Ler e Compreeder

Murilo Seabra

Muitas teorias da linguagem de hoje – por incrível que pareça – partem da pressuposição e que já trazemos desde o nascimento estruturas – inconscientes, é claro – que nos guiam e nos ajudam em nosso aprendizado da linguagem. Aprender uma linguagem seria apenas preencher essa estrutura. O que poucos sabem é que essa estrutura tem seus antecedentes históricos: desde Leibniz se pensa em construir uma linguagem universal, um cálculo lingüístico que substitua a nossa linguagem comum – vista como excessivamente precária para exprimir as descobertas da ciência. Logo esse projeto desviou-se da construção de uma segunda linguagem para se tornar o projeto de desvendar a estrutura da nossa própria linguagem, deixando assim de ser algo artificial para se tornar algo supostamente natural. Em outras palavras, a idéia moderna de uma linguagem logicamente perfeita migrou para as profundezas da nossa própria linguagem – e mais recentemente, com a lingüística contemporânea, tornou-se um conjunto de estruturas lingüísticas internalizadas – inconscientes – e até inatas.

Foi para deter o avanço desse monstro mecânico que Wittgenstein preparou as Investigações filosóficas. Que ele se move contra a maré dos tempos modernos – contra a tentativa de criar teorias para tudo, inclusive para a compreensão e o significado, dois conceitos nucleares da linguagem – está anunciado explicitamente tanto no prefácio quanto na epígrafe que ele escolheu para as Investigações. O segundo Wittgenstein é um filósofo claramente anti-moderno, e suas críticas ao ideal de explicar a linguagem postulando estruturas para seu funcionamento – numa palavra, de explicar a linguagem nos moldes das explicações científicas – acabaram por lançá-lo na margem da filosofia da linguagem contemporânea. É possível que Wittgenstein seja um grande filósofo. É possível que suas críticas às teorias a linguagem sejam realmente devastadoras. Mas ao contrário do que se costuma dizer, ele está longe de ser um dos filósofos mais influentes do século XX. O que domina hoje são as construções teóricas que visam explicar a linguagem.

Essas teorias supostamente espelhariam o que cada ser humano falante traria dentro e si – mais especificamente, em seu inconsciente. E de certa forma, elas pressupõem o que deveriam explicar: para explicar o aprendizado da linguagem, inventam uma linguagem mental cuja origem, acreditam, não precisa ser explicada. É uma linguagem que não precisa ser aprendida – pelo contrário, é uma linguagem que possibilita o aprendizado de todas as outras linguagens. É uma linguagem que simplesmente explica – e que não tem ela mesma explicação. No entanto, essas teorias não estariam apenas deslocando o problema – ou resolvendo um problema a custa de outro? Essa é a impressão que Wittgenstein tem. Daí sua crítica às chamadas “linguagens privadas”, bem como à idéia de que possam haver regras inconscientes – e bem como à idéia de que a própria linguagem funciona graças a um conjunto sistemático de regras.

Essas idéias colocam Wittgenstein ao lado de um outro grande filósofo de pouca influência: Merleau-Ponty. Sua Fenomenologia da percepção mostra que as teorias modernas da percepção de certa forma pressupõe o que deveriam explicar. Há inclusive muitos paralelos entre a filosofia de Wittgenstein e a de Merleau-Ponty, embora, ao que se saiba, um nunca tenha lido o outro. E precursores históricos de Wittgenstein podem ser encontrados justamente nos filósofos que resistiram à força da imagem mecânica do mundo – que resistiram ao projeto moderno de conformar todas as explicações às explicações científicas, dentre os quais o mais conhecido talvez seja Goethe e o mais propriamente wittgensteiniano seja Novalis. Situado o pensamento de Wittgenstein nos seus devidos contextos, vamos agora às suas idéias. Mais especificamente, vamos nos deter um pouco em um momento das Investigações posterior à sua crítica da linguagem como um cálculo e anterior à sua crítica da linguagem privada – o momento em que ele discute o que é ler e compreender. Então, mãos à obra.

