Legume Parte II - O velho gordo e dono.

 

Era sábado. Fui a pé a mercearia. Sobre o asfalto, crianças sem a menor noção da realidade  jogavam bola e gritavam, e, pelo que tudo indicava, não estavam pensando no caixão que as esperava, pelo contrário, parecia que a esfera as divertia. Coitadas. E eu também não vou ficar pensando nisso, vou sim comprar legumes, e disso tenho certeza. Aos poucos me aproximava da mercearia e de saciar minha futura fome. Assim que entrei no raio de visão do velho gordo e dono que atendia, comecei a disfarçar, olhando os produtos da prateleira. Fui me aproximando como quem não quer nada, para não dar muito na cara. Enquanto isso, ele fingia de desinteressado, com o ar de quem está ali por acaso. Vai ser ator assim lá longe!

Logo que entrei em seu estabelecimento, olhei para o chão e, com a cabeça baixa, soltei um murmúrio fraco e sem nitidez, assemelhando-se a um cumprimento. Ele não respondeu ao projeto de cumprimento, será que não havia entendido? Talvez tenha feito um sutil movimento com a boca ou com a cabeça, algo como um sinal para que não me esquecesse de que estava em seu domínio e território. Logo em seguida uma pergunta veio a minha mente. Será que aquele comerciante velho não me respondia direito porque fazia questão que eu o cumprimentasse com gosto?

Lembrei-me então de um dia fundamental para no meu exame do motivo pelo o qual o velho me tratava desta forma. Fui, faz mais de uma semana, a sua mercearia comprar um cigarro e cervejas. Ele me disse que não havia mais cigarro, então deixei os cascos e perguntei educadamente ao velho onde havia um outro bar que vendia cigarro. Me explicou e, como eu havia dito que depois de comprar o cigarro voltaria lá para pegar as cervejas, me pediu um favor: que comprasse cigarro para ele no bar em que havia me indicado, dizendo que depois descontaria do valor da cerveja. Assim que comprei o produto solicitado e retornei ao estabelecimento, entreguei-lhe o cigarro. Então olhou para mim e disse "obrigado", ao que respondi automaticamente "obrigado a você", percebendo logo em seguida o erro na resposta. E, já louco para ir embora daquele local e daquela situação constrangedora, murmurei em seguida, muito baixo, como uma tentativa de corrigir meu erro - quase que eu mesmo não pude escutar - "de nada". Estarrecido, fui  embora, caminhando sobre meus tênis e meus tênis sobre o asfalto que não sabia sua temperatura. E comecei a examinar a situação constrangedora.

O velho com certeza percebeu a forma como eu o tratava. Sem sombra de dúvida percebeu todo o significado deste meu terrível erro: "obrigado a você". Havia escapado, não fui esperto nem cuidadoso o suficiente como costumo ser. Se eu pudesse, teria falado sinceramente e naturalmente um belo "de nada". Ele nem desconfiaria. Mas não. Agora ele teria certeza que eu não me preocupava com ele, revelando nossa relação falsa e mecânica de amizade puramente baseada no comércio. Duas vidas ligadas apenas pelo dinheiro. Explicitei indiretamente, mas de modo sutil o suficiente para que ele constatasse este fato repugnante do capitalismo: sua palavra não tinha o menor valor para mim. Executei automaticamente uma resposta preparada, como alguém que não estava nem aí para ele. Se ele tivesse dito qualquer outra coisa, eu responderia precisamente a mesma coisa. Era a prova final de que ele necessitava, tratei-o como um bicho, como um máquina.

Mas de qualquer forma não éramos, pode-se dizer, verdadeiros amigos, isso é obvio. Porém seria melhor se ele gostasse de mim. Gosto das pessoas que gostam de mim. E então entraria feliz pela porta de sua mercearia, olharia no fundo de seus olhos, para aquela cara velha, enrugada, gorda, já desgastada, e diria em alto e bom tom "bom dia". Mas afinal para que me preocupo com isso?

Pensando melhor, o velho dono e gordo não significava nada para mim. Era apenas um comerciante em seu ofício. Sim, para sua família é possível que não fosse, mas para mim era e é apenas um comerciante e nada além disso.  Olhava para meu corpo e via apenas meu bolso. Filha da puta. Sim, você fica naquela mercearia atrás de seu balcãozinho, como quem está ali por acaso, olhando seus produtos, seus legumes, seus cigarros, suas cervejas, fingindo, com seu farto bigode dissimulado, que tudo aquilo não é seu, e ainda por cima sonhando com meu dinheiro. Enfia no cu os seus legumes. Nem aí em estabelecer uma amizade comigo, eu que sou uma pessoa bacana, tão legal a ponto de segundos atrás querer lhe dizer um cordial bom dia! Filha da puta! Faz isso só porque se fosse meu amigo não iria sentir-se bem ao explorar-me, como durante todos estes meses tem feito. E só de vez em quando dava algum desconto besta que me rendia uma pequena alegria barata, tal a alegria  de um cachorro quando seu dono passa o pé em sua barriga. Agora eu sei toda a verdade, e ela é mais amarga que o sumo de casca de limão.

