Esse episódio que hei de narrar ainda vive em mim, seja como uma ferida mal cicatrizada, ou um tumor que se alastra em minha alma. Entendam como queiram, porém, espero que julgamentos precipitados não sejam feitos. Antecipo de antemão que esta confissão não é para qualquer um. A descrição crua dos fatos e da minha vida emocional pode causar efeitos desastrosos e irreversíveis num espírito fraco. Àqueles que prezam pela estabilidade emocional, não recomendo a leitura. Apesar disso, não é minha intenção, de modo algum, ferir o leitor, embora seja bem possível que isto aconteça. Meu objetivo é aliviar o peso de minha consciência bem como apresentar uma forma de encarar a vida. Se o nojo te invadir, lembre-se que eu efetivamente vivi cada dor, senti cada fato.
Em minha
juventude, avidez e ânsia me dominavam. Uma fome voraz de saber, de poder e de
mulher, me impulsionava. Nesta época, em que
já não se é mais uma criança frágil e, no entanto, ainda não se é um
adulto acorrentado pela dura responsabilidade, a imaginação e o desejo
exploravam incessantemente minha alma, buscando seus limites. Percorriam desde
os lugares sonhados de infinita beleza até o mais profundo abismo do horror e
do pesadelo. Para que chegasse mais longe, não descartava de todas as formas de
alterar a consciência que conseguia conceber: alucinógenos, excitantes, drogas
em geral, meditação, jejum, abstinência do sono e a discussão.
O diálogo era a
maneira mais eficaz para ir ao fundo do abismo do ser. Contudo, o diálogo deve
ser feito com alguém do mesmo nível de inteligência e coragem. Em especial,
travava com um amigo que, a fim de evitar constrangimento, chamarei de K. Por
dificuldades econômicas, dividíamos um apartamento no centro da cidade em
pequeno edifício velho.
K
era senhor de uma inteligência aguda, voraz, insaciável, sempre pronta a
colocar em xeque o adversário. Seus movimentos eram frios e calculados, não
demonstravam a mínima exaltação do humor. Sua postura, invariável. Suas feições
e seu tom de voz demonstravam uma
certa cordialidade, embora falsa: não era natural e não passava de superfície,
mas sim de um artifício usado principalmente para encantar e causar uma boa
impressão. Talvez, o único sinal de uma exaltação interior provinha de sua
garganta. Sua garganta expelia, como que do inferno, uma risada aguda e
escarninha, capaz de invadir as entranhas sem a menor licença, sacudindo cada
fibra, e, por fim, despertando o ódio pela sua natureza e a vontade de destroçar
o seu dono. Raro era o encontro dos olhares, fitávamos o nada, pois o olhar é
carregado de sensualidade e dispersão. As noites de conversas trilhavam os mais
inusitados, insólitos e perigosos caminhos, onde a loucura espera
silenciosamente o deslizar da razão. Até que ponto uma alma tem estômago para
digerir o bizarro, o estranho, o duvidoso? E finalmente perceber que aquilo nos
separa da insanidade nada mais é que uma membrana úmida.
Em nossos diálogos,
as palavras eram lançadas cuidadosamente, como peças de um jogo de xadrez,
onde o mínimo erro transformava-se em ruídos impregnados de lógica
emitidos por sua boca denunciativa que, quando terminado o serviço inquisidor,
grunhia aquela risada insuportável. Sem dúvida, a relação era de guerra e
amizade, sim, uma verdadeira amizade que não poderia existir sem uma verdadeira
guerra. Essa situação de constante batalha, ainda que para muitos pareça
estranho e incompreensível, era-nos fundamental. Era por meio do gládio que a
existência sangraria, tornando-a, desta forma, mais apta à dor e ao
sofrimento. E é justamente esta aptidão ao sofrimento que proporciona ao homem
a coragem necessária para ir ao fundo e deparar-se o horror dançando com o
nada, e fitar os olhos do caos, cuja essência é o delírio. E, lá, provar
segredos, cuja frieza apagaria a chama da alegria na vela da ilusão. É no
conflito intelectual que nossas faculdades mentais são desenvolvidas.
Tornamo-nos mais agudos no pensamento, mais ardilosos, mais fortes, mais
sagazes, mestres no atacar e no defender.
