Minha História
Nasci em
Minas Gerais, Governador Valadares. Comecei a me interessar pelo estudo de
música aos 15 anos quando na época comecei a estudar teoria musical e solfejo de
forma meio autodidata e mais tarde com 17 anos entrei pra um conservatório
local. Já vivia em um ambiente de música, minha mãe cantava seresta
eventualmente, e meu pai era locutor de rádio, mas a música clássica, erudita,
nunca fez parte da minha vida antes. Fui ouvir Mozart, por exemplo, pela
primeira vez aos 18 anos, e meus pais nunca ouviram esse tipo de música em casa.
Aos 21 anos comecei a dar aulas no conservatório e já tinha a música como um caminho definido na minha vida.
Como vocês podem ver na foto ao lado, que é da casa onde nasci, éramos uma família bem humilde e meus pais não podiam bancar meus estudos. Como toda “boa família”, todos achavam que não ia muito longe com a profissão de musicista, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso porque só via a música como caminho na minha vida.
Peguei o gosto pelo estudo e aos 17 anos estudava música praticamente o dia todo. Não tinha nenhum objetivo nem sabia onde isso ia me levar. Eu nunca tinha visto um músico erudito profissional, nem sabia direito o que era isso, mas percebi que a música me dava muito prazer e alegria, e também me ajudava a ter disciplina. Era uma das únicas coisas que eu gostava realmente de fazer. E como meus pais não iam bancar minha faculdade, pois não tinham condições para isso, me dedicar à música era algo tranqüilo e eu não tinha nenhuma perspectiva de me profissionalizar, mas também nenhuma cobrança de mim mesma quanto a isso. Aliás, eu achava que nunca iria sobreviver disso mas como já disse estava mais afim do prazer que isso me dava. E eu realmente gostava de estudar música. Chegava a anotar em cadernos, relatórios dos estudos diários ( os tenho até hoje como lembrança).
Na época eu fazia diversos tipos de artesanato e desde meus 12 anos já trabalhava na feira local. Aos domingos vendia artesanato na feira e fui juntando dinheiro pra pagar cursos de música, e fui planejando aos poucos sair da cidade. Isso era uma espécie de segredo, não falava muito sobre isso, porque sabia que não podia contar com a ajuda dos meus pais. De certa forma, como a maioria dos pais, esse tipo de “loucura” que é para eles, sobreviver de música, era algo que eu queria evitar ouvir porque já sabia que não acreditavam muito que isso seria possível. E é claro que a intenção deles é sempre de querer o melhor para os filhos, pois os pais sempre nos amam à sua maneira, e não os culpo por isso. Minha mãe dizia às vezes nas entrelinhas que eu devia fazer pedagogia, porque meu pai também era professor, mas eu fingia que não ouvia...
Mais tarde fui pro Rio de Janeiro, sem grana, fiz vestibular em canto na UFRJ e me lembro até hoje o comentário da diretora da Escola de Música na época: “que bom terminar o vestibular ouvindo alguém fazendo música de verdade”. Na época eu nem sabia o que significava aquilo, mas percebo hoje que muita gente que cruzou no meu caminho via em mim um talento para essa habilidade musical que nem eu mesma tinha muita consciência.
A verdade é que através da música pude aprender muito sobre a vida, sobre mim mesma e como a música erudita, o canto lírico, exige muita disciplina, hoje percebo que isso mudou radicalmente minha forma de lidar com o mundo, e se não fosse isso, eu não estaria onde estou. Eu realmente tinha dificuldade em lidar com limite e disciplina, mas estudar música me dava um prazer enorme e quem via de fora, parecia que eu era a pessoa mais disciplinada do mundo. Mas sem isso na música não dá pra se progredir. Aprender música é um processo lento e gradativo, e exige muito de quem faz.
Enquanto
fazia faculdade no Rio fiz muita coisa pra sobreviver. Fazia artesanato e vendia
na faculdade, vendi muitas bolsas com tecidos que ganhava de lojas de
estofamento, vendi livros, doce, roupas e muitas outras coisas.Muitas vezes, dias antes de vencer o aluguel
eu tinha que conseguir o dinheiro, fazia as contas do quanto precisava vender pra conseguir o dinheiro e saía pela faculdade com uma bolsa enorme. Geralmente estava muito cansada e como a voz
exige um certo repouso, na maioria das vezes estava sem energia pra estudar canto. Foi
uma batalha muito grande mas valeu à pena. Muita gente fez parte desse processo
e me ajudou, principalmente reconhecendo e me incentivando do que eu era capaz,
coisa que na época eu não conseguia enxergar por mim mesma, pois minha auto estima não era lá grande coisa.
Hoje, já em São Paulo, eu vivo de música e me sinto privilegiada por isso. A recompensa pelo trabalho é muito grande. Sinto orgulho e muita alegria de fazer o que faço e de ser quem eu sou!