A igualdade é um assunto bastante amplo e importante para várias áreas do conhecimento e do pensamento humano, posições acerca do que é a igualdade podem influenciar várias decisões políticas ou científicas etc. Assim, sendo a linguagem o lugar de constituição da idéia de igualdade, é na filosofia da linguagem que se tem uma possibilidade de articulação da idéia de igualdade enquanto conceito, mas o próprio conceito de igualdade não se caracteriza como objeto da linguagem sendo por isso objeto da filosofia da linguagem.
Este trabalho terá como objetivo fazer uma exposição do conceito de igualdade enquanto elemento da filosofia da linguagem em dois contextos a saber: a) no contexto analítico b) no contexto hermenêutico. Essa exposição será baseada na busca por um entendimento mais elaborado do conceito em questão passando-se por posições diversas dentro dos dois contextos citados acima, assim a primeira parte do trabalho versará sobre alguns autores analíticos enquanto que a segunda parte terá como referência alguns autores hermenêuticos.
A idéia que será transversal a essas duas tradições (Analítica e Hermenêutica) neste trabalho é a de um entendimento da igualdade em dois sentido, um sentido forte e um sentido fraco. O sentido forte será visto como pressuposto à linguagem enquanto que o sentido fraco será o objeto da linguagem, isso será portanto o fator orientador dos argumentos desse trabalho que terá como pano de fundo a tarefa de expor “explicativamente” o modo como esta divisão interna do conceito de igualdade é tomada nas duas tradições.
O presente item tem por objetivo fazer uma abordagem sobre o conceito de igualdade na tradição analítica da filosofia da linguagem, mostrando que a existência de alguns problemas relacionados a esse conceito nesta tradição provem de um não entendimento dos dois sentidos que constitui essa noção (sentido fraco e sentido forte). Isso será feito mediante uma exposição dos problemas relacionados à identidade, onde uma reinterpretação do símbolo ‘=’ seja vista como um dos possíveis mecanismos para solucionar tais problemas. Essa reinterpretação estará baseada em uma divisão no âmbito do que se é tomado comumente por igualdade, será tratado pois três tipos básicos de igualdade. a) Mesmidade. b) Igualdade de referentes. c) Igualdade de sentido. Mesmidade é a igualdade no sentido forte e caracteriza qualquer objeto que seja idêntico a si mesmo em um certo momento. Igualdade de referentes se dá entre dois sinais diferentes ou não, que se referem a um mesmo objeto e Igualdade de sentido se dá entre dois ou mais símbolos ou agrupamento de símbolos (palavras, frases ou quaisquer outros) distintos que, quando intersubistituídos em alguma proposição, não alteram o valor semântico ou sintático dessa proposição.
Uma outra idéia a ser explorada será a hipótese de que não é possível fazer uma boa representação da igualdade em sentido forte - na linguagem - (tentarei mostrar neste trabalho o porquê dessa não possibilidade) quando essa igualdade é entendida como mesmidade. Portanto também será tema desse trabalho o fato de uma impossibilidade da representação da igualdade em sentido forte ser o motivo pelo qual deveria-se fazer uma reinterpretação da igualdade. O sentido forte de igualdade que aqui faço menção é o de considerar igualdade como sendo identidade (ou mesmidade), neste caso como se pode inferir, temos na definição de igualdade não apenas a intersubstitucionalidade de termos iguais em alguns casos, mas em todos os casos, não em alguns contextos mas em todos os contextos, o que sugere um entendimento de igualdade como sendo “mesmidade”, tal coisa portanto só se dá quando temos em mente uma única coisa se relacionando com ela mesma, portanto no sentido forte, a igualdade só tem sentido quando é igualdade em uma única coisa, assim sua representação gráfica fica debilitada uma vez que não pode haver igualdade no sentido forte entre coisas separadas (dois todos separados). Essa definição se assemelha à definição Leibniziana mas não se confunde com ela, uma vez que para Leibniz, a substituição é em um mesmo contexto e não em todos, também difere da definição Aristotélica que supõe a igualdade a partir da quantidade[1].
O tema deste texto aparece como relevante para questões analíticas da linguagem visto que filósofos importantes como Frege, Russell e Kripke, basearam-se em certas concepções de igualdade para apresentarem suas teses, por isso irei toma-los como referência para minha argumentação. Primeiramente mostrarei até que ponto eles se utilizaram da ambiguidade do sinal ‘=’ para fazerem críticas e defesas que lhes fossem convenientes. Em seguida colocarei de que modo eles já indicavam que a igualdade poderia ser especificada conforme o que se quisesse informar (como será visto mais adiante). Como pano de fundo ficará uma crítica acerca do entendimento que esses filósofos tiveram da igualdade em sentido forte. Tentarei explicitar neste trabalho que eles, ao criticarem teorias, utilizavam-se da mesmidade como o significado de igualdade, mas quando estavam construindo seus sistemas a igualdade que usaram foi algum tipo de igualdade em sentido fraco. Ainda em relação a isso mostrarei que há nestas discussões dois níveis de igualdade a se considerar: Um, da linguagem objeto e outro da metalinguagem. Todavia este ponto não será devidamente desenvolvido neste momento do trabalho sendo tomado apenas a título de descrição e tendo esclarecimentos mais pontuais apenas quando forem indispensáveis.
O presente trabalho será estruturado em diferentes partes assinaladas por números romanos. Em I será reafirmada a importância e a complexidade da igualdade enquanto tema da filosofia da linguagem. Em II colocarei minha posição, esclarecendo o máximo possível o que é que se deve levar em conta para a consideração do tema e dos objetivos colocados. Em III, IV e V serão vistas as concepções dos autores (Frege, Russell e Kripke respectivamente) tomada de modo a fazer-se ver como essas concepções podem ser analisadas por uma ótica de uma nova concepção da igualdade. Essa estruturação está concebida de modo a fazer com que haja uma releitura das concepções acerca da igualdade levando em conta os objetivos propostos acima.
“A igualdade desafia a reflexão dando origem a questões que não são muito fáceis de responder. É ela uma relação? Uma relação entre objetos ou entre nomes ou sinais de objetos?”[2]
Apresentarei aqui neste trabalho algumas considerações e tentativas de lidar com estas questões passando, assim por conceitos como referência e sentido[3]. Mas isto não será feito neste item, aqui iremos apenas mostrar quais tipos de respostas (não todos os tipos mas apenas alguns) poderiam ser dadas às perguntas fregeanas. Os problemas serão formulados intuitivamente, uma vez que eles provem das definições feitas, o que quer dizer que quaisquer respostas a esses problemas trará certas inquietações demonstrando a existência de uma problemática no tratamento da igualdade, problemática esta que direciona seu tratamento para uma redefinição da noção de igualdade, tendo em mente neste caso, que o desenvolvimento dessa redefinição poderá levar-nos a considerar mais do que uma espécie de igualdade.
Suponhamos então algumas possíveis respostas a essas perguntas iniciais (perguntas que são feitas a partir da problemática da noção tradicional de igualdade, ou seja, da noção que não especifica quais tipos de igualdade estão em questão, essas também são as questões que estão citadas acima e que é formulada por Frege). A primeira resposta que tratarei aqui é a afirmativa, ou seja, considerar a igualdade como sendo uma relação. Esta resposta parece ser interessante apenas quando temos em mente coisas do tipo ‘a = b’ uma vez que neste tipo de igualdade temos dois lugares preenchidos por dois objetos distintos ‘a’ e ‘b’. Note-se porém que esta relação será convergente, melhor dizendo, relacionará os dois objetos a um único que está implícito aqui como sendo o objeto que foi designado por estas letras. Logo as letras que fazem parte da sentença ‘a = b’ são apenas sinais e estão postas como iguais pois se referem a uma mesma coisa (Tratarei da relação entre igualdade e referência no próximo item). Diante disso, poderíamos dizer que esta relação possui três e não dois lugares? Essa pergunta tem sentido quando pensamos que ‘a’ e ‘b’, uma vez sendo sinais de objetos, possuem um referente em comum, portanto esta relação, se assim o fosse (‘a’ e ‘b’ sendo referentes de um terceiro), teria como lugares tanto os preenchidos por ‘a’ e ‘b’ quanto pelo referente dessas letras. Não vou tentar apresentar aqui a resposta dessa questão sobre a quantidade de lugares desta relação, quero apenas mostrar que há algumas dificuldades que se forem levadas a sério mostrará o quanto que a igualdade é um tema complexo.
A segunda opção sobre a pergunta Fregeana dirá que a igualdade não é uma relação, sendo assim uma resposta negativa. Esta resposta me agrada mais, ao contrário do que Frege defende em sua Begriffchrift. Mas, então, o que teríamos se a igualdade não fosse considerada uma relação?
Minha resposta é:
Uma não representação da igualdade. Isso quer dizer que a igualdade quando não é uma relação passa a ser um pressuposto, algo que necessariamente é postulado em uma linguagem, esta é a igualdade em sentido forte de que trato neste trabalho e que portanto estará explicitada ao longo do texto. Podemos também concluir que, não sendo a igualdade uma relação então ela pode estar entendida como sendo um predicado (neste caso então, possuirá representação) ou mesmo algo essencial (como um postulado).
Em última hipótese poderíamos ainda responder que a igualdade é uma relação apenas em parte, em outras palavras, que a igualdade possui algumas, e não todas, as características das relações. Esta resposta é a mais antiintuitiva, e é a mais difícil de ser pensada por ser também a mais abstrata. Para considerá-la teríamos que tomar o conceito de ralação em partes e algumas delas seriam constituintes da igualdade e outras não.