Essa
era a lei: escutar o mais pesado e violento sem se alterar. Deveria-se
incorporar as idéias, tornar o pensamento e os conceitos comum a ambos, nem que
fosse necessário definir termo por termo, ilustrar com exemplos e contra
exemplos. Enfim, a discordância das idéias era aceita; o desentendimento semântico
e a incomunicabilidade, não. De que outra forma poderia ser uma amizade? Não
me venha dizer naquela amizade morna, acolhedora, em que o ameno é a maior
virtude. Passam os dias concordando um com o outro, felizes por não estarem
sozinhos, como vermes que se unem para não sentir frio, e, uma vez aquecidos,
saem as ruas, sorriem, se cumprimentam, falam impunemente: “beleza”,
“legal”, falam mas não sabe o que estão dizendo, repetem coisas como:
“Sei que nada sei”, “cada um pensa de um jeito e eu respeito”, “se
todo mundo fizesse sua parte o mundo seria melhor”, “é preciso amar as
pessoas como se não houvesse amanhã”. Porquanto basta de gastar força para
explicitar o ridículo, esta não é minha área, mas sim o ar inspirado e gélido
das alturas.
Uma das
principais armas utilizadas nessa guerra era o chamado “ferir pela imaginação”.
Forçava-se o outro a imaginar aquilo que dói. O problema é que as bombas
afetavam a ambos.
É conhecido por
qualquer poeta decente que cada palavra possui infinitos ecos. Possui, no geral
dois sentidos, aquilo que ela indica ou representa, e a aquilo que repercute em
nós - seus ecos, sua carga emocional. Por isso, uma palavra nunca pode ser
substituída por um sinônimo exato e preciso, sem que haja alteração em seu
eco. Este eco varia de pessoa para pessoa, conforme todas as suas experiências
anteriores com a palavra. Andar é diferente de caminhar, ânus é diferente de
cú, rola de pênis, buceta de vagina. Que cérebro, por racional que seja, pode
ser surdo aos ecos da palavra?
A palavra é uma
chave capaz de abrir a porta da imaginação, formando uma imagem mental. Esta
é percebida como uma espécie de segunda realidade. Reagimos às nossas imaginações
de forma semelhante a realidade em si, porém, com um menor grau de intensidade.
Ao ler um bom livro ou assistir a um filme, apaixonamos, odiamos, entristecemos,
como se fossem reais. Esse efeito de atribuir consistência semi-real aos símbolos
recebidos é imprescindível para a sobrevivência humana. Pois é justamente
essa força sentimental da palavra que do valor e crédito ao pensamento. Se
estou em um bar e vejo uma gostosa e desejo estuprá-la, por que não realizo?
Ao planejarmos o ataque, imaginamos, por conseguinte pressentimos a dor que esta
nos traria, e ,enfim, a tememos. Se não fôssemos capazes de imaginar a dor
relacionada a imagem da prisão, isto é, se apenas soubéssemos friamente que
seríamos presos, ouso dizer que, com certeza, a ação seria concretizada. E se
eu disser, para o exemplo final.“Sua mulher, seu corno, seu leitor, trepa com
outro homem com um caralho gordo muito maior e mais duro que o seu, capaz de lhe
dar muito mais prazer à cadela lúbrica. Ela ama chupá-lo, ama o sabor fedido
de sua pica suja, que a faz gemer como uma vaca devassa, seu merda, seu
corno”. “Deus é um filho da puta com um cú tão arrombado e tão peludo e
mal lavado quanto do seu pai somado com o da sua mãe.” “Não pense na
bunda.”
Estas frases ,
apesar de estúpido e idiota, deixo bem claro, são a mais pura mentira,
palavras falsas e vazias. No entanto, quem é capaz de lê-las e permanecer
isento de certo sentimento de repulsa, raiva, ou desmerecimento do autor.
