Mestre Albino José Moreira - Albino José Moreira nasceu em Pedras Rubras, freguesia de Moreira,
concelho da Maia em 1 de Agosto de 1895. - A modéstia da sua origem e os
tempos difíceis em que decorreram a sua infância e juventude fizeram com que,
desde menino, tivesse que ganhar o pão de cada dia. - Com fértil imaginação,
habilidade inata e grande sensibilidade, assimilava com facilidade as mais
diversas profissões. - Desenhando e pintando desde tenra idade, preparando
ele próprio as telas e outros materiais que utilizava, só aos setenta e cinco
anos pôde dedicar-se em exclusivo à sua grande paixão: a Pintura. - Atentemos
num auto-retrato, neste caso não pintado… mas escrito. - «Chamo-me Albino
José Moreira e nasci em 1 de Agosto de 1895, tenho 90 anos. O meu pai era
barbeiro e chamava-se José Moreira; a minha mãe tratava da casa dos filhos e da
tasca e era Leopoldina Ferreira. Fui aprender a ler e a escrever p’rá mestra,
que era filha do homem que fazia o Reportório da Borda Leça. - Aos 9 anos fui
para a escola da «Caroça», em Vila Nova da Telha. - Nos cartuchos de papel da
tasca de meu pai e nos cadernos da escola da «Caroça», comecei a fazer os
primeiros riscos. Na escola a professora dava-me com a cana na cabeça, sempre
que me via fazer os desenhos. - Mas um dia interessou-se pelo desenho e
disse-me para continuar. Desenhava com penas de escrever, de molhar no tinteiro.
A princípio riscava quase sempre flores. - Ainda andava na escola e já
ajudava o meu pai na arte de barbeiro. Com 10 anos, deixei de ir p’rá escola e
em cima de um banco de madeira p’ra chegar à cara dos fregueses, aprendi a ser
barbeiro. O meu primeiro freguês foi o meu pai. - A princípio o meu pai
dava-me os fregueses de barba de 8 dias, porque os que eram mais difíceis, os de
barba de 15 dias, era ele que os atendia. Ainda tinha 10 anos, e nessa altura
mais quatro irmãos, todos mais novos que eu quando o meu pai foi até Manaus, no
Brasil. - Fechou-se a tasca e só ficou aberta a barbearia. O barbeiro era eu.
- Havia fregueses que faziam a barba quase todos os dias, e esses ia a casa
deles. - O meu pai regressou dois anos depois, era já a segunda vez que ia à
procura da sorte no Brasil. Mas não encontrou. - Então, morre o «Ti Antone
Fulineiro» e o meu pai disse-me: «Ó rapaz queres ir aprender a funileiro?», e aí
fui até ao Leça, p’ró funileiro Ximenes. - Um ano inteiro saí às cinco da
manhã e vinha «cum de noite», sempre a pé, e com os homens que iam
trabalhar. Depois de aprender vim p’ra casa e nas traseiras do quintal o meu
pai montou-me uma oficina, onde comecei a fazer trabalhos de funileiro. - A
arte principal era ainda de barbeiro, mas sempre que faltava serviço lá ia à
oficina fazer regadores, cocos p’ra água, candeias, gasómetros. Com os
gasómetros, iluminei teatros, estabelecimentos, e casas de gente rica; os
outros, iluminavam-se com as candeias. Deixei de ser funileiro aos 22 anos. -
Aos 12 anos pintava cenários que fazíamos para as nossas brincadeiras. Com 18
anos fui cenógrafo. Riscava e pintava os cenários para os grupos de teatro da
minha terra e das aldeias aqui ao pé. Fiz isto até aos 75 anos. Pintava os
cenários em pano, juntava a plica e a água sempre quente e fazia uma goma para
misturar os pós de tinta. A pintura era sempre a quente. Foi o mestre santeiro
que me ensinou a fazer a cola. Com essa cola ele pintava os panos dos altares, e
eu os cenários p’ros teatros. A pintar cenários entrei no teatro (…). -
Quando começaram as obras do capitão Sarsfield, os operários picheleiros, vinham
comer à tasca do meu pai e desafiaram-me para ir trabalhar na arte deles. Fui
picheleiro dos 18 aos 75 anos. - O meu pai e a minha mãe, morreram pela
altura da peste no mesmo ano. Tinha eu 23 anos, e o meu irmão mais novo 7.
Cuidei dele como se fosse meu filho. - Em 1920 tinha eu 25 anos casei com a
Micas do Agostinho que ainda era minha prima, porque os nossos pais eram irmãos.
Toda a minha vida seria muito difícil se não tivesse contado com a ajuda que
ainda hoje tenho da minha mulher. - Com a Micas, agora do Barbeiro, abrimos
uma tasca, na casa onde morávamos e ainda moramos. Nessa altura, funcionava a
barbearia no fundo do quintal, quando era preciso. - A gente que formou a
Sociedade Eléctrica de Moreira e Vila Nova, eram meus fregueses das barbas e
convidaram-me a acompanhar os homens que andavam na montagem da rede eléctrica.
O sr. Queiroz ensinou-me a arte e fui electricista dos 27 aos 75. - Hoje
trabalho com um horário diferente de antigamente. Levanto-me às 6 horas e logo
que posso, começo a pintar. Às 10 a Micas quer acender o fogão de lenha, porque
lá, a comida é mais gostosa, e lá vou eu a rachar a lenha p’ra meter no fogão.
Depois, pinto até não haver mais luz do dia. - Comecei a desenhar andava na
escola, os desenhos a cores eram feitos com lápis de cor e, mais tarde, com as
aguarelas que o meu tio me comprou em 1910. - Quando ia a casa dos
lavradores, dos comerciantes e da gente rica, rapar-lhes os queixos, ou fazer
trabalhos de funileiro, picheleiro ou electricista, via coisas da lavoura, ou
cozinhas antigas ou coisas assim, e quando chegava a casa pegava num papel e
desenhava-as. Quando tinha tintas e tempo, pintava essas coisas e sempre fiquei
com cenas que ainda hoje me lembro e pinto. - Ainda gosto de pintar o que vi
quando era rapaz novo. Nos meus quadros ponho as romarias, com os homens e
mulheres vestidos como antigamente, com os aguadeiros, os amola-tesouras e
navalhas, os carroções, os comboios a vapor, os carros americanos, tudo aquilo
que vi e que já não há. Pinto a água dos rios azul, porque dantes eram
assim. - Este texto, escrito pelo próprio em 1990, é sem dúvida alma-gémea
das pinturas. Simples, directo, vivido e sofrido, assim eram os relatos de
Mestre Albino José Moreira – pintados, escritos ou… Conversados.
- Transcrito do livro Centenário de
Nascimento de Albino José Moreira. Câmara Municipal da Maia, 1995.
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