Mais poeira

Murilo Seabra

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“O que está no âmago do comentador é o remorso: Eu queria ter tido essa idéia”, era assim que começava a série de ataques pregadas em frente ao Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB) no fim da década de 90 sob o título A arte de analisar poeira: comentários sobre comentadores por um estudante que até então havia passado quase completamente desapercebido – preciso confessar, aquele estudante de cujos cantos da boca vertia a mais incontrolável espuma não era ninguém mais do que eu mesmo, que agora, poucos anos – ou talvez muitos – depois do acontecido – mas em todo caso insuficientes para engendrar um olhar neutro sobre o pasado – atreve-se a reacender aquelas discussões que fizeram com que eu fosse – quase literalmente – expulso do Departamento de Filosofia.

Mas por que tanta raiva? Por que usei todo o meu sangue e todo o meu suor para detonar de todas as maneiras que fui capaz de imaginar os comentadores – e o ato de comentar? Porque era justamente o que eu sentia que era exigido de mim – que eu me tornasse um mero comentador – que eu me conformasse com minha condição: pois apesar de estar fazendo um curso de filosofia, não poderia jamais tornar-me um filósofo – não poderia jamais desenvolver minhas próprias idéias – não poderia jamais refletir por conta própria – não poderia jamais escrever meus pensamentos – ou melhor, poderia até escrevê-los, mas não esperar que fossem lidos – não esperar que despertassem interesse – e pelo simples fato de ter nascido no Brasil e não na Europa – por falar português e não alemão – por ter um nome nada complexo – Murilo Seabra – que suscita pouca admiração – e não um nome estrangeiro como Edmund Husserl ou Ludwig Wittgenstein. É preciso mais do que simplesmente pensar para ser filósofo.

Preconceito. Fui vítima de preconceito – e foi isso que me deixou puto. Assim como existem homens dirigindo ônibus e empresas, mas não mulheres, assim também só podem haver filósofos norte-americanos e europeus, não brasileiros. Se um cara chamado Sartre ou Husserl escrever um monte de merda, haverá uma horda de comentadores analisando suas fezes. Mas se uma pessoa com o nome de Maria Oliveira dos Santos ou um cara chamado Severino da Silva escrever uma porrada de idéias geniais – ninguém dará atenção aos seus escritos. Todo mundo achará algo esquisito – algo ridículo – mesmo nas suas palavras mais sagazes. É possível achar tudo ridículo – uma possibilidade, porém, que não é exercida neutralmente a todo momento e em todo o lugar – senão, nem existiria filosofia. Ela incide sobre um grupo muito específico de pessoas – que é selecionado não por seus pensamentos, mas por seus nomes, não por seus escritos, mas por sua nacionalidade. O que Edmund Husserl escreveu é necessariamente profundo. O que Maria Oliveira dos Santos escreveu é necessariamente ridículo.

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Mas como assim ‘expulso do Departamento de filosofia’? A palavra é muito forte e pede um esclarecimento. Nas provas para o mestrado, aconteci de ficar – para minha própria surpresa – com notas razoáveis; no entanto, outros recursos institucionais foram ativados para que eu não fosse capaz de ocupar nenhuma das dez ou quinze vagas – não lembro exatamente quantas eram – que foram oferecidas na época pelo Departamento; fiquei em segundo lugar nas provas, mas acabei no fim das contas reprovado. Tudo por causa das coisas que eu andava escrevendo e divulgando – tudo por causa de A arte de analisar poeira e da minha segunda dissertação, O Instituto Nemrod – onde dei um foda-se a tudo o que o Departamento de Filosofia esperava de mim. Resultado: tive que migrar para outra Universidade afim de continuar meus estudos.

A arte de analisar poeira foi um texto explosivo – um grito de indignação. Durante minha graduação, entreguei para vários professores textos de minha autoria reagindo criticamente ao que eu lia e ao que era exposto em aula – textos que negavam as idéias formuladas por grandes nomes e que traziam minhas próprias opiniões sobre o assunto (ou que pelo menos questionavam a maneira como eram formuladas – se é que se pode levar essa distinção a sério). Seja como for, as minhas idéias eram tomadas como primárias, fantasiosas, desinteressantes – e até ridículas. Por serem realmente primárias, fantasiosas, desinteressantes e ridículas? Não. Pelo fato de serem respaldadas por um nome como Sartre, Wittgenstein ou Husserl.