“Em primeiro lugar, preciso observar que não estou incluindo a compreensão em ‘ler’” [IF 156]. Por que a ressalva “preciso observar”? Para compreender melhor o que é compreender, Wittgenstein está interpolando aqui o exame de um outro verbo – o verbo ‘ler’. Para não incorrer na petição de princípio tão característica das teorias da linguagem, ele precisa subtrair da leitura todo rastro de compreensão – o que tem o efeito colateral de gerar um uso artificial para ‘ler’. Artificial não por acrescentar ao verbo um significado excepcional, mas por subtrair artificialmente uma parte importante do seu significado. Wittgenstein está, por assim dizer, centrifugando a leitura usual para precipitar uma leitura mecânica – uma leitura cega para o sentido das palavras, que as enxerga como puros signos, como puras marcas gráficas. É aqui que as teorias a linguagem deveriam começar: com signos não compreendidos, e nada mais – não com signos não compreendidos amparados por uma linguagem mental já plenamente compreendida. Não nascemos com o logos. O logos é aprendido. Esse talvez seja o ponto fundamental da sua filosofia: é aqui que se explica – que se pode descrever – o aprendizado da linguagem sem pressupor nenhuma outra. Mas passemos adiante.

Wittgenstein espera que sua investigação do verbo ‘ler’ sirva para elucidar a gramática da compreensão. No entanto, mesmo nos estágios iniciais da leitura não se separa a leitura da compreensão. O aluno não aprende primeiro a ler e só depois a compreender. Ele aprende os dois ao mesmo tempo. O motivo é que o professor ensina duas habilidades ao mesmo tempo? O motivo é que trata-se de uma só habilidade. Pode-se objetar, sem dúvida, que é possível ler sem compreender. Mas é possível objetar que isso seja realmente ler e não simplesmente ver. De qualquer forma, não é isso o que geralmente acontece, nem é assim que geralmente usamos as palavras ‘ler’ e ‘compreender’. A leitura não é tão destituída de compreensão quanto o fato de termos duas palavras – ler e compreender – pode nos fazer acreditar. Não dispomos da opção de compreender ou de não compreender o que lemos ou escutamos, assim como para não ler ou escutar uma determinada frase precisamos apenas fechar os olhos ou tampar os ouvidos: por um lado, se o idioma nos for desconhecido, nossa falta de opção se revelará no fato de que por mais que tentemos insuflar vida ao que nos parecem ser signos mortos, jamais chegaremos por esse meio realmente a compreendê-los; por outro lado, em se tratando de um idioma que dominamos, para conseguirmos ler uma palavra sem compreendê-la precisaremos realizar um certo esforço. Porque a compreensão é imediata – não lemos primeiro uma frase para só depois compreendê-la. Não ouvimos primeiro um conjunto de sons para só depois discernir seu sentido. Ao contrário, ler é compreender. Ouvir é compreender. É claro que há leitura – e escuta – sem compreensão. Não obstante, a leitura com compreensão não é nada extraordinária. Não é uma atividade amparada por uma outra atividade mais sutil. Ler uma frase e compreendê-la não é uma atividade dupla e sim uma atividade só. Mas apesar dos rios ‘ler’ e ‘compreender’ serem quase perfeitamente paralelos, o rio da compreensão continua além do rio da leitura. Não por ser possível compreender as palavras de uma folha de papel em branco e sim porque não é apenas o que lemos que compreendemos. O rio das palavras escritas num certo momento detém-se – e continua em seu lugar o rio das palavras ditas e em seguida o rio dos gestos e as expressões faciais. Assim como ler é compreender e ouvir é compreender, ver também é compreender. O que não significa que compreender seja uma atividade mais abstrata, que transcende as atividades um tanto mais brutas de ler, ouvir e ver. Ao contrário, não existe uma compreensão que ocorra em si e por si – que não seja uma compreensão por meio de alguma coisa – que não seja uma compreensão de alguma coisa. Isto é, de alguma coisa lida, ouvida ou vista. Os processos de ler e compreender são simultâneos – não no sentido de serem dois processos distintos que se dão no mesmo instante, mas no sentido de não poderem se dar em instantes diferentes por não serem distintos (quem conhece Merleau-Ponty certamente já notou diversos paralelos com Wittgenstein).

Quando um aluno ouve seu professor sem estar prestando atenção, o professor pode então tanto perguntar “Você entendeu o que eu disse?” quanto “Você ouviu o que eu disse?”. O segundo questionamento não seria incorreto. Incorreto seria considerá-lo incorreto pelo fato de que os sons certamente foram ouvidos, uma vez que as ondas mecânicas sem dúvida atravessaram o ar e chegaram aos seus tímpanos. Não ouvir, é claro, pode significar estar fora do alcance do som. Mas pode também significar não ouvir o sentido. Analogamente, quando o professor pergunta se o aluno leu um livro, o que quer saber não é simplesmente se passou os olhos pelas suas marcas gráficas. Não precisa depois perguntar, caso diga ‘sim’, se também o compreendeu. Uma semelhante pergunta seria movida pela complexidade do texto e não pela dificuldade de entender cada uma de suas palavras individualmente (seria uma pergunta por um aspecto ainda mais sutil e intricado da palavra ‘compreensão’ do que aquele que Wittgenstein está focalizando aqui). Também não tem sentido, caso tenha lido, mas sem muita atenção, pedir: “Agora compreenda-o!”.

