O homem
Iluminado por luzes foscas que trespassavam os vidros do banheiro, o homem se
olhava em seu próprio espelho. Um aroma de desinfetante inebriava todo o
aposento, encobrindo o odor vaporoso exalado por suas fezes, que neste instante
viajavam pelos tubos de esgoto. Com a marca da fábrica em letras garrafais, a
pasta de dentes se encontrava jogada sobre a pia. Seu gostinho de hortelã que
deixava na boca, era responsável por alguns minutos de frescor na vida daquele
homem magro. A porta de seu banheiro diferenciava-se das demais pelo fato da
chave ser embutida na porta. Mas a porta do banheiro nunca foi motivo de orgulho
para aquele homem. Isso é óbvio. Porém sempre que lembrava de seu chuveiro elétrico,
capaz de fornecer-lhe água quente em dias frios, sentia um misto de orgulho e
felicidade por pertencer a sua raça.
Olhou-se em seu espelho e viu seus cabelos lisos, seu nariz, seus olhos, suas bochechas, seu rosto chupado, por fim percebeu quanta coisa era sua. E então o homem magro pensou “Quanta coisa é minha!” e sentiu-se mais uma vez feliz e orgulhoso. Lembrou que também tinha uma casa só sua. E não era uma simples casa. E exclamou baixinho “Quanto conforto em minha casa!” Assim que pensou isso, uma pequena desconfiança surgiu em sua cabeça e, para matá-la, o homem começou a enumerar todas as vantagens para se assegurar delas “Não preciso de ir a um rio para beber água porque tenho água encanada; Tenho um lugar seguro para me esconder da chuva e outros animais perigosos como onça pintada; Posso beber água gelada no calor porque tenho uma geladeira” Depois que homem contar na sua cabeça mais um monte de vantagens, pode ter certeza que era realmente bom pertencer a sua raça. Uma raça criadora, que fez tantas coisas lindas no passado e no presente, tantas obras de arte e tantos confortos.
Exultante, com um enorme calor em seu coração, o homem magro foi saltitante para fora de sua casa. Com os pés sobre as gramas verdes e bem cortadas do jardim, subiu os olhos ao céus. Sentindo o sol da manhã acariciar sua pele, pensou em Deus e na eterna paz e repetiu baixinho para si mesmo “glória, glória, aleluia”. Enquanto falava isto, vários anus pretos e muitos pardais o sobrevoavam, estavam piando e voando e dançando e rodopiando. Então o homem magro também quis voar e piar e dançar e rodopiar. Mas como ele era destituído de asas, o homem magro não voou, apenas ficou querendo. A felicidade de pertencer a sua raça diminuiu e a inveja das criaturinhas aladas aumentou. Mas logo em seguida o homem magro combateu sua inveja, raciocinando consigo mesmo “Todo mundo possui coisas boas e ruins, a minha raça é a mais especial de todas, pelo menos do meu ponto de vista, é, porque nós produzimos coisas maravilhosas desde a Nona Sinfonia de Beethoven até o frigobar".