Mostrei neste item algumas diferentes concepções possíveis sobre as diferentes interpretações do sinal ‘=’ em relação à pergunta fregeana sobre se a igualdade seria ou não uma relação, dando um enfoque maior aos problemas que elas (as diferentes concepções) podem sugerir, isto foi importante para que fosse delimitado a problemática do trabalho, ao vermos as diferentes concepções possíveis pude colocar que apenas uma delas foi tomada como tema do trabalho (considerar a igualdade como sendo uma não relação) e que por isso muitas outras questões ficarão em aberto ainda que este trabalho se conclua algum dia.
A pergunta central do trabalho é colocada acerca da relação entre o conceito forte de igualdade (identidade) e outros elementos da filosofia analítica da linguagem, na resposta à essa pergunta central tentarei mostrar que a igualdade é mais fundamental em uma tal filosofia do que sugere a intuição de alguns filósofos, visto que esses filósofos, quando analisam a igualdade em seus sistemas, não levam a sério algumas conseqüências importantes da identificação dos diferentes tipos de igualdade.
Neste ponto será tratado a maneira como pretendo relacionar a igualdade e a referência. Este item será importante na medida em que mostrará como uma certa noção de igualdade está presente em qualquer noção de referência, e portanto essa relação igualdade/referência importa na concepção de quaisquer linguagens que possuam em algum sentido a idéia de referência dada entre seus símbolos e objetos que não são esses símbolos.
Portanto a questão na qual me basearei para desenvolve-lo (esse ponto) será a seguinte:
Como a noção de igualdade pode interferir na noção de referência?
Há três possíveis respostas a esta pergunta. A primeira, sustenta que referência e igualdade são totalmente relacionadas chegando mesmo a se identificar. A segunda diz que são em parte relacionadas e em parte não são, e a ultima sustenta que não há relação alguma entre esses conceitos.
Primeiramente seria interessante considerar a possibilidade da existência dessa “interferência”, mas antes devo delimitar a questão, e para isso analisarei um certo caso onde referência e igualdade são pressupostos.
Suponha-mos a seguinte situação:
(s) Uma pessoa x aponta para um gato e diz:
- Veja, um gato!!
O interlocutor entende o que se pretendia que ele (o interlocutor) entendesse[4].
Dado (s) e supondo que há um gato e que tal gato foi citado por x na situação acima, veremos como poderia a referência, neste caso, se relacionar com a igualdade.
Primeiramente, apesar de ser plausível considerar que houve uma referenciação bem sucedida, em outras palavras, que x se referiu pela palavra “gato” ao animal gato, não parece que há plausibilidade em identificar a palavra “gato” ao felino (animal “gato”). Daqui ainda não posso dizer que não há uma diferença fundamental entre igualdade e referência mas apenas que referência não é, neste caso, o mesmo que igualdade em sentido forte.
A equivalência entre referido e referente é o ideal da linguagem proposta por Wittgenstein em seu tratactus, de antemão, sabemos que esta é uma forma rigorosa de se definir uma referência, sua utilidade parece ser exclusivamente científica.
Uma outra proposta seria dizer que em certo casos a referências envolvem a igualdade sem abarca-la, o que quer dizer que há uma certa idéia da igualdade no conceito de referência mas que referência não é o mesmo que igualdade, em outras palavras, a referência é uma espécie de igualdade instrumental, ou seja, é uma suposição de igualdade entre o referente e o referido, logo, para esse tipo de referência a igualdade perde o seu sentido forte e passa a ter um aspecto de semelhança, uma vez que, dessa forma, podemos ter a possibilidade de uma manipulação das referências e consequentemente de uma linguagem[5]. Essa possibilidade é dada pela referência, uma linguagem sem a referência não é conceptível ou pelo menos parece não ser útil se por acaso for concebida, a referência seria então uma espécie de coisa semelhante á igualdade mas não idêntica a ela, não é idêntica uma vez que aceitar a referência de uma palavra (gato) não é aceitar que essa referência identifique a palavra ao objeto (animal), pois se assim o fosse, dizer[6]:
Gato se refere à 4 letras.
Gato = animal.
Seria o mesmo que dizer:
Animal = 4 letras.
Ou
Animal se refere à 4 letras.
Sabemos sem mais análises que tais coisas não se dão.
Há entretanto uma última alternativa possível a se considerar a relação entre igualdade e referência que é sustentar a inexistência dessa relação. Entender referência a partir de um sentido negativo, ou seja, a partir da não igualdade (absoluta), seria tão somente entender que quando sou bem sucedido ao denominar algo não significa que esse nome seja essa coisa, quando x diz “gato” (palavra) não é necessário sair um “gato” (animal) de sua boca, e se quiséssemos uma tal referência como igualdade entre símbolo e objeto, ainda que saísse um “gato”(animal) qualquer de sua boca não teríamos uma referência dado que esse animal teria que ser igual (idêntico) ao referido. Isso forçaria fazer com que o animal que saísse da boca do falante fosse o animal a que aquele que disse a palavra gato quisesse se referir, e portanto nenhum outro animal seria referido por aquele. Note-se que quando a referência é tomada de maneira totalmente diversa da igualdade essa igualdade está tomada como mesmidade.
Igualdade e sentido.
Nesta parte do trabalho pretendo fazer algo semelhante ao que foi feito no item anterior porém em relação ao sentido e não à referência, ou seja, responder à questão sobre a relação entre sentido e igualdade. Todavia o processo pelo qual o farei não corresponderá ao do item anterior, isso se deverá ao fato de que sentido e referência serão tomados como sendo diferentes, essa é uma concepção semelhante àquela tomada por Frege e diferente da de Russell. Assim tentarei demonstrar primeiramente como que o sentido aparece neste trabalho dado o que foi visto até agora.
Suponhamos o seguinte caso:
X poderia ter dito em uma outra situação onde o mesmo interlocutor e o mesmo animal estivessem presentes, supondo que x apontasse para esse animal:
(s1) – Veja, 4 letras!!
Neste caso, considerando que novamente o interlocutor tenha entendido o que se queria dizer, poderíamos pressupor que automaticamente esse interlocutor mais uma vez considerou o termo composto “4 letras” como sendo o nome do animal, porém essa pressuposição carece de uma nova situação, caímos aqui então em disputas que não envolvem somente filosofia da linguagem e que portanto (estas disputas – neste momento) não devem fazer parte deste trabalho.
Assim esse interlocutor teria a sua disposição uma gama numerosíssima de maneiras de relacionar os dois nomes para o animal, mas pelo que nossa intuição nos diz, a referência neste caso se torna refém de uma temível complexidade, não só pelo fato de que tanto “gato” quanto “veja” possuem 4 letras, como também por todas as outras considerações cabíveis, lógica ou pragmaticamente em tal situação como se esta fosse parte de uma única situação, o que sabemos que pragmaticamente não se dá, o que pretendo afirmar quando digo que “em tal situação como se fosse parte de uma única” é que estaríamos tomando a parte como sendo o todo e que portanto para se sustentar isto a complexidade seria inevitável, esta complexidade vem a tona visto que estamos diante de uma linguagem que não é a ideal, os objetos possuem neste caso mais de um signo como nomes, assim como os signos também podem possuir mais de um referente, estamos portanto diante de um dos problemas com que Russell se deparou e quis solucionar pela sua concepção de nomes logicamente próprio, este, a meu ver é um problema acerca do sentido e é por haver casos como este que pretendo analisar esse tema.