O que não significa em absoluto que a pergunta “Você compreendeu?” já vem embutida na pergunta “Você leu o livro?”. Ao contrário, é pelo fato de a pergunta pela leitura ser uma pergunta pela compreensão que ela não precisa vir embutida. A pergunta pela compreensão não acompanha a pergunta pela leitura como uma segunda pergunta. A pergunta pela leitura constitui uma pergunta pela compreensão. A pergunta pela compreensão não é feita em silêncio pelo professor no momento em que pergunta pela leitura. E o fato de que não ocorre nada semelhante em sua consciência, não implica que portanto deve ocorrer em seu inconsciente. O aluno não destila a pergunta do professor para descobrir nela a pergunta “Você compreendeu o que leu?”, pergunta que o professor não dissolveu na pergunta “Você leu o livro?”.

Uma leitura que absorvesse apenas os signos, não seu sentido, seria uma leitura bastante inusual, a ponto de poder até não ser considerada uma leitura – a ponto de demandar uma ressalva como “preciso observar”. Ela poderia ser talvez chamada de “mera leitura” ou de “leitura pura”; contudo, a palavra ‘pura’ não serviria para se chegar à essência real da leitura e sim para mostrar que algo da sua essência foi deixado de fora. Se a frase “Eu meramente li a Crítica da razão pura” tem algum sentido – deve ser que não entendi o que li. E qual é a diferença entre ler sem entender e não ler? Qual é a diferença entre uma pessoa que leu a Crítica da razão pura sem entendê-la e uma pessoa que não a leu? Quem sabe mais sobre Kant? Vejamos um caso mais simples do que a Crítica da razão pura, que não envolva aquele aspecto já mencionado da compreensão não examinado aqui por Wittgenstein. Se um aluno lesse o trecho de um livro em voz alta (um livro particularmente fácil de compreender), mas de forma distraída, sem compreender nada, seu professor poderia dizer que não o leu. Mas como? O aluno proferiu os sons corretos – e na ordem correta. Como não o leu? Não seria necessário dizer que apenas não o compreendeu? Mas o que precisará fazer para compreendê-lo? Simplesmente realizar agora o segundo passo, o passo de compreender – de associar significados aos sinais que acabou de ler? É verdade que podemos captar o sentido de uma frase segundos depois de ouvi-la (como uma piada, por exemplo). O mais provável, contudo, é que o aluno precise ler de novo o trecho. De forma não distraída. Salvo algumas exceções, não se consegue insuflar em t2 vida aos signos lidos em t1 – apesar dessa lacuna figurar no cerne da maioria das teorias da linguagem, que brincam entre o empírico (daí a necessidade de tempo) e o conceitual (daí o tempo precisar ser tão curto). Se não tiveram vida em t1, será preciso ler tudo de novo e não apenas compreender agora o que foi lido.

Seria exagerado dizer que engolir puros signos constitui a forma básica de leitura – que primeiro absorvemos os signos, os meros signos, e depois arrancamos das profundezas de nossa memória, em meio às teias de aranha, os significados com os quais os reanimamos. A maioria das teorias, é claro, exagera. Esse processo, ou algo similarmente descritível, é realmente experimentado quando estamos aprendendo uma linguagem: “Como é mesmo o som de ‘maçã’, qual é mesmo o seu significado?”, nos perguntamos. Mas está longe de descrever a forma geral da leitura. Está longe de descrever a experiência de uma pessoa adulta, que já domina uma linguagem – e que não faz nenhum esforço para ler ou para entender o que escuta. Que não raciocina, que não pensa. Que simplesmente lê. Que simplesmente ouve. Essa forma supostamente básica continua a se processar em seu inconsciente? É o que costumam rezar as teorias.