O que eu escrevia quase não era lido. E muito menos discutido – eu não era estimulado a escrever, não era incentivado a continuar desenvolvendo minhas próprias idéias – a não ser por um ou outro professor. E não foi apenas isso: além de não ser estimulado a escrever, fui estimulado a parar de escrever. O que eu escrevia não podia – por definição – ou por uma questão de lógica – ou por qualquer coisa que o valha – ser digno de interesse – muito menos profundo e original.

Mas tudo o que os filósofos escreveram até hoje é num certo sentido primário, fantasioso, desinteressante e ridículo. Por que então o que eu escrevia era mais desinteressante? Se Locke merecia atenção, por que eu não? Eu não estava acima, nem abaixo de qualquer filósofo. Pelo menos, nunca me considerei assim – embora seja verdade que mesmo sem terem lido sequer uma linha do que escrevi, muitos filósofos – quero dizer, comentadores – demonstraram ter absoluta certeza de que eu não era capaz de escrever nada interessante. Com base em quê? Talvez em minha nacionalidade, minha idade ou meu nome – enfim, qualquer coisa – menos o que eu escrevia.

Nenhum filósofo jamais concordou plenamente com o que outro disse – e na maioria das vezes, cada um insistiu em dizer que todos os seus predecessores tinham errado. Assim, a filosofia pode ser considerada um inventário de erros – um amontoado de bobagens. Ninguém chegou à verdade (seja lá o que isso possa querer dizer), ninguém chegou a nada que fosse incontestável. Então, por que os meus textos – que eu escrevia com tanto esforço – com tanta ingenuidade – eram tratados pelos professores como bobagens de iniciante? Portanto, o fato de um texto não conter nada de interessante não é motivo suficiente para que não seja lido. Se fosse motivo, nenhum texto de filosofia escrito até hoje mereceria atenção – muito menos frases isoladas e sem nexo como “O que é, é” ou “Tudo é água”. Eu simplesmente não conseguia ver porque – e nenhum professor me dizia realmente porque – o que eu escrevia era mais bobagem do que o que qualquer outro filósofo escrevia.

Também podemos dizer que tudo o que foi escrito até hoje é interessante – uma posição não mais, nem menos acertada do que a de que tudo na filosofia é bobagem – mas certamente menos carrancuda. Até “O que é, é” merece páginas e páginas de exegese – até essa trivialidade é considerada profunda pelos comentadores. Mas se essa tautologia balbuciante é digna de interesse, então tudo é. Seja a filosofia um amontoado de bobagens ou seja ela um amontado de verdades, é difícil justificar a falta de interesse pelas idéias dos estudantes – por mais desarticuladas – primárias – superficiais – equivocadas – que sejam. Se existe uma semente de pensamento – ela tem que ser regada. Se for adequadamente regada, poderá surgir um baobá. Se não for, poderá surgir apenas uma planta desfolhada e atrofiada.

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Sobre o que aconteceu, não resta muito a dizer – mas tornou-se claro para mim depois que fui vítima, não mais que vítima, em primeiro, da nulidade ao qual estava destinado por ser um mero aluno e um aluno brasileiro, sem um nome complexo que suscitasse atenção e respeito, e em segundo lugar, da ilusão de que as coisas poderiam mudar – da ilusão de que a minha situação – o meu destino – era conversável – da ilusão de que o meu nome nada imponente não seria um obstáculo para a apresentação das minhas idéias. Parece que nenhum filósofo brasileiro compraria um livro assinado por Severino da Silva para colocá-lo na estante junto com seus livros de Edmund Husserl ou de Peter Strawson. Seria uma discrepância. O nome Severino da Silva pegaria mal – estragaria a estante.