Nas situações dadas acima o que nos interessa não é o entendimento do interlocutor mas o conteúdo de tal entendimento, ou seja, não é o caráter pragmático que deve-se ter em mente aqui mas sim o sentido, a referência e a igualdade que envolve o caráter desse entendimento, na situação (s) certas funções da linguagem são citadas e muitas delas estão nas teorias dos filósofos analíticos da linguagem[7]. Portanto já é possível prever que também, e principalmente, a linguagem formal é o que estará na intenção desta monografia e não, portanto, a linguagem natural apenas. Ao se tomar exemplo citado (s), a ultima parte “O interlocutor entende o que se pretendia que ele entendesse” não deverá ser problematizada uma vez que sua função neste exemplo é apenas propor uma situação onde, para duas pessoas falantes de uma certa língua, temos uma referenciação bem sucedida (pelo menos postulada como tal), o que quer dizer que o objeto “gato” foi denotado pela palavra “gato” e que isso não ocorreu privativamente e sim publicamente. No entanto apesar de não parecer, esse texto já tocou várias vezes no tema proposto. O importante em (s) é esse fato a saber: Que uma parte de uma situação como essa é uma noção de igualdade entre referência e referido. Pronto, temos aqui a primeira explicitação dos elementos que estão em jogo neste momento do trabalho. Agora pelo que parece a questão se volta para a relação entre esses elementos da linguagem, principalmente as relações envolvendo o sentido, e mais uma vez enfocando com prioridade as relações envolvendo sentido e igualdade. Em (s) questões epistemológicas poderão sobrevir, fazendo-se com que se pense nesta situação como sendo descrita de maneira incompleta, que não há esclarecimentos suficientes para uma análise dessa situação, uma vez mais digo que o que se está querendo com este exemplo não é um esclarecimento epistemológico, porém tal coisa poderá ser inevitável. Em um tratamento lingüístico, não se quer saber (enquanto tratamento lingüistico) se há meios de termos ou não contato com o objeto e se tais meios são justificados mas que a linguagem funciona de tal e tal maneira e que os elementos da linguagem, postos como estão atuam assim quando a consideramos a partir de um ponto de vista analítico. Após esses pequenos esclarecimentos sobre o que se pretendia nas situações exemplo, podemos fazer uma descrição do entendimento acerca do que seria propriamente a relação entre igualdade e sentido. O sentido é um dos elementos que restam ao delimitarmos a situação (s) como foi feito acima. A primeira questão que colocarei para podermos iniciar a análise da igualdade frente ao sentido será a seguinte: Até que ponto uma idéia de mesmidade pode influenciar no sentido de um proposição? Mais uma pergunta alem desta pode ser interessante para o tema: Quando há uma igualdade de sentido, esta poderá ser tomada tanto no âmbito semântico quanto sintático? Ou. Há algum tipo de igualdade entre sentido semântico e sintático? Para responder tais questões retomemos as duas situações anteriores. Na primeira situação (situação (s)) há a seguinte frase (f1): “veja, um gato!!”. Na outra situação tomarei como exemplar a frase (f2) “veja, 4 letras!!”. Se “4 letras” for o nome do gato que está sendo referido na frase (f1) então tanto “gato” em (f1) quanto “4 letras” em (f2) terão a mesma referência, porém “4 letras” possui um outro sentido na linguagem (um certo número de símbolos) que quando levada em conta diferirá seu referente em relação ao que foi tomado acima (de ser o nome de um animal), porem em certos casos como este mesmo “4 letras” também se refere a nomes e assim “gato” pode ser referido por “4 letras” enquanto sendo o número correspondente de letras que formam este nome, portanto esta mudança de sentido implica em uma mudança de referente (agora não é ao animal gato que se está referindo o termo “4 letras” e sim à palavra gato), tal fato nos informa que sentido e referência parecem possuir alguma relação (pelo menos no caso descrito acima). Mas isto não se daria por se estar tomando sentido anteriormente como algo que envolve referência? Sim, como foi dito acima temos que os dois sentidos de “4 letras” seriam: 1 Ser um animal[8]. E 2 Ser um certo número de símbolos. Ora, nota-se claramente que tais coisas são aceitas também como sendo o referente de “4 letras”, portanto a própria definição da palavra “sentido” será a responsável por como este conceito estará relacionado com outros. Porém não se entende (na filosofia analítica da linguagem) sentido como foi posto acima, este, parece, é um tipo de “sentido” para o senso comum ou para a linguagem natural. Em filosofia analítica o termo “sentido” pode representar dois âmbitos a princípio diversos, um sintático e outro semântico. Esta definição também será a que considerarei para o desenvolvimento deste trabalho. Sentido sintático corresponde à ordem dos símbolos que formam uma determinada fórmula[9] ou frase, uma proposição neste caso possui sentido se os símbolos que a formam estão bem organizados segundo regras já estabelecidas pelo sistema que essa proposição corresponde. Neste caso sentido é o mesmo que organização, ou seja, ter sentido é o mesmo que estar organizado segundo algumas regras. Minha tese sobre a proposição ‘a = a’ é a de que essa proposição não pode possuir sentido sintático, o que quer dizer que ela não está bem formada. Minha argumentação contra o sentido sintático de ‘a = a’ se baseará na igualdade como mesmidade sendo que nos outros casos (igualdade de referentes e igualdade de sentido) terei outra posição acerca do sentido da proposição ‘a = a’. Antes de mais nada cabe mostrar o porque que tomo esta posição. A mesmidade é uma propriedade que os objetos possuem de serem iguais a si mesmo, o que quer dizer que não é possível que dois objetos a possuam, por isso uma proposição ‘a = a’ quando tomada é problemática, sua representação parece deixar espaço para que se pense nela como sendo uma relação o que seria falso uma vez que mesmidade é uma propriedade postulada no princípio de identidade, uma relação possui dois lugares a serem preenchidos enquanto que a identidade (enquanto propriedade postulada) só necessita de um único lugar, ou seja, por ser a propriedade de qualquer objeto, enquanto tal, ser si mesmo, poderíamos então colocar que esta definição é analítica, dado que identidade (mesmidade) já está imbuida no conceito de objeto uma vez que, algo qualquer, tenha que possuir tal propriedade em qualquer caso para ser tomado como objeto. Uma parte da definição de um objeto da linguagem estaria então assim formulada: “Todo objeto da linguagem possui a propriedade de ser igual a si”. O problema central, ao me ver, da representação dada ‘a = a’ é que em uma tal representação não possuiríamos uma diferenciação sintática entre esse tipo de igualdade e outra que não é analítica, ou seja ‘a = b’. Se ‘a = a’ possuir um sentido sintático então não poderemos (teremos também uma certa dificuldade de resolver a questão acerca do problema Fregeano – que será mais discutido posteriormente) evitar uma substituição entre os termos que formam ‘a = a’ e termos que formam ‘a = b’ uma vez que, sintaticamente ambos possuem uma mesma estrutura e que portanto possuem o mesmo sentido sintático. Logo, dado o que foi posto acima é necessário, de alguma forma, se diferenciar mesmidade e não mesmidade, e uma das maneiras de o fazer seria a negação do sentido sintático da proposição ‘a = a’. III - A posição Fregeana. Agora então farei uma pequena descrição da maneira como os filósofos analíticos trataram os elementos da linguagem e como que diante de tais posições a igualdade (identidade) foi utilizadas por eles em tais tratamentos começando por Frege (por motivos Históricos). A hipótese que motivará esta descrição será a de que nenhum dos filósofos em questão tomaram uma noção de igualdade em sentido forte para as definições dos (nos) elementos da linguagem quando estavam estruturando sua própria posição, e que portanto, o fato de não terem utilizado a igualdade neste sentido são fontes de problemas para a interpretação de suas teses. Frege pertence à tradição analítica, um matemático interessado na fundamentação da lógica da matemática. Ele busca aproximar funções matemáticas e lingüísticas, de modo que a linguagem possua uma forma determinada e que de conta de seus significados da mesma forma como se dá na matemática, ou seja, sem ambigüidades. O problema da ambigüidade passa por questões de identidade a partir do momento que ambigüidade passa a ser um entendimento duo sobre determinada coisa. A opção de Frege para o conceito de igualdade será (em sua Begriffsschrift) a de considera-lo como uma relação de sinais de objetos. E como justificativa Frege se apoia no fato de serem ‘a = a’ diferente cognitivamente à ‘a = b’, tomando para si uma posição semelhante à de Kant, que considerava a primeira como sendo sustentada a priori e denominada de analítica enquanto a segunda (sintética) seria extensiva em relação ao conhecimento, ou seja teria mais informação que a contida na própria idéia de ‘a’ e assim seria diferente da segunda. Sendo ‘a = a’ o mesmo que ‘a = b’ teríamos uma relação com aquilo que ‘a’ e ‘b’ se referem, isso dado que ‘a = b’ fosse verdadeira, em outras palavras, ‘a = a’ também é uma maneira de se simbolizar que um sinal ‘a’ possui o mesmo referente que ele mesmo, portanto a mesmidade como igualdade em todos os âmbitos envolverá a igualdade de referência e de sentido também. Frege chama a essa relação (a = a) de “relação que todas as coisas tem consigo mesma”, essa é a mesma definição de igualdade no sentido forte que foi dado acima, para Frege assim como para o que será defendido neste trabalho, tal relação não se dá entre coisas distintas. O problema a partir de tais considerações será o de não se fazer uma importante distinção entre mesmidade (a = a) e um outro tipo de igualdade (a = b), Frege entende que ‘Scott = Scott’ é uma sentença claramente analítica enquanto que ‘Scott = O autor de Waverlley’ não é analítica, portanto não se poderá fazer a intersubstituição entre os elementos dessas duas proposições, a não ser que a segunda seja conhecida como verdadeira, assim sendo, só posso tirar uma sentença analítica de identidade a partir da mesmidade, aqui, observa-se que há de certa forma um apontamento de Frege para uma concepção de igualdade que seja esclarecida quanto ao seu escopo (isso a partir do entendimento de que a igualdade possui três âmbitos. Um relacionado ao seu sentido lato que envolve todos o outros e por isso, considero aqui como sendo o sentido forte. Os outros dois em relação às partes desse sentido mais amplo e está posto como igualdade de sentido e igualdade de referência). Observe-se porém que apesar de Frege ter identificado a diferenciação do sinal de igualdade, no caso acima, entre mesmidade (que ele considerará analítica) e igualdade de referência (este sintético), ele não levará esta distinção adiante no sentido de se reformular a representação das igualdades de modo a conter nesta representação uma indicação explícita dessa distinção. O que proponho aqui seria fazer uma modificação no sinal “=” para que então possamos entende-lo a partir de suas