O tr�pico de Capric�rnio passa sobre a zona suburbana de S�o Paulo. Mas quem estiver � procura de um lugar rom�ntico, para devaneios na indol�ncia tropical, n�o deve dirigir-se a essa cidade. Se a� se detiver, ser� capaz de ser arrastado pela avalanche! Sim, porque em S�o Paulo os sonhos s�o de natureza pr�tica: levantamento de novos arranha-c�us, constru��o de f�bricas e novas resid�ncias, solu��o dos seus problemas de tr�fego urbano. Am�lgama de homens de muitas na��es, S�o Paulo est� edificando no planalto brasileiro algo at� ent�o nunca visto no mundo - uma portentosa metr�pole industrial no tr�pico. A popula��o de S�o Paulo anda perto dos 2 milh�es de habitantes. Contemplando-se a Paulic�ia do trig�simo-segundo andar de um de seus novos edif�cios comerciais, v�-se com efeito a cidade crescer... De 15 em 15 minutos conclui-se ali uma edifica��o nova, e ainda se necessitam umas 30.000 casas. S�o Paulo � hoje a terra da abastan�a, onde os bancos pagam juros de oito por cento e emprestam a dez, e em cujas ruas se compram e vendem pr�dios e terrenos a pre�os que sobem continuamente. Os hot�is vivem cheios de t�cnicos e viajantes americanos, de ingleses em miss�es comerciais, de homens de neg�cio da Escandin�via. Em seu aeroporto, entram e saem, em m�dia, 105 avi�es por dia. O Estado de S�o Paulo, cujo mapa h� 40 anos passados, tinha v�rios setores vazios, apenas assinalados pela indica��o "�ndios", abriga hoje mais de 8 milh�es de habitantes, e nele se cultiva algod�o da melhor fibra, e ainda a�ucar, milho, bananas e laranjas, al�m de um quarto da produ��o mundial de caf�. As suas f�bricas t�m uma produ��o anual no valor de 750 milh�es de d�lares, e o seu porto principal, Santos, � um dos mais movimentados da Terra. A cidade de S�o Paulo n�o devia com efeito ser o que � e achar-se onde est�, pois os seus recursos naturais s�o limitados. Embora disponha de um clima de dias t�pidos e noites frescas - muito favor�vel ao seu povo laborioso, e esteja cercada do lado interior pordensas e ricas terras de cultura, situa-se numa chapada 800 metros acima do n�vel do mar, � beira de enormes precip�cios. Durante tr�s s�culos depois de sua funda��o, em 1554, o acesso � cidade era extremamente dif�cil. As terras do interior estavam ainda vazias, com exce��o de alguns latif�ndios, onde o trabalho do negro escravo ia produzindo algum caf�. . Outra grande dificuldade era a escassez de combust�vel e materiais de constru��o, al�m do fato de que a cidade, situada entre montanhas, estava sujeita a peri�dicas inunda��es dos rios circunvizinhos. A moderna S�o Paulo � o produto da imagina��o do homem. Em 1867, para suprir de caf� o mercado exterior que aumentava, fez-se a constru��o de uma via f�rrea, que serpeava pela escarpa acima. Mas as locomotivas eram impotentes para vencer o grande declive, e foi preciso utilizar m�quinas estacion�rias e cabos para puxar os vag�es. A linha, constru�da por t�cnicos e capitais ingleses, terminava, por�m, na margem da zona cafeeira, contentando-se a companhia em receber na esta��o final a carga de caf�, trazidas das fazendas em morosos carros de boi. Em vista de a estrada n�o atingir o interior, um advogado e fazendeiro, Joaquim Saldanha Marinho, formou outra companhia, a Paulista, para penetrar a regi�o cafeeira. Essa estrada, que no come�o tinha apenas 52 quil�metros, foi a primeira tentativa de uma empresa comercial lan�ada com capitais paulistas; e seu grande �xito, fruto de um impulso cooperativo, deu a S�o Paulo a li��o que at� hoje ele vem seguindo. Mal se iniciava por�m o per�odo de prosperidade do caf�, eis que lhe sobrevem um grande obst�culo. Com a aboli��o gradual da escravatura, as fazendas de caf� come�aram a sentir falta de bra�os para a lavoura. Alguns fazendeiros, alarmados com a situa��o, se propunham a lutar contra as novas leis anti-escravagistas. Mas Antonio Queiroz Telles, presidente da ent�o prov�ncia, objetava-lhes: "Temos terras de sobra no interior. Devemos explor�-las com bons colonos livres. L� � onde est� a base de nossa real prosperidade." E Queiroz Telles formulou um programa, mandando logo emiss�rios � Europa, afim de aliciar imigrantes. O governo pagava a passagem e oferecia terras ricas e virgens, por pre�o baixo, a quem fosse cultiv�-las. Aqueles que n�o dispusessem de fundos, trabalhariam nas grandes fazendas, assegurando-se-lhes condi��es de trabalho que lhes permitissem converter-se em propriet�rios de terra ao cabo de alguns anos. Queiroz Telles promoveu a constru��o de uma nova estrada de ferro - a Mogiana - que iria penetrar zona virgem, e a pr�pria estrada depois