No entanto, provo que não podemos fugir da palavra. Não podemos dividir
palavra, imaginação e emoção. É engraçado como meras hipóteses ridículas,
sem a mínima realidade, são capazes de nos ferir e ofender. Principalmente se
essas hipóteses sugerem desconfianças daquilo que guardamos com ternura e
afeto, por exemplo: o amor, os sonhos futuros, Deus, a família, o bem, a moral
etc. Isto é muito natural, pois são essas idéias que alimentam o vínculo com
a vida. São pensamentos e crenças emocionais, cujos feixes de ilusão e
beleza, ofuscam a crueza da impiedosa realidade, permitindo, assim, que nos
suportemos um mundo destituído de piedade e áspero. A menor suspeita destas
ilusões que nos sustentam a vida, já nos causa mal-estar, quanto a isso,
afirmo, furemos os olhos e o maior bem é a cegueira.
Ferir pela
imaginação...e o alvo, o sagrado. O grande problema reside no fato de que
aquilo que é sagrado para um, na maioria das vezes também o é para o outro.
Assim, quando queria xingar o pai de K, bastava fazê-lo imaginar, o problema
era que também eu acabava imaginando o meu próprio pai. Por isso, para ofendê-lo,
bastava xingar meu próprio pai. Existem certos dias em que já estamos na
merda, nesses dias, a imaginação, por mais podre que seja, de nada piora o
fedor.
Efetivamente, não
há motivos aparentes para pensar, questionar, desconfiar do sagrado, a não ser
quando um dos mais estranhos, singulares e terríveis dos instintos nos vem - o
tormento. Sobre ele pouco se fala, entretanto ainda não se inventou uma faca
analítica capaz de analisá-lo e dividi-lo. O tormento é uma estranha
sabedoria do ser. Através dele somos forçados a pensar o que não queremos,
imaginar aquilo que nos fere. É um dos impulsos naturais, indivisíveis e
fundamentais de todo ser humano, essencial para a destruição e fortalecimento
da alma. Ele, com um martelo em mãos, busca com seu o olhar furioso os ídolos
sagrados, ídolos aos quais, na realidade, não passam de entraves quem barram
aos mais profundos desejos humanos. O tormento tem, portanto, a função de
limpar o terreno, para que nosso precioso sentimento do sagrado não seja
depositado em conceitos e crenças decrépitas e putrefatas aprendidas na ingênua
infância.
Quando a moral,
com seus punhos vingativos, adquire uma posição de superioridade em relação
ao sentimento natural e ingênuo, querendo enforcá-lo, é o tormento que vem,
como monstro da liberdade e da potência, para detonar a moral pela sua raiz: o
sagrado.
Numa tarde
abafada, em que sol derretia o piche das ruas, exalando ondas de calor, K e eu,
transpirávamos e discutíamos sobre estética. Uma de suas colocações
surpreendeu-me profundamente. Com convicção e calma, quase que naturalmente,
relatou-me que a parte mais bonita de seu corpo era seu cú.
A
conversa prolongou-se até altas horas da noite. Quando o sono começou a fechar
as pálpebras, decidimos ir para as nossas respectivas camas. Deitado, enquanto
escutava o ronco de K que já dormia no quarto ao lado, cogitava sobre alguns
pontos fracos das idéias apresentadas da discussão da véspera. Esperando o
sono, fui subitamente tomado da idéia e imagem de um cú (como se uma câmera
fosse colocada a centímetros do cú e tirasse uma foto. Rosa, redondo, sem pêlo).
Achei aquilo curioso e levemente desagradável,
aos poucos dormi.
No dia seguinte,
quando estava no ônibus, a olhar estupidamente as pessoas lá dentro,
refletindo, como que por um fluxo livre sem rigor lógico, fui momentaneamente
tomado mais uma vez da imagem do cú, idêntico ao da noite anterior, e o pior,
o cú era de K. Sabia disso, mesmo sem nunca ter visto o cú dele. Que desagradável,
que bosta, um cú. O que esse cú faz em minha mente?
Ao chegar em meu
serviço, cumprimentei meu chefe, e fui para o computador que já o dominava
apesar de precoce. Estava concentrado em problema algorítmico a resolver. Lá,
sentado, no meio de uma seqüência de raciocínios, o cú de K, sem meu menor
consentimento, apareceu, trazendo-me a irritação e preocupação: “e se
aquele cú resolvesse aparecer à hora que quisesse”. Temi, um gelo desceu
pelo estômago ao perceber minha impotência frente a essa imagem nojenta, que
eu mesmo de alguma forma, havia criado.
