MENSAJE DE NAVIDAD 1971
                           EL MISTERIO DEL AUREO FLORECER

                 SAMAEL AUN WEOR

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Ao chegar a este capítulo da Mensagem de Natal 1971-1972, não é demais enfatizar algo muito penoso que pudemos verificar através de muitíssimos anos de constante observação e experiência.

Quero referir-me, sem rodeios, à mitomania, tendência muito marcada entre pessoas afiliadas a diversas escolas de tipo metafísico.

Sujeito aparentemente muito simples, da noite para o dia, depois de umas quantas alucinações, convertem-se em mitômanos.

Inquestionavelmente, tais pessoas de psique subjetiva quase sempre logram surpreender muitos incautos que, de fato, se fazem seus seguidores.

O mitômano é como um paredão sem alicerce; basta um leve empurrão, para convertê-lo em miúdo sedimento.

O mitômano crê que isto de ocultismo é algo assim como soprar e fazer garrafas e, de um momento para o outro, declara-se Mahatma, Mestre Ressurrecto, Hierofante, etc.

O mitômano tem, comumente, reclamações impossíveis; sofrem, invariavelmente, disso que se chama delírios de grandeza.

Essa classe de personagens costuma apresentar-se como reencarnação de Mestres ou de heróis fabulosos, legendários, fictícios.

Entretanto, é claro que estamos dando ênfase sobre algo que merece ser explicado.

Centros egóicos da subconsciência animalesca que, nas relações de intercâmbio, seguem determinados grupos mentais, podem provocar, mediante associações e reflexos fantásticos, algo assim como espíritos que, quase invariavelmente, são só formas ilusórias, personificações do próprio eu pluralizado.

Não é, pois, estranho que qualquer agregado psíquico assuma forma jesuscristiana, para ditar falsos oráculos...

Qualquer destas tantas entidades, que, em seu conjunto constituem isso que se chama ego, pode, se assim o quiser, tomar forma de Mahatma ou Guru e, então, o sonhador, ao voltar ao estado de vigília, dirá de si mesmo: "Estou auto-realizado! Sou um Mestre!"

Deve-se observar a respeito que, de todos os modos, no subconciente de toda pessoa, acha-se latente a tendência à tomada de partido para a personificação.

Este é, pois, o clássico motivo pelo qual muitos gurujis asiáticos, antes de iniciar seus discípulos no magismo transcendental, previnem-nos contra todas as formas possíveis de auto-engano.

Um monge foi visitar Te Shan que lhe fechou a porta no nariz. O monge golpeou a porta e Te Shan perguntou: "Quem é?" O monge contestou: "O Filhote de Leão." Então Te Shan abriu a porta e saltou sobre o pescoço do monge, enquanto gritava: "Animal! Onde irás agora?" O monge não contestou nada.

O termo filhote de Leão é empregado por budistas Zen para designar um discípulo que é capaz de entender a Verdade Zen. Quando os mestres elogiam o entendimento de um discípulo, ou querem prová-lo, costumam empregar este termo.

Neste caso, o monge chama-se a si mesmo, presunçosamente, Filhote de Leão; porém, quando Te Shan o prova, tratando-o como um verdadeiro Filhote de Leão, quando trepa em seu pescoço e lhe faz uma pergunta esotérica, então o monge não sabe contestar.

Isto é a prova de que o monge carecia do autêntico entendimento que pretendia possuir.

Tal monge era, de fato, um homem de Consciência adormecida, um equivocado sincero, um mitômano.

Um dia, no monastério de Nan Chuan, os monges da ala oriental tiveram uma peleja com os da ala ocidental pela possessão de um gato. Todos acudiram a Nan Chuan, para que oficiasse de juiz.

Brandindo uma faca em uma mão e o gato na outra, Nan Chuan disse: "Se algum de vós pode acertar em dizer o que há para dizer, o gato se salvará; do contrário, cortá-lo-ei em dois." Nenhum dos monges soube dizer nada. Então Nan Chuan matou o gato.

Essa noite, quando Chao Chou voltou ao monastério, Na Chuan lhe perguntou que teria dito no caso de haver estado presente. Chao Chou tirou as sandálias de palha e as pôs sobre a cabeça e se afastou. Então Nan Chuan comentou: "Oh! Se tivesses estado aqui, o gato se teria salvo."

É óbvio que Chao Chou era um homem de Consciência Desperta, um autêntico iluminado.

Não é possível despertar Consciência, objetivá-la totalmente, sem haver, previamente, eliminado os elementos subjetivos das percepções.

Tais elementos infra-humanos são formados por toda essa multiplicidade de eus pendenciadores e gritalhões que, em seu conjunto, constituem o ego, o mim mesmo.

A Essência, engarrafada entre todas essas entidades subjetivas e incoerentes, dorme profundamente.

A aniquilação de cada uma dessas entidades infra-humanas é indispensável para liberar a Essência.

