Ser Brotinho

Ser brotinho é sorrir dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse tosse de riso.

Ser brotinho é desdizer de enfeites e pinturas, e fazer uma cara lambida, arrumar os cabelos no vento, apagar o corpo dentro de um vestido em graça de doer, mas ir por aí espalhando fagulhas pelos olhos. Ser rotinho é lançar fagulhas pelos olhos.

É viver a eternidade de uma tarde em atitude esquemática, a compreender o teto, para poder contar depois que ficou a tarde inteira a compreender o teto. É passar o feriado descalça, no apartamento da amiga comendo da lata e cortar o dedo e chupar o sangue. Ser brotinho é possuir vitrola própria. Perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-moderninho-vagarento, abraçada a uma porção de elepês esfuziantes. É dizer palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e superior. É usar um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

É poder usar óculos enormes como se fosse uma decoração, um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que os coroas levam a sério, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. Aguardar na paciente geladeira o momento exato de ir à forra da falsa amiga. É ter a bolsa cheia de pdacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam herméticos, anotações criptográficas sobre o tributo da fisiologia feminina, uma cédula com um número de telefone escrito a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser entregue aos cuidados do vento que passa. Pois o vento que passa traz a mensagem do momento.

É telefonar muito, demais, revirando-se no chão como dançarina do deserto. É querer ser rapaz só para vaguear sozinha pelos astros da madrugada. Achar muito bonito um homenzarrão muito feio; mas achar tão legal uma senhora ilegal. É fumar quase uma carteira de cigarros na sacada, pensando em bolas, verdes, vermelhas e amarelas.

Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba; a gente vai ver, está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade adoidada de cair nua no mar noturno, completamente. É esvoaçar de euforia à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e tártaro.

É chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar, é claro. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e o mundo sentiu graça e piedade. É ir invariavelmente ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho-do-porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença glacial pelas mulheres que deixaram de ser brotinhos. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho subdesenvolvido, e ter aberto uma lata de salmão paterno para o coitadinho. Mas o bichinho comeu o salmão todo e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo nas esquinas dissonantes. Usar o mais caro perfume, de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta. Ladrão dentro de casa. Fantasma. Barata. Ter compaixão de um só entre todos os mendigos. Permanecer vidrada a vida inteira de um mês por um violinista estrangeiro de quarta ordem ou quinta. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo o balanço da roseira, de tão infosfrivelmente amadurecida em todas as suas pétalas. Ou de tão fanerogâmica. É fazer marcação cerrada sobre a presunção dos homens. Tomar uma posse, ora de tenro minueto, ora de deixar-cair sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com o ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio- dia de domingo com uma cara horrenda, comer só e lentamente uma fruta meio verde e ficar de pijama telefonando, até a hora do jantar, e não jantar, e mais telefonar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida na terra, no mar, no ar.
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Paulo Mendes Campos

Texto extraído do livro “O Cego de Ipanema”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 15.

 

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