Reportagem da revista
Scientific American

Um buscador nas praias
do desconhecido

Na ciência, na arte, na política,
Mário Schenberg procurou os
fundamentos da realidade

 

MÁRIO SCHENBERG: 
GRANDEZA INDISCUTÍVEL

     Nascido em Recife, Pernambuco, em 2 de julho de 1914; morto em São Paulo, no dia 10 de novembro de 1990; considerado um dos maiores cientistas do século XX.
  Físico, crítico de arte, militante político, ele deu contribuições decisivas à teoria da evolução estelar e impulsionou as artes plásticas e o ensino universitário no país.
   "Não se pode julgar a importância de um povo pelo produto bruto, pela renda per capita ou mesmo pelo nível tecnológico e científico. É preciso avaliar a sua capacidade de criação cultural radicalmente inovadora."
POR JOSÉ TADEU ARANTES

    Nascido num Brasil agrário, ele foi considerado por Einstein um dos dez físicos mais importantes do mundo. Sempre envolvido em altas especulações matemáticas, não deixou que a razão atrofiasse sua sensibilidade, destacando-se como um dos maiores críticos de arte do país. Intelectual histórico do Partido Comunista, soube manter a independência ideológica e antecipou temas polêmicos como os limites do progresso material, os perigos do uso indiscriminado da tecnologia e a necessidade de uma redescoberta dos valores espirituais. Mário Schenberg foi, assim, homem de sete instrumentos, espécie de versão contemporânea dos grandes gênios polivalentes do Renascimento.

    Um renascentista nascido abaixo da linha do Equador. Mais precisamente, em Recife, Pernambuco, Brasil, no dia 2 de julho de 1914. Foi catando mariscos nas praias pernambucanas que, ainda menino, começou a pensar em coisas como teoremas e equações. Para desfrutar de total solidão, ele as percorria muito cedo, sob as primeiras luzes do dia. Essa necessidade de introspecção solitária seria uma constante em sua vida, mesmo no auge da fama como cientista, crítico de arte e militante político, em meio ao turbilhão das viagens, congressos e encontros amorosos.
    
Mas suas duas maiores contribuições científicas resultariam de trabalhos a quatro mãos. Com o físico russo George Gamow (principal autor do modelo do Big Bang sobre a origem do Universo), Schenberg constatou que a emissão de neutrinos desempenha um papel decisivo na explosão das estrelas supernovas. Com o astrofísico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar (Prêmio Nobel de Física de 1983), demonstrou que o processo de fusão nuclear das estrelas sofre uma brusca intensificação quando a quantidade de hidrogênio queimada atinge 11% da massa total do astro. Juntas, essas duas descobertas constituem aportes de primeira magnitude à teoria da evolução estelar.
    
De sua parte, a estrela pessoal de Schenberg começou a brilhar no início dos anos 30. Estudante na Escola de Engenharia de Recife, ele jogou no bicho e ganhou cerca de um conto de réis. Com o dinheiro, comprou livros franceses de matemática superior. Logo suas demandas intelectuais transbordavam os horizontes da capital pernambucana. Em 1933, transferiu-se para a Escola Politécnica de São Paulo. Três anos mais tarde, recém-formado, viajou para a Itália, integrando-se à equipe de Enrico Fermi (Prêmio Nobel de Física de 1938). Em Roma, demonstrou que os raios cósmicos não eram formados exclusivamente por elétrons e fótons, como se pensava na época. Compunham-se também de outros tipos de partículas. Sem os modernos recursos computacionais, armado apenas da velha régua de cálculo, engalfinhou-se num corpo a corpo com as complicadas equações associadas à multiplicação dos raios cósmicos na atmosfera. E saiu vitorioso.

