Documentos Históricos

A Terra da Maia

- A terra da Maia tem, territorialmente, um sentido em nada condicente com o do actual Concelho da Maia.
- A Maia dos princípios do século era ainda um extenso território que se alongava, no sentido meridional, desde as margens do Douro, a Sul, até ao curso do Ave, a Norte. No sentido transversal ia da costa a uma pequena linha de elevações de Bougado a Rio Tinto.
- Significa isto que à Terra da Maia pertencia a totalidade do concelho de Matosinhos, todo o concelho de Vila de Conde a sul do Ave, uma parte de Santo Tirso, de Valongo e de Gondomar e até freguesias do Porto.
- Esta era a área da Terra da Maia medieval - 67 freguesias. Já haviam sido 85.
- As reformas introduzidas por Mouzinho da Silveira começam a beliscar seriamente a unidade territorial da Maia.
- Em 1835 o concelho compunha-se de 52 freguesias. Na segunda metade do século desmembrou-se completamente. Freguesias que lhe pertenciam engrossaram concelhos vizinhos, alguns dos quais inteiramente formados à sua custa da Maia.
- Ficou o concelho da Maia reduzido a 16 freguesias: Águas Santas, Avioso (Santa Maria), Avioso (S. Pedro), Barca, Folgosa, Gemunde, Gondim, Gueifães, Maia, Milheirós, Moreira, Nogueira, São Pedro Fins, Silva Escura, Vermoim e Vila Nova da Telha. Só em Outubro de 1985 se autonomizou, de Águas Santas, a freguesia de Pedrouços, ficando então a Maia com a configuração geoadministrativa que hoje tem.
- Esta "sangria" territorial descaracterizou completamente a velha Terra da Maia no que toca ao seu território.
- Mas não no que respeita às características do homem e da vida quotidiana. Toda a aréa entre o Sul do Ave e o Norte do Douro, dona de um passado histórico muito rico é, ainda hoje, uma região eminentemente agrícola-piscatória, com um viver, um sentir, um construir e um laborar extremamente semelhantes, guardando, ciosamente, a herança da Terra da Maia.

Testamento público

«Testamento publico do I11. mo João Nepumoceno d’ Almeida Benevides, em 5 de Janeiro de 1833.
= Saibam quantos este testamento publico virem que no anno do nascimento de nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos oitenta e três, aos cinco dias do mês de Janeiro n’este supprimido julgado da Maia, comarca do Porto, em meu escriptorio no logar do Picoto, freguezia de Barreiros, perante mim tabellião e as cinco testemunhas idóneas adeante nomeadas e assignadas, compareceu, como testador, o I11.mo João Nepumoceno d’ Almeida Benevides, casado, proprietário, morador no logar do Padrão, freguezia de Moreira d’este concelho; de cuja identidade me certifiquei por me ser garantida e affirmada pelas ditas testemunhas, que eu conheço e que conhecem o testador, o qual nos certificamos estar em seu perfeito juízo e livre de toda e qualquer coacção, do que dou fé, E, perante mim e as mesmas testemunhas, pelo testador, I11.mo João Nepumoceno d’Almeida Benevides, foi ditto – Que este faz seu testamento e declara sua ultima vontade pela maneira seguinte: - Que, siccedendo seu fallecimento, seu corpo será amortalhado com habito, mettido em caixão fechado e dado à sepultura, sendo até esta conduzido desde casa por seis padres, a cada um dos quaes se dará a esmola de setecentos e vinte reis. Que se lhe fará o officio de corpo presente, a que assistirá o maior numero de ecclesiasticos que for possível, a cada um quaes se darão as offertas do costume. Que por sua alma se dirão sessenta missas e pela de seus pães e tios trinta, todas por uma só vez, Que, três mezes depois de seu fallecimento, se lhe fará um officio com a assistência de cinco ecclesiasticos.Que se dirão vinte missas offerecidas à Virgem Maria, e applicadas a sua mulher Maria Alves, para que faça com que ella continue a ser boa mãe e trate da educação dos filhos dirigindo-os sempre pelo caminho da sua religião. Que foi casado em primeiras núpcias com Bernardina Emília d’Oliveira e Sousa, da qual não tem filhos. Que é casado em segundas com Maria Alves, de quem tem sete filhos – Anna, João, Maria, Rosalina, Luiz, Amadeu e José; os quaes institue únicos e universais herdeiros de duas terças partes de sua herança. Que da outra terça parte restante institui herdeiros sua dita mulher e seus filhos João e Luiz, dous terços para aquella a um para estes. Que, embora saiba não poder determinar o encabeçamento de todo o casal em sua mulher, não deixa, todavia, de declarar que é essa a sua vontade, pois que a desmembração dos prédios trará consigo muito prejuízo para seus filhos. Que nomeia testamenteira a mesma sua mulher. Que d’esta forma tinha concluído o testamento e disposições d’ultima vontade. Assim o disse, do que dou fé, sendo de tudo testemunhas presentes, desde o principio até o fim, o reverendo padre Francisco José Pilrão, parocho encommendado d’esta freguezia, António José Martins , viúvo, proprietário, António José d’Araujo, solteiro, de maior edade, aspirante a pharmaceutico, Manuel Benardino Coelho, casado, official da administração e António Francisco da Silva, casado, proprietário; od dous primeiros moradores no logar de Brandinhães d’esta freguezia e os outros n’este logar do Picôto; os quaes assignam esta disposição comigo tabellião e com o testador depois de escripta e lida por mim em voz alta na presença das mesmas testemunhas e do testador, porque este, sendo por mim advertido de que a podia ler, não o quiz. Foram praticadas em acto continuo todas estas formalidades de cujo cumprimento dou fé. Eu Abílio Augusto Monteiro, tabellião, o escrevi e assigno em publico».