Só emancipando a Essência, consegue-se seu despertar; então advém a iluminação.

Os iogues indostânicos intentam despertar Consciência por meio do Kundalini; desafortunadamente, não ensinam a didática, o procedimento.

Dizem que, quando o Kundalini dorme enroscado dentro do chacra Muladhara, o homem está desperto neste vale de lágrimas e isso é cem por cento falso, porque o humanóide intelectual, onde quer que se encontre, seja no mundo físico ou nas dimensões superiores da natureza, sempre está adormecido.

Dizem que, quando o Kundalini desperta, o homem dorme nesta terra de amarguras, perde a Consciência do mundo e penetra em seu corpo causal; tal afirmação resulta, no fundo, utópica por dois motivos:

1) O bípede tricerebrado ou tricentrado, equivocadamente chamado homem, sempre está adormecido aqui e agora e não somente perdeu a Consciência planetária, senão, ademais -e isto é o pior- continua degenerando-se.

2) O animal racional não tem corpo causal; deve fabricá-lo mediante a Alquimia Sexual na Frágua Acesa de Vulcano.

O mais importante princípio é que, quando o Kundalini desperta, cessa como um poder estático e se transforma numa potência dinâmica.

Aprender a manejar o poder ativo do Kundalini é urgente para despertar Consciência.

Em pleno coito químico, devemos dirigir, inteligentemente, o raio do Kundalini contra esses demônios vermelhos (eus), dentro dos quais, desgraçadamente, acha-se a Essência, a Consciência.

O caçador que quer caçar dez lebres ao mesmo tempo, não caça nenhuma; assim também o gnóstico que, de forma simultânea, anela eliminar vários eus, fracassa lamentavelmente.

O trabalho esotérico, encaminhado a dissolver qualquer defeito psicológico, resulta um verdadeiro quebra-cabeça chinês; não só devemos compreender, previamente, o defeito em questão, em todos e cada um dos níveis subconscientes da mente, senão, ainda, eliminar cada um dos eus que o caracterizam.

A todas as luzes ressalta com inteira claridade meridiana que necessitamos muito longos e pacientes trabalhos para eliminar qualquer defeito psicológico.

Muitos aspirantes que chegaram, neste mundo tridimensional de Euclides, à castidade absoluta, fracassaram lamentavelmente, nos mundos supra-sensíveis, quando foram submetidos à prova, demonstraram, com fatos contundentes e definitivos, que eram fornicários e adúlteros.

Qualquer defeito psicológico pode desaparecer da zona intelectual e continuar existindo nas diversas regiões subconscientes.

Alguém poderia ser uma pessoa honrada neste mundo físico e até em quarenta e oito zonas subconscientes e, não obstante, falhar na quadragésima nona.

Agora devem refletir nossos amados leitores e compreender o difícil que é o Despertar Consciência, converter-se em Filhote de Leão, entender a Verdade Zen, experimentar o Tao.

Não é tão fácil Despertar Consciência. É necessário liberar a Essência, tirá-la de seus habitáculos subconscientes; destruir tais habitáculos; transformá-los em pó. Este é um processo gradativo, muito lento, penoso, difícil.

Conforme a Essência vai se liberando, a porcentagem de Consciência vai aumentando.

Os humanóides intelectuais, equivocadamente chamados homens, possuem, em verdade, tão só uns três por cento de Consciência; se tivessem sequer uns dez por cento, as guerras seriam impossíveis sobre a face da terra.

A Essência primigênia que se libera ao iniciar-se o processo do morrer, é inquestionável que se converte na Pérola Seminal, esse ponto matemático da Consciência, citado pelo Evangelho do Tao. Assim se inicia o Mistério do Áureo Florescer.

O mitômano se presume de iluminado, sem haver liberado a Essência, sem possuir, nem sequer, a Pérola Seminal.

As pessoas de psique subjetiva são utópicas cem por cento; supõem, equivocadamente, que se pode ser iluminado sem haver logrado a morte do ego de forma radical e definitiva.

Não querem entender essas pessoas que, havendo auto-aprisionamento, a iluminação objetiva, autêntica é completamente impossível.

É óbvio que, quando a Essência está engarrafada no eu pluralizado, existe o auto-aprisionamento.

A Essência engarrafada só funciona de acordo com seu próprio condicionamento.

O ego é subjetivo e infra-humano. É ostensível que as percepções que a Essência tenha através dos sentidos do eu pluralizado, resultem deformadas e absurdas.

Isto nos convida a compreender o difícil que é chegar à iluminação verdadeira, objetiva.

O preço da iluminação se paga com a prórpia vida. Na terra sagrada dos Vedas, há chelas-discípulos que, depois de trinta anos de intenso trabalho, encontram-se tão só no começo, no prólogo de seu trabalho.

O mitômano quer ser iluminado da noite para o dia; presume-se de sábio, crê-se um Deus.
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