Mas comparemos uma pessoa que fala uma língua fluentemente a uma outra que está apenas começando. A primeira simplesmente fala. Escuta, responde – conversa. Joga xadrez sem consultar nem no manual que está na estante – nem no manual memorizado – as regras do jogo. É isso o que vem a ser sabê-las. Se não as soubesse, é claro, precisaria consultá-las – seja no manual da estante, seja no manual memorizado. O iniciante, sim, pode olhar para o cavalo e se perguntar: “Como é mesmo que essa peça se move?”. Pode então contrair os lábios, franzir a testa e pensar – até se lembrar. O seu professor de xadrez, observando suas expressões, talvez diga que ele estava buscando na memória o movimento do cavalo. Mas uma pessoa que sabe jogar xadrez – digamos assim – fluentemente, não fará nenhuma expressão que o professor descreverá como uma busca na memória pelas regras do jogo. E mesmo que ela faça as mesmas expressões do aprendiz, o professor dirá mais provavelmente que ela estava planejando uma jogada – não que estava tentando lembrar de uma regra. Uma pessoa que sofreu um acidente de carro e que precisou se submeter à fisioterapia para voltar a andar: talvez nos seus primeiros passos tenha pensado “agora a perna direita, depois a esquerda”; entretanto, um dos critérios para o sucesso da terapia é que pare de pensar e passe simplesmente a andar. O paciente continua então a falar inconscientemente “agora a perna direita, depois a esquerda”? A palavra ‘inconscientemente’ parece aqui apenas uma forma confusa – talvez nostálgica – de dizer ‘não’. Uma pessoa que não reconhece as palavras de um certo idioma, não o compreende – não há dúvida. Mas uma pessoa que as reconhece depois de um tempo de inspeção – por mínimo que seja – também não o domina. Ela só o domina quando não precisa mais inspecionar sua mente para falar.

Uma pessoa que faz o que as teorias da linguagem costumam dizer que todas as pessoas fazem, é uma pessoa que não domina a linguagem. O conceito de compreensão das teorias da linguagem parece na verdade um conceito de falta de compreensão. Pois ao partirem do paradigma do aprendiz – ou do estrangeiro – para explicar como uma pessoa fluente usa o seu idioma, parecem afirmar que no fundo ninguém jamais dominou nenhuma língua. A memória certamente exerce o seu papel (no aprendizado). E também imagens mentais, bem como a tradução de uma palavra do idioma ainda desconhecido para o idioma já conhecido, podem exercer o seu papel (no aprendizado). Mas que fique claro: no aprendizado, não no uso. É importante para a nossa fluência numa certa língua não precisarmos recorrer constantemente à memória.

Além do mais, ao contrário do que as teorias dizem, nada mostra que as pessoas recorrem constantemente à memória para usar sua própria língua. O que para ela é necessário, parece na verdade não ser feito. As pessoas não contraem os lábios e franzem a testa constantemente ao falar. Não parecem estar lembrando de nada. Nada indica que para uma pessoa fluente num certo idioma, os seus signos são em última instância meros signos. Seria incorreto dizer que ao abrir seu livro de cabeceira, ela se depara com meros sinais gráficos que precisa correr aos seus arquivos inconscientes para decifrar – o que realiza numa fração de tempo tão curta que nem percebe o trabalho que teve. Ela se depara com palavras. Com palavras que compreende. Que precisaria realizar um esforço apenas se não quisesse compreendê-las. Uma pessoa que domina um idioma não tem nenhum trabalho para manejá-lo, para compreendê-lo. A diferença entre quem já domina um idioma e quem ainda não o domina não é simplesmente uma diferença de velocidade de recuperação dos dados armazenados no inconsciente. A diferença é antes que o aprendiz ainda precisa usar a memória, mas não quem já o domina. A diferença, por assim dizer, não é quantitativa e sim qualitativa.

Em nossos primeiros estudos de aritmética, podemos ter aprendido a calcular 9x9 da seguinte forma: primeiro, calculando 9x10, o que é bastante fácil (“basta acrescentar o zero”) e depois subtraindo 9 do resultado. Com o tempo, porém, aprendemos a ir direto de 9x9 para 81. Não realizamos mais os passos intermediários: não calculamos primeiro 9x10 e depois subtraímos 9 para finalmente chegar a 81. Assim também num primeiro momento podemos aprender a ler ‘paralelepípedo’ com uma certa dificuldade: primeiro lemos o segmento ‘para’, depois o segmento ‘lele’ e por último o segmento ‘pípedo’. Mas quando finalmente passamos a ler ‘paralelepípedo’, o que está acontecendo não é que lemos primeiro ‘para’, depois ‘lele’ e por fim ‘pípedo’ de forma tão rápida que parece que lemos um só segmento ou que lemos todos simultaneamente. Esses passos intermediários não migram para o fundo da consciência. Eles somem. É o que acontece com a compreensão. Num primeiro momento, podemos aprender qual é o lado ‘direito’ passando pela etapa de que “é o lado do braço com o relógio”. Mas quando já dominamos a linguagem, não olhamos mais para o braço em busca do relógio. Essa etapa intermediária não vai para o inconsciente, ela some. Aliás, o que seria olhar inconscientemente para o braço em busca relógio? Não é à toa que as teorias da linguagem preferem usar nessa parte da exposição palavras como ‘vermelho’ e ‘mesa’ – um artifício que na verdade não ajuda.

