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A CACHOEIRA DE PAULO AFONSO

CASTRO ALVES

 

 

A Tarde

Era a hora em que a tarde se debru�a
L� da crista das serras mais remotas...
E d’araponga o canto, que solu�a,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s’embu�a,
Passa o bando selvagem das gaivotas...
E a on�a sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando.

Era a hora em que os cardos rumorejam
Como um abrir de bocas inspiradas,
E os angicos as comas espanejam
Pelos dedos das auras perfumadas...
A hora em que as gard�nias, que se beijam,
S�o t�midas, medrosas desposadas;
E a pedra... a flor... as selvas... os condores
Gaguejam... falam... cantam seus amores!

Hora meiga da Tarde! Como �s bela
Quando surges do azul da zona ardente!
... Tu �s do c�u a p�lida donzela,
Que se banha nas termas do oriente...
Quando � gota do banho cada estrela,
Que te rola da esp�dua refulgente...
E, — prendendo-te a tran�a a meia lua,
Te enrolas em neblinas seminua!...

Eu amo-te, � mimosa do infinito!
Tu me lembras o tempo em que era infante.
Inda adora-te o peito do precito
No meio do mart�rio excruciante;
E, se n�o te d� mais da inf�ncia o grito
Que menino elevava-te arrogante,
� que agora os mart�rios foram tantos,
Que mesmo para o riso s� tem prantos!...

Mas n�o m’esque�o nunca dos fraguedos
Onde infante selvagem me guiavas,
E os ninhos do sofrer que entre os silvedos
Da emba�ba nos ramos me apontavas;
Nem, mais tarde, dos l�nguidos segredos
De amor do nenufar que enamoravas...
E as tran�as mulheris da granadilha!...
E os abra�os fogosos da baunilha!...

E te amei tanto — cheia de harmonias
A murmurar os cantos da serrana, —
A lustrar o broquel das serranias,
A doirar dos rendeiros a cabana...
E te amei tanto — � flor das �guas frias —
Da lagoa agitando a verde cana,
Que sonhava morrer entre os palmares,
Fitando o c�u ao tom dos teus cantares!...

Mas hoje, da procela aos estridores,
Sublime, desgrenhada sobre o monte,
Eu quisera fitar-te entre os condores
Das nuvens arruivadas do horizonte...
... Para ent�o, — do rel�mpago aos livores,
Que descobrem do espa�o a larga fronte, —
Contemplando o infinito..., na floresta
Rolar ao som da funeral orquestra!!!

 

MARIA

Onde vais � tardezinha,
Mucama t�o bonitinha,
Morena flor do sert�o?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em v�o...

Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!

Ser�o amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom d’aragem,
Sonhar na rede selvagem...
� sombra do azul palmar!

Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clar�o...
Com a luz dos astros — por c�rios,
Por leito — um leito de l�rios...
E por tenda — a solid�o!

 

O BAILE NA FLOR

Que belas as margens do rio possante,
Que ao largo espumante campeia sem par!...
Ali das brom�lias nas flores doiradas
H� silfos e fadas, que fazem seu lar...

E, em lindos cardumes,
Sutis vaga-lumes
Acendem os lumes
P’ra o baile na flor.
E ent�o — nas arcadas
Das pet’las doiradas,
Os grilos em festa
Come�am na orquesta
Febris a tocar...

E as breves
Falenas
V�o leves,
Serenas,
Em bando
Girando,
Valsando,
Voando
No ar!...

 

NA MARGEM

"Vamos! Vamos! Aqui por entre os juncos
Ei-la a canoa em que eu pequena outrora
Voava nas maretas... Quando o vento,
Abrindo o peito � camisinha �mida,
Pela testa enrolava-me os cabelos,
Ela voava qual marreca brava
No dorso crespo da feral enchente!

Voga, minha canoa! Voga ao largo!
Deixa a praia, onde a vaga morde os juncos
Como na mata os caititus bravios...

Filha das ondas! andorinha arisca!
Tu, que outrora levavas minha inf�ncia
— Pulando alegre no espumante dorso
Dos c�es-marinhos a morder-te a proa, —
Leva-me agora a mocidade triste
Pelos ermos do rio ao longe... ao longe..."

Assim dizia a Escrava...

Iam caindo

Dos dedos do crep�sc’lo os v�us de sombra,
Com que a terra se vela como noiva
Para o doce himeneu das noites l�mpidas...

L� no meio do rio, que cintila,
Como o dorso de enorme crocodilo,
J� manso e manso escoa-se a canoa.
Parecia, assim vista ao sol poente,
Esses ninhos, que tombam sobre o rio,
E onde em meio das flores v�o chilrando
— Alegres sobre o abismo — os passarinhos!...

. . . . . . . . . . .

Tu — guardas algum segredo?...
Maria, ’st�s a chorar!
Onde vais? Por que assim foges,
Rio abaixo a deslizar?
Pedra — n�o tens o teu musgo?
N�o tens um fav�nio — flor?
Estrela — n�o tens um lago?
Mulher — n�o tens um amor?

 

A QUEIMADA

Meu nobre perdigueiro! vem comigo.
Vamos a s�s, meu corajoso amigo,

Pelos ermos vagar!

Vamos j� dos gerais, que o vento a�oita,
Dos verdes capinais n’agreste moita

A perdiz levantar!...

Mas n�o!... Pousa a cabe�a em meus joelhos...
Aqui, meu c�o!... J� de listr�es vermelhos

O c�u se iluminou.

Eis s�bito da barra do ocidente,
Doudo, rubro, veloz, incandescente,

O inc�ndio que acordou!

A floresta rugindo as comas curva...
As asas foscas o gavi�o recurva,

Espantado a gritar.

O estampido estupendo das queimadas
Se enrola de quebradas em quebradas,

Galopando no ar.

E a chama lavra qual jib�ia informe,
Que, no espa�o vibrando a cauda enorme,

Ferra os dentes no ch�o...

Nas rubras roscas estortega as matas...,
Que espadanam o sangue das cascatas

Do roto cora��o!...

O inc�ndio — le�o ruivo, ensang�entado,
A juba, a crina atira desgrenhado

Aos pampeiros dos c�us!...

Travou-se o pugilato... e o cedro tomba...
Queimado..., retorcendo na hecatomba

Os bra�os para Deus.