tomou a si organizar pequenas companhias para a coloniza��o dos territ�rios rec�m-abertos. E aflu�ram imigrantes de quase todos os pa�ses da Europa. S�o Paulo viu-se transformado no primeiro grande melting-pot da Am�rica Latina, dando fus�o, assim, a um novo am�lgama humano composto de muitas ra�as. Mais importante ainda, come�ou a surgir ali uma classe-m�dia rural. Os pequenos propriet�rios estavam dispostos a cooperar na constru��o de escolas, estradas e melhores habita��es e na obten��o de maiores safras - benef�cios esses com os quais o trabalhador rural n�o se preocupava. Essas ferrovias avan�aram pelo interior, desbravando novos territ�rios. A Paulista, esgalhando-se em tr�s dire��es, tem hoje quase 1.700 quil�metros de linha e, pelos servi�os que presta, pode comparar-se �s melhores estradas norte-americanas. A Capital progrediu na raz�o direta da prosperidade das terras. Mas as suas f�bricas se debatiam com uma grande dificuldade: a falta de energia el�trica barata. Tinham que usar lenha ou importar carv�o ou petr�leo do estrangeiro. A ind�stria paulista teria progredido a passos vagarosos, se n�o fosse a valiosa contribui��o da engenharia moderna. A pedregosa escarpa sobre a qual assenta a cidade vai num declive suave para o interior, de maneira que os pequenos rios e c�rregos que se formam ao longo da alta muralha, deslizam para o oeste e para o sul. Uma companhia canadense, que fornecia luz el�trica � cidade, j� se havia utilizado de um dos mananciais. Um engenheiro americano da empresa, A. W. K. Billings, que levantara o mapa das montanhas e cursos d'�gua de centenas de milhas em redor, observou que a queda pluviom�trica na cidade era apenas de 58 polegadas por ano, mas ao longo da bancada da serra, a precipita��o das chuvas era de 190 polegadas - um enorme potencial hidr�ulico. Billings prop�s ent�o que se constru�sse uma s�rie de barragens e canais e um sistema de bombas, para captar essas �guas desperdi�adas e formar com elas um gigantesco reservat�rio na margem da escarpa da serra, de onde a torrente se despejaria, por dentro de enormes tubos de a�o, de uma altura de 750 metros, indo mover as turbinas de uma usina hidr�ulica. A realiza��o desse projeto ia exigir todos os recursos da engenharia moderna. Com efeito, foi preciso construir um condutor a�reo de cabos de a�o para levar ao alto da serra as se��es dos tubos, que pesavam 13 toneladas cada uma. Um s� dos tubos de descarga, quando fixos nas gigantescas bases e suportes de concreto, pesava a bagatela de 1,747 toneladas. Embaixo, no sop� da escarpa, instalaram-se os d�namos e as turbinas - enormes rodas de 203 toneladas cada uma. Para aguentar a terr�vel for�a da descarga d'�gua, as l�minas das turbinas tiveram que ser feitas de a�o-cromado da melhor qualidade; outro metal ter-se-ia esfarelado. O controle das �guas e ribeiros drenou e saneou muita terra alagadi�a, perto da cidade, tendo tamb�m, consequentemente, melhorado as condi��es sanit�rias da vizinhan�a. O colossal reservat�rio transformou-se em um lago admirt�vel, em cujas margens, numa extens�o de 965 quil�metros, se erguem hoje lindas resid�ncias de ver�o e elegantes balne�rios. A capacidade da primeira usina, inaugurada faz j� vinte anos, foi logo aumentada para 770.000 cavalos-for�a. Uma nova amplia��o, agora em projeto, para 1.500.000 cavalos, far� desta a terceira entre as maiores usinas hidroel�tricas do mundo. Nos fins da d�cada de 1920-1930 o baixo custo da energia el�trica atra�a para S�o Paulo industriais de todo o mundo, e muitas firmas norte-americanas montaram f�bricas naquele pr�spero Estado. Hoje figuram entre elas empresas como a Ford, a General Motors, a International Harvester, a Firestone, a Coca-Cola e umas trinta outras companhias. Verificou-se o mesmo com rela��o a fabricantes ingleses, suecos e alem�es, que l� tamb�m se estabeleceram. Os paulistas recebem essas ind�strias e capitais estrangeiros de bra�os abertos. Mas as velhas fam�lias propriet�rias das fazendas de caf� e a nova classe criada pelos imigrantes n�o se mantiveram estacionadas enquanto outros realizavam suas aspira��es. Tamb�m se expandiram, tomando parte ativa nas ind�strias. Um caso t�pico, e dos mais interessantes, � o do jovem italiano Francisco Matarazzo. Chegando a S�o Paulo, como simples imigrante, a� por 1890, come�ou fazendo salcichas na cozinha da pr�pria casa. Desse modesto in�cio, passou ao preparo e distribui��o de outros alimentos, depois montou moinhos de farinha e mais tarde uma f�brica de tecidos. Quando faleceu h� pouco, com idade de 83 anos, era o chefe da maior organiza��o industrial do