PAINEL POÉTICO

"POESIA DO MÊS DE JUNHO/2003"


MARCAS DE ÁGUA

Como o orvalho dissipado pelo sol da manhã,
Na efervescência sublime do transpirar de sua flora,
Relembro a sutileza de um olhar com esperança vã,
E a frieza constante do semblante desta triste aurora.

Como o suor de uma donzela perdida em seu divã,
Na carência de uma vida a espreitar um eterno amor,
Circunspecto no escopo da espera de um doce amanhã,
Revelo o incipiente sentido de acalentar tanto dissabor.

Como as gotas de chuva que a avidez da terra absorve,
Para servir de alimento ao esplendor de suas flores,
Assim fomento o inconstante desejo que me envolve,
Na suntuosidade presente da majestade de tuas cores.

Como uma lágrima que percorre um rosto enlutado,
Martirizando a angústia de uma perda sem reparos,
Assim vivencio a rotina de um mundo conturbado
E maculo minha mente na escuridão de tantos pecados.

Pressentindo a iminência de perigo como um sábio,
De reflexos sinistros no espelho de águas obscuras,
O deslizar da lascívia da umidade de teus lábios,
Como lavas permanentes de tristes e amargas rupturas.

Com a vastidão de lembranças que refratam a amargura,
Procuro entorpecer sentimentos que traduzem mágoa,
No esconderijo sombrio de instrumentos de triste tortura,
Marcas refletidas como luzes eternas no espelho d’água.

José Brites Neto

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