Refazendo os cálculos de Gamow, ele percebeu que a energia subtraída às estrelas pela emissão de neutrinos era responsável pela explosão das supernovas

A escalada do nazi-fascismo e a rápida  deterioração do cenário político europeu  desaconselhavam, porém, sua permanência em  território italiano. Rompendo o sigilo que   habitualmente antecede a outorga do Prêmio  Nobel, o grande físico dinamarquês Niels Bohr comunicou a Fermi que ele seria o premiado de 1938 e devia aproveitar a oportunidade da viagem à Suécia para abandonar a Itália. Foi o que Fermi fez: de Estocolmo, voou direto para os Estados Unidos, onde Bohr movera vários peões para conseguir-lhe asilo. Quanto a Schenberg, passou um rápido período trabalhando com Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física de 1945) em Zurique, Suíça, e outro com Frédéric Joliot Curie (Prêmio Nobel de Química de 1935) em Paris, França, antes de voltar ao Brasil.
    
Essa breve estadia francesa não foi importante apenas do ponto de vista científico. Em Chartres, o brasileiro sofreu o impacto estético e espiritual da arquitetura gótica. "Lembro-me de minhas reações na catedral", afirmaria anos mais tarde. "As pessoas com quem lá estive ficaram espantadas com minha atividade corporal, pois eu subia e descia das torres fora do meu modo habitual. Disse-lhes que algo me impulsionava. Podia ser a beleza, mas também que a força telúrica do lugar estivesse mexendo comigo, me deixando tomado." Acontecimentos como este foram freqüentes na vida do físico e ajudaram a moldar sua desafiadora visão de mundo.
    
Nem bem chegou ao Brasil, já estava de partida para os Estados Unidos, onde o aguardava uma bolsa de pesquisa na Universidade George Washington. Lá encontrou Gamow, que imediatamente lhe deu para ler um artigo sobre as supernovas, essas estrelas que, ao explodirem, brilham com a intensidade de toda uma galáxia. O russo montara um modelo teórico para explicar o fenômeno. Mas havia alguma coisa errada no balanço energético. O jovem Schenberg não precisou de mais de dois dias para descobrir a falha. "Está faltando o neutrino", disse a Gamow, que levou as mãos à cabeça.
Fermi, Chandrasekhar e Gamow (da esquerda para a direita e de cima para baixo): três gênios da ciência, com os quais Schenberg trabalhou e interagiu intensamente.
   
Hoje é fácil dizer "está faltando o neutrino". Porém, na época, ninguém levava o neutrino a sério. Essa partícula exótica, sem carga elétrica, fora postulada teoricamente por Pauli, para explicar uma aparente anomalia no processo da física nuclear conhecido como radiação beta. Mas sua existência ainda não havia sido comprovada experimentalmente. E era desacreditada pelos céticos. Schenberg, porém, estava sempre um passo adiante. Ele agarrara o conceito de neutrino desde a primeira vez que o ouvira, numa palestra proferida por Fermi em São Paulo, no ano de 1934.

Refazendo os cálculos de Gamow, percebeu que a energia subtraída às estrelas pela emissão dessas partículas era responsável pelo colapso gravitacional que causava a explosão. Piadista inveterado, Gamow logo batizou o fenômeno com o nome de "Processo Urca", numa referência ao famoso cassino do Rio de Janeiro, que ele visitara anos antes em companhia de Schenberg. Pois a emissão de neutrinos
depauperava as estrelas de maneira tão sub-reptícia quanto o cassino fazia com seus apostadores.
    
A idéia de Schenberg era revolucionária. Tanto que o artigo escrito por ele e Gamow sobre o assunto levou cerca de 20 anos para ser aceito pela comunidade científica. Em 1987, na explosão de uma supernova na Nuvem de Magalhães, os neutrinos associados ao processo foram detectados pela primeira vez. Mas, para Schenberg, essa confirmação observacional veio tarde demais: vitimado pela doença de Alzheimer, ele já não tinha condições de saborear o fato em toda a sua amplitude. No início da década de 40, porém, sua vitalidade estava no auge. O artigo com Gamow foi publicado em 1941. Na seqüência, Schenberg transferiu-se para a célebre Universidade de Princeton, com o intuito de trabalhar com Chandrasekhar.
    
Com a Europa destroçada pela guerra, Princeton tornara-se a Meca da ciência mundial. Lá estavam Albert Einstein e Wolfgang Pauli, os físicos Richard Feynman e John Wheeler, o astrofísico Henry Norris Russel e o matemático Johann Von Neumann, para citar apenas os mais graúdos. Nada mal para uma mente cosmopolita como a de Schenberg. Ela parecia definitivamente talhado para pensar grande e tratar seus interlocutores de igual para igual, fossem eles gênios científicos como Einstein e Gamow, ou gênios artísticos como Picasso e Chagall.
   