A queimada! A queimada � uma fornalha!
A irara — pula; o cascavel — chocalha...

Raiva, espuma o tapir!

... E �s vezes sobre o cume de um rochedo
A cor�a e o tigre — n�ufragos do medo —

V�o tr�mulos se unir!

Ent�o passa-se ali um drama augusto...
N’�ltimo ramo do pau-d’arco adusto

O jaguar se abrigou...

Mas rubro � o c�u... Recresce o fogo em mares...
E ap�s... tombam as selvas seculares...

E tudo se acabou!..

 

LUCAS

Quem fosse naquela hora,
Sobre algum tronco lascado
Sentar-se no descampado
Da solit�ria ladeira,
Veria descer da serra,
Onde o inc�ndio vai sangrento,
A passo tardio e lento,
Um belo escravo da terra
Cheio de vi�o e valor...
Era o filho das florestas!
Era o escravo lenhador!
Que bela testa espa�osa,
Que olhar franco e triunfante!
E sob o chap�u de couro
Que cabeleira abundante!
De marchetada jib�ia
Pende-lhe a rasto o fac�o...
E assim... erguendo o machado
Na larga e robusta m�o...
Aquele vulto soberbo,
— Vivamente alumiado, —
Atravessa o descampado
Como uma est�tua de bronze
Do inc�ndio ao fulvo clar�o.

Desceu a encosta do monte,
Tomou do rio o caminho...
E foi cantando baixinho
Como quem canta p’ra si.

Era uma dessas cantigas
Que ele um dia improvisara,
Quando junto da coivara
Faz-se o Escravo — trovador.

Era um canto languoroso,
Selvagem, belo, vivace,
Como o cani�o que nasce
Sob os raios do Equador.
Eu gosto dessas cantigas,
Que me vem lembrar a inf�ncia,
S�o minhas velhas amigas,
Por elas morro de amor...

Deixai ouvir a toada
Do — cativo lenhador —

E o sertanejo assim solta a tirana,

Descendo lento p’ra a servil cabana...

 

TIRANA

"Minha Maria � bonita,
T�o bonita assim n�o h�;
O beija-flor quando passa
Julga ver o manac�.

"Minha Maria � morena,
Como as tardes de ver�o;
Tem as tran�as da palmeira
Quando sopra a vira��o.

"Companheiros! o meu peito
Era um ninho sem senhor;
Hoje tem um passarinho
P’ra cantar o seu amor.

"Trovadores da floresta!
N�o digam a ningu�m, n�o!...
Que Maria � a baunilha
Que me prende o cora��o.

"Quando eu morrer s� me enterrem
Junto �s palmeiras do val,
Para eu pensar que � Maria
Que geme no taquaral..."

 

A SENZALA

Qual o veado, que buscou o aprisco,
Balindo arisco, para a cerva corre...
ou como o pombo, que os arrulos solta,
Se ao ninho volta, quando a tarde morre...,

Assim, cantando a pastoril balada,
J� na esplanada o lenhador chegou.
Para a cabana da gentil Maria
Com que alegria a suspirar marchou!

Ei-la a casinha... t�o pequena e bela!
Como � singela com seus brancos muros!
Que liso teto de sap� doirado!
Que ar engra�ado! que perfumes puros!

Abre a janela para o campo verde,
Que al�m se perde pelos cerros nus...
A testa enfeita da infantil choupana
Verde liana de fest�es azuis.

� este o galho da rolinha brava,
Aonde a escrava seu viver abriga...
Canta a jandaia sobre a curva rama
E alegre chama sua dona amiga.

Aqui n’aurora, abandonando os ninhos,
Os passarinhos v�m pedir-lhe p�o;
Pousam-lhe alegres nos cabelos bastos,
Nos seios castos, na pequena m�o.

______________

Eis o painel encantado,
Que eu quis pintar, mas n�o pude...
Lucas melhor o tra�ara
Na can��o suave e rude...
Vede que olhar, que sorriso
S’expande no br�nzeo rosto,
Vendo o lar do seu amor...
Ai! Da luz do Para�so
Bate-lhe em cheio o fulgor.

 

DI�LOGO DOS ECOS

E chegou-se p’ra a vivenda
Risonho, calmo, feliz...
Escutou... mas s� ao longe
Cantavam as juritis...
Murmurou: "Vou surpr’end�-la!"
E a porta ao toque cedeu...
"Talvez agora sonhando
Diz meu nome o l�bio seu,
Que a dormir nada prev�..."

E o eco responde: — V�!...

"Como a casa est� t�o triste
Que aperto no cora��o!...
Maria!... Ningu�m responde!
Maria, n�o ouves, n�o?...
Aqui vejo uma saudade
Nos bra�os de sua cruz...
Que querem dizer tais prantos,
Que rolam tantos, tantos,
Sobre as faces da saudade
Sobre os bra�os de Jesus?...
Oh! quem me empresta uma luz?...
Quem me arranca a ansiedade,
Que no meu peito nasceu?
Quem deste negro mist�rio
Me rasga o sombrio v�u?..."

E o eco responde: — Eu!...

E chegou-se para o leito
Da casta flor do sert�o...
Apertou co’a m�o convulsa
O punhal e o cora��o!...
‘Stava inda t�pido o ninho
Cheio de aromas suaves...
E — como a pena, que as aves
Deixam no musgo ao voar, —
Um anel de seus cabelos
Jazia cortado a esmo
Como rel�quia no altar!...
Talvez prendendo nos elos
Mil suspiros, mil anelos,
Mil solu�os, mil desvelos,
Que ela deu-lhes p’ra guardar!...
E o pranto em baga a rolar...
"Onde a pomba foi perder-se?
Que c�u minha estrela encerra?
Maria, pobre crian�a,
Que fazes tu sobre a terra?"

E o eco responde: — Erra!

"Partiste! Nem te lembraste
Deste mart�rio sem fim!...
N�o! perdoa... tu choraste
E os prantos, que derramaste
Foram vertidos por mim...
Houve pois um bra�o estranho
Robusto, feroz, tamanho,
Que p�de esmagar-te assim?..."

E o eco responde: — Sim!