Durante o dia
inteiro, o cú de K. apareceu, durante o serviço, durante as refeições, no ônibus,
nas salas e jardins, incessantemente. Não conseguia me desvencilhar daquela
imagem asquerosa. À noite, já em casa, meu nervos estavam podres, a flor da
pele, o menor movimento despertava o desejo de arregaçar o objeto que mexia.
Olhava as portas, os vasos, os livros nas instantes, com um desejo insuportável
de botar fogo e jogar tudo pela janela. Estava incorporado de um impulso
destrutivo imenso. Minha cabeça doía, apesar disso tomei um banho mal tomado e
fui para o sofá para falarmos bosta como de usual. Comentávamos sobre a
permeabilidade do ser, e no entanto, no transcorrer da discussão, não
conseguia mais olhar para K de modo fixo, desviava os olhares todo o tempo, a
presença dele impelia-me violentamente a pensar em seu cú. Contudo, através
de esforços titânicos conseguia coordenar o pensamento em meio a uma
tempestade de impulsos de matá-lo, ao qual minha forte razão me continha. Via
aquele monte de carne e osso pronto para o abate. Em pouco tempo, não consegui
mais suportar. Resolvi retirar-me
para o meu aposento, alegando para aquele filha da puta que estava com dor de
cabeça. Resolvi dormir, na esperança que o sono reparasse meus nervos,
limpando-me, de tal forma que eu atingisse uma harmonia perfeita entre imaginação,
pensamento e sentimento.
A
amargura de acordar vendo na própria imaginação um cú de um homem que está
presente em sua vida a todo instante é inexprimível. As primeiras luzes
matutinas misturavam-se a idéia do cú de K. Foi aí que desespero tocou seu
primeiro dedo em mim. Se fosse ao menos um outro cú! mas, justamente o de K.
Era horrendo meu estado. O peso do tormento a cada minuto me esmagava. Durante
todo o dia, não queria lembrá-lo, e quanto menos desejava, mas constantemente
ele me vinha.
Que maldição
pode ser mais irônica e cruel quando o responsável da DESGRAÇA
é você mesmo. Apenas você e mais ninguém, e o pior de tudo, sem o seu
próprio consentimento. Quanto mais se tentava fugir, mais o monstro da miséria
vinha. Que bosta de verme sou eu, que não possui nem o controle dos próprios
pensamentos. Que não consegue controlar a própria imaginação?
Saindo do
trabalho, com a razão já fraca e o tormento violentíssimo impulsionando minha
vontade, comecei a refletir. Não seria mais uma artimanha de K ter-se referido
maquiavelicamente a seu cú como a parte mais bela de seu corpo, para que assim,
eu fosse forçado a imaginá-lo. Era extremamente plausível, ele sabia que
atribuindo a qualidade de beleza a um cú de um homem, necessariamente geraria
um curto circuito na alma ao imaginá-lo. Sabia que conseqüentemente eu ficaria
com raiva por ter sido simplesmente capaz de imaginar um cú bonito e dele. Daí,
tentaria evitá-lo, fazendo com que eu lembrasse de evitá-lo, lembrando-o.
Portanto, mesmo que não fosse o responsável último, possivelmente teve a
intenção. E haveria de ter uma resposta.
Fui tomado pelo
desejo de vingança, e que esta fosse proporcional ao meu tormento. Suas
fraquezas começaram a circular por minha cabeça.
O conhecimento
recíproco das fraquezas é um dos pilares de uma verdadeira amizade. É dessa
cumplicidade mútua que nasce a confiança. Por isso, ninguém melhor que um
amigo para foder com ele. Porém, no nosso caso, era difícil encontrar pontos
fracos, pois, como disse anteriormente, estávamos o tempo todo atacando-nos
mutuamente, justamente para fortalecer esses pontos fracos, ou, ao menos, torná-los
insensíveis a toda espécie de agressão verbal. Não receei em momento algum,
portanto, em buscar o que mais profundamente o poderia ferir mais dolorosamente.
Passei a manha inteira do dia seguinte na investigação do ponto nevrálgico.
K, possuía um
grande talento musical com o qual compunha belas obras. Possuía uma grande paixão
pela música, considerava-a a essência da alma. O conjunto de todas as experiências
externas e internas filtradas pela beleza inata de cada um. Era quase uma religião.