As pessoas acham que dar um conjunto de signos é suficiente – o que mostra que para elas não são nada ‘meros’. Aliás, para que ter, na hora de ler ou de ouvir, o trabalho de associar um significado a um signo – se já se sabe qual significado deve ser associado? Se essa associação não trará nenhuma novidade – nenhuma informação nova? A associação não precisa ser feita para a palavra ser compreendida. Na verdade, a palavra precisa ser antes compreendida para que a correta associação possa ser feita. Digamos que os significados sejam entidades não na mente do usuário da linguagem e sim objetos na mesa à sua frente.

Então, ele ouve ou lê o mero signo “vermelho”; para compreendê-lo, ele supostamente precisa pegar o objeto correto em cima da mesa, o objeto vermelho. Mas como ele irá saber qual objeto pegar? Apenas se souber de antemão qual é o vermelho. Apenas se ele não precisar pegar o objeto. Ou seja, os signos da nossa linguagem não são para ele meros inscrições gráficas ou ondas sonoras (como diríamos nos termos da física) que ele precisa associar objetos – significados – para compreender; se quisermos descrever como ele os trata, diremos que os trata como palavras, como unidades de signo e sentido. É assim também que ele trata as expressões faciais humanas. Não são meros movimentos musculares que ele precisa associar significados – emoções – para compreender. As expressões faciais, por assim dizer, constituem uma unidade de corpo e sentido – onde o ‘e’ deve ser entendido aqui mais como o ‘e’ de ‘os lados convexo e côncavo da colher’ do que o de ‘um livro e um lápis em cima da mesa’.

A palavra ‘signo’, de fato, parece ter sido forjada para subtrair da palavra o seu significado, a sua vida (e tornou-se tão corrente que agora é preciso falar em seu lugar de ‘mero signo’). E a teoria surge então para reatar o que foi separado.

Nossa experiência, porém, não é de alguém que vê um signo e usa uma teoria para animá-lo. Não vemos signos. Ou melhor, não vemos meros signos. Como diria Merleau-Ponty, “a perfeição da linguagem é de fato passar desapercebida” [PM, p.32]. Não é que as palavras da linguagem somem. É que os puros signos somem. Ao se tornarem compreensíveis, somem. Quando lemos uma frase, não precisamos mais atinar para seu aspecto físico. Atinamos tão somente para seu sentido. E talvez nem para isso, se pensarmos que a palavra ‘sentido’ é apenas outro subproduto da cisão original que gerou o ‘signo’, contra-parte forjada para equilibrar o seu caráter morto. Isto é, não atinamos tão somente para o seu sentido, mas simplesmente lemos. Diante de signos ininteligíveis, por outro lado, a linguagem aparece com toda a dureza dos signos brutos. Esse caso talvez seja o primeiro com o qual nos deparamos em nosso aprendizado da linguagem, mas certamente não é o paradigma ao qual precisa se conformar a explicação do nosso domínio posterior da linguagem (o que foi dito aqui a respeito de ‘signo’ vale também para todo o jargão pseudo-científico usado nas teorias da linguagem).

Imaginemos um segundo idioma no qual não somos ainda fluentes. Ou o código morse, que não dominamos completamente. Ao vermos uma sucessão de traços e pontos, quando ainda estamos aprendendo o código morse, podemos de fato usar a memória, traduzindo suas expressões para a linguagem que conhecemos.