Enquanto selecionava os melhores legumes e espiava de rabo de olho aquele falso cristão escroto, averigüei que meu estômago estava encharcado de ácidos e comecei a sentir queimação no mesmo. Se eu socasse furiosamente seu nariz de bolota, teria problemas com a polícia. Então resolvi me conter. Foi aí que, no céu da minha imaginação, algumas nuvens de pensamentos começaram a flutuar. Nelas estava gravado "A CULPA NÃO É DO VELHO, É DO SISTEMA". Confuso e embasbacado, olhando as cenouras e as batatas, fui arrebatado por uma enorme tristeza e senti vontade de chorar. Quando já começava a perder a esperança, pois não sabia onde estava o SISTEMA, fui subitamente tomado por uma revelação que começou fermentar e inchar dentro de mim, possuindo-me por completo e por fim clareando as coisas com extrema transparência.

Sim, O SISTEMA estava com o velho. Sim. Sempre havia desconfiado que escondia deliberadamente algo que não sabia. Agora ele já não podia mais me enganar. Desgraçado. Provavelmente escondia-o debaixo do colchão, e todo dia antes de dormir, dava com os olhos chamuscando, fascinados, beijinhos no SISTEMA. Esfregava-o sem o menor pudor em seu corpo enrugado, fazia muitas coisas estranhas com ele, coisas que dariam um nó nas tripas até do capeta se este, por curiosidade ou acaso, o bisbilhotasse pela janela.

 Apesar disso, como bom ator que é, o comerciante não demonstrou um pingo de impaciência, não fosse por uma gota de suor que começou a se formar vagarosamente entre as rugas de sua testa, logo abaixo da careca. Como se não bastasse, deixou escapar um outro sinal de nervosismo, o qual só pessoas extremamente observadoras como eu poderiam perceber: o movimento de seus dedos fugiam do seu padrão normal de movimento, estava com o dedão a tocar os outros dedos da mesma mão. Era a prova que me faltava: O velho gordo e dono estava nervoso porque desconfiava que eu soubesse o seu segredo, o SISTEMA.

Não tenho dúvida de que ele me considerava possuidor de uma colossal perspicácia e que, devido a ela, eu sabia do SISTEMA. Porém, o velho gordo e dono não podia ter absoluta certeza disso, é obvio, visto que ele não possuía informações suficientes acerca da minha pessoa. Mas o que especulava fazer comigo e com sua desconfiança?

A idéia que mais me convenceu foi a de que um ímpeto gigantesco o consumia. Um ímpeto quase incontrolável de ajoelhar-se diante mim, curvando-se até encostar o bigode em meus tênis e, inundando-o de lágrimas desesperadas, beijá-los loucamente. E nesta posição decadente  implorar-me efusivamente para que eu não revelasse a verdade nem sua esposa, nem seus filhos, nem seus amigos e nem a polícia. Enfim, que não revelasse a ninguém o terrível fato de que escondia o SISTEMA debaixo de seu colchão.

Mas ele, não sei ao certo porque, não fez isso. Talvez fosse orgulho demais para isso. Ficou lá, imóvel. Entretanto, será que não planejava uma outra saída mais honrosa? Algo como me assassinar e livrar-se de uma vez por todas de mim, eu, o detentor da verdade, eu o conhecedor do seu  conhecedor do seu segredo?

Era horripilante o perigo em que eu me encontrava. Não sabia qual seria sua reação. Resolvi retirar-me o quanto antes dali. Coloquei sem demonstrar um pingo de receio os legumes no saco plástico. Perguntei o preço num tom de voz firme. Ele, friamente, enquanto enxugava com suas próprias mãos a gota de suor que já alcançava suas narinas, fez as contas e disse-me o valor do produto. Paguei.

Recebi de troco quatro moedas com dois tamanhos diferentes, todas viradas com a cara para baixo de forma que eu não conseguia ver o valor. Quando fui pegá-las e conferi-las, hesitei. Um calafrio mortal atravessou todos meus órgãos. Entendi. Ele colocou, ardiloso, as moedas propositadamente viradas. Se eu suspeitasse de seu troco, estaria suspeitando dele. Então coloquei, de forma que ele pudesse ver e constatar, todas as moedas dentro da carteira sem virá-las para conferir o valor. Ele não falou obrigado e eu também não. Com o coração batendo fora do compasso abandonei seus domínios, com meus pés sobre o meu tênis e meu tênis sobre o asfalto que não sabia a sua temperatura.

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