O berço do significado e da significância médica e social desta terminologia remonta à grande civilização grega, aos primórdios clássicos e conceituais da medicina e do gênesis da democracia na humanidade.
Palavra erudita, maldita, dita por alguns mais radicais como um engodo de justificação para uma morte sumária.
Decantar princípios não seria minha lógica neste artigo, pois o próprio dito que se consagrou no meio popular de que é impossível agradar a gregos e troianos, já me desestimularia em tentar fortuito objetivo de querer ser unanimidade.
Aliás procuro seguir outra máxima do escritor Nélson Rodrigues, de que toda unanimidade é burra, e assim me pautarei na rendição a este sentido social de interpretação da respeitável opinião pública de Americana.
Os gregos a chamavam de “boa morte” em sua tradução literal para o nosso idioma. Isto posto, ao longo do caminhar de nossa humanidade, a terminologia que visava abreviar sofrimentos de humanos nos primórdios seculares deixou de ser aceita como parâmetro mundial na égide de nossa contemporaneidade.
O advento da civilização urbana, trouxe-nos outras espécies animais ao nosso convívio, através do longo processo de domesticação de mais de 5000 anos; uns como instrumentos de subsistência ou como companheiros de atenção e auxiliares de caça e trabalho; outros em sua sinantropia tornaram-se verdadeiras “pragas urbanas”.
Neste ínterim, duas espécies destacaram-se na predileção humana, o cão (Canis familiaris) e o gato (Felis domestica). O gato ainda trazendo a mística medieval de suas relações com o ocultismo não assumiu um grau tão elevado como o cão nesta relação intrínseca social com os humanos, fazendo com que os cães assumissem o posto maior de assunção pública nesta inter-relação. Como resultado disto, esta condição privilegiada o colocou na esfera urbana de dicotomias entre o domínio por uma posse responsável humana e o abandono em vida livre urbana.
Em meados do século passado, Pedro Acha inicia seus estudos sobre as chamadas zoonoses, sempre se pautando em antecessores como Louis Pasteur que já traduzia no século anterior ao seu todos os riscos de transmissibilidade da Raiva pelos cães aos seres humanos. Assim foi que o órgão maior da Saúde Pública, a Organização Mundial de Saúde, começava a ter que definir argumentos para o controle de uma população de cães no meio urbano que já começava a se desenvolver desordenamente, por falta de uma melhor ordenação política e social que estabelecesse a curto prazo um equilíbrio nesta dinâmica populacional.
Assim sendo, com base em instrumentos legais, sanitários e deontológicos surge a adoção da prática da eutanásia como procedimento médico veterinário, a ser adotado pela autoridade sanitária para tal fim.
Com o advento das convenções para proteção animal, o argumento passava a ser discutido dentro da própria ONU (Organização das Nações Unidas), através de dois de seus órgãos consultivos (UNESCO e WSPA). No entanto estes, não extinguem a necessidade circunstancial do procedimento, conforme a realidade epidemiológica e social de cada regionalidade, deixando a cargo das autoridades sanitárias veterinárias a incumbência de tais avaliações.
Hoje, a falta de pertinências técnicas de muitas associações ditas de proteção animal tem gerado polêmicas inúteis, discursos vazios, acusações levianas e difamatórias a quem busca traduzir o bem-estar coletivo, não só de cães, mas de todos os seres envolvidos harmonicamente no meio ambiente, incluindo o ser humano que é esquecido sumariamente por estas associações impregnadas pelo fanatismo em alguns casos, ou até mesmo por interesses políticos muito oportunistas; sem querer adentrar aqui no universo de generalizações como fazem os menos responsáveis, contrários ao meu ponto de vista.
Como esquecer do ser humano? Como fechar os olhos para nossas crianças, que vêm sendo constantemente agredidas por cães de irresponsáveis, que constantemente deixam seus animais soltos nas ruas e continuam impunes em nome da proteção animal?
E os que abandonam cães nas ruas, até quando permanecerão sem serem denunciados por esta sociedade omissa e pelas próprias associações de proteção ainda muito tímidas nestas motivações?
Quem se responsabilizará pelas agressões e transmissão de doenças graves transmitidas pelos animais às nossas crianças, se eu como autoridade sanitária designada pelo secretário de saúde e prefeito desta cidade, recuar em meu mister público por uma pressão sem argumentos claros e consistentes para a realidade de nossa cidade, apenas baseada no conceito de que se deve amar os bichinhos e deixá-los soltos nas ruas?
Serei processado pela promotoria pública por omissão profissional e descaso com a Saúde Pública, estejam certos disto. É fácil criticar a zoonoses, chamando-a de campo de concentração nazista. Belo discurso político, tão vazio quanto inglório!!!
Voltando a citar os épicos gregos, advertiria que todos nós temos um calcanhar de aquiles social, sendo que muitos o escondem sorrateira e pragmaticamente. Estamos aqui, de peito aberto, com transparência, buscando discutir com resolutividade esta problemática em Americana. Quem está disposto a isto, ao invés da denúncia vazia, sempre cômoda e irracional?
Cidadania responsável, impõe um regime de direitos e deveres sociais. Não basta só reclamar, só denunciar, só se dizer contra, só querer ter direitos! Tem que arregaçar as mangas e fazer!
Estamos fazendo, infelizmente ainda, as desagradáveis eutanásias e nunca omitirei isto da opinião pública, mas estamos buscando alternativas com algum apoio de segmentos da imprensa e sem nenhum apoio dos protecionistas de Americana.
Criamos uma feira de adoção de animais (122 animais adotados em quatro meses); participamos de três eventos de ação em cidadania na cidade, com vacinação anti-rábica, palestras sobre posse responsável e adoção de animais; sugerimos ao prefeito a criação do Conselho de Proteção e Defesa dos Animais (projeto de lei nº 35/2005); damos palestras em escolas e centros comunitários; autuamos 42 munícipes por descumprimento às leis municipais de posse responsável (3114/97, 3803/03 e 4146/05) e estamos iniciando a viabilização do processo de castração de animais em convênio com a classe veterinária da cidade.
Estamos criando todas estas alternativas à eutanásia e com ainda uma tímida participação da sociedade de Americana, infelizmente. Uma andorinha só não faz verão, como diz o dito popular. Então não gaste seu tempo em só criticar. Assuma sua responsabilidade social!!!
Parafraseando Shakespeare eu diria: “Ser ou não ser cidadão? Eis a questão”!!!
E você, o que é?
José Brites Neto
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