Preciosidades de
Olavo Bilac
Soneto
Não és bom, nem és mau: és
triste e humano...
Vives ansiando, em
maldições e preces,
Como se a arder no coração
tivesses
O tumulto e o clamor de um
largo oceano.
Pobre, no bem como no mal
padeces;
E rolando num vórtice
insano,
Oscilas entre a crença e o
desengano,
Entre esperanças e
desinteresses.
Capaz de horrores e de
ações sublimes,
Não ficas com as virtudes
satisfeito,
Nem te arrependes,
infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te
devora,
Residem juntamente no teu
peito
Um demônio que ruge e um
deus que chora.
Há no amor um momento de
grandeza,
que é de inconsciência e
de êxtase bendito:
os dois corpos são toda a
Natureza,
as duas almas são todo o
Infinito.
É um mistério de força e
de surpresa!
Estala o coração da terra
aflito;
rasga-se em luz fecunda a
esfera acesa,
e de todos os astros rompe
um grito.
Deus transmite o seu
hálito aos amantes:
cada beijo é a sanção dos
Sete Dias,
e a Gênese fulgura em cada
abraço;
Porque, entre as duas
bocas soluçantes,
rola todo o Universo, em harmonias
e em florificações,
enchendo o espaço!
Última flor do Lácio,
inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor
e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga
impura
A bruta mina entre os
cascalhos vela
Amo-se assim, desconhecida
e obscura
Tuba de algo clangor, lira
singela,
Que tens o trom e o silvo
da procela,
E o arrolo da saudade e da
ternura!
Amo o teu viço agreste e o
teu aroma
De virgens selvas e de
oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso
idioma,
Em que da voz materna
ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no
exílio amargo,
O gênio sem ventura e o
amor sem brilho!
Primavera. Um sorriso
aberto em tudo. Os ramos
Numa palpitação de flores
e de ninhos.
Doirava o sol de outubro a
areia dos caminhos
(Lembras-te, Rosa?) e ao sol
de outubro nos amamos.
Verão. (Lembras-te Dulce?)
À beira-mar, sozinhos,
Tentou-nos o pecado:
olhaste-me... e pecamos;
E o outono desfolhava os
roseirais vizinhos,
Ó Laura, a vez primeira em
que nos abraçamos...
Veio o inverno. Porém,
sentada em meus joelhos,
Nua, presos aos meus os
teus lábios vermelhos,
(Lembras-te, Branca?)
ardia a tua carne em flor...
Carne, que queres mais?
Coração, que mais queres?
Passas as estações e
passam as mulheres...
E eu tenho amado tanto! e
não conheço o Amor!
Foste o beijo melhor da
minha vida,
ou talvez o pior...Glória
e tormento,
contigo à luz subi do
firmamento,
contigo fui pela infernal
descida!
Morreste, e o meu desejo
não te olvida:
queimas-me o sangue,
enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me
alimento,
e rolo-te na boca
malferida.
Beijo extremo, meu prêmio
e meu castigo,
batismo e extrema-unção,
naquele instante
por que, feliz, eu não
morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o
crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio
delirante,
na perpétua saudade de um
minuto....
Longe do estéril turbilhão
da rua,
Beneditino, escreve! No
aconchego
Do claustro, na paciência
e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima,
e sofre, e sua!
Mas que na forma de
disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva
se construa
De tal modo, que a imagem
fique nua,
Rica mas sóbria, como um
templo grego.
Não se mostre na fábrica o
suplício
Do mestre. E, natural, o
efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do
edifício:
Porque a Beleza, gêmea da
Verdade,
Arte pura, inimiga do
artifício,
É a força e a graça na
simplicidade.
Por estas noites frias e
brumosas
É que melhor se pode amar,
querida!
Nem uma estrela pálida,
perdida
Entre a névoa, abre as
pálpebras medrosas
Mas um perfume cálido de
rosas
Corre a face da terra
adormecida ...
E a névoa cresce, e, em
grupos repartida,
Enche os ares de sombras
vaporosas:
Sombras errantes, corpos
nus, ardentes
Carnes lascivas ... um
rumor vibrante
De atritos longos e de
beijos quentes ...
E os céus se estendem,
palpitando, cheios
Da tépida brancura
fulgurante
De um turbilhão de braços
e de seios.
Ah! quem nos dera que
isso, como outrora,
inda nos comovesse! Ah!
quem nos dera
que inda juntos pudéssemos
agora
ver o desabrochar da
primavera!
Saíamos com os pássaros e
a aurora,
e, no chão, sobre os
troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de
hora em hora:
"Beijemo-nos!
amemo-nos! espera!"
E esse corpo de rosa
recendia,
e aos meus beijos de fogo
palpitava,
alquebrado de amor e de
cansaço....
A alma da terra gorjeava e
ria...
Nascia a primavera...E eu
te levava,
primavera de carne, pelo
braço!