Os maiores obstáculos enfrentados pelos filósofos brasileiros são seus nomes que causam pouca impressão. São seus nomes impedem que suas idéias sejam tomadas com seriedade. Escrever uma tese sobre a Fenomenologia de Severino da Silva? Nunca. É preciso escrever sobre a Fenomenologia de Edmund Husserl – ainda que sua filosofia não seja tão interessante quanto a de Severino da Silva, o nome Edmund Husserl soa melhor.

O problema da falta de filosofia no Brasil é um problema ridiculamente simples. É um problema não de falta de idéias, mas de falta de nomes interessantes. Qualquer outra tentativa de explicação (como dizer que os brasileiros são biologicamente inferiores que os europeus – ou algo semelhante – e que não têm portanto capacidade para fazer filosofia) seria ridícula. É por isso que os filósofos – corrigindo de novo, comentadores – brasileiros nunca formulam de maneira explícita as razões pelas quais acham que não vale a pena ler Severino da Silva. Ou teriam que defender algo muito difícil de justificar – que existe uma relação entre o nome e a capacidade intelectual – ou teriam que defender idéias muito comprometedoras – que existem seres humanos superiores ou algo semelhante.

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Eu alimentava a ilusão de que o Departamento de Filosofia – supostamente entupido de filósofos – se mostraria minimamente sensível aos meus apelos. Resultado: fui expulso. O que eu queria? Apenas um pouco de atenção – mas logo caí na real e percebi que era preciso instituir uma disciplina que até hoje não foi instituída – uma disciplina onde os estudantes redigiriam suas próprias idéias – amparados pelas fartas leituras, pela experiência e pelo estímulo dos professores – e também pelas análises e sugestões dos seus colegas. Os professores leriam os textos dos estudantes – e os estudantes leriam os textos uns dos outros. E talvez até escreveriam sobre os textos uns dos outros – o que seria um puta estímulo: é muito raro ver algo escrito sobre o que escrevemos.

Ainda é preciso que um espaço assim seja instituído – um espaço onde os estudantes sejam levados a desenvolver suas próprias idéias – e não apenas suas idéias sobre as idéias dos outros. Achar que não é preciso instituí-lo porque os verdadeiros filósofos acabarão filosofando de um jeito ou de outro – e os não filósofos jamais irão filosofar – é compactuar com a idéia de que as pessoas nascem com tendências inatas (algumas para mandar – outras para servir – algumas para filosofar – outras para comentar – algumas para aprender – outras para ensinar – o que é uma flagrante naturalização da cultura); além do mais, é afirmar implicitamente que não existem filósofo genuínos no Brasil (e que é isso que explica o fato de que não existem filósofos brasileiros reconhecidos); por fim, é mais ou menos como achar que as mulheres chegariam aonde estão mesmo sem lutar contra a hegemonia masculina – ou que os escravos se libertariam naturalmente – sem a abolição da escravidão.

A ridícula objeção de que não se saberia como proceder na hora da avaliação bastou – na época – para bloquear a disciplina. Mas avaliar? – Mas alguém avalia Kant ou Hegel? Qual é o sentido de dar zero – ou dez – para a filosofia de Sartre? Para mim, a questão é muito simples: a dificuldade de avaliação é só uma desculpa para não se fazer – e para impedir que se faça – filosofia. A Faculdade de Educação não fica muito longe do Departamento de Filosofia – lá se pode descobrir os mais diferentes métodos de avaliação.

Também sugeri que fosse instituída uma disciplina onde os professores exporiam e discutiriam suas próprias idéias com os estudantes – e assim suas filosofias um tanto atrofiadas pelas pressões institucionais poderiam ganhar muito em flexibilidade e detalhamento pelas inflexões de cérebros frescos e pouco viciados – uma sugestão que não apenas encontrou pouco ou nenhum apoio no Departamento, como também suscitou um verdadeiro horror – talvez porque só dois ou três professores de todo o quadro pareciam qualificados para ministrá-la – isto é, porque só haviam na verdade em todo o Departamento apenas dois ou três filósofos. E também por outro motivo crucial: os próprios estudantes demonstraram preferir estudar Kant ou Locke do que as obras dos seus professores – os próprios estudantes demonstraram ter preconceito contra os professores – talvez também com seus nomes. Agora acho que é um momento apropriado para citar uma frase do professor Julio Cabrera:

“Na situação atual, tanto os filósofos mais velhos que fizeram ou estão fazendo suas filosofias, quanto os mais jovens que estão tentando desenvolver seus pensamentos dentro das instituições, são quase totalmente desconhecidos, marginalizados, muitas vezes ridicularizados e desencorajados.” (http://www.unb.br/ih/fil/cabrera/inicial.htm)

Não são apenas os estudantes que sofrem o preconceito dos professores. O preconceito é recíproco – de fato, não tem sentido esperar que os estudantes esperem muita coisa das pessoas que não esperam nada deles. Os estudantes absorvem os preconceitos de seus professores – e os projetam em todas as direções. Ridicularizam seus próprios pensamentos, os pensamentos dos seus colegas – e os pensamentos de qualquer pessoa que esteja próxima. Não filósofos podem gerar filósofos. Mas é mais provável que gerem não filósofos.

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A orientação tácita do Departamento de Filosofia – que começou a se articular mais explicitamente – e a vir à tona – depois da pressão exercida por A arte de analisar poeira – era que “Deve-se ler, não escrever”. Ou dito de outra maneira: “Deve-se escrever sobre as idéias alheias, não sobre as próprias idéias”. O que tem valor é o que vem da Europa. O Hemisfério Sul só pode almejar um valor derivado – escrevendo sobre o pensamento importado. E o que A arte de analisar poeira dizia era exatamente o contrário: escrever sobre o pensamento alheio não tem nenhum valor – o comentador não é nada mais do que um verme que se alimenta de cadáveres.

Acho que comecei a gritar alto demais – e talvez de maneira insana demais – que “Deve-se escrever as próprias idéias, não sobre as idéias alheias”. Fui muito radical – ainda que a radicalidade tenha sido interessante: um texto menos radical talvez causasse um impacto menor – menor ainda do que o impacto quase nulo de A arte de analisar poeira.

Na época, um professor do Departameto escreveu um texto chamado “O paradoxo de Murilo”. Que era: se todo mundo apenas escrever – se todos os filósofos se tornarem filósofos como Wittgenstein, com mais outputs do que inputs – chegar-se-á na curiosa situação de não sobrar ninguém para ler. O que esvaziará de sentido o próprio trabalho de escrever. O paradoxo tem o mérito de refrear as pretensões dogmáticas e absolutistas que exalavam da forma desesperada – e espumante – como eu defendia as minhas idéias. Não é necessário negar o valor do comentar para afirmar o valor do criar. As duas atividades são interessantes – e complementares. Mas uma não deveria ser imposta a quem deseja se enveredar pela outra.

O reverso do paradoxo – que poderia ser chamado de “O paradoxo de Borges” – seria: se todos os filósofos fossem apenas leitores – apenas comentadores – estaríamos na curiosa situação de não ter material para ler. Estaríamos ainda hoje comentando o que restou de Tales de Mileto – ou talvez, se Tales houvesse também seguido o dizer à risca, não teríamos nem água para comentar, mas apenas: nada. Contudo, esse lado do paradoxo, o lado no qual eu insistia, não assustava os professores do Departamento de Filosofia – não faltam Tales, Platões, Aristóteles, Husserls, Russells e Wittgensteins sobre os quais escrever

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Os dois paradoxos inauguram um espaço de discurso – um espaço conceitual – uma paisagem de idéias – cada um limitando-o por um lado: num extremo, a impossibilidade de apenas escrever, sem ler; no outro extremo, a impossibilidade de apenas ler, sem escrever. Se afirmarmos que é preciso apenas escrever, não ler – o paradoxo gerado por essa posição extrema lançará o pêndulo radicalmente para o outro lado: “Deve-se ler, não escrever”. E se defendermos agora com afinco a idéia de que deve-se ler, não escrever – o paradoxo de Borges jogará o pêndulo para “Deve-se escrever, não ler”.