Nota: Foi respeitada a caligrafia desse tempo

Mestre Albino José Moreira

- Albino José Moreira nasceu em Pedras Rubras, freguesia de Moreira, concelho da Maia em 1 de Agosto de 1895.
- A modéstia da sua origem e os tempos difíceis em que decorreram a sua infância e juventude fizeram com que, desde menino, tivesse que ganhar o pão de cada dia.
- Com fértil imaginação, habilidade inata e grande sensibilidade, assimilava com facilidade as mais diversas profissões.
- Desenhando e pintando desde tenra idade, preparando ele próprio as telas e outros materiais que utilizava, só aos setenta e cinco anos pôde dedicar-se em exclusivo à sua grande paixão: a Pintura.
- Atentemos num auto-retrato, neste caso não pintado… mas escrito.
- «Chamo-me Albino José Moreira e nasci em 1 de Agosto de 1895, tenho 90 anos. O meu pai era barbeiro e chamava-se José Moreira; a minha mãe tratava da casa dos filhos e da tasca e era Leopoldina Ferreira. Fui aprender a ler e a escrever p’rá mestra, que era filha do homem que fazia o Reportório da Borda Leça.
- Aos 9 anos fui para a escola da «Caroça», em Vila Nova da Telha.
- Nos cartuchos de papel da tasca de meu pai e nos cadernos da escola da «Caroça», comecei a fazer os primeiros riscos. Na escola a professora dava-me com a cana na cabeça, sempre que me via fazer os desenhos.
- Mas um dia interessou-se pelo desenho e disse-me para continuar. Desenhava com penas de escrever, de molhar no tinteiro. A princípio riscava quase sempre flores.
- Ainda andava na escola e já ajudava o meu pai na arte de barbeiro. Com 10 anos, deixei de ir p’rá escola e em cima de um banco de madeira p’ra chegar à cara dos fregueses, aprendi a ser barbeiro. O meu primeiro freguês foi o meu pai.
- A princípio o meu pai dava-me os fregueses de barba de 8 dias, porque os que eram mais difíceis, os de barba de 15 dias, era ele que os atendia. Ainda tinha 10 anos, e nessa altura mais quatro irmãos, todos mais novos que eu quando o meu pai foi até Manaus, no Brasil.
- Fechou-se a tasca e só ficou aberta a barbearia. O barbeiro era eu. - Havia fregueses que faziam a barba quase todos os dias, e esses ia a casa deles.
- O meu pai regressou dois anos depois, era já a segunda vez que ia à procura da sorte no Brasil. Mas não encontrou.
- Então, morre o «Ti Antone Fulineiro» e o meu pai disse-me: «Ó rapaz queres ir aprender a funileiro?», e aí fui até ao Leça, p’ró funileiro Ximenes.
- Um ano inteiro saí às cinco da manhã e vinha «cum de noite», sempre a pé, e com os homens que iam trabalhar.
Depois de aprender vim p’ra casa e nas traseiras do quintal o meu pai montou-me uma oficina, onde comecei a fazer trabalhos de funileiro.
- A arte principal era ainda de barbeiro, mas sempre que faltava serviço lá ia à oficina fazer regadores, cocos p’ra água, candeias, gasómetros. Com os gasómetros, iluminei teatros, estabelecimentos, e casas de gente rica; os outros, iluminavam-se com as candeias. Deixei de ser funileiro aos 22 anos.