E rugiu: "Vingan�a! guerra!
Pela flor, que me deixaste,
Pela cruz em que rezaste,
E que teus prantos encerra!
Eu juro guerra de morte
A quem feriu desta sorte
O anjo puro da terra...
V� como este bra�o � forte!
V� como � rijo este ferro!
Meu golpe � certo... n�o erro.
Onde h� sangue, sangue escorre!...
Vil�o! Deste ferro e bra�o,
Nem a terra, nem o espa�o,
Nem mesmo Deus te socorre!!..."

E o eco responde: — Corre !
Como o c�o ele em torno o ar aspira,

Depois se orientou.

Fareja as ervas... descobriu a pista

E r�pido marchou.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

No entanto sobre as �guas, que cintilam,
Como o dorso de enorme crocodilo,
J� manso e manso escoa-se a canoa;
Parecia assim vista — ao sol poente —
Esses ninhos, que o vento lan�a �s �guas,
E que na enchente v�o boiando � toa!...

 

O NADADOR

Ei-lo que ao rio arroja-se.
As vagas bipartiram-se;
Mas rijas contra�ram-se
Por sobre o nadador...
Depois s’entreabre l�gubre
Um c�rculo simb�lico...
� o riso diab�lico
Do pego zombador!

Mas n�o! Do abismo — ind�mito
Surge-me um rosto p�lido,
Como o Netuno esqu�lido,
Que amaina a crina ao mar;
Fita o batel long�nquo
Na sombra do crep�sculo...
Rasga com f�rreo m�sculo
O rio par a par.

Vagas! Dalilas p�rfidas!
Mo�as, que abris um t�mulo,
Quando do amor no c�mulo
Fingis nos abra�ar!
O nadador intr�pido
Vos toca as tetas c�rulas...
E ap�s — zombando — as p�rolas
Vos quebra do colar.
Vagas! Curvai-vos t�midas!

Abri fileiras p�vidas
�s m�os possantes, �vidas
Do nadador audaz!...
Belo, de for�a ol�mpica
— Soltos cabelos �midos —
Bra�os herc�leos, t�midos...
� o rei dos vendavais!

Mas ai! L� ruge pr�xima
A correnteza h�rrida,
Como da zona t�rrida
A boicininga a urrar...
� l� que o rio ind�mito,
Como o corcel da Ucr�nia,
Rincha a saltar de ins�nia,
Freme e se atira ao mar.

Tremeste? N�o! Qu’importa-te
Da correnteza o estr�dulo?
Se ao longe v�s teu �dolo,
Ao longe ir�s tamb�m...
Salta � garupa �mida
Deste corcel tit�nico...
— Novo Mazeppa oce�nico —
Al�m! al�m! al�m!...

 

NO BARCO

— Lucas! — Maria! murmuraram juntos...
E a mo�a em pranto lhe caiu nos bra�os.
Jamais a parasita em fl�reos la�os
Assim ligou-se ao piqui� robusto...

Eram-lhe as tran�as a cair no busto
Os esparsos fest�es da granadilha...
T�pido aljofar o seu pranto brilha,
Depois resvala no moreno seio...

Oh! doces horas de suave enleio!
Quando o peito da virgem mais arqueja,
Como o casal da rola sertaneja,
Se a ventania lhe sacode o ninho.

Cantai, � brisas, mas cantai baixinho!
Passai, � vagas..., mais passai de manso!
N�o perturbeis-lhe o pl�cido remanso,
Vozes do ar! emana��es do rio!

"Maria, fala!" — "Que acordar sombrio",
Murmura a triste com um sorriso louco,
"No Para�so eu descansava um pouco...
Tu me fizeste despertar na vida ...

"Por que n�o me deixaste assim pendida
Morrer co’a fronte oculta no teu peito?
Lembrei-me os sonhos do materno leito
Nesse momento divinal... Qu’importa?...

"Toda esperan�a para mim ’sta morta...
Sou flor manchada por cruel serpente...
S� de encontro nas rochas pode a enchente
Lavar-me as n�doas, m’esfolhando a vida.

"Deixa-me! Deixa-me a vagar perdida...
Tu! — Parte! Volve para os lares teus.
Nada perguntes... � um segredo horr�vel...
Eu te amo ainda... mas agora — adeus!"

 

ADEUS

— Adeus — Ai crian�a ingrata!
Pois tu me disseste — adeus — ?
Loucura! melhor seria
Separar a terra e os c�us.

— Adeus — palavra sombria!
De uma alma gelada e fria
�s a derradeira flor.

— Adeus! — mis�ria! mentira
De um seio que n�o suspira,
De um cora��o sem amor.

Ai, Senhor! A rola agreste
Morre se o par lhe faltou.
O raio que abrasa o cedro
A parasita abrasou.

O astro namora o orvalho:
— Um � a estrela do galho,
— Outro o orvalho da amplid�o.

Mas, � luz do sol nascente,
Morre a estrela — no poente!
O orvalho — morre no ch�o!

Nunca as neblinas do vale
Souberam dizer-se — adeus —
Se unidas partem da terra,
Perdem-se unidas nos c�us.

A onda expira na plaga...
Por�m vem logo outra vaga
P’ra morrer da mesma dor...

— Adeus — palavra sombria!
N�o digas — adeus —, Maria!
Ou n�o me fales de amor!

 

MUDO E QUEDO

E calado ficou... De pranto as bagas
Pelo moreno rosto deslizaram,
qual da bra�na, que o machado fere,
L�grimas saltam de um sabor amargo.
Mudos, quedos os dois neste momento
Mergulhavam no d�dalo d’ang�stia,
No labirinto escuro que desgra�a...
Labirinto sem luz, sem ar, sem fio...

Que dor, que drama torvo de agonias
N�o vai naquelas almas!... Dor sombria
De ver quebrado aquele amor t�o santo,
De lembrar que o passado est� passado...,
Que a esperan�a morreu, que surge a morte!...
Tanta ilus�o!... tanta car�cia meiga!...
Tanto castelo de ventura feito
� beira do riacho, ou na campanha!...
Tanto �xtase inocente de amorosos!...
Tanto beijo na porta da choupana,
Quando a lua invejosa no infinito
Com uma b�n��o de luz sagrava os noivos!...

