Minha
Porquinha
Schyrlei Pinheiro
Morava em um casarão, no subúrbio do Rio, com um terreno
grande, que nos permitia ter, além de árvores frutíferas uma
bela horta. Havia começado a trabalhar como telefonista em uma
firma de adubos e os clientes costumavam presentear-me com um
pouco de sua produção, fossem elas flores, legumes, doces,
queijos, ou bichinhos. Assim, comecei minha criação de patos e
galinhas. Meu maior drama era o de imaginar a hora do abate;
chegava a ter pesadelos. Matar os meus bichinhos? jamais.
Muitos morriam de velhos, com direito a lágrimas e enterro,
com cruz e flores. Lembro-me do xodó por uma galinha carijó,
esposa de um galo de briga, muito valente, que enfrentava até
o Bingo, meu cachorro vira-latas, que, sem vergonha nenhuma,
fugia do galo como o diabo da cruz. Feliz, via meu prazer
multiplicar-se e o desespero de minha mãe aumentar, quando era
servido no jantar um frango, e, lógico, sentia falta de um dos
meus pintos, filho legitimo da carijó, que pouco se importava
com o fato e seguia a vida, orgulhosa, cuidando da nova
ninhada.
Mas, o pior, ou melhor, ainda estava para acontecer.
As criticas ao meu insano comportamento já era conhecida por
todos, mas a surpresa aconteceu quando cheguei em casa com um
presente vivo, de aniversário; desta vez não era uma ave, ou
flores, era nada mais nada menos que uma porquinha, ainda
rosada, logo batizada com o nome de Brigite, criada, em
principio, na varanda, dormia ao lado de Bingo, meu cãozinho
vira-latas, e, com ele, aprendeu a ter livre acesso à sala.
Aos meu pés assistia, a contra gosto, indiferente, às
discussões, e a programas de televisão, onde não faltavam
observações de que ela seria devorada no Natal . Contrariada,
sentia a torcida de todos os vizinhos, que esperavam por tal
acontecimento, e, com uma certa ironia, colaboravam com
restos de comida, pois a minha porca era a uma grande atração.
Só bebia água corrente, não comia nada estragado, tomava banho
com sabonete, usava laço de fita e dormia em tapete, com
direito a ouvir o "boi-da-cara-preta" e receber cafuné.
Triste, não queria notar que ela crescia rápido e só por
isso concordei com a construção de um chiqueiro, meio
coberto. acimentado e cercado com madeira, mas, para quem
desconhecia que era uma porca e gozava de liberdade, não
podia suportar a solidão nem aceitar a prisão. Quando ouvia a
introdução de uma determinada novela, ela derrubava o
cercado e invadia a sala, e, sem cerimônia, dava um
espetáculo para a criançada, que corria no quintal atrás da
porca. Até que, Dezembro chegou ... e a minha Brigite...
sobreviveu, ficou vivinha da silva, mas, como toda história
tem que ter um fim, a minha porquinha foi morar em outra
freguesia, deixando comigo as lembranças de suas hilárias
aventuras. "Entrou por uma porta e saiu por outra, quem
quiser que conte outra".