perder uma dimensão crítica e cidadã acerca do mundo em que vivem.

 

Se os aparelhos de TV podem ser simplesmente desligados, como professam alguns produtores ou diretores de filmes argumentando que caberia às famílias selecionar o conteúdo a ser assistido pelas crianças, sabíamos perfeitamente que a violência está impregnada, de uma forma ou de outra (explícita ou sutilmente) em quase toda a programação normal dos canais abertos e na maioria dos canais pagos, sendo que cenas notadamente violentas são, com freqüência, inesperadas. Além disso, como a violência passou a fazer parte do pensamento – e dos fantasmas diários – do cidadão comum, especialmente nos últimos dez anos, em que as autoridades vêm perdendo gradativamente o controle da situação (vivemos em plena época das “Invasões Bárbaras”), falar sobre ela passou a ser comum entre adultos e, como conseqüência, também entre crianças. Estas, misturadas que estão ao universo daqueles em função da diminuição das famílias e das moradias, acabam tendo contato direto com informações de toda ordem, muitas das quais não estão cognitivamente preparadas para assimilar devidamente, incluindo, neste rol, a maioria das situações envolvendo violência.

 

É certo que crianças não elaboram o que assistem ou ouvem da mesma forma que adultos, já que possuem um sistema de referência totalmente diverso. Isto pode fazer com que, na tentativa de compreender o mundo que as circunda, deformem a realidade assistida ou ouvida, ou mesmo que não consigam estabelecer claramente os limites entre sua própria realidade e a realidade exterior, o que provoca com freqüência uma sensação difusa de insegurança e mal-estar, ou o que é pior, atitudes de imitação direta.

 

O cientista político Marco Piccione  destaca dois pontos importantes para esta reflexão:

 

1.       EXPERIÊNCIA: nos países considerados “ocidentais”, o assunto tem sido exaustivamente discutido. Crianças sempre mais sedentárias e passivas, diante da TV, vídeo games, com espaços de brincadeiras sempre mais restritos, tendem a confundir a própria realidade com outras realidades. A ausência de bagagem de experiência adquirida através das atividades lúdicas genuínas torna perigosamente próxima uma realidade paralela – a da TV, cartoons, vídeo games... Vejo na TV os Power Rangers, salto sobre a mesa e lanço ao solo a minha irmãzinha, porque me falta a capacidade de compreender as conseqüências das minhas ações. Isto porque o corpo, a experiência através do corpo, é pouco vivida.

 

2.       IMPOTÊNCIA: o perigo e contemporaneamente a crescente vitória daqueles que consideram a violência instrumento/suporte indispensável às próprias idéias, mais que a emulação é provavelmente o costume, o hábito, a incapacidade de emocionar-se, sofrer, indignar-se, sentir piedade pela dor do outro, pela violência, note-se. (tradução pessoal da autora – ver nota) 

 

Nos dois itens acima, o autor deixa instigantes desdobramentos: em primeiro lugar, aparece a questão da virtualidade que caracteriza a vida contemporânea. As crianças modernas têm sido cada vez mais privadas de experiência genuína ativa, corpórea, o que faz com que suas sensações venham a se mesclar àquelas do que é citado como “realidade paralela”.  Desta forma, uma situação de violência que assistem ou ouvem narrar pode ser vivenciada emocionalmente como real, verdadeira, provocando o mesmo stress que provocaria caso fosse autêntica, sem, contudo, apresentar, junto a si, os dados materiais, as conseqüências factuais, os efeitos das ações sobre o meio, o que seria, segundo Piaget  , a base para suas construções conceituais.  Caso a criança tenha acesso a atividades lúdicas com freqüência, pelo contrário, esperar-se-ia que, através delas, tivesse oportunidade de elaborar, de acordo com seus próprios recursos, as situações assistidas ou ouvidas, sem necessariamente partir para uma imitação direta e inconseqüente. Isto porque a atividade lúdica traz a corporalidade, traz os efeitos, a resistência da matéria conjuntamente aos conteúdos, traumáticos ou não, que são colocados em jogo. Brincando, a criança seria capaz de elaborar imagens e/ou conteúdos num âmbito simbólico, inteligente e emocionalmente saudável. Através da História, temos diversos exemplos de como crianças conseguiram superar situações extremas através de representações simbólicas – lúdicas.

 

Outro ponto diz respeito aos valores da sociedade moderna, os quais atuariam como contexto a qualquer experiência vivida pelas crianças em relação à presença da violência, seja virtualmente ou não. Se, por um lado, o cidadão médio teme acima de tudo a violência – o que vem sendo registrado seguidamente em pesquisas de opinião pública – por outro, talvez até como mecanismo de defesa, temos assistido a uma banalização dela, o que tende a tornar-nos a todos insensíveis diante de quadros dantescos. A presença de ideologias justificando e incentivando o uso da violência para resolver quaisquer conflitos entre povos, facções, agrupamentos de toda ordem, o excesso de transmissões e notícias envolvendo violência na TV ou cinema, a forma quase irresponsável com que comentamos ocorrências policiais e a própria realidade social, tudo isso vai contribuindo a um estado de coisas em que prevalece “naturalmente” a lei do mais forte, o “olho por olho, dente por dente”. Nas guerras, a ênfase é colocada nas explosões, na fumaça, ou no vôo de mísseis pelo céu, à imagem de vídeo games. Quase nunca se questiona a dor, o sofrimento das populações envolvidas, nem se demonstra piedade por estes seres humanos. As crianças muitas vezes, ao assistirem a notícias sobre guerras – ou simples disputas de toda ordem - não levam em consideração estes aspectos e nunca são incentivadas a apiedar-se.