Em parceria com Chandrasekhar, demonstrou que 90% da vida das estrelas é pautada por uma estável e constante transformação de hidrogênio em hélio. No Sol, uma estrela relativamente pequena, a taxa de conversão de um elemento em outro é de 4 milhões de toneladas por segundo, gerando temperaturas da ordem de 15 milhões de graus. Quando o montante de hidrogênio queimado alcança 11% da massa total de estrela, porém, ocorre uma súbita intensificação do processo. Esse valor crítico, válido para todas as estrelas, independentemente da massa, é chamado pelos astrofísicos de "limite de Schenberg-Chandrasekhar". Ele deverá ser atingido no Sol daqui a 5 bilhões de anos, provocando uma violenta expansão do volume do astro, que engolirá todos os planetas mais próximos.
    
Ao contrário do que ocorre com as estrelas, na vida dos cientistas o grosso do combustível intelectual é queimado na juventude. Para Schenberg, o trabalho com Chandrasekhar foi o coroamento dessa etapa turbulenta. Seguiu-se uma sóbria, mas nem por isso improdutiva maturidade. Além da astrofísica, a estadia nos Estados Unidos proporcionara-lhe um profundo e fecundo contato com as artes e filosofias orientais. Pauli, em especial, apresentou-lhe os conceitos de yin e yang, os princípios arquetípicos "feminino" e "masculino" que, segundo os antigos chineses, regem todos os fenômenos do Universo. De volta ao Brasil - depois de um segundo período europeu, passado na Universidade Livre de Bruxelas, entre 1948 e 1953 -, ele recorreria tanto à dialética de Hegel quanto à de Lao Tsé em sua atividade como físico, crítico de arte e militante político.
Contra a opinião de muitos brasileiros, ele intuiu que as tecnologias do futuro não estavam ligadas à energia nuclear, mas à eletrônica e à informática
   
Foi, em todas essas áreas, um pensador criativo e original, avesso aos dogmas e sectarismos, bitolas estreitas e camisas-de-força. Enquanto muitos brasileiros apostavam o próprio pescoço na energia nuclear, ele percebeu que o futuro estava vinculado à eletrônica e à informática. E travou uma batalha solitária para que a Universidade de São Paulo criasse um laboratório de física do estado sólido, introduzisse as disciplinas de cálculo e computação no currículo e adquirisse seu primeiro computador.
    
Seus três últimos trabalhos em física teórica são um monumento à ousadia e à elegância intelectual. O primeiro - uma interpretação da carga elétrica como manifestação da estrutura topológica do espaço-tempo - foi apresentado na Conferência de Quioto de 1965. Schenberg desenvolveu essa hipótese nas condições mais adversas que se possa imaginar: com prisão preventiva decretada pela ditadura militar brasileira, só conseguiu embarcar para o Japão devido à mobilização da opinião pública e escreveu seu artigo durante o vôo. Os dois últimos - elaborados ao longo dos anos 70, quando ele se encontrava compulsoriamente afastado da universidade devido a suas convicções políticas - foram nada menos do que a tentativa de construir uma teoria unificada da gravitação e do eletromagnetismo. O tema, como se sabe, foi a grande obsessão de Einstein em sua maturidade. Mas Schenberg o abordou pelo lado oposto: não a partir da gravitação, mas do eletromagnetismo.
    
Ele estava convencido de que o eletromagnetismo representava um nível mais fundamental de realidade - tanto porque todos os processos de observação da natureza pareciam envolver fenômenos eletromagnéticos (como a reflexão da luz, por exemplo) quanto porque o formalismo da teoria eletromagnética parecia ser mais simples do que o da teoria gravitacional. Esses fatos afiguravam-se-lhe significativos demais para serem encarados como meras coincidências. Buscador incansável, ele continuava, no ocaso de sua vida, à procura dos fundamentos matemáticos do mundo material: um menino pensando em teoremas e equações na praia deserta.

 

voltar

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1