O Corsário
Anterior Próximo
Para certas pessoas demasiado superficiais, a teoria da reencarnação é um motivo de riso; para outras, muito religiosas, pode significar um tabu ou pecado; para os pseudo-oculistas, esta é uma crença muito firme; para os velhacos do intelecto, isto é uma utopia descabelada.  Entretanto, para os homens que recordamos nossas existências anteriores, a reencarnação é um fato.
 
 Em nome da verdade, devo asseverar solenemente que eu nasci recordando todas as minhas passadas reencarnações e jurar isto não é um delito.  Sou um homem de Consciência desperta.
  
Obviamente devemos fazer uma franca diferenciação entre reencarnação e retorno, duas leis muito distintas.  Entretanto, este não é o objetivo do presente capítulo.  Depois deste preâmbulo, vamos aos fatos, ao grão.
 
 utrora, quando os mares do mundo estavam infestados de navios piratas, tive que passar por uma tremenda amargura.
 
 Então, o Boddhisattwa do Anjo Dióbulo Cartobu estava reencarnado.
 
 Não é demais afirmar, com certa ênfase, que aquele ser possuía corpo feminino de esplêndida beleza.  É ostensível que eu era seu pai.
 
 Desafortunadamente e em malfadada hora, a cruel pirataria, que não respeitava vidas em honras, depois de assolar o povoado europeu onde muitos cidadãos morávamos em paz, seqüestrou as formosas do lugar, entre as 
quais é claro que estava minha filha, donzela inocente dos tempos idos.
 
 Apesar do terror de tantos aldeões, eu consegui, valentemente e pondo em perigo minha própria vida, enfrentar o aleivoso capitão da corsária nave.
 
 “ Tirei, o senhor, minha filha desse inferno onde a meteu e lhe prometo que eu tirarei sua alma dentre o inferno onde já está metida !”  Tais foram as minhas dolorosas exclamações.
 
 O terrível corsário, olhando-me ferozmente, apiedou-se da minha insignificante pessoa e, com imperativa voz, ordenou-me que aguardasse um momento.
 
 Eu vi, com ansiedade infinita, o flibusteiro retornado à sua nave negra.  Entendendo que soube burlar, astutamente, os seus impiedosos lobos do mar.  O certo é que, momentos depois, devolvia-me a minha filha.
 
 Valha-me Deus e Santa Maria! Porém, quem iria pensar que, depois de vários séculos, haveria de reencontrar o ego desse terrível corsário, reincorporado um novo organismo humano!
 
 Assim é a lei do eterno retorno de todos os seres e de todas as coisas, e tudo se repete de acordo com outra lei que se chama recorrência.
 
 Numa noite de grandes inquietudes espirituais o reencontrei, gozoso, entre o seleto grupo de aspirantes a rosa-cruz.
  
 Aquela amizade resultou, no entanto, num fogo fátuo, um fogo de palha, pois bem rápido pude verificar plenamente que tal homem, apesar de seus místicos anelos, continuava, em seus transfundos mais íntimos, como antigo 
corsário vestido à moderna.
 
 Aquele cavalheiro de outrora entusiasmava-se muito, relatando-me suas “experiências astrais”, pois é inquestionável que saiba desdobrar-se à vontade.
 
 Qualquer dia desses tantos, acertamos um encontro metafísico transcendental no S.S.S. de Berlim, Alemanha.
 
 Esta foi, para mim, uma experiência relativamente nova, pois, certamente, até então não havia ocorrido ainda realizar o experimento da projeção voluntária do eidolon.  No entanto, sabia que o podia fazer e por isso me 
atrevi a aceitar tal encontro.
 
 Com inteira claridade recordo aqueles momentos solenes em que me convertera em espião do meu próprio sono…
 
 Em estreita mística aguardava o instante de transição existente entre vigília e sono; queria aproveitar esse momento de maravilhas para escapar do corpo físico.
 
 O estado de lassitude e as primeiras imagens de sonho foram suficiente para entender, de forma íntegra, que o ansiado momento havia chegado…
 
 Delicadamente, levantei-me do leito e, caminhando muito devagarzinho, saí de minha casa, sentindo-me possuído por certa voluptuosidade espiritual, agradável, deliciosa…
 
 É inquestionável que, ao me levantar da cama, no instante de estar dormitando, produziu-se o desdobramento astral, a separação muito natural do eidolon…
 
 Com esse brilho muito singular do corpo astral, afastei-me de todas aquelas cercanias, anelando chegar ao Templo de Berlim…
 
 Ostensivelmente, tive que viajar deliciosamente sobre as procelosas águas do Oceano Atlântico…
 
 Flutuando serenamente na radiante atmosfera astral deste mundo, cheguei às terras da velha Europa e, de imediato, me dirigi à capital da França…
 
 Andei, silente como um fantasma, por todas essas velhas ruas que outrora serviam de cenário para a Revolução Francesa…
 
 De repente, algo insólito acontece: Uma onda telepática chegou ao meu plexo solar e sinto o imperativo categórico de uma imensa dita de encontrar um amigo de minhas passadas reencarnações…
 
 Ditoso, flutuava aquele companheiro, submerso no ambiente fluídico astral, fora do corpo denso que jazia adormecido no perfumado leito de caoba…
 
 No tálamo nupcial dormia também o corpo físico delicioso de sua bem-amada.  A alma sideral desta última, fora de seu receptáculo mortal, compartilhava do gozo mirífico de seu esposo e flutuava…
 
Eu vi  dois ternos infantes de esplêndida beleza, brincando felizes no encanto mágico daquela morada…
 
A meu antigo saudei, e também a sua Eva inefável, mas os meninos espantaram-se com minha inusitada presença...
 