propriedades lingüísticas apropriadas, onde alguma regras, após algumas pequenas alterações não causariam mais os problemas que tanto Frege quanto outros filósofos apresentaram, deste modo teríamos os seguintes símbolos: ‘=ref’ Para as igualdades entre referentes. ‘=sen’ Para as igualdades de sentido. As alterações sobre as regras de substituição devem (a partir de tal modificação) ser adaptadas de modo que fique claro o entendimento de que tipo de igualdade se está tratando em diferentes casos. Assim, minha primeira proposta é que a regra de substituição só tenha aplicação entre igualdades da mesma espécie, o que quer dizer que esta regra só deverá ser aplicada entre igualdades envolvendo apenas um dos dois tipos citados acima. A segunda é determinar que a substituição, quando envolver dois tipos diferentes de igualdade só poderá ser efetivada se o sistema não distinguir sentido e referência (como no caso da posição russelliana como veremos mais adiante. Note-se que não se tem uma representação de mesmidade nos casos acima, isso se deve principalmente ao fato de, neste trabalho, estar defendendo que tal representação não seja possível. Esta idéia aparece também em outras partes do trabalho, por isso não vejo tanta necessidade de desenvolve-la aqui. Os seguintes casos em relação a isso podem ser discutidos aqui: a) ‘O quadrado redondo = O quadrado redondo’ b) ‘O quadrado redondo = Coisa que não existe’ c) ‘Pegaso = Pegaso’ d) ‘Pegaso = Coisa que não existe’ e) ‘O quadrado redondo = Pegaso’ Que tipos de igualdade teremos nestes casos? De ante mão já sabemos que nenhuma dessas frases devem representar uma igualdade em sentido forte uma vez que em todas as 5 frases, existem dois lugares a ser preenchidos, portanto se são “dois” lugares não pode ser uma boa representação de uma igualdade em sentido forte. Uma igualdade em sentido forte deve possuir apenas um lugar pois trata-se de um princípio que confere identidade de um objeto consigo mesmo. Nos casos citados temos que: quando os nomes que estiverem ao lado do sinal “=” forem iguais, como ‘círculo quadrado’ e ‘circulo quadrado’ teremos claramente uma igualdade de sentido. Todavia há uma dificuldade em certos caso pois alguns nomes não possuem referência, assim sendo, como poderíamos dizer que ‘círculo quadrado’ e ‘círculo quadrado’ possuem uma mesma referência? No caso do termo ‘Pegaso’ temos uma complicação a mais. Com efeito, no caso anterior o círculo quadrado é tomado como sendo uma impossibilidade lógica enquanto que o termo ‘Pegaso’ não o é. Temos portanto que o problema parece se deslocar da questão da igualdade para a questão da existência. IV - Igualdade, nomes logicamente próprios e descrições Russell será importante para este texto uma vez que sua posição acerca de alguns elementos da linguagem possuem interesse capital na análise, tanto da igualdade quanto da ontologia que resulta desta. A ontologia entra aqui como conseqüência de resoluções de problemas no âmbito da linguagem, é interessante prestar atenção portanto na sobreposição da linguagem sobre a ontologia neste ponto da investigação. Os interesses que levam Russell a fazer tais formulações são sobre a negação existencial e seu sentido, é a partir disso que esse filósofo analítico cairá no tema dos nomes próprios passando por questões de identidade e referência entres outros. Assim faremos uma pequena exposição de alguns pontos da posição Russelliana frisando o modo como ele chega à questão da igualdade e como a tenta resolve. Para Russell a existência de um objeto nomeado não é uma questão a ser colocada quando seu nome é um nome é logicamente próprio, é esta uma das idéias que Russell toma e tenta desenvolver em sua Principia Mathemática, a partir disso Russell conceberá um quase-predicado (E!) relativo à existência apenas quanto às descrições definidas, a negação de (E!) não tem sentido sintático, por outro lado uma frase que afirma a existência (através do quantificador existencial) de algo que é idêntico a um objeto ‘a’ estaria violando a gramática correta uma vez que sustentaria a afirmação de algo que não está permitido, que é afirmar-se a existência de um objeto apenas por um tal existencial como o dado acima (existe algo que é idêntico ao objeto ‘a’). Assim, tanto frase existenciais do tipo ‘a existe’ quanto suas negações não teriam sentido quando se referisse à nomes logicamente próprios, sendo esta posição conseqüência de sua teoria do significado. Essa teoria do significado sustenta que o significado de um nome logicamente próprio é sua denotação, e esta será a idéia base para toada a discussão sobre sentido e referência desde Frege até Kripke, onde algumas variações de posições se dará no “como” estas coisas (sentido e referência) se relacionam. Russell compartilha da idéia de Frege de que um termo sem referência em uma frase esvazia toda a frase, ou seja, quando a frase fala de um termo que não possui referência (para Russell este termo também não possui sentido) então toda a frase não terá uma referência (novamente, para Russell a frase, como acontece com o termo, não terá sentido). Em Frege porém, esta frase será considerada falsa, se o termo em questão não possuir referente e sem sentido se o termo não possuir sentido. Para sustentar essa idéia Russell constrói, em sua Principia, uma semântica que não deixa espaços (tenta não deixar) para os nomes próprios não denotativos, percebe-se então que o interesse Russelliano é antes de mais nada acerca do quantificador existencial, sendo portanto que a questão da igualdade aparecerá apenas na medida que for útil para sua posição. Russell usará a igualdade metalingüistica em sua definição de nomes próprios não lógicos, sua tese sustentará a seguinte igualdade: “Nomes próprios não lógicos = descrições disfarçadas”. Digo que esta é uma igualdade metalingüística na medida em que informa algo sobre a linguagem que se está estruturando, não é pois uma igualdade na linguagem como pode-se observar em ‘a = a’. Aqui temos um dos pontos que apresentamos como tema no início do trabalho, que é o fato dos autores analisados aqui serem adeptos da mesmidade em um dos níveis da linguagem e em outro nível usar uma linguagem no sentido fraco. Russell, que está sendo visto neste item sustenta uma igualdade forte na linguagem objeto quando afirma que uma frase existencial do tipo: “Existe um objeto ‘x’ tal que este x é igual a ‘a’”, não possui sentido quando ‘a’ é um nome logicamente próprio. Podemos perceber uma relação feita entre existência e igualdade em sentido forte na tese russelliana pois quando temos uma frase verdadeira ‘a = a’ significa que ‘a’ é um nome logicamente próprio e que portanto possui referência.Todavia me parece que há um certo engano no entendimento da mesmidade neste caso em relação à representabilidade desta mesmidade em uma teoria como a de Russell uma vez que, se ‘a’ é um nome próprio então dizer que não se dá ‘a = a’ seria algo contraditório e não sem sentido, mas se a mesmidade é um postulado e ‘a’ é um nome logicamente próprio então não tem sentido negar ‘a = a’ uma vez que há uma certa relação entre um objeto existir e este ser igual a si (isso a partir da própria idéia de Russell de que a = a só pode ser verdadeira se ‘a’ é um nome logicamente próprio).
O outro caso é a igualdade metalingüística (Nomes próprios comuns – não logicamente próprios = Descrições disfarçadas). Aqui estamos diante de uma igualdade de referentes, ou seja, nomes próprios comuns e Descrições disfarçadas são diferentes símbolos (representações) para um único referente (descrições). Sabe-se disto que esta igualdade é um sentido fraco de igualdade, é uma igualdade do tipo ‘a = b’.
Portanto está esclarecido como que Russell se utiliza de uma noção mesmidade para negar a forma tradicional de se tomar o quantificador existencial enquanto que para construir sua idéia de nome logicamente próprio contraposto a um nome próprio comum a igualdade usada é uma igualdade de referência.
V - Igualdade e designadores rígidos
Esta parte do trabalho será dedicada a Kipke, sua importância se fundamentará no fato de que ele tratou de problemas e posições muito interessantes para a filosofia analítica em geral, suas abordagens ajudaram a desenvolver a lógica modal colocando assim novos elementos para as abordagens sobre identidade e essência entre outros.
Para esta monografia será importante ver como tais abordagens podem se submeter às posições que estão sendo aqui defendidas sobre a identidade, e como que Kripke se afasta ou se aproxima dessas abordagens.
No texto de Kripke El nombrar y la necessidad a questão da identidade aparecerá já no início a partir de questões surgidas da relação mente-corpo e do materialismo, assim também como as demais questões que circundam todo o texto como a necessidade e a contingência, e é a partir disso que este filósofo tomará o caráter de importância da analise destes conceitos.
Kripke também abordará temas envolvendo predicados de extensão nula. Este tema também é muito importante dado o que está sendo tratado neste trabalho, Russell também o explorou bastante, e percebe-se com isso que esses temas são decisivos quando se trata da identidade como objeto de pesquisa.
Agora então faremos algo semelhante ao que foi feito anteriormente, ou seja, iremos expor em parte a tese de Kripke para depois interprete-la de acordo com os objetivos deste trabalho.
O primeiro tema então a ser abordado nos escritos referido será o do nomear, se entenderá por nome então um “nome próprio comum” ou apenas “nome próprio” que são os nomes de cidades, pessoas etc. Esses nomes não serão tomados na mesma concepção de Russell que os considerava como descrições disfarçadas como está posto por Kripke:
“Usaremos el término “nombre” de manera que no incluya las descripciones definidas de esa classe, sino solamente aquellas cosas que en el linguaje ordinário serían llamadas nombres prórpios. Si queremos un término común que abarque tanto los nombres como las descripciones, podemos usar el término “designador”.”[10]
Temos acima, na citação feita, o aparecimento do termo “designador”, este termo será de capital importância para os interesses desta parte do trabalho, uma vez que, a teoria que é formulada por Kripke se utiliza diretamente dele. Note-se que a característica que Kripke atribui ao termo “designador” a saber: De abarcar tanto aos nomes quanto às descrições, terá como conseqüências interessantes sobre o conceito de igualdade, principalmente quando, mais adiante, ficar claro uma outra noção utilizada por Kripke, noção esta de “designador rígido” que se utiliza da noção acima para constituir a noção de rigidez, esta sendo fundamental para a teoria semântica que será analisada (teoria dos mundos possíveis).
Antes disso porém, já aparece um exemplo interessante no artigo de Kripke que trata tanto de nomes quanto da identidade. Analisemos portanto este exemplo.
Kripke irá tomar o exemplo dado por Donnellan no qual um falante consegue se referir a algo com sucesso usando para isso uma descrição definida, mas essa referência se dará não com relação ao referente dessa descrição propriamente dita mas a algo que se deseja destacar. Vejamos portanto o caso com algumas modificações não comprometedoras.
