Ser médico exige muita responsabilidade, especialmente para um neurocirurgião como eu. E responsável era precisamente o que eu estava sendo aquele dia no consultório, enquanto lia um rótulo de Nescafé. Na verdade, estamos sendo responsáveis o tempo inteiro. No fim de semana, nós ligamos para os nossos amigos neurocirurgiões e dizemos:

- E aí, rapaz, tá afim de sair hoje?

- O que vai ter?

- Não sei, vamos sair por aí, procurar umas boas responsabilidades pra cumprir e arrebentar!

- Não sei, cara... estou com algumas responsabilidades pra cumprir, acho que não vou...

Por exemplo, você não deve fazer coisas como espirrar durante uma neurocirurgia - em particular, seu muco não deve cair no cérebro do paciente; você não pode sair durante uma cirurgia para ver um jogo - ou não sair e ainda assim ver o jogo; ao final de uma neurocirurgia, não se deve dar tapinhas amigáveis no cérebro do paciente etc. Mas como eu ia dizendo, aquele rótulo de café é uma leitura interessantíssima. Conta toda a história do café, desde o descobrimento. Aquele dia no consultório eu já estava aos soluços lendo essa comovente história e ia responsavelmente virando mais um copo de uísque quando o primeiro paciente chegou. Me recompus, usando um curioso aparelho de sucção (que encontrei ali ao meu lado) para sugar minhas lágrimas e o conteúdo do meu nariz.

- Entre, por favor - disse, sobriamente.

O paciente usava um espantoso penteado que me fez derrubar o abajur com o susto.

- Oi - cumprimentei, com um aperto de mãos.

- Olá, doutor.

- Bonito cabelo - elogiei.

- Obrigado... é inspirado num quadro de Pollock.

Mal sabia ele que Pollock inspirava-se no monte de feno que tinha no quintal de casa. O paciente contou que era um estilista de vanguarda etc., depois disse que vinha sentindo dores no corpo, mas adormeci nessa parte e sonhei que estava correndo num pomar de frutas mágicas com uma bela e sorridente fadinha, sobre cujos seios eu caía sempre, com incontível alegria, após tropeçar acidentalmente. Num desses tombos, seus seios caíram e foram quicando pelo gramado, enquanto eu os perseguia aflito, então acordei e o paciente acabava sua descrição dos sintomas:

- ...e basicamente é isso, doutor. O que o senhor acha que eu tenho?

- Sem dúvida é algo muito grave - adiantei, assumindo uma expressão preocupada.

- C-como assim? - perguntou, aparentemente assustado, a julgar pela mudança na cor da pele.

- Não sei se você tem chances de sobreviver. Talvez mais alguns dias. Ou horas. Ou minutos. Ou segundos... milésimos...

Fui obrigado a interromper aí, visto que não conhecesse outras unidades de medida menores. Pouco depois, o paciente me abraçava aos prantos, enquanto eu dava tapinhas de consolo nas suas costas. O verdadeiro profissional precisa levar em conta o aspecto psicológico dos seus pacientes.

- Pode chorar, meu amigo - disse-lhe -, um verdadeiro profissional, continuei, precisa levar em conta o aspecto psicológico dos seus pacientes - carregando na palavra "psicológico".

- Vamos, beba um copo de uísque.

O segundo paciente entrou logo após o anterior, e especulo que dificilmente teria conseguido entrar após o posterior (ou seja, suceder o sucessor), dada a rígida natureza do tempo. Sua chegada súbita me impediu de continuar aquele agradável sonho e por fim devolver à minha boa companheira seus seios desgarrados, embora talvez não no mesmo sonho, já que ela certamente não se incomodaria em ficar sem os dois por mais algum tempo - e, caso insistisse, eu poderia barganhar, devolvendo apenas um deles. Contudo, como dizia, meus planos foram adiados pela entrada deste outro paciente, que ao contrário do anterior, parecia conhecer a avançada tecnologia do pente para cabelo. O indivíduo só chegou e sentou e foi logo entregando uns papéis cheios de números e termos esquisitos. Multipliquei imediatamente todos os números entre si, elevando o resultado à décima potência e subtraindo tudo pela porcentagem de algodão do meu paletó. Depois tirei a raiz quadrada, pra ver se ainda lembrava como se faz. O paciente ficou olhando estático, e não me admira, porque se alguém precisa tirar a raiz de um número de cerca de vinte dígitos para saber se você está doente, então você deve estar muito doente mesmo, prestes a cair morto. De fato, eu me sentiria na obrigação de morrer.