Esses processos de rememoração e de tradução de uma linguagem para outra, é claro, deixam de ocorrer quando dominamos perfeitamente o código. Mas uma vez traduzido o código morse para a nossa linguagem comum, a linguagem que conhecemos, não precisamos operar uma nova tradução, agora para a nossa linguagem mental. Quando as teorias da linguagem falam que compreender uma palavra é associar a ela uma imagem ou traduzi-la para nossa linguagem mental, elas tentam conformar o modo de descrever a nossa relação com a nossa linguagem materna ao modo de descrever a nossa relação com uma linguagem que ainda não compreendemos, que ainda estamos aprendendo. Seria possível – e talvez mais correto – fazer o contrário. Mas a idéia de que significados são imagens mentais – bem como a idéia já mais articulada de que compreender uma palavra é traduzi-la para uma linguagem mental – são apenas dispositivos usados para reanimar as palavras reduzidas a meros signos. Quando se olha para uma palavra como se fosse um mero signo, é de se esperar que surja a necessidade de se postular uma entidade que o acompanhe – e que doe ao signo seu significado. Porque signos, meros signos, não podem ser compreendidos. Apenas significados podem. O que significa dizer que os signos, meros signos, não podem ter significado. Apenas os significados podem ter significado.

Mas tomemos a vida, por exemplo. A vida não está acima, nem abaixo, nem dentro, nem fora, nem na frente, nem atrás dos organismos. Não é a vida que é viva, mas os organismos vivos que são vivos. Ou então as expressões faciais. A expressão de alegria não está abaixo ou atrás ou além dos músculos faciais; não é deduzida ou inferida a partir das suas posições e relações. A expressão está na face. Assim, por que o sentido estaria acima ou abaixo ou além da linguagem e não na própria linguagem? Como diria Dwyer: “São os signos que têm significado, não os significados transcendentes que têm significado” [SS, p.105]. E a compreensão, como um correlato do significado, também não está acima ou abaixo ou além do uso da linguagem. São os signos que são compreendidos, não seus significados. Um signo com significado é um signo compreendido e não um signo cujo significado é compreendido.

Mas esse não parece ser o fim da história. Ou melhor, esse é precisamente o fim da história. Falta o seu começo. Falta mostrar como um signo adquire significado para uma criança, como uma inscrição gráfica ou uma onda sonora se transforma em uma palavra (assim como não se pode assimilar a última fase no domínio da linguagem à primeira, não se pode também assimilar a inicial à última). Se os signos e os significados se fundissem numa unidade mesmo para as crianças, não seria preciso ensiná-las a falar – bastaria mostrar signos, pronunciar palavras. De certa forma, o que fazemos na verdade não passa disso: mostramos signos, pronunciamos palavras; e não podemos oferecer mais às crianças não pelo fato de que os significados estão trancados em nossas mentes, mas pelo fato de não termos nada mais a oferecer. Em nosso aprendizado da linguagem, também não nos deram mais do que isso: signos. Não obstante, os signos eram sempre empregados em certos contextos, em determinadas situações. O que aprendemos ao aprender o significado de um signo não é a pensar, por exemplo, numa mancha mental vermelha perante o signo ‘vermelho’. O que aprendemos é a nos movimentar nos jogos de linguagem onde o signo ‘vermelho’ é empregado. Dominar, saber, compreender uma linguagem é ser capaz de servir-se dela, é ser capaz de usá-la. E só se aprende a usá-la mediante treinamento.

“Ele compreendeu o sistema se continuou a série até o centésimo lugar?”, pergunta Wittgenstein no começo de IF 146. A resposta é simples: não. Pelo menos, não necessariamente. O que está em jogo aqui, é claro, extrapola os horizontes da matemática; a pergunta de Wittgenstein visa sobretudo elucidar a natureza da compreensão (ou desmontar uma determinada imagem da sua natureza). Para despir a pergunta de sua roupagem matemática e assaz estreita, seria possível reformulá-la da seguinte forma: “O aprendiz compreendeu, no jogo dos construtores, o significado da palavra ‘tijolo’ se pegou o objeto certo até o centésimo chamado?”. Mais uma vez, a resposta é simples: não necessariamente. Como diz o interlocutor de Wittgenstein, compreender uma palavra não é aplicá-la corretamente um determinado número de vezes. Isso é a aplicação da compreensão, não a compreensão. Até aqui, tudo bem. A partir daqui, porém, o interlocutor oferece uma explicação inadequada da diferença entre a compreensão e a aplicação da compreensão – sugerindo que a compreensão é como uma fórmula e sua aplicação como o conjunto dos números que ela gera.