N�o mais! n�o mais! O raio, quando esgalha
O ip� secular, atira ao longe
Flores, que h� pouco se beijavam n’h�stea,
Que unidas nascem, juntas viver pensam,
E que jamais na terra h�o de encontrar-se!

_______________

Passou-se muito tempo... Rio abaixo
A canoa corria ao tom das vagas.

De repente ele ergueu-se hirto, severo,
— O olhar em fogo, o riso convulsivo —
Em golfadas lan�ando a voz do peito!...

"Maria! — diz-me tudo... Fala! fala
Enquanto eu posso ouvir... Crian�a, escuta!
N�o v�s o rio?... � negro!... � um leito fundo...
A correnteza, estrepitando, arrasta
Uma palmeira, quanto mais um homem!...
Pois bem! Do seio t�rgido do abismo
H� de romper a maldi��o do morto;
Depois o meu cad�ver negro, l�vido,
Ir� seguindo a esteira da canoa
Pedir-te inda que fales, desgra�ada,
Que ao morto digas o que ao vivo ocultas!..."

Era tremenda aquela dor selvagem,
Que rebentava enfim, partindo os diques
Na f�ria desmedida!...

Em meio �s ondas

Ia Lucas rolar

Um grito fraco,

Uma tr�mula m�o susteve o escravo...
E a p�lida crian�a, desvairada,
Aos p�s caiu-lhe a desfazer-se em pranto.
Ela encostou-se ao peito do selvagem
— Como a violeta, as faces escondendo
Sob a chuva noturna dos cabelos — !
Lenta e sombria ap�s contou destarte
A treda hist�ria desse tredo crime!...

 

NA FONTE

I

"Era hoje ao meio-dia.
Nem uma brisa macia
Pela savana bravia
Arrufava os erva�ais...
Um sol de fogo abrasava;
Tudo a sombra procurava;
S� a cigarra cantava
No tronco dos coqueirais.

II

"Eu cobri-me da mantilha,
Na cabe�a pus a bilha,
Tomei do deserto a trilha,
Que l� na fonte vai dar.
Cansada cheguei na mata:
Ali, na sombra, a cascata
As alvas tran�as desata
Como u’a mo�a a brincar.

III

"Era t�o densa a espessura!
Corria a brisa t�o pura!
Reinava tanta frescura,
Que eu quis me banhar ali.
Olhei em roda... Era quedo
O mato, o campo, o rochedo...
S� nas galhas do arvoredo
Saltava alegre o sag�i.

IV

"Junto �s �guas cristalinas
Despi-me louca, traquinas,
E as roupas alvas e finas
Atirei sobre os cip�s.
Depois mirei-me inocente,
E ri vaidosa... e contente...
Mas voltei-me de repente...
Como que ouvira uma voz!

V

"Quem foi que passou ligeiro,
Mexendo ali no ingazeiro,
E se embrenhou no balceiro,
Rachando as folhas do ch�o?...
Quem foi?! Da mata sombria
Uma vermelha cutia
Saltou t�mida e bravia,
Em procura do sert�o.

VI

"Chamei-me ent�o de crian�a;
A meus p�s a onda mansa
Por entre os juncos s’entran�a
Como uma cobra a fugir!
Mergulho o p� docemente;
Com o frio fujo � corrente...
De um salto ap�s de repente
Fui dentro d’�gua cair.

VII

"Quando o sol queima as estradas,
E nas v�rzeas abrasadas
Do vento as quentes lufadas
Erguem novelos de p�,
Como � doce em meio �s canas,
Sob um teto de lianas,
Das ondas nas espadanas
Banhar-se despida e s�!...

VIII

"Rugitavam os palmares...
Em torno dos nenufares
Zumbiam pejando os ares
Mil insetos de rubim...
Eu naquele leito brando
Rolava alegre cantando...
S�bito... um ramo estalando
Salta um homem junto a mim!"

 

NOS CAMPOS

"Fugi desvairada!
Na moita intrincada,
Rasgando uma estrada,
Fugaz me embrenhei.
Apenas vestindo
Meus negros cabelos,
E os seios cobrindo
Com os tr�mulos dedos,
Ligeira voei!

"Saltei as torrentes.
Trepei dos rochedos
Aos cimos ardentes,
Nos �nvios caminhos,
Cobertos de espinhos,
Meus passos mesquinhos
Com sangue marquei!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Avante! corramos!
Corramos ainda!...
Da selva nos ramos
A sombra � infinda.
A mata possante
Ao filho arquejante
N�o nega um abrigo...
Corramos ainda!
Corramos! avante!

"Debalde! A floresta
— Madrasta impiedosa —
A pobre chorosa
N�o quis abrigar!
"Pois bem! Ao deserto!

"De novo, � loucura!
Seguindo meus tra�os
Escuto seus passos
Mais perto! mais perto!
J� queima-me os ombros
Seu h�lito ardente.
J� vejo-lhe a sombra
Na �mida alfombra...
Qual negra serpente,
Que vai de repente
Na presa saltar!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Na douda
Corrida,
Vencida,
Perdida,

Quem me h� de salvar?"

 

NO MONTE

"Parei... Volvi em torno os olhos assombrados...
Ningu�m! A solid�o pejava os descampados...
Restava inda um segundo... um s� p’ra me salvar;
Ent�o reuni as for�as, ao c�u ergui o olhar...
E do peito arranquei um pavoroso grito,
Que foi bater em cheio �s portas do infinito!
Ningu�m! Ningu�m me acode... Ai! s� de monte em monte
Meu grito ouvi morrer na extrema do horizonte!...
Depois a solid�o ainda mais calada
Na mortalha envolveu a serra descampada!...

"Ai! que pode fazer a rola triste
Se o gavi�o nas garras a espeda�a?
Ai! que faz o cabrito do deserto,
Quando a jib�ia no potente aperto
Em roscas f�rreas o seu corpo enla�a?

"Fazem como eu?... Resistem, batem, lutam,
E finalmente expiram de tortura.
Ou, se escapam trementes, arquejantes,
V�o, lambendo as feridas gotejantes,
Morrer � sombra da floresta escura!...

"E agora est� conclu�da
Minha hist�ria desgra�ada.
Quando ca� — era virgem!
Quando ergui-me — desonrada!"