Um dos interlocutor aponta para uma pessoa e profere a descrição:
- Aquele que está com uma taça de champangne.
Porem a pessoa a que esse interlocutor quer se referir não está com uma taça de champangne mas sim com uma taça com água. Entretanto esse interlocutor tem sucesso e seu ouvinte consegue identificar a quem ele estava se referindo. A questão que Kripke quer e sobre a possibilidade de se referir a um objeto sem contudo usar nomes logicamente próprios.
Com isso Kripke percebe um tipo de igualdade em sentido fraco, que é a igualdade de referência porem não leva essa idéia a diante:
“a veces podemos descobrir que nombres tienen el mismo referente y expresar esto mediante un enunciado de identidad.”[11]
Digo que Kripke não leva a diante a igualdade em sentido fraco que ele identifica pois não propõe uma modificação que leve a sério esse tipo de igualdade, mas a utiliza de modo a fundamentar sua teoria dos designadores rígidos como poderemos ver mais adiante. Como exemplo de um desses casos Kripke cita os dois nomes dados ao planeta Vênus, concluindo a partir daí que a igualdade que há entre esses nomes reflete uma identidade da coisa nomeada.
“En este caso, ciertamente no solo estamos diciendo de un objeto que es idéntico a sí mismo. Esto es algo que descubrimos. Resulta muy natural decir que el contenido real [es que] la estrella que vimos por la terde es la estrella que vimos por la mañana (o, de manera más precisa, que la cosa que vimos por la tarde es la cosa que vimos por la mañana). Esto, entonces, nos proporciona el significado real del enunciado de identidad en cuestión; y esto lo hace el análisis en términos de descripciones.”[12]
Assim temo que a teoria dos designadores rígido apontam para uma subdivisão do conceito de igualdade porem que a própria teoria não leva a sério o diagnóstico sobre a igualdade que se dá na linguagem (sentido fraco e nesse caso, igualdade de referentes) e a igualdade ontológica (em sentido forte, igualdade consigo mesmo)
2a Parte
VI - O problema da identidade na tradição hermenêutica.
A pesquisa a ser feita neste ponto tem como objetivo estender a análise sobre o conceito de igualdade para alem do âmbito analítico.
A hermenêutica pode contribuir muito para esclarecer algumas idéias que podem não ter ficado bem resolvidas na tradição analítica como por exemplo uma justificação mais abrangente acerca da divisão feita internamente ao conceito de igualdade ou a crítica ao tratamento lingüístico da igualdade. Alem disso poderemos entender o conceito de igualdade aplicado a outras categorias da linguagem como à interpretação ou à tradução, pois tais categorias não são consideradas pela tradição analítica da linguagem, pelo menos em relação as três posições analíticas tratadas neste trabalho (me refiro às posições de Frege, Kripke e Russell).
A intenção inicial deste item será manter a distinção entre igualdade em sentido forte e igualdade em sentido fraco feita anteriormente para, a partir daí então, desenvolver uma análise da forma como a igualdade é considerada pela tradição hermenêutica frente a tal distinção. A tese a ser defendida será a de que na tradição hermenêutica a distinção da igualdade em dois tipos é levada mais a sério, e que portanto tem mais conseqüências do que a distinção frente à tradição analítica (isso em relação às posições que os autores que estão sendo tratados neste trabalho defendem, ou seja, poderemos considerar a afirmação acima como referente apenas a esses autores e não a toda tradição analítica ou hermenêutica).
No desenvolvimento da análise que está sendo proposta por este item creio que será útil a consideração de um novo conceito a saber; o conceito de semelhança que estará atrelado ao de igualdade em sentido fraco este conceito será retomado mais adiante e que por enquanto não requer explicações. Note-se que não será preciso modificações simbólicas como as que foram feitas na parte referente à tradição analítica pois neste caso tínhamos como motivação para tal, uma coerência entre o que se estava defendendo e a sua aplicação formal, em outras palavras, as considerações referentes à tradição analítica nos remeteram à linguagem formal por ser este um dos meios para os objetivos dessa tradição (como um dos objetivos podemos citar a formulação de uma linguagem ideal), portanto percebe-se aqui que o interesse prático da tradição hermenêutica tende a ser minimizado recaindo tal interesse sobre as questões mais teóricas, o que pretendo dizer com isso é que interesses como uma constituição de uma linguagem ideal não são tomados como prioritários, e que a tematização da filosofia hermenêutica, por partir de idéias como “processos lingüísticos” ao invés de outras como construir linguagens modelos tem como conseqüência uma maior preocupação com temas mais “abstratos” (tomo este termo em sentido próximo ao subjetivo) ou seja, nesta tradição a subjetividade é vista como relevante o que não quer dizer que a objetividade não tenha importância mas que esta é dada em um outro aspecto em relação ao da tradição analítica. Logo, percebe-se uma centralização do tema hermenêutico à categorias mais subjetivas do que as encontradas na tradição analítica.
No decorrer deste item serão expostas três posições hermenêuticas. Os autores referentes à essas posições serão: Gadamer, Beuchot e Flusser.
O primeiro desses autores a ser analisado será Gadamer. Este autor pertence a tradição filosófica continental do século XX, tradição esta que se contrapõe em certo sentido à tradição anglo-saxã que é mais influenciada pelas idéias da tradição analítica. O texto que será explorado é uma parte da obra Verdade e método que trata da relação entre hermenêutica e linguagem mais especificamente a terceira parte que tem por título A virada ontológica da hermenêutica no fio condutor da linguagem. O segundo autor a ser considerado será Beuchot, este será importante dado que sua teoria da posição “analógica” relacionada a interpretações traz a tona questões sobre os conceitos de semelhança (que será definido mais adiante) e de identidade que serão bem oportunas para esse trabalho. Por ultimo veremos uma posição muito interessante e original exposta pelo filósofo brasileiro Villem Flusser, esta posição identifica linguagem e realidade usando para isso algumas categorias que dificultam a sua caracterização filosófica.
Uma primeira pergunta antes de qualquer desenvolvimento é a seguinte:
É possível que a identidade seja tomada como tema pela posição hermenêutica?
A princípio creio que a resposta a essa pergunta seja afirmativa tendo como justificativa para isso que o princípio de identidade é um pressuposto anterior à qualquer discurso. Esta justificativa é parte do resultado da análise da noção de identidade na tradição analítica feita acima, e que será tomada nessa parte do trabalho por me parecer apropriado uma coerência de pressupostos em uma discussão que tenha como tema ambas as tradições (analítica e hermenêutica). Simplificando o que foi dito, a identidade é um princípio do discurso e por isso é anterior ao “tipo” de discurso que será tomado, portanto minha intenção é mostrar, a partir da identidade como sendo um tema necessariamente transversal, que é impossível colocar este princípio inteiramente no discurso.
Ser “um pressuposto anterior a qualquer discurso” é o mesmo que ser a condição para o discurso, com isso quero expor que mesmo quando a identidade for um objeto do discurso o princípio de identidade continuara se comportando como princípio, portanto se nego uma identidade no discurso o faço apenas enquanto identidade instrumental, o que quer dizer que não posso negar a identidade enquanto princípio através do discurso, pois fazer isso (negar a identidade enquanto princípio) é o mesmo que romper a própria noção de discurso em seu pressuposto.
VII - Identidade e simultaneidade enquanto instrumentos Hermenêuticos em Gadamer
O objetivo desse item é mostrar algumas utilizações da idéia de identidade em Gadamer para depois procurar uma aproximação entre a posição Gadameriana e a tese de que a tradição hermenêutica em geral trata mais devidamente da identidade (igualdade em sentido forte) que a tradição analítica como foi proposto acima, alem disso há uma introdução de um outro conceito constituinte da idéia de identidade que é a “simultaneidade”. Para isso será feita uma exposição de alguns temas do texto de Gadamer tendo em alguns pontos comentários que apontem para a apropriação feita da noção de identidade pela posição hermenêutica, por último esses apontamentos serão analisados de modo que a tese proposta se fundamente ou não conforme for o caso.
No início do texto de Gadamer percebe-se que há um interesse pelo “processo” da/na conversação, essa característica influenciará todas as categorias usadas na análise da “linguagem como medium da experiência hermenêutica”. Por exemplo, a consideração da “natureza da fala” como algo não controlável, dado que sendo um processo a fala nunca está constituída em definitivo, não há portanto espaços para conclusões finais, ou seja, há uma historicidade da fala a ser considerado que atrela a própria noção de tempo ao discurso (note-se que este é um fator de extrema importância na distinção das duas tradições consideradas aqui, pois não há interesse algum pelo histórico-temporal na posição analítica).
A compreensão se dá não em um pôr-se no lugar do outro, mas na experiência da linguagem, sendo que esta é uma experiência processual, ou seja, se dá em um momento histórico que, para Gadamer, terá uma extrema relevância para a constituição de uma compreensão, esta experiência processual “implica sempre um momento de aplicação”[13], e este “momento” de aplicação exigirá um novo conceito para o trabalho presente, conceito este que relacionará a identidade com a temporalidade, portanto tem-se aqui a idéia de simultaneidade como sendo este conceito que relaciona as duas noções anteriores.