 

Situação comum às populações de classe média/alta é um notado crescimento da intolerância entre as pessoas, especificamente em relação às próprias crianças. Estas têm sido obrigadas a um estilo de vida totalmente diverso de sua natureza: confinamento, passividade, excesso de informações e compromissos, além de outras características da infância moderna fazem das crianças seres inquietos, angustiados e na maioria das vezes, especialmente os meninos, apresentam problemas com autoridade. Muitas vezes, os pais acabam perdendo a paciência e partindo para atitudes violentas com os filhos, seja de ordem emocional ou física. Neste contexto, as cenas de violência assistidas com freqüência, ou simplesmente ouvidas, adquirem uma conotação mais perniciosa.

 

Nas regiões de concentração de miséria – no Brasil as favelas e bairros pobres – a situação é ainda mais crítica, já que o contexto dessas crianças, com o qual convivem bem de perto, é o contexto da violência. As crianças pobres vivem cercadas de violência por todo lado, violência esta em seus mais diversos aspetos (moral, ético, material, familiar, etc, etc). A própria privação é violenta, fere, degenera. A violência é o contexto mais básico que elas têm a seu dispor. Os efeitos da violência assistida ou ouvida, neste contexto, seriam, para estas crianças, especificamente, quase devastadores.

 

O psicólogo Ives De La Taille  aponta o fato de que “é completamente diferente uma criança que vive num ambiente pacífico e bem estruturado lidar com cenas ou referências a violência de uma outra que passa a vida num ambiente cercado de violência por todos os lados. O que pode ser canalizado, sublimado e transformado para uma, para outra cairá fatalmente na roda viva da violência interminável”.

 

Feitas estas colocações, as quais esperamos possam servir de incentivo a outras reflexões, gostaríamos de finalizar com algumas orientações a pais e educadores para ajudar as crianças a lidar com a violência assistida ou narrada, as quais foram recortadas do site da UNICEF.

 

PARA AJUDAR AS CRIANÇAS A LIDAR COM A VIOLÊNCIA ASSISTIDA OU NARRADA

 

1.       Os adultos podem desempenhar um papel vital ao ajudar as crianças a perceber e a lidar com coisas que tenham ouvido. As crianças devem saber que não serão criticadas por dizerem “a coisa errada” ou o que elas pensam realmente.

 

2.       Não espere que seus filhos compreendam a violência da mesma maneira que os adultos. As crianças têm dificuldades em perceber as razões de algo ou as causas do sucedido, e por isso pode ser-lhes difícil distinguir entre ficção e realidade.

 

3.       Quando as crianças ouvem coisas assustadoras ou perturbadoras, com freqüência (mas nem sempre) elas contam-se isso umas às outras. Assim, esta situação pode levá-las a preocupar-se pela própria segurança ou a pensarem que o sucedido é culpa delas.

 

4.       As crianças servem-se das coisas que lhes aconteceram no passado para tentar compreender o que estão ouvindo no presente. Isso pode levá-las a combinar acontecimentos sem nexo: “X viaja em aviões, ele também explodiu?” Como também podem ligar a violência “de diversão” que vêem na televisão com a violência real.

 

5.       Tente utilizar aquilo que as crianças sabem e percebem ao decidir como lhes responder. Uma boa maneira para começar quando uma criança levanta um tema é perguntar o seguinte: “O que é que você já ouviu sobre isso?” E, no intuito de levantar a questão, tente perguntar: “Alguém ouviu algo sobre um acidente de avião? Falem-me sobre isso!”

 

6.       Responda às perguntas com serenidade e esclareça os equívocos que as preocupam ou que as perturbam, mas não tente contar-lhes tudo aquilo que você sabe sobre a notícia. Não se preocupe com as crianças que têm “as boas respostas” ou se todas elas não estão de acordo.

 

7.       Fique atento a qualquer sinal de stress nos seus filhos. Mudanças do comportamento normal, tais como atitudes regredidas, mais agressividade, transtornos do sono, medo de serem afastados e de lidarem com mudança, são todos sinais que indicam que a criança precisa da sua ajuda e do seu apoio.

 

8.       Tente reconhecer e apoiar os esforços feitos pela criança para compreender o que foi ouvido através do jogo, do desenho, da escrita e através de outras atividades lúdicas. Ao utilizar estes meios para lidar com os problemas, as crianças adquirem um sentido de domínio e de controle sobre a situação e finalmente chegam a perceber aquilo que têm ouvido ou o sucedido.

 

9.       Ajude as crianças a aprender a utilizar alternativas às lições de violência e de idéias preconcebidas acerca de outros povos e países que a notícia possa difundir. Fale sobre meios não-violentos para tratar dos conflitos que se vêem nas notícias. Chame-lhes a atenção para as boas experiências que elas tiveram com pessoas diferentes delas, como também os meios que estas pessoas utilizaram para solucionar os seus próprios problemas, sem fazer uso da violência.

 

10.     Tente limitar a quantidade de violência - que seja por diversão ou real - que seus filhos vêem nos meios de comunicação social, seja na televisão, nos filmes, nos vídeos e nos jogos de computador. Não se esqueça dos desenhos animados. Muitas vezes, desenhos considerados ingênuos podem conter mais situações de violência que outros programas.

Publicado em 03/05/2004 14:22:00

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