 

SANGUE DE AFRICANO

Aqui sombrio, fero, delirante
Lucas ergueu-se como o tigre bravo...
Era a est�tua terr�vel da vingan�a...
O selvagem surgiu... sumiu-se o escravo.

Crispado o bra�o, no punhal segura!
Do olhar sangrentos raios lhe ressaltam,
Qual das janelas de um pal�cio em chamas
As labaredas, irrompendo, saltam.

Com o gesto bravo, sacudido, fero,
A destra amea�ando a imensidade...
Era um bronze de Aquiles furioso
Concentrando no punho a tempestade!

No peito arcado o cora��o sacode
O sangue, que da ra�a n�o desmente,
Sangue queimado pelo sol da L�bia,
Que ora referve no Equador ardente.

 

AMANTE

"Basta, crian�a! N�o soluces tanto...
Enxuga os olhos, meu amor, enxuga!
Que culpa tem a cl�cia desca�da
Se abelha envenenada o mel lhe suga?

"Basta! Esta faca j� contou mil gotas
De l�grimas de dor nos teus olhares.
Sorri, Maria! Ela jurou pagar-tas
No sangue dele em gotas aos milhares.

"Por que volves os olhos desvairados?
Por que tremes assim, fr�gil crian�a?
Est’alma � como o bra�o, o bra�o � ferro,
E o ferro sabe o trilho da vingan�a.

"Se a justi�a da terra te abandona,
Se a justi�a do c�u de ti se esquece,
A justi�a do escravo est� na for�a...
E quem tem um punhal nada carece!...

"Vamos! Acaba a hist�ria... Lan�a a presa...
N�o v�s meu cora��o, que sente fome?
Amanh� chorar�s; mas de alegria!
Hoje � preciso me dizer — seu nome!"

 

ANJO

"Ai! Que vale a vingan�a, pobre amigo,
Se na vingan�a a honra n�o se lava?...
O sangue � rubro, a virgindade � branca —
O sangue aumenta da vergonha a bava.

"Se n�s fomos somente desgra�ados,
Para que miser�veis nos fazermos?
Desportados da terra assim perdemos
De al�m da campa as regi�es sem termos...

"Ai! n�o manches no crime a tua vida,
Meu irm�o, meu amigo, meu esposo!...
Seria negro o amor de uma perdida
Nos bra�os a sorrir de um criminoso!..."

 

DESESPERO

 

"Crime! Pois ser� crime se a jib�ia
Morde silvando a planta, que a esmagara?
Pois ser� crime se o jaguar nos dentes
Quebra do �ndio a p�rfida taquara?

"E n�s que somos, pois? Homens? — Loucura!
Fam�lia, leis e Deus lhes coube em sorte.
A fam�lia no lar, a lei no mundo...
E os anjos do Senhor depois da morte.

"Tr�s leitos, que sucedem-se macios,
Onde rolam na santa ociosidade...
O pai o embala... a lei o acaricia...
O padre lhe abre a porta � eternidade.

"Sim! N�s somos reptis... Qu’importa a esp�cie?
— A lesma � vil, — o cascavel � bravo.
E vens falar de crimes ao cativo?
Ent�o n�o sabes o que � ser escravo!...

"Ser escravo — � nascer no alcoice escuro
Dos seios infamados da vendida...
— Filho da perdi��o no ber�o impuro
Sem leite para a boca ressequida...
"� mais tarde, nas sombras do futuro,
N�o descobrir estrela foragida...
� ver — viajante morto de cansa�o —
A terra — sem amor!... sem Deus — o espa�o!

"Ser escravo — �, dos homens repelido,
Ser tamb�m repelido pela fera;
Sendo dos dois irm�os pasto querido,
Que o tigre come e o homem dilacera...
— � do lodo no lodo sacudido
Ver que aqui ou al�m nada o espera,
Que em cada leito novo h� mancha nova...
No ber�o... ap�s no toro... ap�s na cova!...

"Crime! Quem falou, pobre Maria,
Desta palavra est�pida?... Descansa!
Foram eles talvez?!... � zombaria...
Escarnecem de ti, pobre crian�a!
Pois n�o v�s que morremos todo dia,
Debaixo do chicote, que n�o cansa?
Enquanto do assassino a fronte calma
N�o revela um remorso de sua alma?

"N�o! Tudo isto � mentira! O que � verdade
� que os infames tudo me roubaram...
Esperan�a, trabalho, liberdade
Entreguei-lhes em v�o... n�o se fartaram.
Quiseram mais... Fatal voracidade!
Nos dentes meu amor espeda�aram...
Maria! �ltima estrela de minh’alma!
O que � feito de ti, virgem sem palma?

"Pomba — em teu ninho as serpes te morderam.
Folha — rolaste no paul sombrio.
Palmeira — as ventanias te romperam.
Cor�a — afogaram-te as caudais do rio.
Pobre flor — no teu c�lice beberam,
Deixando-o depois triste e vazio...
— E tu, irm�! e m�e! e amante minha!
Queres que eu guarde a faca na bainha!

"� minha m�e! � m�rtir africana,
Que morreste de dor no cativeiro!
Ai! sem quebrar aquela jura insana,
Que jurei no teu leito derradeiro,
No sangue desta ra�a �mpia, tirana
Teu filho vai vingar um povo inteiro!...
Vamos, Maria! Cumpra-se o destino...
Dize! dize-me o nome do assassino!..."

_________________

"Virgem das Dores,
Vem dar-me alento,
Neste momento
De agro sofrer!
Para ocultar-lhe
Busquei a morte...
Mas vence a sorte,
Deve assim ser.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Pois que seja! Debalde pedi-te,
Ai! debalde a teus p�s me rojei...
Por�m antes escuta esta hist�ria...
Depois dela... O seu nome direi!"

 

HIST�RIA DE UM CRIME

"Fazem hoje muitos anos
Que de uma escura senzala
Na estreita e lodosa sala
Arquejava u’a mulher.
L� fora por entre as urzes
O vendaval s’estorcia...
E aquela triste agonia
Vinha mais triste fazer.

"A pobre sofria muito.
Do peito cansado, exangue,
�s vezes rompia o sangue
E lhe inundava os len��is.
Ent�o, como quem se agarra
�s �ltimas esperan�as,
Duas p�vidas crian�as
Ela olhava... e ria ap�s.

