Estive investigando recentemente um caso de sarna em humanos em um bairro periférico de uma cidade de nossa região.
Ao dimensionar a questão, verificando a gravidade, com muito esforço pois não existem carros sempre disponíveis ao trabalho, peguei a "carrocinha" emprestada e fui ao encontro de mais uma “rotina zoonótica” de atendimentos da elevada demanda existente de reclamações sobre cachorros, gatos, escorpiões, abelhas, marimbondos, morcegos, cobras, escorpiões, carrapatos, sapos, pulgas, barbeiros, etc.
Ao chegar nesta localidade, que fica atrás de uma unidade de saúde, deparei-me com a seguinte e caótica situação: entulhos, bueiros entupidos, cavalos, crianças, cachorros e SARNA.
Conversando com uma mãe aflita, com seu filho todo empolado e coçando até à alma, logo vejo o sorriso desta em ver um homem de branco chegando na sua porta.
- Dotô, olha aqui meu filho!
- Calma, senhora, não sou médico, sou médico veterinário. Vim aqui ver os cães e os cavalos.
- Mas o senhor não pode dar uma olhadinha no meu filho também? Fui lá no postinho e mal puderam me atender.
- Mas me diga uma coisa, senhora. Tem algum cavalo ou cão com sarna por aqui?
- Sim, a minha cachorra estava.
Logo encontrei na esquina da rua um sofá velho na calçada, aonde algumas crianças compartilhavam espaço com seus cães, no descanso e nas brincadeiras sobre este.
- Podemos retirar todos os animais com sarna e levá-los para a zoonoses?
- Sim, dotô pode levar tudo!
Resolvi então dar uma chegada ao posto; e lá ironicamente, dou de cara com o retrato de quem?
Isto mesmo, Oswaldo Cruz, o grande sanitarista do início do século passado que tanto penou com a revolta do bairro da saúde e com a revolta da vacina no Rio.
Ele parecia me olhar meio que desconfiado na entrada.
Procurei a atendente e indaguei a mesma sobre o atendimento do menino. Expliquei a situação a respeito da rua de trás, e fiquei perplexo ao ouvir:
- É, eu sei, isso já faz algum tempo que é assim!
Solicitei então o apoio de outro órgão para retirada dos entulhos e dos sofás comunitários de sarnas, cães e humanos; assim como, para limpeza dos bueiros.
Á tarde, já estávamos removendo os animais doentes do local, orientando a população sobre não acumular lixo e entulhos na rua e aproveitamos para vacinar os animais sadios que permaneceram por lá, contra a Raiva Animal.
A satisfação dos munícipes com a atenção do time da Zoonoses, estava estampada no rosto daquelas mães aflitas que voltavam a sorrir.
Será que nessa equipe de PSF ou PFS como queiram, não caberia a figura de um médico veterinário orientando quanto ao saneamento básico, antropozoonoses, animais peçonhentos e como figura de apoio ao médico em circunstâncias sanitárias que ele não domina?
Lembrei novamente do retrato de Oswaldo na parede do posto e me senti melhor!
Nesta ou em qualquer outra cidade, um dia muitas máscaras cairão com certeza e a opinião pública conferirá razão aos sanitaristas de verdade, os famosos chatos de plantão do enigmático SUS.
José Brites Neto
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