A experiência da linguagem depende também da existência dos interlocutores, quero dizer com isso que há uma importância referente ao papel da comunidade na qual seus membros compartilham vivências e experiências: “A linguagem é o meio em que se realizam o acordo dos interlocutores e o entendimento sobre a coisa em questão”.[14] A consciência das condições pela qual se dão os entendimentos, segundo Gadamer, são mais facilmente identificadas nas situações em que esse acordo é mais difícil é a partir disso então que será introduzida a temática da tradução. Em princípio a tradução é tomada como uma transposição do sentido (de um discurso por exemplo) a ser compreendido entre duas línguas diferentes, tal transposição deve manter o sentido, todavia essa manutenção se dará em termos novos pois o universo para o qual o sentido estará sendo transposto será um universo “diferente” do universo do qual esse sentido provém, daí vem a aproximação entre tradução e interpretação que, para Gadamer, será uma aproximação definitiva (pois definem-se entre si os termos interpretação e tradução) na língua e no tempo, em outras palavras, tomada a posição Gadameriana sobre esse tipo de tradução poder-se-ia estende-la também para uma noção temporalizada da igualdade que classificaria ambos os conceitos (tradução e interpretação) como sendo simultâneos entre si além de interdefiníveis.
Cabe agora uma pequena explicação do modo como a simultaneidade está entendida neste trabalho, trata-se pois de uma igualdade em sentido fraco, esta noção não é tratada pelos autores analíticos considerados acima pois contém em si a noção de tempo, sendo que esta noção de tempo causa certos problemas a esses filósofos uma vez que traz consigo a possibilidade constante de mudança, tal possibilidade é fortemente prejudicial aos interesses analíticos pois destrói as expectativas de se fazer uma linguagem que permaneça sempre a mesma, ou seja, que não haja nenhuma tipo de mudança em sua estrutura. Simultaneidade pode significar “ao mesmo tempo” ou “ao mesmo instante”, em ambos os casos aparecerá o termo “mesmo” portanto há uma diferença concernente apenas ao termo que indica temporalidade, em um caso (tempo) o termo terá um sentido mais amplo do que em outro (instante) por isso será considerado aqui que a primeira expressão (ao mesmo tempo) é a definição mais apropriada para a simultaneidade enquanto um tipo de igualdade em sentido fraco. Poder-se-ia fazer alguma objeção defendendo que tanto uma quanto a outra expressão pode ser igualmente tomada como definição de simultaneidade sem diferença porém escolhi o primeiro por ser mais forte e é justamente essa diferença que pretendo visar, uma vez que, por mais forte que seja a igualdade entre “dois” conceitos não poderemos jamais toma-los como idênticos e isso ocorre tanto entre as duas definições acima quanto entre a simultaneidade e a identidade.
Continuando com a temática da tradução, Gadamer defende uma ausência de tradução quando há um acordo. Uma tradução já é uma interpretação indicando um distanciamento entre os dois idiomas que estão em jogo na tradução, pela tradução temos que a linguagem deve ser o médium do acordo, “pois esse médium deve ser produzido artificialmente através de uma mediação expressa.”[15] Porem essa elaboração artificial não remete a uma situação normal de conversação nem tampouco a tradução o remete. A tradução portanto representa um fracasso no acordo, nesse caso nem mesmo quando a tradução é apenas implícita podemos chagar a um estado de acordo, o que vai implicar em uma negação radical da tradução no acordo. Aqui temos uma estruturação que remete a questão da identidade e da igualdade em sentido fraco (não identidade) pois da mesma maneira que entre duas coisas não é possível uma identidade, entre duas línguas não poderá haver acordo, o que temos é o seguinte: o fato de serem duas línguas impede que haja uma compreensão imediata, pois tem-se que fazer uma tradução e conseqüentemente uma interpretação, a compreensão de uma língua está diretamente ligada a uma não necessidade de tradução, portanto o que resta é um acordo referente ao tema, ou seja, o que parece permanecer quando se faz a tradução é o sentido do tema é nessa direção que o tradutor deve se orientar, assim o tradutor não deve traduzir o texto de uma língua para outra mas compreender o tema nestas duas línguas expondo-o da maneira mais próxima a se ter a permanência do sentido.
Gadamer percebe bem a intransponibilidade da distância que há entre o sentido de um tema em duas línguas, pois a permanência real do sentido só seria dada no momento mesmo da compreensão enquanto tal, ou melhor, o momento da compreensão representa a identidade da compreensão consigo mesma, daí que quando se faz duas compreensões em duas línguas não pode haver, em nenhum sentido, uma identidade que é atribuída a essas duas compreensões, mas apenas a cada uma delas em separadas e consigo mesma.
O problema da tradução também será analisado em relação à compreensão de textos, neste caso o que se faz é uma reconstrução do texto em uma outra língua (no caso do texto estar em outra língua) produzindo como conseqüência um texto renovado. Apesar de haver muitas vezes a consciência da distância do texto traduzido para o original, o tradutor tem que procurar um acordo, porem esse acordo é penoso visto que de ante mão já se sabe da sua impossibilidade. Essa distância pode ser considerada aqui como uma boa noção da identidade como igualdade no sentido forte e do entendimento desse elemento como sendo o pressuposto de uma linguagem e não um dos seus objetos, com efeito, se a igualdade em sentido forte é pressuposto da linguagem, então esta igualdade não pode ser um objetivo a ser alcançado pela linguagem, pois isso seria inverter as coisas, em outras palavras, seria colocar no fim o que esta no pré-início (algo que está antes do início), e isso que está sendo posto como pré-início é a identidade.
A questão que perpassa a compreensão e a conversação é a de se delimitar o processo que abarca o que é estranho, esse processo pressupõem a diferença (principal categoria da não identidade). Chegamos a esta questão uma vez que concluímos a não possibilidade de se superar o abismo existente entre duas interpretações. Logo, o que resta é uma tentativa de se compreender o sentido do que se quer comunicar.
“E assim como na conversação nos colocamos no lugar do outro com objetivo de compreender seu ponto de vista, também o tradutor procura pôr-se por completo no lugar do autor. Mas com isto não se produz nem o acordo na conversação nem se consegue reconstituir o original. De certo que as estruturas são muito parecidas. O acordo na conversação implica que os autores estejam dispostos a isso, abrindo espaço para acolher o estranho e o adverso. Quando isso ocorre de ambas as partes e cada interlocutor sopesa os contra-argumentos, ao mesmo tempo que mantém suas próprias razões, pode-se, por uma recíproca, imperceptível e involuntária transferência dos pontos de vista (o que chamamos de intercâmbio de opiniões) Chegar finalmente a uma linguagem e uma decisão comum.”[16]
Na citação acima há dois momentos a se considerar, o primeiro é existência do elemento estranho que está fora da comunidade, ou seja, algo que não é compartilhado, e o segundo se refere à introdução desse elemento estranho na comunidade, no primeiro momento a diferença é pressuposta como foi visto acima, há neste caso uma distância que não se transpõe, no segundo o elemento estranho é visto como objeto a ser compreendido, tenta-se dessa forma uma introdução desse estranho na comunidade de forma a se constituir um terceiro momento que é a comunidade somada ao elemento estranho. Um fator importante colocado nesta citação é a não renúncia das próprias razões do sujeito que quer compreender, essa não renúncia remete a uma necessidade de preconceitos na compreensão do diverso, pois é desses preconceitos que partira os processos da compreensão.
“Do mesmo modo o tradutor precisa resguardar o direito de sua língua materna, para o qual traduz, ao mesmo tempo em que acolhe também o estranho e inclusive o adverso do texto e de sua forma de expressão.”[17]
Pelo que foi visto neste item percebe-se que há um maior cuidado da tradição hermenêutica em relação à identidade do que pelo que foi visto na tradição analítica, não que isto seja uma crítica a tradição analítica, mas sim que o próprio interesse hermenêutico pede uma maior cautela em questões que são conseqüências da idéia de identidade, enquanto que na tradição analítica o interesse recai sobre o bom funcionamento de suas categorias e não tanto na compreensão externa, ou seja, o interesse não é construir uma linguagem formal que se refira a tudo o que é dito em linguagem natural, mas que possua as bases para representar o que é “relevante”, já na tradição hermenêutica a relevância é a compreensão do que se diz através da linguagem sendo portanto uma abordagem mais ampla, talvez é por isso que seja tomada uma noção mais ampla do sentido de identidade enquanto que a tradição analítica ao tentar atomizar a linguagem acabe por perder essa característica correndo o risco como foi visto, de não determinar certas categorias dentro referentes a certos conceitos.
VII - A Hermenêutica Analógica
A hermenêutica analógica será tema desta parte do trabalho. Para exposição deste tema será usado o texto de Maurício Beuchot Tratado de Hermenêutica Analógica.
Beuchot expõe em seu texto três teses (a tese relativista, a tese univocista e a tese analógica) relacionadas ao sentido da interpretação. A primeira defende que tudo é relativo e que portanto qualquer interpretação possui sentido, a segunda defende que apenas uma das interpretações pode ter sentido enquanto que a terceira diz que há um conjunto de interpretações possíveis que possuem sentido. Beuchot então apresenta refutações às duas primeiras teses por terem como conseqüência de seus princípios conclusões contraditórias. A tese univocista é refutada pois uma vez que for aceita terá que ser aceita enquanto interpretação, mas se a interpretação for tomada de modo absoluto deixará de ser uma interpretação. Beuchot irá exemplificar a refutação do univocismo com a refutação de um tipo de univocismo que é o empirismo lógico, este defende que apenas uma interpretação pode ter sentido e ser verdadeira, que é a interpretação de um enunciado empírico por um aparato lógico, porem como não é possível a verificação empírica deste tipo de procedimento, ou seja, da afirmação desse sistema de verificação, perde-se portanto o sentido de se utilizar um sistema de verificação de enunciados que não pode ser verificado, assim o enunciado referente à verificação da validade do sistema não tem sentido no sistema, isso segundo Beuchot ocorre em qualquer tese univocista sendo portanto uma tese autorefutável. A tese equivocista é refutada pois pretende um relativismo absoluto, sendo assim haverá um elemento necessariamente não relativo na tese relativista, esse elemento se baseia na intenção da tese de ser universal, pois afirma algo do tipo: todas as interpretações são relativas. Assim o próprio enunciado dessa posição estará sujeito a interpretações equivocistas podendo ser considerado em alguns casos como não válido e portanto implica uma não universalidade, daí essa característica de ser simultaneamente universal e não universal implicará em uma contradição com relação ao valor de verdade do princípio equivocista.