"Que olhar! que olhar t�o extenso!
Que olhar t�o triste e profundo!
Vinha j� de um outro mundo,
Vinha talvez l� do c�u.
Era o raio derradeiro.
Que a lua, quando se apaga,
Manda por cima da vaga
Da espuma por entre o v�u.

"Ainda me lembro agora
Daquela noite sombria,
Em que u’a mulher morria
Sem rezas, sem ora��o!...
Por padre — duas crian�as...
E apenas por sentinela
Do Cristo a face amarela
No meio da escurid�o.

"�s vezes naquela fronte
Como que a morte pousava
E da agonia aljofrava
O derradeiro suor...
Depois acordava a m�rtir,
Como quem tem um segredo...
Ouvia em torno com medo,
Com susto olhava em redor.

"Enfim, quando noite velha
Pesava sobre a mansarda,
E somente o c�o de guarda
Ladrava aos ermos sem fim,
Ela, nos bra�os sangrentos
As crian�as apertando,
Num tom meigo, triste e brando
P�s-se a falar-lhes assim.

 

�LTIMO ABRA�O

"Filho, adeus! J� sinto a morte,
Que me esfria o cora��o.
Vem c�... D�-me tua m�o...
Bem v�s que nem mesmo tu
Podes dar-lhe novo alento!...
Filho, � o �ltimo momento...
A morte — a separa��o!
Ao desamparo, sem ninho,
Ficas, pobre passarinho,
Neste deserto profundo,
Pequeno, cativo e nu!...

"Que sina, meu Deus! que sina
Foi a minha neste mundo!
Presa ao c�u — pelo desejo,
Presa � terra — pelo amor!...
Que importa! � tua vontade?
Pois seja feita, Senhor!
"Pequei!... foi grande o meu crime,
Mas � maior o castigo...
Ai! n�o bastava a amargura
Das noites ao desabrigo;
De espeda�arem-me as carnes
O tronco, o a�oite, a tortura,
De tudo quanto sofri.
Era preciso mais dores,
Inda maior sacrif�cio...
Filho! bem v�s meu supl�cio...
V�o separar-me de ti!

"Chega-te perto... mais perto;
Nas trevas procura ver-te
Meu olhar, que treme incerto,
Perturbado, vacilante...
Deixa em meus bra�os prender-te
P’ra n�o morrer neste instante;
Inda tenho que fazer-te
Uma triste confiss�o...
Vou revelar-te um segredo
T�o negro, que tenho medo
De n�o ter o teu perd�o!...

Mas n�o!
Quando um padre nos perdoa,
Quando Deus tem piedade
De um filho no cora��o
Uma    m�e      n�o    bate    �      toa.

 

M�E PENITENTE

"Ouve-me, pois!... Eu fui uma perdida;
Foi este o meu destino, a minha sorte...
Por esse crime � que hoje perco a vida,
Mas dele em breve h� de salvar-me a morte!

"E minh’alma, bem v�s, que n�o se irrita,
Antes bendiz estes mand�es ferozes.
Eu seria talvez por ti maldita,
Filho! sem o batismo dos algozes!

"Porque eu pequei... e do pecado escuro
Tu foste o fruto c�ndido, inocente,
— Borboleta, que sai do — lodo impuro...
— Rosa, que sai de — p�trida semente!

"Filho! Bem v�s... fiz o maior dos crimes
— Criei um ente para a dor e a fome!
Do teu ber�o escrevi nos brancos vimes
O nome de bastardo — impuro nome.

"Por isso agora tua m�e te implora
E a teus p�s de joelhos se debru�a.
Perdoa � triste — que de ang�stia chora,
Perdoa � m�rtir — que de dor solu�a!

"Mas um gemido a meus ouvidos soa...
Que pranto � este que em meu seio rola?
Meu Deus, � o pranto seu que me perdoa...
Filho, obrigada pela tua esmola!"

 

O SEGREDO

"Agora vou dizer-te por que morro;

Mas h�s de jurar primeiro,

Que jamais tuas m�os inocentes
Ferir�o meu algoz derradeiro...

Meu filho, eu fui a v�tima
Da raiva e do ci�me.

Matou-me como um tigre carniceiro,

Bem v�s,

Uma branca mulher, que em si resume

Do tigre — a malvadez,
Do cascavel — o rancor!...

Deixo-te, pois...

— Um grito de vingan�a?
— N�o, pobre crian�a! ...

Um crime a perdoar... o que � melhor!...
"Depois. teve raz�o... Esta mulher

� tua e minha senhora!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Lucas, sil�ncio! que por ela implora

Teu pai... e teu irm�o! ...

"Teu irm�o, que � seu filho... (� magoa e dor!)
"Teu pai — que � seu marido... e teu senhor! ...
"Juras n�o me vingar? — � m�e, eu juro

Por ti, pelos beijos teus!
"— Obrigada! agora... agora

J� nada mais me demora...
Deus! — recebe a pecadora!
Filho! — recebe este adeus!"

______________

Quando, rompendo as barras do oriente,
A estrela da manh� mais desmaiava,
E o vento da floresta ao c�u levava
O canto jovial do bem-te-vi;
Na casinha de palha uma crian�a,
Da defunta abra�ando o corpo frio,
Murmurava chorando em desvario:
— Eu n�o me vingo, � m�e... juro por ti!..."

______________

Maria calou-se... Na fronte do Escravo
Suor de agonia gelado passou;
Com riso convulso murmura: "Que importa
Se o filho da escrava na campa jurou?!...

"Que tem o passado com o crime de agora?
Que tem a vingan�a, que tem com o perd�o?"
E como arrancando do cr�nio uma id�ia
Na fronte corria-lhe a g�lida m�o...

"Esquece o passado! Que morra no olvido...
Ou antes relembra-o cruento, feroz!
Legenda de lodo, de horror e de crimes
E gritos de v�tima e risos de algoz!

"No frio da cova que jaz na explanada,
— Vingan�a — murmuram os ossos dos meus!"

— N�o ouves um canto, que passa nos ares?
— Perdoa! — respondem as almas nos c�us!"

— "S�o longos gemidos do seio materno
Lembrando essa noite de horror e trai��o!"

