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A realidade é uma inesgotável fonte de tensão para aqueles que estão em contato com ela - e é um alívio dizer que esse é um mal que não atinge a docemente alienada Cher. Mesmo. Um cheque com mais estrelas que o céu de verão, um guarda-roupa que parece a caverna de Ali-Babá e o conforto de ser a aluna mais paparicada da escola garantem a Cher aquela paz espiritual que só os insanamente ricos conhecem. Ou não? Não. Cher, que pena, é humana. E, portanto, tem problemas. Tirar carta, por exemplo (ela é uma navalha). Ou ajeitar os rolos de suas igualmente tolinhas amigas. Ou entender por que aquele garoto tão bacana prefere assistir Spartacus a dar em cima dela. Ou, acima de tudo, arrumar forças para tolerar Josh, o enteado de seu pai, que no dicionário de Cher corresponde à definição de babaca - sempre reclamando que ela é ignorante, sempre falando em ecologia, sempre lendo o jornal. Então onde está a tensão dramática de As Patricinhas? Em toda parte, e mais especificamente no fato de que aos quinze anos todo mundo tem muito chão pela frente. E Cher, portanto, vai engolir sapos e sofrer decepções (bem, nada de cortar o coração) até concluir que bisbilhotar a vida alheia não é um substituto à altura para dar um jeito na própria vida. Some-se a isso a naturalidade e o charme da protagonista Alicia Silverstone, o humor afiado e os diálogos deliciosos e - presto. Eis uma comédia que cumpre tudo o que só as melhores comédias podem prometer: divertir, surpreender e instigar. Tudo isso, quem diria, à custa da tão picada categoria das patricinhas. Milagres acontecem.
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