As refutações das teses univocista e equivocista deixa a opção da tese analógica mais evidente, essa terceira opção segundo Beuchot é inspirada no modelo de Aristóteles e dos Medievais[18] e tem como princípio um relativismo relativo onde um conjunto de interpretações possuem sentido e outro conjunto não, em outras palavras, o modelo analógico é um relativismo não universal ou mais fraco que o equivocismo refutado por Beuchot. Portanto poderíamos dizer que Beuchot tenta “salvar” as partes das teorias anteriores que não geram problemas, as partes problemáticas seriam o univocismo do princípio equivocista e o relativismo do princípio univocista. Da síntese das partes não problemáticas de cada uma das posições teríamos o relativismo relativo proposto por Beuchot.
“En cambio em la analógica se dice que hay um sentido relativamente igual (secundum quid idem) pero que es predominante y propiamente diverso (simpliciter diversum) para los signos o textos que lo comparten”[19].
Apesar da tese analógica ser um meio termo entre as duas outras teses, não se deve considerar que ela esta situada simetricamente entre as duas pois segundo Beuchot há um predomínio do equivocismo no analógico que remete para uma diversidade e não para uma unicidade de significados das interpretações, todavia sem haver uma renúncia radical de univocidade que impossibilite o conhecimento racional.
O conceito de hermenêutica analógica aparece como sendo uma exemplificação da semelhança, esta semelhança pode ser considerada aqui como uma certa distância entre interpretações, neste caso diríamos que uma interpretação possui uma semelhança com uma outra se há uma proximidade entre elas que supera a proximidade de uma terceira, ou seja, o conceito de semelhança estará posto aqui como um conceito comparativo e não um predicado de apenas um ou dois lugares, a semelhança é então uma relação com três lugares descrita do seguinte modo: ‘x é mais semelhante a y do que a z’. O conceito de semelhança portanto estará relacionado espacialmente a três objetos (no caso entre três interpretações), essas interpretações serão consideradas mais semelhantes do que uma terceira porem dado que apesar de haver uma diferença entre elas ambas são interpretações possuindo assim uma participação dos objetos no conceito de interpretação, ou seja, suponhamos três interpretações a, b e c, a é mais semelhante a b do que a c, sabemos de antemão que essas duas interpretações a e b não são idênticas dado que são “duas” interpretações e não “uma” porem ambas são “interpretações”, em outras palavras, ambas possuem a mesma propriedade de ser “interpretação”. A terceira interpretação (c), como será visto mais adiante pode até não ser considerada uma interpretação conforme for o caso.
A divisão em três tipos diferentes de teses sobre interpretações está relacionada com as três categorias diferentes do conceito de igualdade, as três categorias que constituem o conceito de igualdade são a identidade (igualdade em sentido forte ou mesmidade), a semelhança (igualdade em sentido fraco ou igualdade em parte) e a diversidade (não igualdade ou diferença). Essa relação pode ser feita da seguinte maneira: A tese univocista está relacionada à idéia de identidade, a tese equivocista está relacionada à idéia de diversidade e a tese analógica com a semelhança.
“En la interpretación univocista se defiende la igualdad de sentido, en la equivocista, la divesidade.”[20]
Disse acima que o conceito de semelhança estará relacionado espacialmente a dois objetos, uso esse termo (espacialmente) por se estar tratando da “distância” como categoria da hermenêutica utilizada nas considerações da hermenêutica analógica de Beuchot como veremos mais adiante.
Portanto teremos dois tipos de igualdade em sentido fraco também na tradição hermenêutica, estes tipos se referem ao tempo (simultaneidade) e ao espaço (semelhança).
VIII - A relação entre Linguagem e realidade em Villem Flusser.
Villem Flusser será o último autor a ser comentado neste trabalho, o livro de Flusser que será referência aqui é Língua e Realidade.
Flusser começa o capítulo 1 com um diagnóstico sobre a sociedade moderna, esse diagnóstico mostra a importância que é dada aos dados estatísticos, como uma das fontes dos considerados dados Flusser identifica os sentido, e pressupondo que historicamente a linguagem foi a maior responsável pela transmissão, assimilação e permanência desses dados Flusser irá propor como hipótese que “devemos a grande maioria dos dados dos quais dispomos ao ouvido e à vista, já que grande maioria desses dados consistem em palavras ouvidas e faladas.”[21] Essas palavras serão portanto a maioria de matéria prima que compõe o nosso pensamento. Há todavia um outro conjunto de dados que diferentemente das palavras não são articulados, esses dados são imediatos, dados brutos que não são computados pelo intelecto a menos que este os transforme em palavras, assim há no intelecto uma instância que transforma esses dados em palavras. A definição de realidade como sendo um conjunto de dados nos leva a afirmação de uma dupla realidade: A realidade das palavras e a realidade dos dados brutos. Essa divisão lembra a posição kantiana que faz essa divisão em termos de fenômeno e nôumeno, e seguindo esta mesma estrutura, somente o mundo das palavras (em Kant, dos fenômenos) poderão ser articulados pelo intelecto enquanto que o outro mundo pertence “obscuro” e impassível de articulação. A posição assumida por Flusser pretende reduzir a realidade à palavras (linguagem) e o texto analisado aqui pretende analisar o comportamento dessa posição.
“Como os dados “brutos” alcançam o intelecto propriamente dito em forma de palavra, podemos ainda dizer que a realidade consiste de palavras e de palavras “in statu nascendi”. Com esta afirmativa teremos assumido uma posição ontológica.”[22]
Há aqui uma primeira apropriação do conceito de identidade na posição de Flusser, em geral o conceito de identidade é utilizados em definições, portanto uma definição de realidade perpassa o conceito de identidade na forma como esse conceito é entendido na própria linguagem, a definição é um processo lingüístico que normalmente se faz com a utilização do verbo “ser” no presente do indicativo da terceira pessoa do singular cuja conjugação tem a seguinte grafia: “é”. Frege como foi visto na primeira parte do trabalho também faz essa aproximação, pois para este filósofo analítico o sinal “=” é representado na linguagem natural pelo “é”.
Prosseguindo, Flusser faz uma descrição, segundo a posição que foi tomada, da maneira como se dá essa identidade entre palavras e realidade. A realidade que é constituída por palavras é a realidade ordenada, todavia há um aspecto no conjunto das palavras que Flusser irá caracterizar como estando na margem da língua, a expressão metafórica usada por Flusser para designar esse aspecto é “salada de palavras”, sendo as palavras organizadas formando um cosmos, uma salada de palavras remete a um conjunto desorganizado de palavras.
O filósofo brasileiro está de acordo com Gadamer no que diz respeito a categoria do “acordo”, assim no entendimento do significado de alguma palavra deve-se ter anteriormente um acordo em uma comunidade que determine o significado de um determinado símbolo, o aprendizado de uma palavra se dará então pela consideração dessa palavra como sendo um símbolo que possui um determinado significado, enquanto símbolo com um significado tal palavra não pode ser dividida, diferentemente da consideração da palavra enquanto palavra, que apesar de ser considerada como átomo da linguagem pode ser dividida (como acontece com os átomos).
Um problema pode ser atrelado ao que foi dito no parágrafo anterior, esse problema é o da origem do sistema de símbolos, todavia, segundo Flusser, esta é uma questão ingênua visto que não há uma possível solução capaz de ser fundamentada por elementos a disposição, qualquer solução neste sentido se perde nas “brumas do tempo”. Pessoalmente desconfio que esta esquiva Flusseriana não desinquieta os espíritos mais inquietos, falta uma argumentação mais encorpada que dê razões suficientes para o descarte da pergunta sobre a origem da articulação lingüística. Flusser usa como argumento a identificação entre articulação de símbolos e articulação dos pensamentos, passando dessa identidade à conclusão de não significação do problema.
A distinção que foi exposta anteriormente entre os dois tipos de realidade refletem uma estruturação particular da noção do sentido da linguagem, não temos a partir dessa distinção uma pressuposição de uma realidade absoluta que seja espelhada pela linguagem, mas duas realidades que não se relacionam. A impressão da linguagem como espelho de uma realidade absoluta provem, segundo Flusser, da estrutura de algumas línguas que indicam uma realidade desse tipo, assim um idioma como o chinês seria um contra exemplo à posição da metafísica tradicional pois nesse caso não é possível uma distinção na linguagem que sustenta essa posição a saber: Entre verbo e substantivo, etc. Também o próprio português não poderia sustentar a posição tradicional uma vez que nesse idioma há alguns mecanismos que não representam os mecanismos dessa posição, para exemplificar isso Flusser cita o caso da frase: “isto é uma caixa grande”, onde uma frase análoga “isto é um caixão” representa uma situação em que a qualidade é “engolida” pela substância.