— "� o fl�bil suspiro do vento, que outrora
Bebera nos l�bios da morta o perd�o!..."

E descaiu profundo
Em longo meditar...
Ap�s sombrio e fero
Viram-no murmurar:

"M�e! Na regi�o long�nqua
Onde tua alma vive,
Sabes que eu nunca tive
Um pensamento vil.
Sabes que esta alma livre
Por ti curvou-se escrava;
E devorou a bava...
E tigre — foi reptil!

"Nem um tremor correra-me
A face fustigada!
Beijei a m�o armada
Com o ferro que a feriu...
Filho, de um pai mis�rrimo
Fui o fiel rafeiro...
Caim, irm�o trai�oeiro!
Feriste... e Abel sorriu!

"De tanto horror o c�mulo,
� m�e, alma celeste
Se perdoar quiseste,
Eu perdoei tamb�m.
Santificaste os m�seros;
Curvei-me reverente
A eles t�o-somente,
Somente... a mais ningu�m!

"Ningu�m! que a nada humilho-me
Na terra, nem no espa�o!...
Pode ferir meu bra�o...
— "Lucas! n�o pode, n�o!
M�sero a m�o que abrira
De tua m�e a cova...
O golpe hoje renova!...
Mata-me!... � teu irm�o!..."

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

O CREP�SCULO SERTANEJO

A tarde morria! Nas �guas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das �rvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do l�quen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Sa�am, quais negros, cru�is leopardos.

A tarde morria! Mais funda nas �guas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em m�sico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um — sil�ncio!... Talvez uma — orquestra...
Da folha, do c�lix, das asas, do inseto...
Do �tomo — � estr�la... do verme — � floresta!...

As gar�as metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, — da brisa ao a�oite —;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabe�a co’as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabe�a surpreso, inquieto,
Coberto de limos — um touro selvagem.

Ent�o as marrecas, em torno boiando,
O v�o encurvavam medrosas, � toa...
E o t�mido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

 

O BANDOLIM DA DESGRA�A

Quando de amor a Americana douda
A moda tange na febril viola,
E a m�o febrenta sobre a corda fina
Nervosa, ardente, sacudida rola.

A gusla geme, s’estorcendo em �nsias,
Rompem gemidos do instrumento em pranto...
Choro indiz�vel... comprimir de peitos...
Queixas, solu�os... desvairado canto!

E mais dorida a melodia arqueja!
E mais nervosa corre a m�o nas cordas!...
Ai! tem piedade das crian�as louras
Que solu�ando no instrumento acordas!...

"Ai! tem piedade dos meus seios tr�mulos..."
Diz estalando o bandolim queixoso.
... E a m�o palpita-lhe apertando as fibras...
E fere, e fere em dedilhar nervoso!...

Sobre o rega�o da mulher trigueira,
Doida, cruel, a execu��o delira!...
Ent�o — co’as unhas cor-de-rosa, a mo�a,
Quebrando as cordas, o instrumento atira!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Assim, Desgra�a, quando tu, maldita!
As cordas d’alma delirante vibras...
Como os teus dedos espeda�am rijos
Uma por uma do infeliz as fibras!

— Basta —, murmura esse instrumento vivo.
— Basta —, murmura o cora��o rangendo,
E tu, no entanto, num rasgar de art�rias,
Feres lasciva em dedilhar tremendo.

Cren�a, esperan�a, mocidade e gl�ria,
Aos teus arpejos, — gemebundas morrem!...
Resta uma corda... — a dos amores puros — ...
E mais ardentes os teus dedos correm!...

E quando farta a cortes� cansada
A pobre gusla no tapete atira,
Que resta?... — Uma alma — que n�o tem mais vida!
Olhos — sem pranto! Desmontada — lira!!!

 

A CANOA FANT�STICA

Pelas sombras temerosas
Onde vai esta canoa?
Vai tripulada ou perdida?
Vai ao certo ou vai � toa?

Semelha um tronco gigante
De palmeira, que s’escoa...
No dorso da correnteza,
Como b�ia esta canoa!...

Mas n�o branqueja-lhe a vela!
N’�gua o remo n�o ressoa!
Ser�o fantasmas que descem
Na solit�ria canoa?

Que vulto � este sombrio
Gelado, im�vel, na proa?
Dir-se-ia o g�nio das sombras
Do inferno sobre a canoa!...

Foi vis�o? Pobre crian�a!
� luz, que dos astros coa,
� teu, Maria, o cad�ver,
Que desce nesta canoa?

Ca�da, p�lida, branca!...
N�o h� quem dela se doa?!...
V�o-lhe os cabelos a rastos
Pela esteira da canoa!...

E as flores r�seas dos golfos,
— Pobres flores da lagoa,
Enrolam-se em seus cabelos
E v�o seguindo a canoa!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..

 

O S�O FRANCISCO

Longe, bem longe, dos cant�es bravios,
Abrindo em alas os barrancos fundos;
Dourando o colo aos perenais estios,
Que o sol atira nos modernos mundos;
Por entre a grita dos ferais gentios,
Que acampam sob os palmeirais profundos;
Do S�o Francisco a soberana vaga
L�guas e l�guas triunfante alaga!

Antemanh�, sob o sendal da bruma,
Ele vagia na vertente ainda,
— Linfa amorosa — co’a nitente espuma
Orlava o seio da Mineira linda;
Ao meio-dia, quando o solo fuma
Ao bafo morto de u’a calma infinda,
Viram-no aos beijos, delamber demente
As rijas formas da cabocla ardente.

Insano amante! N�o lhe mata o fogo
O deleite da ind�gena lasciva...
Vem — � busca talvez de desafogo
Bater � porta da Baiana altiva.
Nas verdes canas o gemente rogo
Ouve-lhe � tarde a tabaroa esquiva...
E talvez por magia � luz da lua
Mole a crian�a na caudal flutua.

Rio soberbo! Tuas �guas turvas
Por isso descem lentas, peregrinas...
Adormeces ao p� das palmas curvas
Ao m�sico chorar das casuarinas!
Os poldros soltos — retesando as curvas, —
Ao galope agitando as longas crinas,
Rasgam alegres — relinchando aos ventos —
De tua vaga os turbilh�es barrentos.