E o que há de melhor de se ofender do que uma crença? Mas o fato é que, em
uma de suas músicas, havia uma seqüência de notas muito parecida com uma música
brega que estava nas paradas de sucesso nas rádios feitas para as empregadas
domésticas. Uma ofensa desse gênero, cruel e verdadeira, arrastaria a essência
de sua alma ao brega, ao comum, ao popular, à ralé, à escoria, ao lixo. Porém,
essa idéia morreu ainda verde, pois não poderia descartar a capacidade da alma
enganar a si mesma. Com certeza, ele esquivaria com facilidade, diria que era
apenas uma seqüência de notas, ou que sua alma não era de todo diferente da
do povo, ou até elogiaria o músico brega, talvez falasse que o compositor
apenas teve sorte, ou ainda, que o que faz uma música não era apenas uma seqüência
de notas e sim, o seu desenvolvimento. A nuvem
escura do desânimo começou a tapar o céu luminoso da vingança, toda
vez que pensava em uma acusação, pensava múltiplas respostas. Subitamente, um
vento de genialidade reconduziu-me à luz, iluminando o ponto nevrálgico de seu
ser. Sim, sua irmazinha era o alvo preciso, era lá que devia atacar. Sua mãe,
por exemplo, eu freqüentemente chamava-a de gostosa, boquetera, chupa- rola,
e já era alvo de ofensas, estava gasta. Por outro lado, percebia que as
feições de meu amigo, ao referir sobre sua irmazinha, enchiam-se de ternura,
seus olhos brilhavam, a relação com sua irmazinha era do mais puro amor. Sim,
era lá o esconderijo em que seu coração condensava todo o seu mais puro
sentimento de amor, ternura, ingenuidade, beleza, afeto, naquela menininha
graciosa.
O meu júbilo
transbordava sobre o cú de K. Grandiosíssima era minha satisfação. Como me
deleitava em estar prestes ao ataque, a furar aquela bolsa repleta de bondade e
amor e fazer derramá-los pela terra impura que haveria de estragá-los para
sempre. Mal podia me conter de satisfação. Confesso que, no fundo, me sentia
até meio ridículo de ficar dessa forma planejando algo contra um amigo. Porém,
o ódio me consumia, além do mais, ainda que não fosse intencional de sua
parte, no final das contas, havia sido ele que me causou a desgraça. E para
fins práticos, não se julga a intenção, e sim, o fato.
Neste mesmo dia, reunimos, como de costume, para jantar. Comia
ansiosamente, na companhia de K, da vingança e de seu cú. Após a janta fomos
dar uma relaxada na sala e bater um papo. Incitei, como que casualmente, uma
conversa sobre sonhos. Depois de discutir a natureza, origem, causa e efeito do
fenômeno, K contou-me que havia tido na um sonho peculiar na noite anterior. Eu
escutava descrição de seu sonho com o coração a palpitar descompassado,
sufocado de ansiedade e receio, como um pescador faminto ao sentir que o peixe
está beliscando a isca. Ao terminar, o momento que tanto havia arquitetado
finalmente havia chegado. Com toda a naturalidade do mundo, contei que havia
tido um sonho estranho aquela noite, estávamos numa sala vazia, eu e ele
fazendo na sua irmazinha uma dupla penetração, eu comia o cú, ele a buceta.
Por um relance, percebi em sua cara a perplexidade, que durou frações de
segundos, encoberta imediatamente por seu riso escarninho. Contudo, não podia
esconder um certo nervosismo por trás daquele gargalhada asquerosa.
Será que K.
havia sentido o poder do veneno? Fui sutil o suficiente para não ser percebido
e desmascarado? Julguei, por fim, que essas questões eram irrelevantes, ambos
nunca ficaria sabendo. Mesmo que ele sentisse o veneno e desconfiasse, nunca
poderia ter certeza. Enquanto pegava no sono, pensava se o cú de K apareceria
no dia seguinte? E, enquanto refletia, era impossível que sua imagem não
aparecesse em minha cabeça.