“Isto para não falar de substantivação de adjetivos e verbos, da adjetivação de substantivos e verbos etc., coisas corriqueiras dentro da língua portuguesa, mas malabarismos inconcebíveis dentro da “realidade absoluta” pressuposta pela divisão clássica.”[23]
Esse caso poderia ser usado como um contra exemplo da teoria Flusseriana, pois o caso acima mostra uma não relação entre a visão de realidade tradicional e a visão de realidade que está relacionada a língua portuguesa, tendo como conseqüência que essas duas concepções são incoerentes, portanto pode-se seguir daí que não seria possível o entendimento das idéias tradicionais por um falante da língua portuguesa, o que não é o caso, assim Flusser tem que responder a seguinte questão:
Como que é possível, uma vez que a língua é realidade, a existência, em uma mesma língua, de duas concepções de realidade incoerentes uma com a outra?
Esse problema é contornado em parte com a seguinte passagem:
“a língua, como sistema de símbolos apontando para algo, significando algo, procurando algo, não consiste de símbolos equivalentes, mas de símbolos hierarquicamente diferenciados.”[24]
Portanto a língua portuguesa não deve ser entendida como um sistema separado, mas como parte articulada dentro de um sistema mais amplo.
O segundo nível da linguagem é formado pelas frases, essas são conjuntos organizados de palavras. Na relação entre as frases e as concepções tradicionais feita por Flusser temos que as frase significam os processos onde a idéia básica é a seguinte: “a realidade absoluta consiste de substâncias que se modificam, transferindo qualidades de si para outras.”[25] A frase pode ser verdadeira ou falsa conforme a possibilidade de sua representação da realidade, neste caso temos que a frase é verdadeira quando representa algum processo que ocorre na realidade realidade. Segundo Flusser essa posição acerca da condição de verdade de uma frase também é problemática pelas mesmas razões que a discussão sobre a subdivisão de palavras o é. Há portanto no trabalho deste filósofo uma proposta de um novo conceito de verdade que pretende dar conta desses problemas.
O território da lógica terá consequentemente os mesmos problemas identificados nas linguagens naturais, isso torna-se mais claro se focalizamos a origem da linguagem da lógica, uma linguagem artificial necessita de uma metalinguagem para que a articulação dessa linguagem artificial seja esclarecida para um falante comum. A validade universal da lógica é negada por Flusser, pois, segundo ele, a análise clássica e a análise lógica da frase são a mesma coisa, assim quando se nega a validade universal de uma nega-se também de outra. A proposta que será dada a partir dessas conclusões é a de uma análise da frase radicalmente nova, de acordo com essa nova análise, a frase seria “certa” quando as palavras obedecessem as regras da língua à qual essas palavras pertencem, portanto há uma espécie de condição semelhante ao do sentido sintático na tradição analítica, aqui vejo um ponto que poderia complicar essa definição do que é “certo” segundo Flusser, que é o caso de palavras estrangeiras que são acolhidas por uma língua, essas palavras nem sempre obedecem as mesmas regras na nova língua que obedecia na língua de origem, assim como poderíamos determinar qual das regras (da língua de origem ou da língua nova) deveriam reger a condição para que tal palavra fosse usada em uma frase de modo a que tal frase fosse certa?
Flusser não aponta para nenhuma resposta a essa questão na parte do texto em que trata da condições para uma “frase certa”.
Em seguida há uma distinção entre frase e pensamento, onde a diferença se dá por que um é subjetivo (o pensamento) e outro é objetivo (a frase) portanto poderíamos dizer que ambos são o mesmo e o que difere são os modos de apresentação. Logo, da mesma forma que uma frase pode ser certa ou errada conforme as regras da língua um pensamento também seria certo ou errado conforme as regras da língua ao qual pertence.
Para o caso do valor de verdade, Flusser defende que a relação entre as frases será condicionadas pelas regras de uma língua, é portanto, assim como no caso da frase certa, a obediência dessas regras o critério pelo qual se poderá classificar uma frase como sendo verdadeira ou não. A verdade por correspondência da tradição é apenas uma verdade que relaciona duas frases iguais como o chove lingüístico e o chove fatual, sendo assim uma pseudocorrespondência.
Flusser, como vimos constrói sua posição utilizando-se várias vezes da noção de igualdade, e a noção de não igualdade, por exemplo: “Análise lógica e análise clássica de frases são, fundamentalmente, a mesma coisa”[26]. Em um outro caso a igualdade é utilizada em conexão com a não igualdade para que se tenha uma igualdade em sentido fraco:
“ ‘Frase’ é o nome do aspecto objetivo, e ‘pensamento’ é o nome do aspecto subjetivo dessa organização de palavras.”[27]
Desta forma, apesar de se tratar do mesmo objeto (organização de palavras) há uma diferença que é conectada a esse objeto segundo o deu modo de apresentação (interno ou externo) tendo assim um atrelamento da noção de igualdade e da diferença para a concepção de duas coisas iguais no sentido fraco (frases e pensamentos).
Esse uso que é feito da noção de igualdade e de não igualdade em Flusser mostra que este autor possui um bom entendimento desses conceito e que portanto toma cuidado em suas definições para que fique claro os aspectos que cada uma dessas noções contém em particular.
Considerações finais.
O presente trabalho pode ser considerado como sendo apenas um projeto um pouco mais desenvolvido, porem suas pretensões bem definidas acerca de seu objeto nos dá uma impressão (justificada) de que há uma importância na questão posta sobre o conceito de “igualdade”. Há uma consciência da escassez de argumentos ou exemplos que fundamentem ainda mais a posição tomada. A igualdade, como se sabe é um dos tema mais controversos e descultiveis no âmbito da filosofia, sua problematização nos remetem a épocas distantes e a contextos por demais abstratos como por exemplo a contestação heraclitiana de mesmidade a partir da afirmação radical da mudança.
Portanto, é lícito fazer delimitações que direcionem a idéias quando se trata de um tema como o que foi tratado nesta monografia. Tomamos duas tradições contemporâneas que dificilmente ocorrem em um mesmo texto, a dificuldade porem não foi o fato de haver em geral uma distância entre as duas posições vistas, mas sim o de determinar essa possível distância que em certos momentos pareceram inexistentes. Poder-se-ia supor que a igualdade é uma tema mais analítico do que hermenêutico, todavia, como podemos ver neste trabalho, essa suposição aponta para uma indicação de que, na tradição analítica, existe uma maior dificuldade de entendimento da igualdade, isso pode ser esclarecido pela própria utilização que é feita do conceito de igualdade dentro das duas tradições.
Este trabalho portanto deve ser entendido como uma parte momentânea de um projeto mais elaborado sobre o tema da igualdade, pois sabe-se que, em tão poucas linhas, não é possível formular uma posição adequada sobre idéias tão complexas.
Bibliografia.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 4a edição.
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FLUSSER, Villem. Língua e Realidade. Herder, São Paulo, 1963.
FREGE, Gottlob. Lógica e Filosofia da Linguagem. Cultrix, São Paulo, 1978.
GADAMER, Georg. Verdade e Método. Vozes, 1998.
KRIPKE, Saul. Naming and Necessity. Harvard, 1998 (10a reimp.)
____________. El Nombrar y la Necesidad. UNAN, México. 1995
LINSKI, Leonard. Nombres y Descripciones. Interlínea, México, 1998.
Arquivo Filosófico. --------------------------------------------------------------------------------
[1] Ver Dicionário de filosofia. Abbagnano, (igualdade).
[2] Frege, “Sobre o sentido e a referência”. Pg 61.
[4] No exemplo (s) não temos nenhuma proposição no sentido lógico, não há inferências nem valores de verdade, temos apenas uma situação pragmática que só está posta uma vez que ela me parece considerar a referência bem pontualmente. Há uma ostensão onde um objeto (animal) foi apontado por uma pessoa x que falando algo se referiu ao objeto apontado através de tais palavras. Não é importante o fato de o interlocutor já ter ou não escutado tal palavra, ou que falasse ou não o idioma da pessoa x, mas por ter entendido que a palavra gato se referia àquele animal, ou seja que essa palavra denominou tal animal.
[5] A linguagem se define como esta tentativa de dizer algo, ou seja, de significar algo mais do que símbolos articulados neste caso estamos falando de uma significação semântica além da significação sintática
[6] Aqui já se percebe uma meta igualdade que seria uma relação entre igualdades ou entre igualdade e outras propriedades. Essa relação (como veremos mais adiante) também foi percebida por Frege, todavia não poderei desenvolve-la dado o contexto em que faço este trabalho.
[7] Entre esses filósofos, três terão um especial enfoque neste trabalho; Frege, Russell e Kripke.
[8] Note-se que “nome de um animal” e “um animal” estão sendo representados por uma mesma coisa.
[9] Aqui a aplicação deste tipo de sentido está bastante voltada para a formalidade da linguagem
[10] Kripke, S. El nombrar y la necessidad (pag. 29)
[11] Ibid. Pg. 33.
[12] Ibid.
[13] Verdade e Método. Pg. 497
[14] Ibid
[15] Ibid. Pg. 498.
[16] Ibid. Pg. 501.
[17] Ibid.
[18] Ver Maurício Beuchot. Tratado de Hermenêutica Analítica, Pg. 51,52.
[19] Maurício Beuchot. Tratado de Hermenêutica Analítica, Pg. 52.
[20] Idem. Para a tese analógica ver a citação anterior.
[21] Flusser, Villem. Linguagem e Realidade Pg. 22.
[22] Ibid. Pg. 23.
[23] Ibid. Pg. 26.
[24] Ibid.
[25] Ibid.
[26] Ibid. Pg. 28.
[27] Ibid. Pg. 28-29