 Pareceu-me melhor sair por aí, pelas ruas de Paris e meu amigo não rechaçou a idéia.  Conversando juntos, afastamo-nos da mansão das delícias…
 
 Caminhamos devagarzinho, devagarzinho, por todas essas ruas e avenidas que vão desde o centro até a periferia…
 
 Fora daquela grande urbe, propus-lhe – à queima-roupa, como se diz por aí – visitássemos juntos o templo esotérico de Berlim, Alemanha.  O iniciado aquele declinou, muito amavelmente, do convite, objetando que 
tinha esposa e filhos e que, por isso, só queria concentrar sua atenção nos problemas econômicos da vida…
 
 Com grande pesar, afastei-me daquele homem desperto, lamentando que pospusesse seu trabalho esotérico.
 
Suspendendo-me na luz astral das maravilhas e prodígios, passei por cima de uns vetustos muralhões antiquíssimos…
 
 Ditoso, viajei ao longo do tortuoso caminho de, em forma serpentina, se desenvolvia aqui, lá e acolá.
 
 Embriagado de êxtase, cheguei ao templo das paredes transparentes.  A entrada daquele lugar santo era certamente muito singular…
 
 Vi uma espécie de parque domingueiro, todo cheio de plantas belíssimas e flores deliciosas que exalavam um hábito de morte…
  
 No fundo extraordinário daquele jardim encantador, resplandecia, solene, o templo dos esplendores…
 
 As gradeadas portas de ferro que davam acesso ao precioso parque do Santuário às vezes se abriam para que alguém entrasse, às vezes se fechavam…
 Todo aquele conjunto delicado e maravilhoso ressaltava, iluminado com a imaculada luz do Espírito Universal de Vida…
 Ante o Sancta Sanctorum encontrei, ditoso, muitos nobres aspirantes de diversas nacionalidades, povos e línguas…
  
 Místicas almas que, durante aquelas horas em que o corpo físico dorme, movidas pela força do anelo, haviam escapado da densa forma mortal para até o Sancta…
 
 Sublimes, conversam todos esses devotos sobre temas inefáveis.  Falavam da lei do carma, discorriam sobre assuntos cósmicos extraordinários… Emanavam de si mesmos o perfume da amizade e a fragrância da 
sinceridade.
 
 Em estado de bem-aventurança, andei por aqui, lá e acolá, buscando o atrevido flibusteiro que, ousado, me propusera tão tremendo encontro…
 
 Em muitos grupos irrompi perguntando pelo citado cavalheiro de outrora, mas ninguém soube dar-me resposta alguma…
 
 Compreendi, então, que aquele antigo pirata não havia comprido a palavra empenhada.  Ignorava os motivos, sentia-me defraudado…
 
 Silente, resolvi aproximar-me da gloriosa porta do Templo da Sabedoria.  Quis penetrar dentro do lugar santo, mas o Guardião me fechou a porta, dizendo-me: “ Ainda não é hora.  Retira--te”!…
 
 Sereno e compreendendo-o todo, sentei-me, gozoso, na simbólica pedra, bem perto do portal do mistério…
 Nesses instantes de plenitude, auto-observei-me de forma íntegra.  Certamente, eu não sou um sujeito de psique subjetiva; nasci com a Consciência desperta e tenho acesso ao conhecimento objetivo…
 
 Quão belo me pareceu o corpo astral! ( Resultado esplêndido de antiquíssimas transmutações da libido).
 
 Recordei meu corpo físico, que agora jazia, adormecido, na remota distância do mundo ocidental, num povoado da América…
 
 Auto-observando-me, cometi o erro de confrontar os veículos astral e físico.  Por tais comparações, perdi a êxtase e regressei instantaneamente ao interior de meu denso envoltório material…
 
 Momentos depois, levantava-me do leito.  Havia logrado um desdobramento astral maravilhoso…
 
 Quando severamente perguntei ao velho flibusteiro sobre o motivo pelo qual não foi capaz de cumprir com sua palavra, não soube dar-me uma resposta satisfatória.
 
 Trinta e cinco anos transcorreram desde aquela época em que esse velho lobo do mar e eu acertáramos tão misteriosos encontro…
 
 Além do tempo e da distância, aquele estranho personagem era já tão somente uma recordação escrita nas empoeiradas páginas de meus velhos cronicões….
 
 Entretanto, confesso sem rodeios que, depois de tantos anos, tive de ser surpreendido com algo insólito…
 
 Numa noite de primavera, encontrando-me ausente da densa forma perecedora, vi o Senhor Shiva, o Espírito Santo, minha Sacra Mônada Superindividual, com o semblante inefável do Ancião dos Dias…
 
 Admoestava o Senhor, com grande severidade, o velho corsário dos mares.  É inquestionável que o corpo físico deste último, a essas horas da noite, jazia adormecido no leito…
 
 Anelante, quis intervir como terceiro na discórdia.  O Velho dos Séculos, de forma categórica, me ordenou quietude e silêncio…
 
 Outrora, o pirata aquele me havia devolvido a minha filha, tinha-a retirado do inferno onde ele mesmo a havia metido…
 
 Agora, meu Real Ser, Samael, brigava por libertá-lo, por emancipá-lo, por tirá-lo dos mundos infernos…        
 
 
Anterior Próximo
As Três Montanhas

Samael Aun Weor

  Publicação Gratuita de Livre Distribuição
Hosted by www.Geocities.ws

1