Mal acordei e o cú
já apareceu, conforme o esperado. Ódio e desespero. Resolvi enfrentar mais um
dia de desgraça, aliás, vários. Tudo, para meu mal estar, lembrava-o. Quando uma mulher chamava a atenção
por sua beleza, sensualidade e formosura, ele aparecia, poluindo estas imagens;
quando almoçava, ele surgia a cada garfada; se assistia um belo filme e me
emocionava, era interrompido com o cú e a irritação. Cheguei ao fundo da escória
uma vez que estava com uma mulher extremamente graciosa e encantadora em meu
quarto, eu, com o pau duro como uma rocha, e, no meio da transa, o cú de K
apareceu, como um aspirador, sugando todo meu tesão e encanto.
Foi então que
comecei a freqüentemente pensar na morte como um antídoto da dor. Pensar no
caixão me acalmava, o fim da existência me era confortante. O mundo e meu
tormento perdiam o peso, pois a existência é efêmera como um sonho de criança.
Somos um mal entendido entre dois nadas, o nada do antes do ser, e o nada do
depois do ser. Pensava nesse tipo de coisas (hoje me envergonho), a fim de ficar
mais leve o peso de minha desgraça, diluindo minha vida no nada. Aliviava, mas
não acabava.
Não conseguia
sentir prazer em mais nada, toda vez que ameaçava sentir, o cú de K aparecia,
e, ao perceber essa sua característica, as coisas pioraram ainda mais - antes,
eu era surpreendido pelo cú aleatoriamente, mas assim que soube isso, a mefítica
imagem atacava principalmente quando estava em situações prazerosas e
gostosas. Então, toda vez que ia sentir-me bem, preocupava-me em não lembrá-lo,
e, portanto, lembrando-o. Quanto mais tentava-se fugir, mais constantemente o
mensageiro do nojo aparecia. Estava atolado na merda. O tormento já me abraçava,
prestes ao seu golpe fatal.
Não se podia
tentar evitar o cú, era pior. Quanto mais ódio e nojo do cú de K, mais irritação
e tormento era redirecionado à minha pessoa. Precisava fazer algo. Sim, era
necessário ir a fundo do cú, engoli-lo, encará-lo de frente. Era preciso me
unir ao cú, “aquilo que não conseguimos vencer, devemos nos aliar”.
No fundo, sabia
que aquele não era o cú de K, mas o conhecimento de nada adiantava. Pensava no
cú e vinha grudado nele a idéia de K. Isso me irritava profundamente. Por que
diabos minha mente queria me atazanar? Por que? Tomei coragem e comecei a
pensar.
Será
que ao invés do cú, eu poderia ter uma outra fixação: uma casa, um pato, um
nariz... mas não, tinha que ser justamente um cú e, ainda por cima, o de K.
Com certeza não era ao acaso. Mas então o que? Um sinal diabólico? Um sinal
do meu inconsciente? ou uma mensagem de Deus?
A idéia de um
desejo reprimido não me parecia ruim. Restava-me descobrir este desejo. E, para
minha desgraça final, o tormento com suas
poderosas mãos começou a estrangular-me. Concluí que provavelmente era
veado, uma bicha louca, um gay, e não sabia. Aquela idéia fixa era um desejo
louco de comer o cú de K, e que eu escondia de mim. Se antes já me sentia mal,
nesse momento sentia-me a escória em pessoa, o lixo, o mais desgraçado dos
homens, se é que posso dizer que era homem.
O último grão
da paz foi engolido pelo cú. O desespero tomou proporções imensas, sentia que
a qualquer momento seria esmagado até a loucura. Muito raramente, e, com muita
coragem, conversava com K, sempre com idéias na cabeça como a de lhe dar um
beijo, comer seu rabo, de chupar seu pau, de dar meu cú.
Era insuportável,
vivia com uma dor de cabeça perene mesclada com fraqueza de todos os órgãos,
com uma ânsia de vômito constante gerada pelo nojo dessas idéias, que eu, de
alguma forma, forçava-me a tê-las. Qual a finalidade delas? Podia ser apenas
uma tentação do demônio, querendo me testar. Assim, através deste,
percebesse se era verdadeira a minha vocação.
Ficava, enquanto
estava acordado, salvo algumas exceções, com esses impulsos escrotos e uma dúvida
violentíssima e constante a oprimir-me. Será que esses impulsos eram frutos do
tormento, que, sempre desconfiado, estava testando até que ponto eu era macho?