E tu desces, � Nilo brasileiro,
As largas ipueiras alagando,
E das aves o coro alvissareiro
Vai nas bal�as teu hino modilhando!
Como pontes a�reas — do coqueiro
Os cip�s escarlates se atirando,
De grinaldas em flor tecendo a arcada
S�o arcos triunfais de tua estrada!...

 

A CACHOEIRA

Mas s�bito da noite no arrepio
Um mugido soturno rompe as trevas...
Titubantes — no �lveo do rio —
Tremem as lapas dos tit�es coevas!...
Que grito � este sepulcral, bravio,
Que espanta as sombras ululantes, sevas?
� o brado atroador da catadupa
Do penhasco batendo na garupa!...

Quando no lodo f�rtil das paragens
Onde o Paragua�u rola profundo,
O vermelho novilho nas pastagens
Come os cani�os do torr�o fecundo;
Inquieto ele aspira nas bafagens
Da negra sucr’rui�ba o cheiro imundo...
Mas j� tarde... silvando o monstro voa...
E o novilho preado os ares troa!

Ent�o doido de dor, s�nie babando,
Co’a serpente no dorso parte o touro...
Aos bramidos os vales v�o clamando,
Fogem as aves em sentido choro...
Mas s�bito ela �s �guas o arrastando
Contrai-se para o negro sorvedouro...
E enrolando-lhe o corpo quente, exangue,
Quebra-o nas roscas, donde jorra o sangue.

Assim dir-se-ia que a caudal gigante
— Larga sucurui�ba do infinito —
Co’as escamas das ondas coruscante
Ferrara o negro touro de granito!...
H�rrido, insano, triste, lacerante
Sobe do abismo um pavoroso grito...
E medonha a suar a rocha brava
As pontas negras na serpente crava!...

Dilacerado o rio espadanando
Chama as �guas da extrema do deserto...
Atropela-se, empina, espuma o bando...
E em massa rui no precip�cio aberto...
Das grutas nas cavernas estourando
O coro dos trov�es travam concerto...
E ao v�-lo as �guias tontas, eri�adas
Caem de horror no abismo estateladas...

A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parc�is sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os bra�os do gigante suarentos
Ag�entando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai do ombro.

Grupo enorme do fero Laocoonte
Viva a Gr�cia acol� e a luta estranha!...
Do sacerdote o punho e a roxa fronte...
E as serpentes de T�nedos em sanha!...
Por hidra — um rio! Por �ugure — um monte!
Por aras de Minerva — uma montanha!
E em torno ao pedestal la�ados, tredos,
Como filhos — chorando-lhe — os penedos!!!...

 

UM RAIO DE LUAR

Alta noite ele ergueu-se. Hirto, solene.
Pegou na m�o da mo�a. Olhou-a fito...

Que fundo olhar!

Ela estava gelada, como a gar�a
Que a tormenta ensopou longe do ninho,

No largo mar.

Tomou-a no rega�o... assim no manto
Apanha a m�e a criancinha loura,

Tenra a dormir.

Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
P�lida e fria... Era talvez a morte...

Mas a sorrir.

Pendeu-lhe sobre os l�bios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe

O ressonar.

E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o cora��o no n�veo seio

A titilar.

Morta n�o era! Enquanto um rir convulso
Contra�ra as fei��es do homem silente

— Riso fatal.

Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiri�ada pela m�o da noite

Hirta, glacial!

Um momento de bru�os sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro

Mais s’inclinou...

Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso � flor dos l�bios da crian�a

� flux boiou!

Qual o murzelo do penhasco � borda
Empina-se e cravando as ferraduras

Morde o escarc�u;

Um calafrio percorreu-lhe os m�sculos...
O vulto recuou!... A noite em meio

Ia no c�u!

 

DESPERTAR PARA MORRER

 

— "Acorda!"

— "Quem me chama?"

— "Escuta!"

— "Escuto..."

— "Nada ouviste?"

— "Inda n�o..."

— "� porque o vento

Escasseou."

— "Ou�o agora... da noite na calada
Uma voz que ressona cava e funda...

E ap�s cansou!"

— "Sabes que voz � esta?"

— "N�o! Semelha

Do agonizante o derradeiro engasgo,

Rouco estertor..."

E calados ficaram, mudos, quedos,
M�os contra�das, bocas sem alento...

Hora de horror!...

 

LOUCURA DIVINA

— "Sabes que voz � esta?"

Ela cismava!...

— "Sabes, Maria?

— "� uma can��o de amores.
Que al�m gemeu!"

— "� o abismo, crian�a!..."

A mo�a rindo

Enla�ou-lhe o pesco�o:

— "Oh! n�o! n�o mintas!
Bem sei que � o c�u!"

— "Doida! Doida! � a voragem que nos chama!..."
— "Eu ou�o a Liberdade!"

— "� a morte, infante!"
— "Erraste. � a salva��o!"

— "Negro fantasma � quem me embala o esquife!"
— "Loucura! � tua M�e... O esquife � um ber�o,

Que b�ia n’amplid�o!..."

— "N�o v�s os panos d’�gua como alvejam
Nos penedos? Que g�lido sud�rio

O rio nos talhou!"

— "Veste-me o cetim branco do noivado...
Roupas alvas de prata... albentes dobras...

Veste-me!... Eu aqui estou."

— J� na proa espadana, salta a espuma...
— S�o as flores gentis da laranjeira

Que o pego vem nos dar...

Oh! n�voa! Eu amo teu sendal de gaze!...
Abram-se as ondas como virgens louras,

Para a Esposa passar!...

"As estrelas palpitam! — S�o as tochas!
Os rochedos murmuram!... S�o os monges!

Reza um �rg�o nos c�us!

Que incenso! — Os rolos que do abismo voam!
Que tur�bulo enorme — Paulo Afonso!

Que sacerdote! — Deus..."

 

� BEIRA DO ABISMO E DO INFINITO

 

A celeste Africana, a Virgem-Noite
Cobria as faces... Gota a gota os astros
Ca�am-lhe das m�os no peito seu...
... Um beijo infindo suspirou nos ares...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A canoa rolava!... Abriu-se a um tempo

O precip�cio!... e o c�u!...

  

Santa Isabel, 12 de julho de 1870

 


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