Brasil. A fam�lia Matarazzo dirige hoje uma s�rie complexa de ind�strias, tais como fundi��es, estradas de ferro, linhas de navega��o, f�bricas de tecidos, refinarias de petr�leo, frigor�ficos e outras empresas industriais, no valor total de 110 milh�es de d�lares. Quando Hitler intensificou a persegui��o na Alemanha, muitos industriais t�cnicos e bons artes�os foram se localizar na "Eldor�ndia" brasileira. De 1938 a 1945, as suas f�bricas duplicaram de n�mero. Em 1945, S�o Paulo vendeu a outros pa�ses latino-americanos 70% de seus produtos de exporta��o, tendo ainda mantido com�rcio animador com a Uni�o Sul-Africana e a Austr�lia. A escassez causada pela guerra obrigou os paulistas a aumentar a sua capacidade produtora, havendo eles descoberto substitutos brasileiros uns cem artigos, que antes eram adquiridos no estrangeiro. Assim � que coincidiu com o t�rmino da guerra a inaugura��o do Hotel S�o Paulo, todo ele aparelhado com artigos de fabrica��o paulista, desde o equipamento dos banheiros aos elevadores e tudo o mais... S�o Paulo est� se preparando para um grande desenvolvimento e para isso treina um n�mero cada vez maior de cientistas e t�cnicos. A Escola Polit�cnica da Universidade Estadual � talvez a mais adiantada institui��o de estudo t�cnico superior da Am�rica do Sul. Centenas de empregados fabris frequentam aulas noturnas nas escolas industriais do Estado, e � medida que se aperfei�oam, s�o logo promovidos a melhores postos. A Biblioteca P�blica Municipal, cujo novo edif�cio de 22 andares � um belo exemplo de arquitetura moderna e em cuja torre h� espa�o para meio milh�o de livros, � um centro de educa��o gratutita para pessoas de todas as classes e idades. A despeito por�m dessa base s�lida, S�o Paulo v� delinearem-se dificuldades para o futuro. A guerra deu-lhe enormes lucros materiais, mas trouxe-lhe tamb�m as especula��es nas vendas de im�veis, o "mercado negro", problemas trabalhistas cada vez mais numerosos e todos os males que acompanham a infla��o. Assim que o �vido com�rcio de exporta��o come�ar a declinar, haver� inevitavelmente um abalo e tornar-se-� necess�rio um reajustamento em sua vida econ�mica. Essa possibilidade j� est� agindo sobre os industriais, dividindo-os. Um grupo herdeiro da tradi��o feudal do latif�ndio que durante s�culos manietou a Am�rica Latina, ainda v� na exporta��o a sua maior esperan�a e cr� que, mantendo os sal�rios e o padr�o de vida em n�vel baixo, poder�o competir com artigos importados dos Estados Unidos e da Europa, onde o custo de produ��o � mais alto. Enquanto isto, o grupo mais progressista tem os olhos postos nos Estados Unidos, onde a imigra��o, os sal�rios altos e a oportunidade para todos, criaram o mais elevado n�vel de vida do mundo e um mercado interno de grande capacidade aquisitiva, que � a base da produ��o em massa e do seu poder industrial. Os representantes deste grupo acreditam poder repetir-se na vastid�o meridional do Brasil o fen�meno norte-americano. De feito, olhando para o interior, eles v�em enormes �reas de terras iguais �s do meio-oeste norte-americano, que ali est�o a espera de quem as cultive. As estradas de ferro, paralelamente a um vasto programa rodovi�rio, v�o novamente penetrando a regi�o. Uma via f�rrea de S�o Paulo j� cruzou o rico Estado de Mato Grosso, at� alcan�ar a fronteira boliviana. Outro trecho de estrada de ferro em projeto, cruzar� os chapad�es da Bol�via, at� Santa Cruz, numa extens�o de mais de 600 quil�metros, oferecendo sa�da para os mercados mundiais aos produtos dessa zona, a mais promissora daquele pa�s. A antiga escarpa formid�vel de S�o Paulo � hoje um campo ideal da engenharia moderna. J� est� sendo conclu�da uma seguinda estrada de ferro cujos trilhos v�o terminar no porto de Santos, e uma ampla rodovia sobe em espiral a encosta �ngreme at� S�o Paulo, podendo-se hoje fazer em uma hora de auto o percurso que antigamente exigia tr�s dias em carro de boi. E os engenheiros t�m um plano que transformaria S�o Paulo num verdadeiro porto mar�timo, a despeito dos seus 800 metros acima do n�vel do mar. Lanch�es carregados de produtos das f�bricas paulistas trafegariam pelos canais, cruzariam o grande lago da represa e do alto da serra, desceriam por um caminho a�reo de cabos de a�o at� o porto de Santos, onde entregariam a carga aos navios. Este projeto � algo mais do que um mero sonho. Na realidade, os canais e comportas existentes foram constru�dos na largura necess�ria �s realiza��es desse projeto. � uma obra que poderia ser conclu�da em um ou dois anos. P�gina Inicial |
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