E através de ferimentos constantes e agudos minha natureza viril, impunha-me
uma verdadeira prova de fogo a minha macheza; ou, por outro lado, realmente era
um gay “tentando se encontrar, se descobrir”, um homossexual em potencial.
Sendo que cú era a primeira pétala da flor que se desabrochava. Calma!
Homossexual não, bissexual, pois gostava de mulheres, e isso era impossível de
negar.
Aos poucos fui
perdendo toda a forma de contato social, cada mínimo pedaço da realidade me
irritava, principalmente K, ao qual, sempre que possível, o evitava.
É obvio que K
havia percebido que, de alguma forma, ele me irritava, portanto, havia percebido
também que eu perdera a guerra. Eu não tinha mais o menor ânimo para nenhuma
espécie de diálogo. Contudo, ele deixava-me quieto, não se intrometia em meu
estado calamitoso. K sabia, sem sombra de dúvida, que me sentiria extremamente
mal se viesse, por consideração à minha pessoa, aconselhar-me algo,
recomendar-me alguma coisa para me sentir melhor etc. Além disso, ele, caso
fizesse atitudes semelhantes, revelaria piedade, o que deve ser abolido de uma
relação de amizade tão nobre como a nossa. Por trás de toda compaixão,
esconde um avassalador sentimento de superioridade.
A
situação foi cada vez piorando, até que chegou ao ponto em que deixei de ir
ao trabalho. Alimentava-me mal como um porco sujo, não tinha força para fazer
nada senão ficar deitado em minha cama, que já fedia suor e vômito. Passava
maior parte do tempo assim deitado, pensando no cú de K, tendo incessantemente
impulsos de viadagem, que continha de todas as formas o tempo todo, enquanto
filosofava feito um louco febril, feito um verme peçonhento sobre a carniça.
Por que o fato de
saber que poderia ser um veado me causava tanta náusea? É verdadeiro que todo
homem tem cú, e, se tem cú, é um veado potencial, mesmo que não dê o rabo.
A diferença entre cagar e dar o cú é simplesmente uma questão vetorial. Há
um tempo atrás, eu afirmava que a bissexualidade era o estado mais racional do
homem, como diz Wood Allen “Eu não entendo porque as pessoas não são
bissexuais, a chance de voltar para casa com alguém à noite é duas vezes
maior”.
Mas
todos sabemos que a porra da realidade não é assim, somos educados desde crianças
para sentir nojo e asco de muitas coisas: de palavras, de órgãos genitais, de
peidos, de caganeira, de porras, de cús. Uma tarde, em um churrasco, vi uma vítima
inocente da podridão do mundo. Estava já embriagada quando disse que, ao
imaginar uma mulher que ele achava muito gostosa cagando uma bosta grossa, “um
trosso”, ele perdia todo o tesão. Todos concordaram e apenas deram risada.
Apenas deram risada!
Esse é o seu
mundo e também o nosso, um mundo fragmentado, onde as deusas da fertilidade e
da sensualidade habitam na televisão - nossa religião, mãe e educadora. Ela
nos mostra um lugar onde não existe peido, não existe cagar. Um paraíso
esquizofrênico, onde é comum e bonito desdenhar de tudo aquilo que é humano,
isto é, aquilo que é frágil, que é fraco e que caga. Esses falsos anjos
televisivos geram em toda a população o desprezo pela vida. O mundo moderno corta a vida, fatia-a em pedaços
sem nenhuma ligação um com o outro: Peido e mulher; livro e cú; máquina e
vida. Depois que dividem, estabelecem, conforme a lei do capital, etiquetas de
valores para cada atitude e para cada pedaço. Criam sonhos de consumo Estou
impregnado e cansado dessas criaturas falsas que insistem em sustentar o
homem-anjo, o filho de um Deus que
não mija.
O
mundo é uma bosta e o cu de Deus é infinito. Deus tem vergonha de seu Pau e,
apenas caga - dá pulinhos e caga universos.