- Aos 12 anos pintava cenários que fazíamos para as nossas brincadeiras. Com 18 anos fui cenógrafo. Riscava e pintava os cenários para os grupos de teatro da minha terra e das aldeias aqui ao pé. Fiz isto até aos 75 anos. Pintava os cenários em pano, juntava a plica e a água sempre quente e fazia uma goma para misturar os pós de tinta. A pintura era sempre a quente. Foi o mestre santeiro que me ensinou a fazer a cola. Com essa cola ele pintava os panos dos altares, e eu os cenários p’ros teatros. A pintar cenários entrei no teatro (…).
- Quando começaram as obras do capitão Sarsfield, os operários picheleiros, vinham comer à tasca do meu pai e desafiaram-me para ir trabalhar na arte deles. Fui picheleiro dos 18 aos 75 anos.
- O meu pai e a minha mãe, morreram pela altura da peste no mesmo ano. Tinha eu 23 anos, e o meu irmão mais novo 7. Cuidei dele como se fosse meu filho.
- Em 1920 tinha eu 25 anos casei com a Micas do Agostinho que ainda era minha prima, porque os nossos pais eram irmãos. Toda a minha vida seria muito difícil se não tivesse contado com a ajuda que ainda hoje tenho da minha mulher.
- Com a Micas, agora do Barbeiro, abrimos uma tasca, na casa onde morávamos e ainda moramos. Nessa altura, funcionava a barbearia no fundo do quintal, quando era preciso.
- A gente que formou a Sociedade Eléctrica de Moreira e Vila Nova, eram meus fregueses das barbas e convidaram-me a acompanhar os homens que andavam na montagem da rede eléctrica. O sr. Queiroz ensinou-me a arte e fui electricista dos 27 aos 75.
- Hoje trabalho com um horário diferente de antigamente. Levanto-me às 6 horas e logo que posso, começo a pintar. Às 10 a Micas quer acender o fogão de lenha, porque lá, a comida é mais gostosa, e lá vou eu a rachar a lenha p’ra meter no fogão. Depois, pinto até não haver mais luz do dia.
- Comecei a desenhar andava na escola, os desenhos a cores eram feitos com lápis de cor e, mais tarde, com as aguarelas que o meu tio me comprou em 1910.
- Quando ia a casa dos lavradores, dos comerciantes e da gente rica, rapar-lhes os queixos, ou fazer trabalhos de funileiro, picheleiro ou electricista, via coisas da lavoura, ou cozinhas antigas ou coisas assim, e quando chegava a casa pegava num papel e desenhava-as. Quando tinha tintas e tempo, pintava essas coisas e sempre fiquei com cenas que ainda hoje me lembro e pinto.
- Ainda gosto de pintar o que vi quando era rapaz novo. Nos meus quadros ponho as romarias, com os homens e mulheres vestidos como antigamente, com os aguadeiros, os amola-tesouras e navalhas, os carroções, os comboios a vapor, os carros americanos, tudo aquilo que vi e que já não há. Pinto a água dos rios azul, porque dantes eram assim.
- Este texto, escrito pelo próprio em 1990, é sem dúvida alma-gémea das pinturas. Simples, directo, vivido e sofrido, assim eram os relatos de Mestre Albino José Moreira – pintados, escritos ou… Conversados.

- Transcrito do livro Centenário de Nascimento de Albino José Moreira. Câmara Municipal da Maia, 1995.

Hosted by www.Geocities.ws

1