Trata-se, é claro, de uma tentativa relativamente sofisticada, uma tentativa que já contempla algumas das dificuldades que atingem a relação entre a imagem mental do tijolo e os vários tijolos da construção. Como explicar que a aplicação da palavra ‘tijolo’ possa transcender – e corretamente – as instâncias empregadas no seu ensino? A resposta do interlocutor de Wittgenstein aqui é: a imagem mental do tijolo, sendo mais ou menos como uma fórmula, encaixa-se em cada um dos tijolos – assim como a fórmula gera cada um dos números da sua série. Evidentemente, é difícil entender como uma imagem pode se assemelhar a uma fórmula (compare uma fotografia de um tijolo a uma expressão algébrica), como uma imagem pode ter as mesmas propriedades de uma fórmula. Uma fórmula possui variáveis. Uma imagem, não. “Mas a imagem mental do tijolo possui lacunas, para que não entre em conflito com nenhum tijolo diferente; daí ser uma espécie de fórmula”, poder-se-ia dizer.

Ou então: “Não possui lacunas, mas é transparente”. No primeiro caso, ela não entraria em conflito com todos os tijolos, exceto os quebrados? E no segundo caso, também com todos os tijolos, exceto os transparentes? Lembremos também que a relação entre a fórmula e os números que ela gera não é de semelhança, como o caso da imagem mental do tijolo sugere. Por que então se tenta estabelecer a ligação entre a imagem mental do tijolo e os demais tijolos através da semelhança? Dissemos antes que a preocupação de Wittgenstein não se limita à matemática, estendendo-se à natureza do significado e da compreensão. Sua própria explicação da compreensão não lança mão de nenhuma analogia matemática. Para ele, a compreensão é uma habilidade, uma capacidade de empregar signos. E essa habilidade não está fundamentada em nenhuma fórmula para o seu uso. Assim como não usamos fórmulas para andar de bicicleta ou nadar, também não as usamos ao falar. É o interlocutor de Wittgenstein, não Wittgenstein, que aproxima a linguagem da matemática com o intuito de explicar a natureza do significado; é o seu interlocutor que propõe explicar a compreensão de um termo como se fosse a descoberta de uma fórmula para seu emprego. Esse tipo de explicação, de fato, satisfaz o paladar dos tempos modernos. É um tipo de explicação que tende a ser aceito, ainda que não explique nada, apenas por se conformar ao ideal de explicação da nossa civilização. Uma explicação tem que apresentar algum número, alguma variável. Tem que apresentar algo de matemático.

Uma explicação do significado e da compreensão tem que se assemelhar à explicação da gravidade ou do magnetismo. Wittgenstein está assim denunciando aqui algo mais profundo, algo que diz respeito à civilização ocidental ou em todo caso à mentalidade moderna: que se mostrou primeiro na tentativa de criar uma linguagem universal logicamente perfeita; e depois, frente ao seu fracasso, na tentativa de afirmar que ela já existe nos recantos da nossa mente. Em parágrafos anteriores das Investigações, ele já havia colocado em xeque a primazia da análise e a idéia de que a linguagem – ou a essência da linguagem – é um cálculo. Como diria Cavell: “(...) ‘aprender’ [uma linguagem] não é uma disciplina tão acadêmica quanto um acadêmico está apto a supor” [EX, p. 23]. Mas quando uma idéia assim é derrubada, ela pode facilmente ressuscitar em outro lugar – por exemplo: a linguagem cotidiana pode não ser um cálculo, mas a sua compreensão envolve um cálculo. Isto é, o cálculo está internalizado, mora nas profundezas do nosso inconsciente. As fórmulas algébricas constituem o que há de mais palpável para explicar a natureza desse cálculo mental.

Compreender uma palavra é criar – ou encontrar – para ela uma fórmula que permite sua aplicação a um número indefinido de casos. A compreensão da linguagem cotidiana não é nada além da sua tradução para essa linguagem mental. Contudo, essa linguagem mental, desenhada para explicar a compreensão, acaba deslocando (e agravando) o problema: agora é preciso explicar como chegamos a compreendê-la (o que parece duplamente difícil, visto que ninguém é capaz de nos explicá-la).