Até
que ponto irá essa divisão das coisas, essa horrenda fragmentação? Toda
capacidade natural do homem de embelezar o mundo real está canalizada para
coisas imaginárias, esperanças podres, sonhos de novela, prostitutas de luxo,
como aquelas vacas plastificadas de revistas eróticas que exibem suas bucetas
ávidas por dinheiro. Estas meretrizes, que são eleitas as
mais gostosas de nosso país, moram na televisão, em programas juvenis,
por isso, não passam imagens, apenas imagens destituídas de cheiro, de sabor,
e mesmo de corpo. São mulheres planas e bidimensionais. Mas esse conglomerado
de imagens e sons é amado e desejada por uma massa de jovens imbecis, incapazes
de diferenciar uma foto duma mulher real e que friccionam suas rolas até que
comesse a vazar porra.
Ninguém tem cú,
ou ao menos não gostaria de ter, e o objetivo da humanidade, antes da salvação,
antes da evolução, antes do bem estar, e antes do prazer, é cagar cheiroso,
sim, grito essas palavras, CAGAR CHEROSO, só nesse dia a besta homem será
feliz, escutem bem, só nesse dia será feliz. E foi assim que me levantei, fui
ao encontro a K e pedi:
- Vou lhe pedir
uma coisa muito séria, quero que me
mostre seu cú.
Sua feição era
de puro espanto, olhou para meus olhos no fundo, como quem não está entendendo
nada, olhou mais fundo ainda, soltou aquela risada escarninha, como se tivesse
vindo do inferno. Virou de costas, abaixou as calças, pegou cada nádega e
abriu-as. Agachei-me para enxergar melhor, e lá estava, revelado, redondo, em
minha frente, o cú de K. Obviamente, era diferente do cú que eu havia
imaginado, era um pouco mais peludo, com mais pregas do que o de o meu.
- Tá beleza, já
vi.
- Agora é sua
vez.
Virei, tirei o
short, abri a bunda com as mãos e senti soprar uma brisa, uma suave brisa que,
naquele instante, suavemente, refrescava meu cú, ao evaporar os suores naturais
exalados. Era uma brisa primaveril, que eu nunca mais pude esquecer. Depois
daquele dia, percebi que devemos amar o cú, esse precioso órgão tão
desprezado, oprimido entre duas nádegas, que só conhece o gosto das fezes e
bostas, e, de vez em quando, de algumas lambidas.
O cú está além
de bem e de mal, está além dos sexos, o cú é a expressão máxima da vida.
Sou o que sou por
causa daquele cú que um dia apareceu em minha vida, o cú que considerava de K.
Fui obrigado, para sobreviver, a conviver com ele. Hoje, às vezes, ainda penso
nele em certos momentos indevidos, mais não com ódio. Já sou maduro o
suficiente para saber que, aquilo que você não quer pensar, existe, faz parte
da realidade e de nós mesmos, os donos do pensamento. E nada é totalmente puro
e totalmente dividido, isolado, a não ser na imaginação doentia, a qual somos
educados. Existe um pouco de tudo em tudo.
Hoje, penso até
que ponto podemos desafiar nossa moral, nossa religião, aquilo que nos é
sagrado. Até que ponto vale o sofrimento? No meu caso, sinceramente, se não
fosse o tormento, seria um sujeito mais comum, mais acomodado, não tenho dúvida
sobre isso. Se deixei de acreditar em Deus, foi por causa do cú, pois Deus,
antes de mais nada, proíbe. E é contra a proibição que o tormento luta. Não
tenho total controle de meus pensamentos e sei que estou a mercê deste monstro
aniquilador que existe em mim, sempre me forçando a pensar no que não quero,
querendo sempre me ferir onde existe a moral, a regra e onde a beleza não
possui cú. Ele sempre está de olho, procurando avidamente destruir um amor.
Forçando este amor a cagar, a peidar. Forçando comparar mãe com esperma, pai
com gay, avó com pregas do cú. O olho
do cú estará sempre aberto dentro de mim. Sempre impelido-me a destruir aquilo
que é proibido, seja pelo nojo, seja pela moral.
Depois que vi o cú
de K., gradualmente fui deixando de me preocupar com a imagem até que, comecei
a amá-la. Depois que comecei amá-la, ela parou de me atazanar e não seria
exagero dizer que o amor a matou. O cú apenas precisava de carinho. Não está
errado quem disse que o conhecimento trás dor, e a dor, o conhecimento. Muitas
vezes, mexer com a realidade é cutucar o cú de K.
***