Cabeças
Murilo Seabra
Todos os dias chegam milhares de caminhões. Pneus rachados. Motoristas enferrujados. E despejam toneladas de cabeças, umas sobre as outras, cabeças de intelectuais, cabeças de jornalistas, cabeças de juízes, cabeças de cientistas. Milhares de caminhões. Chegam todos os dias. E atropelam cabeças na chegada e na partida. Cabeças de políticos, cabeças de artistas, cabeças de engenheiros, cabeças de médicos. São esmagadas. E o sangue se espalha. E respinga no cabelo e coagula nos seus rostos. Esmagadas. Quebradas. Libertando pensamentos. Sonhos e projetos. Que de outro modo jamais veriam a luz do dia. Quebradas, atropeladas. Às vezes inteiras, às vezes só de um lado. O suficiente para dar esperança ao que estava preso. Sonhos e projetos. Todos os dias. Rancores e manifestos. Estalam os dedos ao discernirem as frestas. Abertas pelos impactos, pelos choques de idéias. E estendem suas mãos tímidas, seus dedos trêmulos. Para a saída. As frestas. Que se alargam na medida em que se encolhem. Atravessam. E avançam. E esticam as juntas uma vez fora. E colocam-se a andar, pisando nas cabeças, os pés em suas bocas, amassando seus rostos, calcanhares nos olhos, avançando em passos firmes, os arcos dos pés às vezes se encaixando em suas testas, às vezes comprimindo, torcendo, quebrando seus narizes, avançando, marchando, pisando com decisão, andando sempre em linha reta, sempre em frente, rumo ao futuro, determinação, ao progresso, sumindo no horizonte leste, dando a volta ao mundo. E reaparecendo no oeste. E voltando ao mesmo lugar. Com o tempo, passam a andar em círculos menores, cada vez menores. É mais simples. Só para pisar. Porque a intenção é pisar. Sou melhor do que vocês, é o que cada cabeça transpira. Melhor. Simplesmente, melhor. Resumindo. O que falo está sempre certo, resumindo. Está sempre certo, resumindo, porque sou eu que falo. Pisando, resumindo. Estou acima, calcanhar nas têmporas, sou acima, unhas dos pés nas pálpebras. Porque sou eu, resumindo. Porque sou eu. O que nem sempre é dito tão resumidamente. Mas de forma demorada, alongada, disfarçada, extenuante. Para pisar. Para pisar, resumindo. Saem da maioria das cabeças longos e amargos discursos. Idéias. Soluções. Teorias. Revoluções. A verdade sobre. Tudo. Que pisoteia e amassa e chuta. Tudo. Quebra narizes, macera orelhas, corta sobrancelhas. Resumindo. De algumas cabeças escapam gestos mais amenos, mais para sentimentos do que para pensamentos. Tentando apaziguar as partes litigantes. Que são tantas quantas as cabeças. Que se mordem e se cospem quando já não adianta mais argumentar. Tentando apaziguar. Num esforço que passa desapercebido. As partes litigantes. E que não surte efeito. Cabeças. Evitando pensar. Para que pensar. É o que mais se faz, pensar. Milhares de caminhões. Gritos, mordidas. Toneladas de cabeças, resumindo. E ainda há cabeças, poucas cabeças, de cujas rachaduras e frestas saem melodias de cores suaves. Que depois de alguns passos acariciando os rostos desconfiados. Os rostos perplexos. Os rostos abrandados. Dissolvem-se no ar. Até que retorna o barulho. E tornam-se de novo apreensivas. O barulho. Tensas. O barulho dos caminhões. Rumor. Dos caminhões chegando. Elevando seus compartimentos, despejando mais cabeças. Milhares de cabeças. O barulho. Cabeças e mais cabeças. O barulho dos crânios colidindo uns com os outros, às vezes se quebrando. O sangue. Atraído pela gravidade. Escorrendo ao longo dos fios de cabelo. Lentamente. Até as pontas. Sofregamente. E pingando. Densamente. Nas cabeças de baixo. E de novo contornando suas testas, seus rostos. Deixando seu rastro. E se juntando ao suor azedo. Para mais uma vez pingar. Nas cabeças de baixo. Mais embaixo. Onde chega menos ar. Onde tudo fica cada vez mais alagado. Pela chuva. Mais embaixo. Pelo suor. Mais embaixo. Pela saliva. Mais embaixo. Onde já quase não dá para respirar. Mais embaixo. O desespero. A raiva. O sangue. A saliva pendente dos cantos das bocas. Apáticas. Que desmaiaram, que jamais tornaram a acordar. Catatônicas. Que enolouqueceram. A fumaça e a fuligem dos caminhões. Fios de cabelo. Mais embaixo. Pensamentos sórdidos se degradando, se adensando, se transformando em óleo. Que pinga. Mais embaixo. Onde toda a sujeira se acumula. O barulho. Não, gritam as cabeças do fundo. O barulho dos caminhões se aproximando. Não, não, gritam em desespero. Roucas. Mais embaixo. Ouvidos saturados. Não, não. Cabeças lânguidas, indiferentes, cantos da boca salivando. Quanto mais profundas as camadas, menos articuladas as palavras. Não conseguem mais falar, espremidas que estão em todas as direções. Mais embaixo. Às vezes há mechas de cabelo incomodando suas bocas. Resumindo. E não podem sequer gritar, para um queixo não deslizar boca adentro. Um queixo. Ou um nariz. Ou uma orelha. Que terão de empurrar para fora com a língua. E se não adiantar, que terão de morder, arrancar com os dentes. E cuspir. Para o alto. Para então voltar. Em cima do olho. Ou para a boca de novo. Porque não conseguem se virar. Não conseguem. Não conseguem se levantar. Não conseguem. Não conseguem se acomodar. Não conseguem. Não conseguem se coçar. Não conseguem. Nem tirar o fio de cabelo que arranca súplicas do canto do nariz. Desespero, pânico. Um fio de cabelo. Um mero fio de cabelo. Se insinuando orelha adentro. Mais embaixo. Não conseguem. Nem abrir os olhos, algumas. Nem olhar para os lados. O barulho. Nem tampar os ouvidos. Não, não. Nem fugir ao odor. Não conseguem, resumindo. Mais embaixo. Gritam nos ouvidos umas das outras. Gemem. Murmuram. Espirram. Tossem, é a umidade. Os caminhões chegando. Não, não. Mais cabeças, não. Um nariz boca a dentro para manter o silêncio. Saia daqui, saia de perto de mim. Bem que eu gostaria. Não, não. Cuspa-me para longe, cuspa-me para fora daqui. Não conseguem. O rugido dos motores. Os sons das catracas e das engrenagens. Levantando seus compartimentos. Não. Cabeças sendo despejadas. Amassadas. Caindo umas sobre as outras. Quebrando-se umas contra as outras. Soterrando umas às outras. Não, não. Gritam. Até que a pilha de cabeças começa a ceder e a se acomodar. Não. E fica perigoso gritar. Queixos, sonhos, orelhas, projetos, maxilares, ideais. Algumas cabeças. Que tiveram a sorte de cair voltadas para o céu. E que se deixavam absorver pela tranqüilidade azul. E pelas nuvens pinceladas de cinza. E que pareciam conseguir esquecer do mundo ao seu redor. Descobriam-se de repente soterradas. Embaixo de mais cabeças. E mais cabeças. Empilhadas umas sobre as outras. Pressionando. Apertando. Pesando. Afundando.