- É muito grave, doutor? - perguntou.

- Bem, a julgar pelo percentual hidromagnético do seu hipossenóide, e considerando a voltagem das moléculas, parece haver um pequeno deslocamento no seu centro gravitacional telúrico, mas...

- Mas? Qual o problema?

- O seu problema, garoto, é que você está saudável demais. É um caso muito grave e extremamente raro...

- Mas tem alguma solução?

- A medicina contemporânea vem tentando descobrir um tratamento adequado para casos delicados como o seu, mas pouco foi alcançado. Posso, de minha parte, sugerir alguns paliativos, resultantes de décadas de pesquisa diária.

Passei então a seguinte receita para o pobre homem:

a) 1 copo de uísque, 7 vezes ao dia

b) Manipular produtos inflamáveis e fumar charutos - concomitantemente, para efeito mais duradouro e eficaz

c) Mijar em cercas elétricas

d) Nadar em esgotos

e) Atirar-se de arranha-céus

f) Viver

Depois sugeri que ele tomasse alguns copos de uísque comigo, para ir adiantando o tratamento, o que ele fez. Depois saiu pela porta, após algumas tentativas fracassadas de atravessar a parede. Expliquei-lhe que ele precisará de muito mais copos de uísque para conseguir fazer isso. De minha parte, em ocasiões similares costumo pedir gentilmente para que a parede saia da minha frente, mas nesse caso a parede que precisaria de umas boas doses de uísque.

O próximo paciente entrou quando eu estava tentando lembrar os procedimentos necessários para segurar o copo de uísque à minha frente. Sugeri com um grunhido monossilábico que o paciente e seus espectros circunvagantes tomassem assento, o que fizeram, iniciando as habituais lamentações antes mesmo que seus fundilhos tivessem tocado a cadeira.

Este rapaz parecia ter um caso de unha encravada, julgando a partir da análise cuidadosa de sua enigmática asserção "minha unha está encravada, doutor". Pedi para que subisse na maca e o enviei imediatamente para a sala de neurocirurgia, avisando aos enfermeiros que tratava-se de uma emergência, pois afinal era preciso fazer valer o preço da consulta. O que mais eu poderia fazer? Prescrever um band-aid? Pelo que pagou, ele certamente merecia algo melhor.

Foi uma das cirurgias mais difíceis que já fiz.

- Bisturi.

- Está na sua mão, doutor.

- Hm, bem observado. Ups, acho que deixei cair entre o lobo frontal e o temporal. Me passem outro, sim?

- Esse era o único, doutor.

- Você tem um lápis de cor?

- Lápis de cor! - gritou o enfermeiro para a enfermeira, que entregou-lhe o lápis.

- Fórceps.

- Aqui está doutor.

- Dinossauro de borracha.

- Qual deles, doutor Beiersdorf?

- O tricerátops. Não, pensando melhor, o arqueopterix.

- Aqui, doutor.

- Obrigado. Poderia segurar o cérebro do paciente um instante? Toma.

- Oh! Escorregou!

- Você devia ser mais cuidadoso, garoto.

- Você sabe onde foi parar o hemisfério esquerdo? Não estou encontrando...

- Acho que escorregou para baixo daquele aparelho que parece com o painel da Enterprise.

- Não estou vendo...

- Tudo bem, deixa pra lá. Me passa esse hemisfério aí mesmo. Hm. Pronto. Atchim.

- Saúde, doutor.

No fim, tudo acabou bem com alguns tapinhas amigáveis no cérebro do paciente. Para compensar esses momentos difíceis, paguei uma rodada de uísque para todos.

Sim, é dura a vida de um cirurgião. Muitas responsabilidades.

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