É para estabilizar o pêndulo que começam a surgir opiniões intermediárias. Se adicionarmos a esses dizeres um tanto circunspetos – e por isso mesmo paradoxais – as expressões ‘em primeiro lugar’, ‘o mais importante é’, ‘mais do que’ e ‘menos do que’, o espaço ganhará em complexidade – o caminho que vai de um extremo ao outro se alongará e o número de opiniões possíveis – de loci conceituais – em seu interior aumentará.

Quanto mais distantes dos extremos nos colocarmos, mais nos livraremos das contradições que os afligem? – Acho que não. Porque se não estivermos postos exatamente no centro – onde o discurso se equilibra, se neutraliza e não diz nada – estaremos apenas aumentando a complexidade do extremo ao qual mais nos inclinamos – com vistas a dissolver as suas – verdadeiramente insolúveis – contradições.

Uma idéia que se afasta 1 milímetro do extremo “Deve-se ler, não escrever” e continua 1 kilômetro afastada do extremo “Deve-se escrever, não ler” pode até puxar as pessoas que estão à sua direita para a esquerda – mas ela puxará muito mais pessoas da esquerda para a direita. Por mais revolucionária que ela pareça do ponto de vista de quem se mantém ferreamente no extremo “Deve-se ler, não escrever”, no plano prático – no plano político – não será preciso temê-la: na hora de decidir entre instituir ou não uma disciplina onde os estudantes e os professores fossem estimulados a desenvolver suas próprias idéias – ela certamente votará contra. No plano teórico, podem haver muitas divergências – mas no plano prático o pêndulo só pode se inclinar para um lado ou para o outro. Dizer que uma pessoa não é conservadora só por ela estar um ou dois milímetros à esquerda do extremo “Deve-se ler, não escrever” é no mínimo estranho: pois na hora da votação, ela contribuirá não para mudar e sim para manter a ordem instituída.

Parece-me hoje que A arte de analisar poeira não conseguiu mais do que deslocar os professores do Departamento de Filosofia do extremo “Deve-se ler, sem escrever” para o locus conceitual mais próximo – dependendo do caso, para “É preciso primeiro ler, para só depois escrever” ou para “É mais importante ler do que escrever”. Acreditando terem chegado finalmente às posições certas – às opiniões verdadeiras – só por terem aumentado a complexidade das suas opiniões – deram-se – não todos, é claro – por satisfeitos – e passaram a defender cada um o seu locus – sem perceber que todos – ou quase todos – apontavam no mesmo sentido: para o extremo “Deve-se ler, sem escrever”. O que achavam ser a solução era apenas a manutenção – sob uma forma um pouco mais sofisticada – das suas posições anteriores. Infelizmente, A arte de analisar poeira não foi forte o suficiente para forçar uma aprazível média aritmética – a tendência de comentar ainda prevalece no Departamento de Filosofia.

As desavenças – e podem haver muitas – entre a opinião de que se deve “Primeiro ler, para só depois escrever” e a opinião de que “É mais importante ler do que escrever” – ambas afastadas 1 ou 2 milímetros do extremo “Deve-se ler, não escrever” são no fundo irrelevantes. Embora possam discordar entre si, as duas se unem contra a idéia de levar os estudantes – e os professores – a criar – a desenvolver seus próprios pensamentos – e não apenas seus pensamentos sobre os pensamentos dos outros. Uma diz que deve-se filosofar depois de comentar – a outra diz que filosofar não é tão importante quanto comentar – nos dois casos, porém, o filosofar é deixado para depois – para um instante do tempo que na verdade nunca chega.

É preciso ter sempre em mente que para cada argumento há sempre um contra-argumento, o seu espelho, e que por mais comprometido com a verdade que o ocupante de um locus pareça estar, sua verdadeira opção sempre se revelará no nível prático – no plano das decisões políticas. O defensor de um locus um pouco mais complexo do que o “Deve-se ler, sem escrever” está ainda sob o manto do período colonial. É verdade que sua mão segura com menos determinação a foice de Cronos – mas ela ainda está preparada para decepar a criação de qualquer um que se atreva a fazer filosofia assinando Severino da Silva ao invés de Edmund Husserl.

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