Essa tentativa de explicar a diferença entre a aplicação da compreensão e a compreensão é uma tentativa que no fundo não respeita essa diferença; a diferença não é entre uma série numérica e a fórmula que ela resume, mas entre um conjunto de ações e uma capacidade. Em IF 148 fica claro que a diferença sugerida pelo interlocutor é uma diferença superficial. Aqui Wittgenstein começa a atacar a idéia de que a compreensão é um estado mental – de que é algo que se apresenta à consciência. Digamos que o mestre-de-obras grite: “Tijolo!”. Automaticamente, a imagem mental de um tijolo surge na mente do ajudante – ele a retém e vai em busca do objeto que corresponde a essa imagem. No meio do caminho, porém, acontece um acidente na construção: sua atenção é desviada por causa do barulho e a imagem mental do tijolo desaparece da sua consciência. Mas depois de ver que o acidente não foi nada grave, ele continua seu caminho e satisfaz o pedido do mestre-de-obras. Contudo, a imagem mental sumiu da sua consciência por alguns instantes. Quando a imagem mental do tijolo sumiu da sua consciência, ele parou de compreender a palavra ‘tijolo’? Pelo contrário, a imagem mental do tijolo não é o seu significado.

Os estados mentais geralmente têm início e fim. Não é que a compreensão não tenha um início, não é que não possa ter um fim. As habilidades também podem ter início e fim. Mas começar e parar de compreender uma palavra é diferente de começar e parar de imaginar um tijolo – ou de pensar em uma fórmula ou de sentir uma dor. Nesse aspecto, a compreensão se assemelha mais a uma habilidade como nadar ou andar de bicicleta. No intervalo de cinco minutos, podemos começar e parar de imaginar um tijolo inúmeras vezes. Não podemos, no mesmo intervalo, começar e parar de compreender uma palavra o mesmo número de vezes, assim como não podemos aprender e desaprender e reaprender a nadar. Não podemos deliberadamente parar de compreender uma palavra ou de saber nadar, como podemos parar de pensar no tijolo. Digamos que ao ler um livro nos deparemos com uma palavra desconhecida; não podemos, sem consultarmos o dicionário, por um simples ato de vontade compreendê-la. Mas podemos por um ato de vontade imaginar qualquer coisa que quisermos. Não explicamos às crianças e aos estrangeiros como imaginar um tijolo, mas explicamos o significado da palavra ‘tijolo’. Podemos sem muito esforço aumentar e diminuir o tamanho do nosso tijolo imaginário. Mas isso não aumenta e diminui o tamanho do significado da palavra ‘tijolo’. Tem sentido dizer: “Estou sentindo dor incessantemente há mais de uma hora”, mas não dizer: “Estou compreendendo a palavra ‘tijolo’ incessantemente há mais de uma hora”. Falar que a imagem mental – o significado – permanece incessantemente no inconsciente desde o momento em que passamos a compreender uma palavra até o momento em que a desaprendemos, é apenas um procedimento que visa atenuar as enormes diferenças entre compreender e imaginar. Ou de novo entre a compreensão e a aplicação da compreensão: “(...) a distinção categorial não é capturada supondo que as potencialidades diferem das atualidades em virtude de serem invisíveis ou ocultas (...)” [MU, p.338].

Colocar no inconsciente o significado – a imagem mental ou a fórmula – ajuda em alguma coisa? Talvez a explicar como a compreensão não vai embora junto com a imagem consciente. No entanto, é uma tática que gera outros problemas. Como um objeto inconsciente pode nos ajudar a compreender a linguagem. Ele não está inconsciente? Não é assim inacessível? Digamos que ele se infiltre sorrateiramente na consciência no exato instante em que ouvimos a palavra à qual corresponde, sumindo logo em seguida – de novo, como algo que passa em nossa consciência numa velocidade tão alta que nem conseguimos notá-lo pode nos ajudar a falar e compreender a linguagem? Aliás, como sabemos que essa é a imagem mental correta? Não pode ter surgido em nossa consciência a imagem errada? Ela só poderá ser útil se for correta e só poderemos saber se ela é a imagem correta se já soubermos o significado da palavra à qual corresponde. Além do mais, que uma imagem mental inconsciente é capaz de fazer que uma consciente não seja? A propriedade de ser inconsciente – por si só – basta para investir o objeto de propriedades mágicas? Os argumentos que nos levam a rejeitar as imagens mentais conscientes não deveriam simplesmente lançá-las no inconsciente e sim lançar nosso olhar em busca da natureza da compreensão em outra direção.

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Citações

IF Investigações filosóficas – Ludwig Wittgenstein

PM Prosa do mundo – Maurice Merleau-Ponty

SS Sense and subjectivity: Wittgenstein and Merleau-Ponty – Philip Dwyer

EX “Excursus on Wittgenstein’s vision of language” – Stanley Cavell (artigo publicado no The New Wittgenstein, eds. Alice Crary e Rupert Read)

MU Meaning and Understanding, Vol.1 – Gordon Baker e Peter Hacker.

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